Mulemba - n.4 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / julho / 2011

A JORNADA DO HERÓI EM DOIS POEMAS DE RUY DUARTE DE CARVALHO1

THE JOURNEY OF THE HERO IN TWO POEMS BY RUY DUARTE DE CARVALHO

Claudia Fabiana de Oliveira Cardoso
UNIABEU – Centro Universitário

RESUMO:
Leitura comparada de "Noção geográfica: poema para cinco vozes e coro" e "Extracção nyaneka: das decisões da idade II: noção doméstica (também para vozes e coro)", de Ruy Duarte de Carvalho. Entre geografias e idades, a jornada do herói como (auto)descoberta/ percurso da nação angolana.

PALAVRAS-CHAVE: Poesia angolana; herói; identidade; experiência

ABSTRACT:
Comparative reading of Ruy Duarte de Carvalho’s "Noção geográfica: poema para cinco vozes e coro" and "Extracção nyaneka: das decisões da idade II: noção doméstica (também para vozes e coro)". Between geographies and ages, the journey of the hero as (self)discovery / route of the Angolan nation.

KEYWORD: Angolan poetry; hero; identity; experienc.

(...) talvez porque toda literatura tenha talvez que abrir-se sempre ao que há para além, à aventura e ao mundo e porque escrever é sempre partir...

(CARVALHO, 2008, p. 121)

         INTRODUÇÃO :

         A reunião da produção poética de Ruy Duarte de Carvalho, desde Chão de oferta (1972) a Observação direta (2000b), na obra Lavra (2005a), reforça a leitura da “militância pela terra” ou da “educação pela terra” feita, respectivamente, por críticos como Cláudia Márcia Rocha (2000) e Rita Chaves (2007), mas também confirma o trabalho de depuração estética realizado pelo autor. Os livros, organizados não apenas cronologicamente, mas revistos em seus aspectos principalmente semânticos, formam um conjunto de experiências de geografias e de idades. Em Das decisões da idade, por exemplo, além de modificar o título original – A decisão da idade (1976) –, o poeta reorganiza textos e poemas, como fez com os materiais de expressão oral que manuseou. Na introdução ao livro, afirma: “À vaga geografia das ausências imponho uma paisagem/ reassumida, renovada de ardor e nitidez amável” (CARVALHO, 2005a, p. 57). Na sequência, nos apresenta poemas que problematizam o tempo e o espaço, com destaque para as paisagens do sul angolano, versadas desde o seu primeiro livro. A última estrofe do poema “Estas baías” aponta as direções:

O que há aqui
é ter-se a justa percepção do espaço
e as importantes coisas que o sustêm:
o exacto norte que o temor encerra;
a votiva escravidão que o mar inspira;
o leste e o som remoto de uma extinta glória;
o sul magnético
e a festa que anuncia.

(CARVALHO, 2005, p. 59)

         O sul, portanto, é o lugar do magnetismo, das experiências totalizantes e simbólicas que se quer reassumir e renovar. As noções geográficas propostas a seguir se depreenderão daí: um universo mítico da idade do homem, um sul pastoril de vozes múltiplas, que viajam e constroem caminhos.

        Ruy Duarte de Carvalho investigou, sobretudo, sociedades pastoris e agropastoris do sudoeste de Angola e do noroeste da Namíbia. Escritor multifacetado, publicou, além dos livros de poesia reunidos em Lavra, ensaios, ficções e narrativas. Na ficção, Como se o mundo não tivesse leste (1977) é seu livro de estreia, e a última obra, A terceira metade (2009), junto com Os papéis do Inglês (2000c) e As paisagens propícias (2005b), encerra a trilogia intitulada “Os filhos de Próspero”. Além disso, produziu inúmeros filmes sobre os povos do sul de Angola. Sua literatura é de viagem, e as paisagens visitadas, reconhecidas e reescritas pelo escritor, as linhas intertextuais com inúmeras obras, de diversas áreas do conhecimento – Antropologia, História, Literatura, Sociologia – e, principalmente, as pesquisas particulares do autor para um trabalho de produção científica e de elaboração de uma estética literária apurada, revelam-nos um projeto literário que abre caminhos do particular para o global, escrita de fronteiras que se alargam, na medida mesma do encontro das vozes. Porque os pastores também estão em toda parte. Porque a lavra é do homem.

