Mulemba - n.7 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2012

ILHAS E CONTINENTES: UMA POESIA DE LIMIARES

ISLANDS AND CONTINENTS: A POETRY OF THRESHOLDS

Maria da Glória Bordini
UFRGS

RESUMO:
A poesia são-tomense pós-colonial encontra em Conceição Lima uma voz que valoriza o cotidiano sofrido de seu povo, mas também a determinação dos que guerrearam, até o autossacrifício, contra o regime colonial português, dentro e além das fronteiras insulares. Com delicadeza e indignação, reencena a história antiga e recente das ilhas e, ao mesmo tempo, as relaciona ao continente africano e ao mundo contemporâneo numa poesia aguerrida e altamente sofisticada.

PALAVRAS-CHAVE: Conceição Lima, O país de Akendenguê, poesia são-tomense pós-colonial; liminaridades e entrelugar.

ABSTRACT:
The post-colonial poetry of São Tomé and Príncipe has in Conceição Lima a voice that values the hardness of its people´s daily life, but also the determination of those who fought against the Portuguese colonial regime up to their self-sacrifice, inside and beyond the insular frontiers. With gentleness and anger, she reenacts the old and recent history of the island and at the same time relates it to the African continent and to the contemporary world, in a brave and highly sophisticated poetry.

KEYWORD: Conceição Lima, O país de Akendenguê; post-colonial poetry of São Tomé and Príncipe; liminalities and third space.

         Um limiar é, de um lado, entrada para a casa, de outro, saída para o mundo. A poesia de Conceição Lima (Maria da Conceição Costa de Deus Lima, 1961) tem essa dupla função de passagem. Articula, num plano, o local são-tomense com o continental africano. Em outro plano, concorrem os opostos do ficar e do ir-se. Em outro ainda, consorciam-se o pensamento africano, na convocação das mitologias insulares, e a racionalidade europeia, no rigor da crítica sociopolítica. E ainda misturam-se sensibilidade e fereza, nas evocações dos avós e dos heróis nacionais. Na sua liminaridade também emergem os “interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença”, em que “as experiências intersubjetivas e coletivas da nação [...], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados” (BHABHA, 2010, p. 20).

        Seu livro O país de Akendenguê (Alfragide: Caminho, 2011) exemplifica soberbamente a limiaridade de sua produção poética. Salienta, já na capa, um modelo: Pierre-Claver Akendenguê (1943), músico e compositor do Gabão, doutor pela Universidade de Paris, celebrizado por trazer motivos musicais africanos, como as festas das aldeias e os sons das florestas, às formas medievais do cantochão e às barrocas de Bach, entre outros hibridismos musicais. “Contista e guerreiro, ao mesmo tempo sociólogo e poeta, Akendenguê combina os gêneros. A poesia de seus textos, suas metáforas sutis, suas melodias ligeiras de aparência fácil, fazem com que Akendenguê se imponha como um artista sem par, desses que iluminam as consciências além fronteiras”.(www.akendegue.com/biographie – tradução nossa). Seu trabalho, extremamente criativo, repercute na obra de Lima, no aspecto cantante de seus poemas, arquitetando ritmos ora repetitivos, beirando o incisivo, ora derramados, em longos haustos de respiração, como se reagissem a uma sufocação, e, ainda, com atenção especial às sonoridades fortes e suaves, e às pausas, perfeitamente coordenadas com os temas eleitos.

        Segundo Helder Macedo, no prefácio à obra, a menção de Akendenguê “aponta para uma partilhada perspectiva africana universalizante e, desse modo, define uma atitude oposta à que seria a de uma cultura colonial que visasse integrar-se numa cultura colonizadora” (LIMA, 2011, p.7). Indo mais longe, seria possível pensar que, se a poesia de Conceição Lima “descreve o mundo histórico, forçosamente entrando na casa da arte e da ficção de modo a invadir, alarmar, dividir e desapropriar”, ela também demonstra “a compulsão contemporânea de ir além, de transformar o presente no ‘pós’ [...] tocar o lado de cá do futuro”, como observa Homi K. Bhabha a propósito dos romances de Nadine Gordimer e Toni Morrison (BHABHA, 2010, p.41).

