Mulemba - n.5 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2011

ENTREVISTA

A IDEOLOGIA DA ESCRITA: PEPETELA, UMA ENTREVISTA
WRITING’S IDEOLOGY: PEPETELA, AN INTERVIEW

por Carlos Liberato1
Universidade Federal de Sergipe

e

Felipe Paiva2
Universidade Federal de Sergipe

         Cultura, política, história, literatura, ideologia, revolução. Conceitos distintos e que podem parecer até inconciliáveis ou complementares – a depender da ótica –, todavia, estão todos na pena de Artur Pestana dos Santos: Pepetela. Furtando-me de apresentar, nesta breve introdução, a biografia do autor angolano, cabe, contudo, destacar o norte da presente entrevista, a fim de situar o leitor.

        Indissociável da história de seu país, a obra de Pepetela é histórica. Não só no sentido de que toda obra de literatura é, por situar-se em um tempo e espaço, trazendo, em seu interior, direta ou indiretamente, influências dessa temporalidade. Porém, no sentido de trabalhar narrativas inspiradas em fatos verídicos da história angolana, sejam momentos mais recuados – como em A gloriosa família ou no recém-lançado romance A sul. O sombreiro –, seja em períodos extremamente recentes e controversos – Predadores ou A geração da utopia –, ou ainda escrevendo no calor dos acontecimentos e antecipando problemáticas futuras por quais passaria a jovem nação angolana – Mayombe ou mesmo O cão e os caluandas –, e, até mesmo, quando parece estar falando de um mundo localizado fora do real, dado sua prosa dizer respeito, quase sempre, ao histórico – Muana puó. Em todas essas obras, Pepetela exerce a função típica do romancista historiador, efetuando uma análise do verídico, por meio da ficção. Porém, também exerce a função de historiador, quando se utiliza da sua narrativa como arma de intervenção – As aventuras de Ngunga é exemplo paradigmático –, lembrando que a história implica não somente uma análise do passado, mas ainda formulação de um projeto social, que olha para o presente. 3

        Nesse curto espaço introdutório, cabe somente salientar em que se baseou a presente entrevista. Fruto de um trabalho de conclusão de curso (História e Literatura na guerra de libertação angolana: as primeiras obras de Pepetela em perspectiva), a entrevista foi concedida por Pepetela a Felipe Paiva, que contou com a revisão criteriosa das perguntas por parte do Prof. Dr. Carlos Liberato (orientador). Dividida em três blocos (Ideologia, Estética e História), o que vem a seguir é o primeiro desses blocos, o referente à Ideologia. A partir das palavras do autor de Yaka, tem-se ilustrado todo o tecido ideológico que subjaz à escrita pepeteliana, afirmando suas influências –reforçando, assim, a importância de autores que clamam por novas edições completas de obras como a de Amilcar Cabral – e seu compromisso social com a revisão crítica da história de Angola e de outros países que foram oprimidos pela colonização portuguesa.

        Concedida por email, já que o encontro pessoal não foi, infelizmente, possível, este bloco de perguntas e respostas se beneficia, de certa forma, desse fato: as respostas foram pensadas, com tempo, e escritas para impactar. Usando somente as palavras que cortam, a palavra que é faca – lembrando aqui os versos de Melo Neto4– , Pepetela foi sintético e, ao mesmo tempo, esclarecedor sobre pontos tão essenciais de sua obra e época.

        Na trilha de Parábola do cágado velho, a partir das já mencionadas considerações ideológicas, fica mais fácil entender como a História e a Estética (os dois blocos em preparo) se articulam e como Política, Cultura e Revolução se fazem presentes em sua prosa. Não se trata somente de um questionário, mas, sim, de uma introdução ao pensamento – e, conseqüentemente, à escrita – de Artur Pestana dos Santos: Pepetela.

ENTREVISTA

         Entrevista ao escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela), concedida a Felipe Paiva, para ser utilizada como fonte no trabalho de conclusão de curso, intitulado: “História e Literatura na Guerra de Libertação de Angola: as primeiras obras de Pepetela em perspectiva”.
O presente questionário visa analisar as obras de Pepetela escritas durante a guerra de libertação nacional de Angola (1961-1975), sendo estas: Muana puó (romance redigido em 1969, publicado em 1978), Mayombe (escrito entre 1970 – 1971 e publicado em 1980) e As aventuras de Ngunga (escrito e publicado em 1973), a fim de melhor elucidar os aspectos sociais, políticos e culturais subjacentes a esse período da história angolana.

FP:   Prezado Sr. Pepetela, primeiramente obrigado por sua disponibilidade. Iniciemos, pois, a entrevista. O senhor afirma em certa entrevista que todo escritor é também, na verdade, um filósofo. Sendo assim, como o senhor definiria os traços fundamentais de sua filosofia, ou seja, de sua visão de mundo durante o período da guerra de libertação nacional de Angola? Continua a ter a mesma filosofia nos dias de hoje?

P:   Acho que não houve grandes mudanças quanto à filosofia, à ideologia. Apenas, hoje, sou mais velho e experiente. Mas mantém-se a ideia de que os angolanos têm de ser livres para decidirem sobre o seu destino e terem a capacidade de inventar sistemas sociais, político-econômicos, de acordo com a sua cultura. Suponho ser válido para todos os povos, embora poucos tenham conseguido atingir o objetivo. É mais fácil copiar fórmulas consagradas, mesmo que cheias de erros e fracassos.

