Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

PEPETELA E A CRÍTICA LITERÁRIA

PEPETELA AND THE LITERARY CRITICISM

Flavio Quintale Neto
Univ. Aachen, Alemanha

RESUMO:
Neste artigo é apresentado um esboço panorâmico da recepção da obra de Pepetela pela crítica literária brasileira, particularmente, na obra Portanto Pepetela. Expõem-se e comentam-se algumas leituras de romances do autor, entre eles, Mayombe, A geração da utopia, O desejo de Kianda, Parábola do cágado velho e Os pedadores. Enfocam-se temas como a história recente, o marxismo e a crítica do poder.

PALAVRAS-CHAVE: Pepetela, crítica literária brasileira, marxismo, poder político.

ABSTRACT:
This article presents a panoramic overview of the Brazilian literary criticism on the work of Angolan writer, Pepetela, particularly in Portanto Pepetela. It exposes and comments some readings from his novels as Mayombe, A geração da utopia, O desejo de Kianda, Parábola do cágado velho and Os predadores. Subjects as recent history, Marxism and the critic of political power are focused on this paper.

KEYWORD: Pepetela, Brazilian literary criticism, Marxism, political power.

         É um pouco tardio o interesse da crítica literária brasileira pela literatura da chamada África portuguesa. Foi só quando a Universidade de São Paulo estabeleceu a área de pesquisa em Estudos Comparados das Literaturas de Língua Portuguesa que esse interesse foi-se consolidando e expandindo para outras Universidades brasileiras. Entre o público geral, foi ainda mais tardia a introdução de escritores africanos nos hábitos de leitura nacional. Estes ainda lutam para se estabelecerem definitivamente no cânone, diferentemente de Mia Couto, talvez o escritor africano mais conhecido e lido no Brasil. Mesmo assim, até o ano de 2009, foram escritas mais de 60 teses sobre Pepetela nesse país, sendo um terço delas na Universidade de São Paulo.

         Pepetela chamou a atenção da crítica brasileira já no final da década de setenta e, depois, na de oitenta, por seu engajamento político. O autor afirma que “a literatura e essa preocupação social apareceram ligadas em mim desde o princípio, portanto, agora é um bocado tarde para mudar... há que aperfeiçoar isso.” (PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.31). Não devemos esquecer que a Universidade de São Paulo, em particular, foi um grande centro de resistência ao regime político ditatorial que marcou o Brasil, desde 1964 até 1984, com a vitória do Movimento das Diretas Já e a redemocratização do país. Os intelectuais ligados à USP, sejam professores, pesquisadores e alunos, sobretudo dos cursos da área de Humanas, eram, em sua grande maioria, de orientação marxista. É verdade que havia divergências e divisões quanto às interpretações das teses marxistas, com grupos ortodoxos, leninistas e trotskistas, além da social-democracia, mas todos combatiam, com maior ou menor fervor, o regime ditatorial.

         A luta contra o capitalismo levou a crítica literária brasileira a interessar-se primeiramente pela obra de Pepetela. E era natural que assim fosse, pois as grandes influências de boa parte dos intelectuais e críticos, desde a época da fundação da Universidade com Lévi-Strauss, sempre foram a filosofia e o pensamento francês. Jean-Paul Sartre foi uma das grandes referências nas décadas de 70 e 80 e, como sabemos, não há literatura digna desse nome, para Sartre, que não tenha nenhum comprometimento social e nenhum engajamento político. Pepetela representa o escritor comprometido não só na escrita, mas na prática revolucionária, tomando as armas na mão e combatendo na guerrilha. E Pepetela, que se orgulha de ter participado da luta pela independência, sempre faz com que isso seja mencionado em sua biografia. Mas a guerrilha também ajudou Pepetela a fazer literatura: “Em guerra, o homem está em situação-limite. Mostra melhor a sua personalidade, terá talvez menos oportunidade de a camuflar. Nesse sentido, aprendi muito sobre meus semelhantes. Terá por isso sido uma experiência útil para a minha literatura.” (PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.33)

         Pepetela representa, no imaginário da crítica literária brasileira, o herói vencedor e libertador, que, além de suas virtudes guerreiras, tem o talento das letras. São tantas as teses, dissertações e ensaios a estudarem a produção ficcional desse escritor, que optamos, aqui, por focalizar uma das mais importantes obras críticas a seu respeito. Referimo-nos a Portanto...Pepetela, uma coletânea de textos críticos em sua homenagem, publicada em 2000 – já reeditada em Angola e no Brasil por suas organizadoras –, que reúne, além dos artigos, entrevistas e depoimentos do e sobre o autor.

