Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

DIÁLOGO ENTRE A HISTÓRIA E A LITERATURA

Vera Duarte
Escritora de Cabo Verde

         Com a devida vênia, por estar a meter a foice em seara alheia, pois sou apenas uma diletante, quer da história, quer da literatura, defendo que existe uma relação intrínseca entre história e literatura, ou seja, ambas se subsidiam, sobretudo, se tivermos em atenção os países africanos, nos quais ainda persiste uma cultura de oralidade.

        Embora a história seja do domínio do científico e a literatura emane do mundo ficcional, entendo que, nas nossas sociedades africanas, a história fornece temáticas para a literatura que ainda se expressa muito através da oratura e das estórias transfiguradas na e pela palavra escrita, enquanto a literatura concede subsídios para a elaboração da história, em geral, extremamente lacunosa.

        É paradigmático o caso de nossos países, uma vez que estes só ascenderam à independência na década de setenta do século vinte e é, principalmente a partir dessa data, que se vêm verificando tentativas de escrever a história específica de cada país. Obviamente, que a redação dessa história terá de ir buscar muitos elementos às estórias que se contam, muitas delas já fixadas no papel.

        Tomando o caso de Cabo Verde, diria que a história destas ilhas foi, por exemplo, muito marcada pela emigração dos cabo-verdianos para os Estados Unidos da América desde o século dezoito, o que se fez também à custa de muito sofrimento, nomeadamente com os naufrágios que ocorreram. Ora, estes ainda estão só no domínio das estórias, mas, um dia, estudados e devidamente sistematizados, farão, com certeza, parte da história trágico-marítima cabo-verdiana redigida por historiadores.

        Assim, é a história destas ilhas, embora não escrita, que fornece matéria-prima para os contos que se vêm escrevendo sobre essas e outras temáticas. Por outro lado, defendo que, para a elaboração da história dos nossos países, uma das fontes a ser tida em conta é, sem dúvida, as estórias que informam o seu universo vivencial.

        Termino, afirmando que, globalmente, a história tem fornecido muitos temas para os escritores, sendo que o romance histórico ocupa um lugar privilegiado nesse tipo de ficção escrita; acredito que muitos historiadores têm também recorrido às recriações literárias feitas pelos escritores para a elaboração da história.