Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

DA REJEIÇÃO À AFIRMAÇÃO

Chó do Guri

Era ainda uma menina de nove anos, quando senti o sul a escorregar-se debaixo dos pés. Logo percebi a necessidade de encontrar um norte. Flutuava como um objecto inflável na busca de coordenadas. Nessa idade comecei a viver no mundo da ruindade que miúdos e graúdos me ofereciam. Não tinha amigos ou as amizades eram efémeras. O desalento e a dúvida deram-me momentos de angústia. Por obrigação, lia partes de livros que me emprestava a professora de língua portuguesa na escola preparatória, Dona Luísa de Gusmão. O texto lido era analisado na aula seguinte, para que pudéssemos compreender qual a função da escrita e a necessidade da leitura, além da chamada moral de cada história, e assim me vi envolvida na leitura e na escrita. Entre outras coisas, era o que nos dizia a professora: ler, ler bastante, não só para enriquecer o vocabulário, mas para ter maior discernimento. Cedo compreendi como se tornava importante esta forma de comunicação e informação de que o ser humano muito precisa para abrir horizontes. Devido a alguns factores de ética social, fui-me transformando numa pessoa introvertida. A escrita e a leitura tornaram-se uma das formas para o reencontro do meu orgulho escamoteado. Descobri uma forma de poder expressar o que pensava sem ter de me sentir agastada com os dizeres e gestos enfadonhos dos outros meninos; mas sempre atenta aos males que aconteciam aos outros. Durante algum tempo, sofri com as brincadeiras de mau gosto dos outros meninos, quiçá influenciados pelos comportamentos das professoras. Uns copiavam os outros e também vinham fazer troça de mim, que nunca reagi aos insultos. Se reagia, era chorando e assim acontecia com frequência. Havia alturas em que não saía da sala de aulas durante os intervalos e nestes períodos rabiscava os meus sentimentos nas folhas de papel dos meus cadernos. Nelas eu podia contar o que acontecia e me preocupava. Elas, sim! Não iam divulgar o que eu desabafava. Depois de preencher a folha, arrancava-a do caderno, dobrava-a e guardava debaixo do meu colchão, para voltar a ler depois que a agonia passasse. Esta forma de proceder foi-se tornando um hábito. Tinha de lutar contra os preconceitos para ser aceita pelos meus colegas de escola e, sem saber, a escrita passou a ser uma forma de terapia. Certo dia, antes de terminar a aula, a professora entregava as provas que fizéramos na semana anterior, e o meu coração começou a bater forte ante a exaltação dos meninos que obtinham notas positivas, impondo-se em mim a dúvida. Uns e outros esticavam o pescoço a tentar espreitar a nota de cada um. À medida que ela chamava os alunos, minha ansiedade crescia e, para meu desconforto, a certa altura, pareceu-me vê-la de mãos vazias. Os colegas viraram-se para mim, com semblante de insinuação maldosa, e as lágrimas invadiram-me os olhos. Confesso que pensei que a minha prova tinha-se perdido ou que a professora fosse dizer que eu não a havia realizado. Enquanto eu limpava as lágrimas com as pontas dos dedos, vi-a pegar numa folha de papel. Disse, sem me dar tempo de pensar noutra coisa: - Meninos prestem bem a atenção. Aqui está um exemplo de uma boa composição, feita com cabeça, tronco e membros. É da vossa colega Maria de Fátima. Vou lê-la. Quando terminou de a ler, realçou a forma da escrita e teceu algumas considerações como bom exemplo a seguir, sem deixar de me chamar atenção para um possível melhoramento: - Muito bem, Maria de Fátima, mas não te envaideças e procura fazer sempre melhor. As respostas de gramática não te dariam grande nota; por isso, esforça-te mais a estudar o que tens dificuldades, porque, quanto à escrita, penso teres um domínio que poucos têm. Entregou-me a prova voltou a elogiar-me e incentivou-me a continuar. Os meus colegas ficaram boquiabertos, enquanto eu, radiante de felicidade, apenas agradecia os elogios. Recuperara a minha identidade. Compreendi que o mais belo das coisas é o conhecimento. Desde essa altura, fui-me tornando a fazedora de quadras ou versos a pedido dos colegas, que viam em mim capacidades para escrever palavras convencionais para agradar amigos e familiares em dias especiais. O tempo foi passando, saí do preparatório para o liceu e dei de caras, outra vez, com a história que me apoquentava. Desta vez, em outras figuras que me faziam recordar o passado amargurado, e continuei a agarrar-me àquilo que me dava paz de espírito: ia