        Cumpre observar que Conceição Lima publica seu livro em 2011, através de uma chancela editorial de grande prestígio literário em Portugal, como a Caminho, e não pode ser filiada às correntes formadoras da literatura são-tomense iniciadas no século XIX e continuadas no XX, marcadas nos primórdios por tentativas de individualização e depois de nacionalismo e independentismo. Seu posicionamento é o da denúncia insistente das opressões de seu povo, sim, mas igualmente é o da incerteza em relação ao que virá, sem pejo de se apropriar dos modos culturais das antigas metrópoles imperiais, como indicam as formas líricas pós-modernas de que se vale.

        A poeta, nascida em 1961, era ainda criança em 1975, quando seu país obteve sua independência da metrópole portuguesa colonizadora. Fez seus estudos elementares e secundários em São Tomé, mas graduou-se em Jornalismo em Portugal. Licenciou-se em Estudos Afro-Portugueses e Brasileiros no King’s College londrino; na mesma cidade realizou seu mestrado em Estudos Africanos/Governos e Políticas em África, pela School of Oriental and African Studies e trabalhou na BBC por um bom período. Com uma formação dominantemente europeia, mas sempre afinada às questões africanas, não pode ser entendida como representante dos movimentos anticolonialistas que libertaram o país e sim como legítima expressão do pós-colonialismo.

        Não se encontram, em sua poesia, os traços de resistência política tão usuais na literatura das províncias ultramarinas (designação essa usada durante o colonialismo) portuguesas que se levantaram na guerra colonial à metrópole, carregadas de nacionalismo de inspiração marxista. Contudo, não se trata de uma poesia alienada das questões da terra natal, de sua história de opressões e miserabilização, que remontam ao século XV.

        São Tomé e Príncipe devem sua denominação aos primeiros ocupantes portugueses, que teriam ali aportado em 1470, no dia 21 de dezembro, data consagrada a São Tomé, ou em 1471, no dia de Santo Antão, primeiro nome para a ilha de Príncipe, depois assim chamada em homenagem a D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V (cf. MATA, 1993). Povoadas de início por degredados portugueses e por crianças judias, a que se agregaram logo escravos da Guiné, Gabão, Benim, como também migrantes da Ilha da Madeira, a composição étnica da população cedo tornou-se mestiça – até porque o rei D. João II aconselhara que cada morador da ilha recebesse uma escrava para a povoar.

        As ilhas passaram por três ciclos econômicos: o primeiro, o da cana de açúcar, com engenhos semelhantes aos brasileiros; o segundo, o do comércio de escravos, designado como de “pousio”; o terceiro, o da monocultura do cacau e do café, como nas plantations americanas. A exploração colonial retirou gradualmente da população mulata as terras que possuíam, expropriou-as em favor de novos colonos portugueses, que vinham com suas famílias para explorar as novas culturas extensivas. Com a abolição da escravatura e ante a recusa dos “filhos da terra” de trabalharem como contratados, a segunda colonização traz elementos de fora, como mão de obra de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Estes, unidos aos escravos forros, aos angolares (escravos rebeldes que se haviam refugiado numa parte de difícil acesso da ilha e dedicavam-se à pesca), aos escravos das possessões inglesas da África, vão conciliar suas diferenças étnicas num bloco africano, delimitado em relação ao branco colonizador e caracterizado por uma miscigenação interafricana.

        Dessa forma, conforme aponta Inocência Mata, “desse novo e conflitual processo transculturativo resultou uma realidade na qual a componente matricial etnogenética europeia se foi desvanecendo, devido à conjuntura socioeconómica e, apesar da insularidade geográfica, a heterogênea essência africana foi progressivamente configurando a identidade cultural são-tomense, agora produto de uma amálgama de expressões culturais africanas assimiladas e insularmente reinterpretadas” (MATA, 1998, p. 24).