         Interpretando o romance Mayombe, a crítica Rita Chaves sugere ainda que “a figura do guerrilheiro, a quem é dado o direito à palavra, pode ser vista como uma atualização das imagens do camponês, e/ou marinheiro, identificado por Walter Benjamin como a fonte do narrador na tradição oral” (CHAVES e MACEDO, 2009, p. 135). Esse novo “Che” angolano conquistou parte da intelectualidade brasileira, que lhe concedeu, em 1993, o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte pelo livro A Geração da Utopia e, em 2002, a Ordem de Rio Branco, que é destinada a galardoar os que, por qualquer motivo ou benemerência, tenham-se tornado merecedores do reconhecimento do governo brasileiro. A Ordem do Rio Branco serve para estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção, bem como para distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas. Pepetela explica sua atuação benemérita:

Há situações em que fazer uma guerra é justo, por exemplo quando um povo quer a independência e uma potência pretende manter um regime colonial a todo preço. Foi o que aconteceu em Angola. O governo português, já de si despótico em relação ao povo português, não aceitava sequer discutir sobre a possibilidade de independência. Os angolanos não tiveram recurso senão a guerra. Guerra que acabou também por libertar os portugueses, hoje vivendo em democracia e progresso indesmentíveis. Neste caso, o escritor só tem que estar com o seu povo e apoiar, mesmo que só em pensamento, a guerra de libertação.

(PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.33)

         Além do ideário político, Pepetela tem em comum com a crítica literária brasileira, quase em sua totalidade, professores universitários, o magistério. Diz Pepetela: “Querendo ou não, sempre fui professor, mesmo quando não dava aulas. É um dever lecionar num país com tanto analfabetismo. Também é uma forma de estar em contato com as novas gerações, percebendo os seus anseios e receios.” (PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.32). A literatura, assim, tem caráter pedagógico, com a missão de formar as gerações, sobretudo a angolana, para a construção da justiça social. Já Goethe, em Wilhelm Meisters Lehrjahre (Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister), utiliza a formação, a Bildung, de seu protagonista, nos ideais do humanismo, visando a estendê-la não só ao leitor do romance, mas a toda a humanidade, embora, em Goethe, a revolução signifique uma revolução das mentalidades, sem a necessidade traumática da Revolução Francesa, do derramamento de sangue.

         Pepetela define-se como um socialista utópico:

[...] a minha ideologia não mudou. Eu continuo a ser uma pessoa que pensa primeiro no povo, e depois no resto. Eu me definiria talvez como um socialista utópico. Talvez. Eu não gosto de pôr rótulo nas coisas. É difícil. O socialismo deve ser a base, sem dúvida nenhuma, mas um socialismo mais para o utópico. Aquilo que ainda não se consegui construir.

(PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.36)

         A crença numa sociedade justa de base socialista, a ser construída no futuro, não é só de Pepetela, mas de grande parte da crítica literária brasileira simpática ao autor. Os últimos governos brasileiros, de maior ou menor engajamento social, jamais perderam de horizonte a utopia socialista, que não deve mais ser construída pela força, mas pelo convencimento e pela democracia. Nesse sentido, a obra de Pepetela, embora trate predominantemente de Angola, serve também à realidade brasileira e a seus sonhos de igualdade e justiça social.

         Benjamin Abdala Junior tece observações sobre Pepetela e a Comuna de Paris:

Portugal, e as revoluções africanas que encerraram séculos de colonialismo português. Na literatura, foi dominante nessa época toda uma tendência literária onde a condição de artista do escritor dialogava com a inserção ativa de sua cidadania. Aí estava Pepetela, um autor que veio a refletir em sua obra sobre os movimentos de ascensão e de queda dos sonhos libertários. Massacrada pela força da repressão externa, a Comuna de Paris ressurgiu na Rússia revolucionária de 1917. Após a ascensão, a queda foi motivada internamente pela brutalidade da tecnoburocracia que massacrou os sonhos neo-românticos de 1917. Esse modelo veio a se reproduzir depois, inclusive nos países africanos, como em Angola. É diante dessa estrutura de ascensão e queda que nos parece possível situar a obra de Pepetela.