observando e anotando tudo o que me atordoava. Daí por diante, o tempo não mais parou e eu continuei a viver os percalços da vida, anotando o bem e o mal que me causavam e fui me tornando mais eu. Veio a revolução e com ela a independência de Angola. Por motivos alheios a minha vontade, parei de estudar aos dezesseis anos e retomei os estudos aos vinte e três. Concluí o pré-universitário em Luanda, em 1986, e, em 1987, fui dar continuidade aos estudos em Lisboa. A saudade do meu país apossou-se de mim. Continuei a escrever poesia melancólica. Regressei ao país em 1993. Cheguei, eufórica, com a esperança de ver os meus poemas publicados. Trazia comigo um número suficiente de poesias para a feitura de livro e queria vê-los publicados. Mostrei-os, primeiro, a vários escritores que encontrei em Luanda; uns simplesmente procuraram desmotivar-me; outros, aos quais aqui deixo registado o meu apreço e agradecimento, felicitaram-me pelo feito e encorajaram-me a seguir o meu caminho. Entre eles estão duas grandes figuras, Carlos Pimentel, poeta e escritor, e Ricardo Manuel, poeta, cançonetista e livreiro, que escreveu no prefácio do livro que intitulei Vivências: “Impressionou-me sobremaneira o tom dolorido de como todas estas queixas femininas foram expostas aos olhares humanos (ou desumanos?); para que tentar remediar maleitas sociais que, alguns/ muitos senhores/ donos do Mundo teimam ou não conseguem revalorizar?!” O apelo à preservação do meio ambiente e a chamada da atenção à criança são temas patentes neste livro. Dirigi-me a várias instituições a pedir apoio, convencida da boa vontade de pessoas que podem e deviam ajudar a desenvolver e incrementar a cultura do país que é Angola. O que me pareceu ser mais fácil tornou-se difícil. Foram longas esperas, muitas promessas e um sem número de humilhações. Não desisti! Pela mãozinha da senhora Luísa Fançony, uma luz se abriu no fundo do túnel e eis que recebo o cheque da empresa Trirumo com a simpatia dos senhores Guilherme Mogas e Rui Amaro e vejo publicado o livro de poesia com o título acima referido em 1996. Como o título nos diz, Vivências é um resumo, que faz denúncias, rejeita a dor, sacrifício, desilusão, sendo um espaço, onde imprimo sentimentos marcantes. Fiquei satisfeita, porém não dei salvas de alegria. Era só a primeira etapa. Ganhara consciência da fraca solidariedade das pessoas ligadas às instituições de cultura pela poesia ou talvez pela literatura, mas eu vou insistindo na escrita poética, porque, assim, o meu ego me dita e, agora, reafirmo: não desistirei. No ano 2000, seleccionei entre os restantes e os mais recentes poemas para um novo livro que intitulei de Morfeu, o retrato de um amor perdido que me levou à solidão, à tristeza, à vontade de renascer e reconquistar a esperança. Foi uma edição da autora. Desta feita, a saudade ainda persiste e continuo a trilhar os mesmos passos; rebusco o passado ao encontro do presente e novamente vou revivendo a minha inocência nas marcas que o tempo deixou. E surge o livro de poemas Na Boca Árida da Kyanda, da Editora Kilombelembe, prefaciado pela Doutora Inocência Mata. Neste livro está patente a perturbadora visão da realidade da mulher angolana nas ruas de Luanda. Poemas, como “Lamento da Zungueira”, “Deixem-na Respirar”, “Ser Mulher”, “Kuwaba Nzogi”, espelham bem o sofrimento da mulher a quem, voluntária ou involuntariamente, procuro dar ou emprestar a minha voz. Há nos poemas que escrevo o amor empático e solidário. Penso que ninguém deve viver sem prestar atenção ao mundo que o rodeia, porque a força das coisas está em cada um de nós. Podendo fazer o que nos é possível, ajudaremos o mundo a transformar-se. Hoje a minha poesia me incita a reclamar, a cobrar, a negar, se necessário for, porque eu e ela somos cúmplices uma da outra, intrinsecamente. Por isso, acredito que os poetas, enquanto seres humanos, partilham das mesmas emoções. As diferenças existem no ponto como cada um perspectiva na vida social estas emoções. O desenvolvimento físico aliado ao psicossocial, no percurso de cada um, é muito importante no retrato das emoções sentidas da mesma maneira, mas reportadas de maneiras diferentes. A poesia é esta força que contribui para mudanças comportamentais nas sociedades “politicamente” corretas. Em Angola, todas as mudanças, para o bem-estar social e espiritual, acontecem muito lentamente, mas eu tenho fé que daqui a mil anos alguém se lembrará deste meu contributo.

Luanda, 7 de fevereiro de 2010.