        A poesia de Conceição Lima dá um passo adiante da literatura das ilhas, por salientar uma condição para além da consciencialização africana. Os movimentos do século XIX, praticados pela elite dos “filhos da terra”, reunidos em grêmios e sociedades, fermentaram “sentimentos nativistas e regionalistas” (MATA, 1998, p.38), expressos na imprensa, que proliferou em jornais, revistas e órgãos de propaganda partidária no início do século XX. Se a ficção são-tomense só virá à luz com a Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro, em 1942, isso não significa que não houvesse uma sedimentação prévia, nos textos de denúncia social, sobre a exploração econômica, a marginalização das populações negras e afirmação de uma identidade em oposição à situação colonial. Em Caetano da Costa Alegre, ocorre uma “incipiente percepção das diferenças raciais” (MATA, 1998, p.46). Em Marcelo da Veiga, configura-se um “precursor da negritude” (idem, p.47). Em Francisco José Tenreiro, consolida-se uma poesia “da insularidade” (idem, p.50). Durante os tempos de insurreição contra Portugal, avulta uma poesia nacionalista, como em Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido, bem como Tomás Medeiros. Ligados ao neorrealismo português como tendência estética, estes reivindicam o solo pátrio, sua insularidade, e denunciam a precariedade social das ilhas. Dos anos 70 em diante, após a independência, a literatura das ilhas, segundo Inocência Mata, não mostrou a fertilidade esperada, incidindo na celebração da “reconstrução nacional”, com textos de “matriz memorialista etno-histórica” (MATA, 1998, p. 59).

        O nome de Conceição Lima, cuja principal atividade poética se desdobra no terceiro milênio (seu livro O útero da casa é de 2004 e A dolorosa raiz do micondó é de 2006), vai situar-se num outro paradigma, que a homenagem a Akendeguê indicia. Esse paradigma é o do deslocamento pós-colonial, um momento histórico em que as identidades já não são tidas como fixas, em que a relativização dos valores tradicionais corrói as antigas certezas, levando a outros e novos processos de tradução cultural. Conforme assinala Jane Tutikian, “derrubam-se e resgatam-se mitos, constroem-se e destroem-se e reconstroem-se utopias, buscam-se saídas para a incerteza contemporânea nas ex-colônias lusófonas, descortina-se, enfim, um outro papel para essas literaturas que prepararam a independência: a tradução de seus novos signos” (TUTIKIAN, 2006, p. 31).

        Fundir o passado no presente, guardar os traços identitários multiculturais historicamente conquistados, aspirar a um público cosmopolitano, valer-se dos mecanismos do mercado global, como faz Akendenguê com sua música, que dialoga tanto com as raízes africanas quanto com o repertório europeu e americano, é a tomada de posição também de Conceição Lima, em face da necessária fidelidade à cultura são-tomense tão arduamente constituída e das exigências de uma visada não-nacionalista, num mundo que pouco acredita em fronteiras políticas ou econômicas, mas que vive sob um novo império, o do capital transnacional.

        Seu livro O país de Akendenguê revela, como sugere Helder Macedo, “um propósito de totalidade ainda por encontrar na imaginação do desejo” (LIMA, 2011, p.13). Dividido em sete partes, investe na força da palavra contra o tempo que apaga e na imaginação da ilha, uma imaginação carregada de feminilidade, em que corpo, voz e canto delicadamente servem à rememoração de perdas, lutos e esquecidos heroísmos, reafirmando o valor do homem africano num esquadro contemporâneo em que repercute ainda o sofrimento dos deslocamentos, das desterritorializações, das guerras coloniais e da derrocada dos regimes igualitários. Mas essa voz não é submissa: eleva-se e ataca, quando sente o desmoronamento das lutas e a acomodação das consciências.

        No poema “Não estou farta de palavras”, que abre a primeira parte da obra, intitulada “A mão e o rosto”, o sujeito lírico feminino nega que a poesia tenha perdido seu poder de projetar a permanência da história, insistindo: “Não, não estou farta de palavras./ É porque o tempo passa que as procuro./Para que elevem, soberanas, o reino que forjamos.” (LIMA, 2011, p.27). Seis poemas o sucedem. Em um deles, “Apuramos o canto”, o risco da impermanência, exorcizado pelo canto das mulheres, é tematizado com excepcional leveza de imagens, associadas ao poilão, árvore típica da Guiné-Bissau, uma espécie de paineira:

Caem as pétalas.
Do poilão caem
Uma a uma
Sobre a pele da tarde.