(ABDALA JR. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.175)

         Para o crítico brasileiro, a obra de Pepetela é mais que uma obra literária que retrata Angola, ela é um gesto libertário. Por isso, continua o crítico:

Pepetela acredita na possibilidade de realização dessa utopia libertária, que não é abstrata. Não se configura num modelo ideal sem projeto. É um processo que, uma vez instaurado, mesmo se não for atingido (por certo, pode-se dizer a priori que não o seria em sua plenitude) ele traz mudanças só possíveis pela ação do sonho de uma realidade futura, que não deixa de fulgurar no presente, pois nela está latente.

(ABDALA JR. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.176)

         Sua utopia, portanto, não é puramente romântica, porque sabe que os sonhos nunca se realizam em sua plenitude. “Pepetela por embalar-se na corrente ´quente` da utopia não aceita arremedos. Sonha com um futuro autêntico, que não encontrava na práxis dos atores políticos da Angola liberta.” (ABDALA JR. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.177)

         O próprio Pepetela, ao comentar seu romance A Geração da Utopia, explica que:

Esse romance não é uma resposta a nada. Apenas uma estória sobre uma geração que fez a independência de Angola e não soube fazer mais nada [...] Esta geração realizou parte do seu projeto, a independência. Mas nós lutávamos também pela criação de uma sociedade mais justa e mais livre, por oposição à que conhecíamos sob o colonialismo. Por razões várias (constantes interferências externas, desunião e erros de governação), este objetivo não foi atingido e hoje Angola ainda é um país que procura a paz e está destruído, economicamente desestruturado e com uma população miserável, enquanto meia dúzia de milionários esbanja e esconde fortunas no estrangeiro.

(PEPETELA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, pp.42-43)

         E no próprio romance lê-se que “o tempo do romantismo morreu” (PEPETELA, 1992, p.179), ou então, “o povo apoia os próprios filhos. Depois vai descobrir que eles também o enganam.” (PEPETELA, 1992, p. 201). E é justamente essa utopia inconformista, “pés no chão”, que desperta, principalmente, o interesse da crítica brasileira. Nesse sentido, afirma Mário César Lugarinho, inspirado em Walter Benjamin, que “quando a literatura anima a utopia, está cumprindo o seu papel alegórico porque problematiza o presente, ao colocar o futuro prometido em tensão com o passado vivido.” (LUGARINHO. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.238). A utopia realista não está cega, ela sonha em vigília. Ela não aceita a vida do casal João Evangelista e CCC (Carmina Cara de Cú) do romance O desejo de Kianda. “Carmina, diz o narrador, não tinha boa fama junto das pessoas mais velhas do bairro [...] muito senhora do seu nariz, já aos doze anos de idade mandava na mãe viúva e nos três irmãos mais velhos e machos” (PEPETELA, 1995, p.8); João Evangelista “vinha de linhagem religiosa: filho de Mateus Evangelista e neto de Rosário Evangelista. O avô foi o iniciador do apelido respeitável, pelas suas funções de pastor duma igreja protestante do Huambo” (PEPETELA, 1995, p. 7). Não podemos esquecer que Carmina foi membro do “Jota”, juventude do MPLA, portanto, militante marxista, para depois tornar-se deputada e empresária, beneficiando-se de esquemas de corrupção para importar armas e cerveja, enquanto que o marido é um empresário alienado, viciado em jogos de computador.

         Eles representam, assim, a união do autoritarismo político e corrupto com a dominação religiosa. Na mensagem clara desse romance, o casal, que contraiu matrimônio na Conservatória do Kinaxixi, lugar mítico, representa a nova burguesia e a elite política que lutou contra a antiga força colonial, mas que se instalou como nova força exploradora e que reproduz, em novos termos, as mesmas velhas estruturas coloniais que pretendia combater. Em A Geração da Utopia, o narrador já alertava para o fato de que “os políticos começam por políticos e acabam todos em ladrões” (PEPETELA, 1992, p.64), ou ainda, “os políticos são apenas candidatos a corruptos” (PEPETELA, 1992, p.67); “[...] Uma vez Aníbal falou-lhe do relatório Khrutchev sobre os crimes do stalinismo. Ele não tivera acesso ao texto, apenas a resumos de fontes secundárias. Mas estava perturbado; não se construía uma sociedade justa com crimes e perseguições.” (PEPETELA, 1992, p.88)

         Pepetela enquadra-se, assim, entre aqueles verdadeiros escritores. Como adverte Georg Lukács, “todo verdadeiro artista e todo verdadeiro escritor é um adversário instintivo de qualquer alteração do principio do humanismo, independentemente do grau (maior ou menor) em que seja alcançada a consciência disso nos espíritos criadores individualmente considerados.” (LUKACS, 1965, p.21).

