Mulemba - n.6 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2012

Apresentação

         Esta edição de Mulemba é dedicada às narrativas breves nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: o conto e a crônica. Para abrir as discussões, António Manuel Ferreira, da Universidade de Aveiro, em “A morte de Raquel Duzenta: um conto de Luís Carlos Patraquim”, afirma que este conto exemplifica o modo de funcionamento da narrativa contística, já que parte de um episódio aparentemente irônico e obriga o leitor a refletir sobre várias questões relacionadas à história de Moçambique.

Dando prosseguimento, Bárbara dos Santos, da Universidade de Rennes 2, em ensaio intitulado “Conto africano de língua oficial portuguesa e as lutas de libertação”, procura abordar diferentes manifestações deste tema em narrativas curtas das literaturas angolana e moçambicana, como forma de expressão cultural e de “reescritura da história”.

Em “O Colorir da poesia e a arte de contar e cronicar histórias”, Fernanda Antunes Gomes, doutoranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, e bolsista CAPES, estuda algumas crônicas da escritora angolana Ana Paula Tavares, buscando observar as características do gênero crônica nos textos da autora.

Adiante, Agnès Levécot, Maître de Conférence Sorbonne Nouvelle, Paris 3, em “Momentos de aqui, de Ondjaki, da tradição oral ao conto escrito”, mostra como se processa na primeira parte da antologia Momentos de aqui, do escritor angolano, a passagem da oralidade tradicional para a literatura escrita, do ponto de vista estrutural e também temático.

Em “As três irmãs: um conto de fadas às avessas”, Daniela Aparecida da Costa, doutoranda pela Universidade Estadual de São Paulo, UNESP, apresenta uma leitura do conto “As três irmãs”, narrativa de abertura do livro O fio das missangas, do escritor moçambicano Mia Couto. Em tal estudo, ela discute as estratégias narrativas empreendidas pelo escritor e o modo pelo qual o desenlace do enredo rompe com a ordem do esperado.

Já Claudia Barbosa de Medeiros, mestranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, em “O breve tempo de ser: duas velhices e alguns flagrantes de felicidade”, elege as narrativas curtas “Nas águas do tempo” e “Noventa e três”, também do moçambicano Mia Couto. Ela analisa o cotidiano de duas personagens idosas, buscando aproximações e oposições entre ambas, flagrando imagens distintas de felicidade.

Maria Geralda de Miranda, Ricardo do Carmo e Aneliza Ambrósio, da UNISUAM, em “O percurso da identidade nacional em Mia Couto”, buscam verificar o modo pelo qual o escritor Mia Couto elabora a questão da identidade nacional moçambicana nas narrativas curtas “O cachimbo de Felizbento” e “As flores de Novidade”, ambas do livro Estórias abensonhadas. O ensaio faz considerações atinentes à problemática das identidades e vê a tradição como pano de fundo do projeto estético do autor.

Por sua vez, Ana Beatriz Matte Braun, doutoranda pela Universidade Federal de Pernambuco, UFPR, em “Sobre a relação entre literatura e etnografia em João Paulo Borges Coelho”, discute as relações entre literatura e etnografia por meio da análise do conto “Implicações de um naufrágio”, do escritor, também moçambicano, João Paulo Borges Coelho. Ela faz uma breve teorização sobre a escrita etnográfica contemporânea e aborda o papel do narrador romanesco dos últimos trinta anos.

Emerson da Cruz Inácio, da Universidade de São Paulo, USP, em “Espectro da guerra: notas sobre alguma produção poética africana mais recente”, propõe uma reflexão acerca da poesia contemporânea produzida na África de Língua Portuguesa, considerando a superação do paradigma da guerra e a instauração de uma nova dicção poética, cujo foco é a experiência do sujeito.

Fechando este número, Rebeca Hernández, da Universidad de Salamanca, em “Rosita, até morrer, de Luís Bernardo Honwana: aproximações ao conceito de hibridação como área literariamente autônoma”, argumenta que a hibridez linguística presente no conto deste escritor moçambicano é produto do processo de colonização, que possibilitou a coexistência e as tensões entre línguas e culturas em contato.

Desejamos a todos uma boa leitura.

A Comissão Editorial