Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

SE EU FOSSE MULHER...

José Luís Mendonça

Se eu fosse mulher, não aceitaria flores pelo dia 8 de Março. Ia querer flores todos os dias. Flores que não custam dinheiro nenhum. Ia pedir a flor que vem dentro duma palavra de afecto, dum sorriso franco, de um toque de carinho, a flor que desabrocha dentro da descoberta comum de um novo programa de gestão doméstica, a flor da reconciliação fora da cama, a flor do reconhecimento pelo trabalho de muitos anos em prol da família, do Estado, da empresa, da comunidade e, sobretudo, ia exigir a flor do diálogo permanente na base do respeito mútuo.

Há cem anos que celebramos o 8 de Março, pela igualdade dos géneros. Nós, os homens, abrimos mão de parte do nosso domínio machista sobre os bens comuns e as relações sociais. Hoje, as mulheres já votam, são chefes de Estado (a mamã Ellen Johnson-Sirleaf é a nossa primeira), são deputadas, dirigem empresas, pilotam aviões e naves espaciais e até já contamos com algumas mulheres milionárias. A norma não é mais a mulher à sombra do tecto doméstico, mas a mulher em busca do seu lugar ao sol. No entanto, os estudos da ONU e dos Estados Membros apontam ainda desigualdades inadmissíveis para a nossa era de cidadãos do Cosmos e uma continuidade, parcamente reduzida, da violência multifacetada do homem contra a mulher.

Nesta data em que se recorda o dia em que, em 1910, os militantes da Internacional Socialista criaram esta jornada pela igualdade entre o homem e a mulher, mais tarde universalizada pela ONU, gostaríamos de destacar uma mulher africana que insere a coragem e a vitória no nosso mundo dominado pelos homens e que recebeu em 2004 o Prémio Nobel da Paz. Estamos, obviamente, a falar da bióloga queniana Wangari Maathai, fundadora do Movimento Cintura Verde, cujo resultado mais notável é a plantação de mais de 30 milhões de árvores no Quénia. São dela estas palavras inspiradoras: “(…) Recebi muitas pancadas (…) Não quero revolução, quero apenas defender o meio ambiente, plantar árvores, porque com o equilíbrio da natureza aumentamos as nossas chances de sobrevivência”.

Contra esta mulher maravilhosa, o ex-marido, Mwangi Mathai, acusou, no processo judicial de divórcio, de ser “demasiado educada, demasiado forte, demasiado bem sucedida, demasiado teimosa e demasiado difícil de controlar”, acusação aceite pelo juíz que mandou prender Wangari pelos seus protestos contra si. Essa mulher lutou sozinha para educar os filhos, dedicou o seu trabalho a salvar o planeta e a Humanidade e hoje é mundialmente reconhecida.

Neste mês dedicado à mulher, o exemplo de Wangari Maathai vem reavivar as nossas consciências. Hoje em dia, é arrepiante ouvir relatos das nossas mulheres sobre a exigência de favores sexuais em troca do emprego ou de benefícios e condições inerentes ao exercício da profissão naturalmente previstos no estatuto do posto de trabalho. É uma epidemia social que as mulheres ou as organizações femininas, como a OMA, sozinhas, não conseguirão resolver. Maria Fernanda Carvalho Francisco, Secretária Adjunta da União Nacional de Trabalhadores Angolanos – UNTA, defende, em entrevista publicada no sítio /www.meusalario.org/, que “o aumento de mulheres nos sindicatos é uma arma para combater violações dos direitos das mulheres no local de trabalho, principalmente casos de assédio sexual (…)” São dela estas palavras: “O assédio sexual em Angola é um assunto muito delicado pois não pode ser mensurável.” Segundo aquela dirigente sindical, “a nossa lei não prevê pena legal contra o assédio. E por isso mesmo as mulheres têm dificuldade de apresentarem queixa”.

O assédio sexual no trabalho é, por isso, um facto juridicamente relevante, que pode estar subjacente à Lei de Probidade Administrativa, mas que se silencia entre as quatro paredes dos gabinetes e que tem levado certas práticas de determinados ‘bosses’ do sector público e do privado a caírem não já no domínio da corrupção, mas no da perversão (sexual). Facto esse que, pela sua abrangência e ameaça ao desenvolvimento nacional, cai no âmbito da exigência da “tolerância zero” preconizada pelo nosso Mais Alto Mandatário.

Se eu fosse mulher, seguiria o exemplo de coragem e de emancipação de Wangari Maathai. Jamais iria esperar pelo 8 de Março para receber flores. Iria eu própria plantar árvores e colher delas as flores da nossa sobrevivência moral.


(Texto de José Luís Mendonça, publicado com o título "A mulher e o exemplo de Wangari Maathai", no Jornal de Angola, em 17 de março, 2010).