REVISTA MULEMBA - POEMAS

"Visgo"

(Zetho Cunha Gonçalves) In: Sortilégios da Terra: Canto de Narração e Exemplo, 2007

Uma incisão,
um golpe – tatuagem ou cicatriz, depois –
na casca do tronco: e a seiva
escorre,
em toda a sua espessura branca,
de leite – para o onde
a recolhem as crianças.

Que a levam
ao lume vagaroso das fogueiras,
até ferver.

Levantando fervura,
a seiva das mulembas é como:
o fúnji de bombó: vai-se mexendo,
batendo, mexendo – sem deixar
granular – até ser
essa massa compacta e maleável,
a que se chama visgo.

*

Com o visgo se apanham, vivos, os pássaros:
nos ramos mais gulosos de frutos – à sombra,
e seiva, das suas árvores – quando poisam.