FP:   Acredito que, no desenvolvimento dessa filosofia, vários outros pensadores africanos (ou não africanos) o devem ter influenciado. Quais foram esses pensadores e como eles o influenciaram? Seria possível citar elementos concretos de como as ideias deles aparecem em suas obras, escritas durante o período da guerra de libertação nacional?

P:   Será talvez difícil citar nomes. Mas os clássicos Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Amílcar Cabral, Franz Fanon (não africano, mas como se fosse…), Cheik Anta Diop têm, certamente, a sua responsabilidade. Era um melting-pot de ideias que se discutiam e nos ajudaram a criar pensamentos próprios. Nessa medida, terão o seu peso naquilo que escrevi. Mas alguém pode ser absolutamente concreto nas influências que sofre? Mais fácil será procurar influências literárias e, aí, eu coloco, sem dúvida alguma, Jorge Amado, José Lins do Rego, Hemingway, John dos Passos, Graciliano Ramos, John Steinbeck, Sartre,…

FP:   Que papel o senhor atribui às letras (poesia e prosa) na formação teórica e prática dos movimentos de libertação na África portuguesa, em geral, e, em particular, no caso do MPLA?

P:   Os primeiros nacionalistas foram poetas, jornalistas ou ficcionistas. Foi a primeira forma de reivindicarem uma nacionalidade. Por isso, as filosofias de libertação começaram primeiro como movimentos culturais e, depois, como movimentos políticos.

FP:   Como o senhor interpreta o embate entre as tendências nacionalistas e socialistas no interior do MPLA, durante a luta de libertação nacional? Como o senhor, enquanto militante e pensador, via essa relação entre socialismo e nacionalismo, no desenrolar da luta? Eram pontos opostos ou complementares de um mesmo projeto?

P:   De fato, houve choques. Mesmo no aspecto rácico, pois os puramente nacionalistas viam, com alguma dificuldade, gente não negra ser participante do Movimento de Libertação (mesmo no próprio MPLA, muito mais avançado nesse aspecto). Pouco a pouco, certas barreiras foram sendo ultrapassadas. Mas os ditos socialistas consideravam os meramente nacionalistas como camponeses atrasados, e estes consideravam aqueles como elitistas citadinos. Eu achava (e penso que os meus livros demonstram isso) que havia possibilidades de concertação, como finalmente aconteceu. Foi fruto de muito trabalho conjunto, de aproximação de posições, até se perceber que o importante era conquistar a independência e, só depois, discutir o modelo social do país. Acho que o MPLA conseguiu isso.

FP:   Em muitas personagens de suas obras vemos o momento da tomada de consciência revolucionária. No seu caso pessoal, como se deu essa tomada de consciência?

P:   Tive a sorte de nascer e crescer numa cidade da costa angolana onde as divisões sociais e rácicas não eram tão acentuadas. E, depois, ir para uma cidade (Lubango) onde era tudo o contrário. Isso provocou em mim um surto de estupefação. Certos amigos ajudaram-me a compreender que tudo estava implícito no sistema colonial. Quando fui para Portugal estudar (com 17 anos), já tinha a ideia de que só a independência resolveria tais problemas. Mas foi na Casa dos Estudantes do Império que ganhei cultura política para ir assumindo as ideias que fariam de mim um revolucionário.

FP:   Em entrevistas passadas, o senhor se definia como socialista utópico, ainda se define assim? Como o senhor definiria a sua visão atual de socialismo e em qual medida ela difere daquela do período da guerra?

P:   À falta de melhor definição… Continuo a achar que os homens nascem iguais em direitos e que deveriam ter a mesma possibilidade de se desenvolverem intelectualmente. A partir daí, poderia haver diferenciações. Mas sempre guardando lugar para as minorias, quaisquer que sejam os critérios para as definir como minorias. O que implica um Estado forte, democrático, capaz de distribuir as riquezas, conforme os méritos e o esforço de cada um. Daí o ser utópico. E não ser capitalista, de forma nenhuma.

FP:   Por fim, muito obrigado por este primeiro bloco de respostas.

Entrevista feita em 11 de maio de 2011.

NOTAS:
1 Formado em História pela Universidade de Brasília (UNB) possui mestrado em História da África pela instituição El Colegio del México e doutorado igualmente em História da África pela University of York (Canadá). Atualmente, é professor titular no departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Orientador de Felipe Paiva.

2 Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e bolsista de iniciação científica. Trabalha em monografia de conclusão de curso sobre História recente angolana e a literatura de Pepetela. Agradece a Pepetela pela receptividade e pela autorização de publicar esta entrevista concedida a ele, cujas perguntas elaborou especialmente para o referido escritor angolano. Contato: paiva.his@gmail.com

3 Tal como define o historiador catalão Josep Fontana. Para mais informações; FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Bauru: EDUSC, 1998.

4 “Falo somente com o que falo:/com as mesmas vinte palavras/girando ao redor do sol/que as limpa do/que não é faca:/de toda uma crosta viscosa (...) / que fica na lâmina e cega/seu gosto da cicatriz clara”. Em MELO NETO, João Cabral de. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1979, p. 56. -58.

A entrevista foi enviada para a Revista Mulemba, em 02 de outubro de 2011 e aprovada em 31 de outubro de 2011.