Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

POEMAS SOLTOS

Amélia da Lomba

A INVERSÃO NOS VALORES DO TEMPO

Nem sorrisos nem afagos trazem a amizade sincera e leal doutro tempo                                                               
Hipócritas aos montes dum percurso inventado
 caminham iludidos pela sombra, no lusofusco
                                                                     da cobiça; 
 pela  mágoa
 vales de lágrimas transbordam
 em busca de avenidas de esperança.

2.
Não seria suposto nascerem versos na verdade das rimas?
Justiça na psique dos juízes?
Honra na fé e na esperança?
Onde estás povo e os poetas que te cantam?

VITI, O PASSARINHO

Aos pais educadores do mundo

Pai, Pai, partem a nossa casa e nada fazes?
-O quê filho... Os que mandam, mandam!
Afinal, o gigante era frágil e agora até a onça o poderia comer, 
 a escuridão o engolir
  a terra o tragar, com todos os cazumbis do mato;
(Pensava Viti), o deserdado:
Ainda ontem, como era forte o meu Pai! Como era forte minha Mãe...
Enquanto os tijolos caíam, 
                                   com eles  crescia o medo, a incerteza  pelo  amanhã,
Sentia-se órfão de Pais vivos. Pais sem força, que deixavam partir a casa...
 Chegou Malungo, o bebedor de vinho,
Que todos pisoteavam, com o mesmo medo que vira nos olhos do Pai
E pôs-se a correr assustado...
 pela primeira vez, se sentira um passarinho,  dum ninho caído.
 Repasto de cobras e formigas, do leão e da onça e  de outros  meninos
também... Corria, corria, corria Viti, apavorado... Meu Deus, para que braços?!... O pior que se pode fazer a uma criança é tirar-lhe a confiança no poder
protector dos pais. Um dia vi meu Pai esbofeteado, por um jovem embriagado a quem chamara
a atenção. Limpou a face com as costas das mãos, olhou para mim, abraçando-me
pelo ombro e disse para a multidão: “Conheci o seu Pai. Viemos no mesmo barco. Se a minha filha aqui
presente tivesse sentido medo, eu, ainda assim doente, teria que me bater
com ele, até deixá-lo numa cama de hospital, para onde iríamos os dois talvez... Mas, minha filha está sem medo nos olhos; por isso vou me retirar com
a certeza de que dormirei tranquilo, com a memória amiga deste” "perdido". Meu Pai, para mim era um gigante, naquele tempo, com apenas 1.70m. Anos mais tarde, já mulher e Mãe, com apenas 37 anos, recordei-lhe do
episódio, Ele riu-se encabulado e disse-me: ...Não te esqueceste disso? Tinhas 11 anos, se tanto... É Pai... Disso, eu nunca me esqueci! -Olhou para mim com lágrimas nos olhos e disse: “Jamais deves deixar alguém macular a tua consciência, para não
perderes o sono... Eu preferi sempre dormir. Quando alguém me quisesse fazer como ele, eu
sempre preferia o sono. Desde moço. Eu gosto de dormir!” Papá viria a falecer, cinco dias depois, sentado numa cadeira de braços;
meu filho o encontrou numa manhã, sem vida, no quarto, e fui eu quem fechou
os seus olhos selando para sempre um pacto de amor, para
com a minha consciência. Afinal, gostamos todos de dormir!