Chegamos sozinhas de toda a parte
Entranhando nas unhas
As cordas do tempo.
Enquanto o frio murcha
Apuramos o canto. 
                        (LIMA, 2011, p.30)

         Nos seis poemas que constituem “Variações sobre a canção”, o tema é principalmente a viagem, porque “trespassar é a sina dos que amam o mar” (LIMA, 2011, p.44). Em “Viajantes”, assoma a questão da pertença, a necessidade de saber-se parte de uma família, de uma comunidade, tão importante no estilo de vida africano, dizendo das dores do desenraizamento dos passantes, impelidos a vencer os limites insulares, e da amável acolhida que os velhos, com sua sabedoria ancestral, lhes concedem. A água oferecida tem o sentido de aplacar a canseira desses deslocados e fazê-los sentirem-se em casa:

Traziam poentes e estradas
A sede do horizonte os chamava.

-- A quem pertences tu?
Quem são os da tua casa?

Assim estendia nossa avó
A caneca de água ao viajante. 
                                (LIMA, 2011, p. 38)

         Em “Poucas palavras”, dessa mesma parte, transparece a pátria liberta, trabalhando imagens da natureza: as da hera, do arco-íris, do girassol, como curativos postos sobre as feridas das lutas, e a liberdade como motor do verso que irá desvendar e tornar memoráveis a magreza, a solidão, implicadas nas grades da prisão, dos hospitais, e na erosão do solo:

Porque dançam heras nas grades da prisão
E o arco-íris invade a contraluz dos hospitais
Porque o pé do girassol trava a erosão
Porque a liberdade mastiga o cerne,
A crua carne do verbo
O verso captura a magreza de um osso
Cifra a solidão de um pássaro em voo.
                           (LIMA, 2011, p.43)

         Em “Caderno de Mulabo”, composto de oito poemas, surge e repete-se a figura enigmática do pastor ou guardião, possível metáfora do colonizador, uma vez que é caracterizado como “a versão de uma lenda terrível” (LIMA, 2011, p.47), que “venera o eco da própria voz” (LIMA, 2011, p. 55) e enuncia promessas numa “litania de queda e de nada”. Os poemas dessa parte sugerem uma longa viagem fatal, em que migrantes – talvez de Mulabo, região da Zâmbia, quem sabe os contratados ingleses negros de que fala Inocência Mata -- chegam em caíques para cultivar a terra e morrer. No sexto poema, as imagens de cadáveres a plantarem, mudos, ergue um quadro tenebroso da segunda colonização:

Quatro mil desmoronados dias
Os mortos emergiram das valas
Sacudiram dos cabelos as larvas
E enfrentaram o estado da sua morte.

Não pestanejaram
Não abraçaram os campos
Não perguntaram por Pelágia grávida.

Inteiros sob a luz do sol
Estrangeiros à dor das mariposas
Plantaram a mão no seio do canteiro
E grão a grão ergueram
A intacta brancura dos seus dentes.

Nada disseram, nada dizem, nada dirão.
Procuram a chuva, os poros da casa.
Reclamam o rosto
Os vazios sapatos de seus irmãos.
                             (LIMA, 2011, p. 53)

         Nos sete poemas de “Os territórios deflorados”, o tema do desalento, dos esquecidos “navegantes do medo e da devastação” (LIMA, 2011, p.67), daquele cujo rosto não foi visto, pois “estava de bruços”, é contrastado com a fala incansável de Luandino Vieira, que sabe “que o futuro nunca deixa de habitar/ insólitos lugares” e que transporta “cantando/ o pólen nas tuas feridas” (LIMA, 2011, p.70). Em “Esta viagem”, o sujeito lírico não encontra respostas no deslocar-se, na perambulação vária e internacional em busca da “linguagem da tribo azul”. O poema explora com acerbidade lírica as investidas erráticas da busca identitária da africanidade, seja no espaço interfronteiras ou no tempo da memória:

Esta viagem não responde às minhas perguntas.