        Mas se, nas narrativas de Ruy Duarte de Carvalho, as extensas descrições do sul angolano parecem mapear com maior nitidez as noções geográficas e culturais que queremos discutir, sua produção poética explora o deserto silencioso da página em branco, na tentativa de acrescentar, pela palavra eleita, novas experiências de sentido para a aventura humana. Em entrevista concedida a José Eduardo Agualusa, o escritor reafirma a ideia de que a poesia é exatamente “aquilo que não pode ser dito nem com mais nem com menos palavras. É eleger a forma única para dar notícia de uma experiência única” (AGUALUSA, 1996, p. 48).

        Não é à toa que sua poesia reunida intitula-se Lavra. Em primeiro lugar, o ato de lavrar, cultivar a terra, é um ato simbolicamente sagrado, pois estabelece uma ligação transcendente do homem com a terra e o céu. Preparar o solo, plantar e colher compõem um ciclo de fertilidade, de gestação do alimento do corpo e, por consequência, do espírito. O ato de escrever, por sua vez, pode ser comparado à lavra, na medida em que, ao selecionar as palavras que irão compor o poema, preparando assim o solo da folha em branco, os poetas ensejam colher imagens plurissignificativas, capazes de reconfigurar a realidade. A poesia é, sobretudo, tempo, que se renova a cada ciclo e faz germinar novas ideias e percepções, como em qualquer lavoura.

        Na Lavra de Ruy Duarte, encontramos uma poética permeada também pela “lavra alheia”, textos orais de diferentes autorias populares. A escrita do poeta nasce de uma reescrita, de uma releitura da língua materna, em que se cruzam aspectos da tradição oral do sul angolano. Pensa a língua portuguesa neste espaço africano, apreendendo-a de uma perspectiva outra, em um entrelugar que desliza “entre voz e letra2. E, ao articular literariamente o registro oral, cuida da memória dos muitos grupos identitários angolanos. A respeito do seu trabalho com a lavra alheia, diz, no artigo “Travessias da oralidade”:

Tenho cruzado as memórias dos grupos, e tenho-as cruzado com a minha, enquanto elas mesmas se cruzam entre si e é daí que se urdirá uma expressão angolana de que todos nós, institucionalmente Angolanos, tanto precisamos para podermos pensar e para nos podermos pensar a nós mesmos (CARVALHO, 2008, p. 63).

         A poética de Ruy Duarte de Carvalho se apresenta, assim, como um discurso em ascensão, em que o poeta gradativamente incorpora e ressignifica elementos simbólicos do universo angolano, encenando manifestações do cotidiano, histórias do próprio sujeito e da linguagem, com o objetivo de constituir uma memória coletiva do grupo. Com consciência histórica, a obra do poeta reflete sobre inúmeras experiências de sentido, enquanto construção e valorização de uma identidade “em curso”, em constante processo de transformação, lembrando a expressão de Boaventura de Sousa Santos (2000, p.135).

        Neste trabalho, propomos uma leitura de dois poemas que dialogam entre si: “Noção geográfica: poema para cinco vozes e coro”, publicado em A decisão da idade (1976), e “Extracção nyaneka: das decisões da idade II: noção doméstica (também para vozes e coro)”, publicado na obra Observação direta (2000b), que em Lavra tem seu título estendido para Da lavra alheia II (Observação direta) . As principais questões que nos orientam são: quem é o herói de que falam os poemas? Como o herói constrói sua jornada de (auto) descoberta? É uma jornada para além da “noção geográfica”?

Das noções geográficas e das noções domésticas

A saga do herói é a aventura de estar vivo.

(CAMPBELL, 1990, p. 173)

         O poema “Noção geográfica” traz uma mistura de gêneros, com o lírico em combinação com o mito, o épico e o trágico. Apresenta uma estrutura de preposição, com voz em off; primeira proposta para uma noção geográfica, com um solo do pastor; noção geográfica: proposta para quatro vozes e coro, com falas e canções do herói, do rei, da mulher, do sacerdote, acompanhadas pelo coro; e remate, intitulado A decisão da idade, com vozes do herói e de coros.