         Essa coragem de questionar, profundamente humanista, não apenas a história do país que ajudou a escrever, na pena e na arma, mas, sobretudo, os próprios camaradas de luta e a si mesmo, é destacada por Tania Macêdo: “as marcas da história nas trilhas da ficção de Pepetela, bem como a presença de um questionamento corajoso a aspectos da conjuntura sociopolítica de seu país, podem ser acompanhadas ao longo de toda a produção literária do autor.” (MACEDO. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p.295). Pepetela está “em permanente estado de alerta para com questões fundamentais da conjuntura angolana. Sua crítica das instituições e a forte presença da história angolana na ficção do autor podem ser focalizadas como linhas de força que percorrem e, não raro, estruturam seus textos.” (CHAVES e MACEDO, 2009, p.296)

         Mesmo assim, Pepetela não desiste e nunca deixa de acreditar. Sua crítica é dura, mas não é amarga; machuca, querendo curar. Não é uma verdade dita com raiva, tampouco uma mentira contada com paixão. Em alguns aspectos, lembra muito as incompreensões sofridas por André Gide quando criticou, em seu célebre Retour de l’U.R.S.S , os abusos e os desvios do stalinismo, já na década de 30. Mas como defende o próprio Gide, ”un grand écrivain, un grand artiste, est essentiellement anticonformiste. Il navigue à contre-courant.1 (GIDE, 1936, p.70). E por isso expõe Valéria Maria Borges Teixeira que,

[...] apesar do julgamento desfavorável à atual situação angolana, o projeto utópico de Pepetela parece não sucumbir à desesperança. O escritor angolano reafirma em sua produção literária a sua concepção de construção da nação, numa dupla dimensão temporal. Recuando ao passado, ele busca reescrever a História angolana, fraturada pelo colonialismo, reconstituindo a memória do país. Com a marcação temporal na atualidade, Pepetela atua como um cronista procurando refletir sobre a herança colonial, que ainda repercute no presente, e o peso do capital das novas “companhias ocidentais”, que exploram o país, vendo como esses fatores contribuem para perpetuar a corrupção, fragilizando a democracia, o poder político e a guerra em Angola.

(TEIXEIRA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, pp.320-321)

         Pepetela não se cala. Em Os predadores, volta a denunciar o neo-imperialismo duma parte da elite do país, a que estão submetidos muitos angolanos:

      Era um pequeno-burguês, o sonho de um pequeno-burguês é tornar-se um grande burguês, acumular capital, explorar o povo (agora com minúscula) se preciso. [...] Que se lixe a polícia, o partido e o marxismo! Quero é acumular fortuna e todos me respeitarão, pedirão favores, por muito marxistas que sejam.

(PEPETELA, 2005, p.233)

         Pepetela, em Mayombe, já havia alertado para o perigo do unipartidarismo e da inexistência de democracia: “Da vigilância necessária no seio do Partido passar-se-á ao ambiente policial dentro do Partido e toda a crítica será abafada no seu seio. O centralismo reforça-se, a democracia desaparece.” (PEPETELA, 1980, 129) Rita Chaves interpreta esse romance, afirmando que

[...] a obra afasta-se de duas vertentes dominantes na configuração do repertório literário que vinha povoando a cena cultural nas antigas colônias portuguesas na África: ao distanciar-se do código absoluto como medida das coisas, o romance distingue-se da chamada produção colonial e da linha frequentemente seguida pela literatura de militância. [...] Sem descuidar da proposta de refletir sobre os caminhos da luta e a justeza de seus objetivos, o autor vai além, optando, em seu texto, por uma dimensão épica que dispensa a serenidade do narrador distanciado e traz para o seu discurso as sombras da dúvida e as hesitações que vão acompanhando os passos dos guerrilheiros e a transformação dos homens. [...] Obra calcada na ruptura como valor primordial.

(CHAVES. In: CHAVES e MACEDO, 2009, pp. 126-127)

         Uma ruptura não somente com o sistema colonial explorador, mas com o próprio modelo de comunismo importado da União Soviética, denunciado e combatido em obras posteriores.