Trespassei o aço das certezas.
Heranças,devorei-as.

A etapa seguinte rasga a prévia cartografia
Toda a fronteira é um apelo à renúncia.

Perscrutei mares cidades sinais nas pedras papiros.

Ao encontro da linguagem da tribo azul
Cada passo me afasta de um rito sagrado.

Esta caminhada decreta um tráfico sem remissão:
A fortaleza do sonho pela metamorfose das feridas.

Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada. 
                                                                            (LIMA, 2011, p.71)

         Recusando pós-colonialmente a perspectiva, como diz Stuart Hall, “do ‘aqui’ e ‘lá’, de um ‘então’ e ‘agora’, de um ‘em casa’ e ‘no estrangeiro’” (HALL, 2003, p.109), o sujeito lírico se autorrepresenta, para poder compreender como se constituiu e quem é (cf. HALL, 2003, p. 346). Note-se que o viajante transcultural sente-se em nenhum lugar e, afligido pela memória, é na poesia que reconfigura as feridas de seu solo natal.

        Em “A dádiva”, os dois poemas componentes dessa parte constroem a imagem de um “jovem pintor”, que se condói pelo jardim, metáfora da ilha, e tira de dentro do peito “todos os mares/o amor dos bosques e borboletas”, e, num canto “ferido de luz”, traça “a saga do obô/a posse do mar” e mete “no peito o bater da mão/deixando na ilha o coração” (LIMA, 2011, p.76). É poeticamente um tema genesíaco, em que a exuberância da ilha se torna obra de arte, pelo coração do artista.

        Os cinco poemas que compõem “Os fantasmas elementares” soerguem os principais líderes dos movimentos emancipacionistas de Gana, Tanzânia, Congo, Guiné-Bissau, Guiné-Conacri e São Tomé. O primeiro, “Kwame”, refere-se a Kwame Nkrumah, primeiro-ministro e depois presidente de Gana, criador do pan-africanismo; o segundo, Mwalimu, rememora Julius Nyerere, libertador de Tanganica, hoje Tanzânia; o terceiro, “Congo 1961”, evoca a crise política que levou ao assassinato de Patrice Lumumba; o quarto, subdividido em “Primeira Indagação”, “Os mortais infinitos”, “Segunda indagação”, “Escritura”, “Alta testa de ébano e claridade” e “Sílaba de leite”, homenageia Luís Cabral, primeiro Presidente da Guiné-Bissau, alçado à liderança após o assassinato na Guiné-Conakri do seu meio-irmão Amílcar Cabral, intelectual pan-africanista e fundador do PAIGC, Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde; o último relembra a poeta Alda Espírito Santo, ativista política, deputada e Ministra da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe.

        São textos de exaltação, com versos como “vim tocar as tábuas da profecia”, sobre Kwame (LIMA, 2011, p.81), “crianças soletram, sorrindo, seu nome” (LIMA, 2011, p.82), sobre Mwalimu, “parturiente de mãos lúcidas e atadas”, sobre Lumunba; “o coração da África/ batendo sobre um livro indestrutível” (LIMA, 2011, p.84), ou “sobre sua tensa caveira terás rido teu riso/de titã livre e são?” e “alta testa de ébano e claridade”, sobre Amilcar Cabral; “sabias: a razão da vítima incuba a atrocidade”, sobre Luís Cabral; ou “quem, um por um, revelou os troncos e a voz dos pássaros e os pés das palayês, nomeou as lavadeiras do Água Grande, as trepadeiras, ressuscitou no hino os companheiros de Cravid, os mortos em 53 matados?” (LIMA, 2011, p. 93), sobre Alda Espírito Santo.

        Entre esses textos, “Escritura” declara a posição do sujeito lírico, que reavalia os ônus das guerras de libertação e os destinos das ex-colônias em reestruturação, ainda à luz de seus heróis, mas ante incertos caminhos:

Chove na capital que morto libertaste
Chove em Bissau, derradeiro planalto
e a chuva põe no vento uma rajada e pranto.

Há frescos corpos tombados nas águas
Corpos alheios à vaidades das trincheiras
Inocentes, completos corpos
Somados aos soluços da trombeta.

Que halo circunda esta queda?

Quem gravará seus nomes na epiderme da pedra?

Seus sudários de demora e quezília
Seu pecúlio de desdita e rebento...

Também a desolação é uma escritura.
Também o atraiçoado sobrevive
ao saque do rosto, amassa esquecimentos
dispara um cometa.

A nudez é um caminho, esta procura te inventa. 
                                                                         (LIMA, 2011, p.89)

         Na última parte, “O Coração da Ilha”, o canto de Conceição Lima se verte sobre o território são-tomense. Recomenda que “não procurem no vazio das cavernas”, pois “na onda se inscreve todo o princípio” (p.97), configurando a relação das ilhas com o mar. Além disso, adverte: “não despertes, estrangeiro, o arbusto cor de fogo” (LIMA, 2011, p. 98), em vez disso, pede-lhe: “traz a canela e o alecrim/ e o requinte da partitura” (LIMA, 2011, p.99). Relembra “a única colher e a única malga/ a malga, a colher, a mão da avó” (LIMA, 2011, p.100), num sentimento de apego à simplicidade e frugalidade da vida são-tomense, e na figura da avó louva o saber tradicional: “Avó, lembro-me dos pingos, a luz do matrusso/ na mão que espremia o amargo milagre” (LIMA, 2011, p.101). Na memória, junto com os anjos que “empunharam cafukas/de fogo e cantigas/ e drapejaram no morro da infância”, está a mesa que “sussurra aguêdês de frio e claridade”, uma mesa em que “pestaneja a aturdida verdade” e que “saboreia a nostalgia de uma festa interminável” (LIMA, 2011, pp.102-103). Na voz do muro de pedra ressoa a casa, em que “em velhas panelas/bailam os caules das ervas boas.” (LIMA, 2011, p.104). Mas, nessa nostalgia da vida aconchegada, o dilaceramento está sempre à espreita. No movimento dos que partem e regressam, “se engendram alquimias/ lentos hinos bordados em lacerações/ sossegaram os mortos/ há grutas e pássaros de fogo//rebentos de incômodos recados” (LIMA, 2011, p.106).

         “Metamorfose”, o penúltimo dos poemas, expressa talvez a mais dolorosa liminaridade da poesia de Conceição Lima, a de uma dúbia pós-colonialidade, de um país em mudança, que, embora independente, parece seguir um rumo pouco promissor. A obra se encerra nesse outro limiar: o das ex-colônias que não têm conseguido realizar a utopia da vida justa, a qual, fantasmagoricamente, adeja como leves pétalas sobre as antigas catástrofes:

Hoje as palavras nada dizem de naufrágios.	
Pétalas apenas
Pétalas não visíveis
Infinitas pétalas
E na ponta dos nossos dedos
O fantasma de uma doce, habitável Cidade
Suas vestes de púrpura e de lenda
Seu corpo, fruto tenaz e justa partilha.
De uma exacta metamorfose somos testemunhas. 
                                                                             (LIMA, 2011, p. 105)

REFERÊNCIAS:
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: EdUFMG, 2010.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte; Brasília: EdUFMG; Representação da UNESCO no Brasil, 2003.

LIMA, Conceição. O país de Akendenguê. Alfragide: Caminho, 2011.

MATA, Inocência. Diálogo com as ilhas: sobre cultura e literatura de São Tomé e Príncipe. Lisboa: Colibri, 1998.

_______. Emergência e existência de uma literatura: o caso santomense. Linda-a-Velha: ALAC, 1993.

TUTIKIAN, Jane. Velhas identidades novas: o pós-colonialismo e a emergência das nações de língua portuguesa. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2006.

Texto recebido em 13 de julho de 2012 e aprovado em 15 de agosto de 2012.