         Em A Geração da Utopia, sabemos que o personagem “Malongo foi ouvindo a dissertação do Horácio acerca da influência dos escritores brasileiros sobre a juventude literária de Angola.” (PEPETELA, 1992, p.31) e que “os últimos poemas publicados pela Casa dos Estudantes provavam de maneira irrefutável a influência do modernismo brasileiro nos escritores angolanos.” (PEPETELA, 1992, p.89). Ele aconselhava:

      os outros a lerem Drummond de Andrade, na sua opinião o melhor poeta de língua portuguesa de sempre. Qual Camões, qual Pessoa, Drummond é que era, tudo estava nele, até a situação de Angola se podia inferir na sua poesia. Por isso vos digo, os portugueses passam a vida a querer-nos impingir a sua poesia, temos a de estudar na escola, e escondem-nos os brasileiros, nossos irmãos, poetas e prosadores sublimes, relatando os nossos problemas e numa linguagem bem mais próxima da que falamos nas cidades. Quem não leu Drummond é analfabeto.

(PEPETELA, 1992, p.32)

         No entanto, mais que afinidades literárias, e compreendendo o contexto de tal radicalismo apaixonado no discurso, em parte pelo Brasil ser o irmão independente do mesmo pai, a história de Angola, de alguma forma, repete a história do Brasil. São muitos os déjà-vu. E esse é outro aspecto do interesse da crítica em Pepetela. Antônio Hildebrando afirma que “revendo a história angolana, através da escrita ficcional, Pepetela mostra que aquela também não está isenta dos progressos e retrocessos causados pela luta pelo poder. Põe, assim, as sociedades africanas em pé de igualdade com qualquer outra sociedade complexa.” (HILDEBRANDO. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p. 255). Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva lembra, ao comentar as relações entre Brasil e Angola, que “estamos ligados a Angola pela nossa história e pelo nosso idioma” (SILVA. In: CHAVES e MACEDO, 2009, p. 273).

         Entretanto, além de estarem ligados pelo idioma e pela história, Brasil e Angola têm um futuro em comum a vislumbrar. Eles têm uma relação de sangue, nascida tristemente com o tráfico negreiro, mas que se mantém felizmente livre no século XXI, através das relações comerciais e de amizade entre esses dois países independentes. Não se deve esquecer que o Brasil foi um dos primeiros estados a reconhecer a legitimidade e a legalidade do governo instituído em Angola imediatamente após a independência. Brasil e Angola são dois irmãos, gigantes potenciais, ecoando a língua portuguesa de cada lado do Oceano Atlântico.

         No imaginário da crítica literária brasileira, Pepetela é a Angola vitoriosa, o sonho socialista que não morre, apesar de todas as desilusões e da previsão de que “os homens serão prisioneiros das estruturas que terão criado” (PEPETELA, 1980, p. 129), como o próprio escritor já anunciara, em Mayombe, ao prever que, com o final da guerra e a conquista do poder pelo “Partido vitorioso e glorioso”, os dirigentes, “pertencendo ao grupo restrito que dominará o partido e o Estado, teriam a primeira desilusão de constatar na prática que o socialismo não era aquilo que eles imaginavam ser, pois o socialismo não é obra dum dia ou da vontade de mil homens.” (PEPETELA, 1980, p. 128). Ele resiste, já que, como argumenta Terry Eagleton, em Why Marx was right: “as long as capitalism is still in business, Marxism must be as well.”2 (EAGLETON, 2011, p. 2).

         Pepetela representa, pelo menos no momento da independência angolana, a vitória sobre o imperialismo que o Brasil não pôde experimentar, uma vez que as forças progressistas foram caladas pela morte ou pelo exílio, durante os vinte anos de ditadura militar patrocinada também pelos Estados Unidos. Assim, em certo sentido, Pepetela é, no imaginário de parte da crítica literária brasileira, o símbolo da guerrilha triunfante, o Araguaia que deu certo.

NOTAS:
1 .“Um grande escritor, um grande artista é essencialmente um inconformado, que navega contra a corrente. " (tradução livre)

2 (...) enquanto existir o capitalismo, existirá o marxismo também." (tradução livre)

REFERÊNCIAS:
CHAVES, Rita e MACEDO, Tania (orgs.). Portanto...Pepetela, São Paulo: Ateliê, 2009.

EAGLETON, Terry. Why Marx was right. New Haven and London: Yale University Press, .
.
2011. GIDE, André. Retour de l’U.R.S.S. Paris: Gallimard, 1936.

LUKACS, Georg. Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

PEPETELA. Mayombe. Lisboa: Dom Quixote, 1980.

_________. A geração da utopia. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

_________. O desejo de Kianda. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

_________.Parábola do cágado velho. Lisboa: Dom Quixote, 1996.

_________. Os predadores. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

Texto recebido em 21 de dezembro de 2012 e aprovado em 15 de abril de 2013.