        Para Joseph Campbell, pesquisador nos campos da mitologia e da religião comparada, na obra O herói de mil faces (1999), o percurso padrão da aventura mitológica do herói pode ser representado pela fórmula dos rituais de passagem: separação, iniciação e retorno. Para ele,

um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes. (CAMPBELL, 1999, p. 36)

         No caso do poema de Ruy Duarte, podemos dizer que a proposição inicial coloca o sujeito no limiar de sua jornada. A voz em off anuncia:

Abalarei em busca da fogueira um
halo um fogo a labareda que me diga vivo corpo
capaz de emparceirar com corpos e comungar
conforto
a céu aberto
Confundirei o meu calor ao de braseiros e
a minha cor aos campos de setembro o respirar que
valho à direcção do vento o cheiro que transpiro ao
da farinha crua

(CARVALHO, 2005a, p. 66)

         Em primeiro lugar, consideremos a voz off, que se mostra fora do jogo de cena entre os personagens, inclusive com a estratégia dos versos alinhados à direita da página. Essa voz lírica pode ser reconhecida como a de um homem simples ou a do próprio herói que apresenta uma síntese da sua viagem iniciática. A começar, pela procura do fogo sagrado, que nos revela aproximações com heróis como Prometeu. No mito grego, o titã rouba o fogo de Zeus para dar aos homens, pagando alto preço por isso, pois o fogo sagrado deu à humanidade força e proteção. Todas as mitologias, de uma maneira ou de outra, reverenciam o fogo. Na tradição hindu, por exemplo, o deus Shiva está associado ao fogo, pois representa a transformação. No Brasil, lembremos a crença no boitatá, uma cobra de fogo protetora da natureza, que persegue quem a desrespeita. Ou ainda os orixás Ogum e Xangô que, na mitologia yorubá, são divindades do fogo.

        São inúmeras as representações do elemento, sejam do fogo do sacrifício, do fogo da defesa ou do fogo do lar. No caso do sujeito poético, o contexto africano sugere uma partida em busca do fogo vital, pois é ele que faz o homem e contribui para as noções de troca e de interdependência: “que me diga vivo corpo/ capaz de emparceirar com corpos e comungar conforto/ a céu aberto” (CARVALHO, 2005, p. 66). Vale destacar também que o homem está de partida, pronto a enfrentar uma sinuosa travessia em busca de sentidos. Segundo Gaston Bachelard, “o fogo sugere o desejo de mudar, de apressar o tempo, de levar a vida a seu termo, a seu além” (BACHELARD, 1999, p. 25). É assim que, nos últimos versos da preposição:

Um corpo se desfaz e um corpo se
anuncia

Intacta a soberana percepção da herança
não a de alfaias ou de espaço dado porém a graça
antiga de entender as fontes e a voz excessiva
de quem governa a sede e predispõe à glória

Sabei-vos vivos entre a morte e a
vida
Não se enriquece a morte em nossa queda antes a
vida
assim de nós se anima

Em nós se guarda a força e mais
nos serve a da remota glória que a da recente raiva

Sejamos nus e gratos e serenos na
força herdada imperecível nome

(CARVALHO, 2005a, pp. 67-68)

         O poema, desdobrado pelas inúmeras vozes e pelo coro teatral, com a presença de “Sagradas cadências canções de louvor” (CARVALHO, 2005a, p. 83), foi produzido em 19743, período de consciência angolana de uma independência iminente. Os versos tratam de um homem heroico a descobrir sua terra e as fronteiras com outros espaços, em busca de uma identidade possível. No começo da aventura, o herói poderia encontrar grandes dificuldades, ter que derrotar presenças sombrias, enfrentar batalhas, mas, ao que tudo indica, se, no período da guerra colonial, os confrontos foram violentos, a partir de então, a passagem não seria guardada por monstros e dragões, mas pela própria geografia africana, pelas pessoas e pelos tesouros da região a serem redescobertos.

        Daí se explica a primeira proposta para uma noção geográfica ser ecoada com um solo do pastor. Conhecedor das direções e dos territórios, diz:

Sou testemunho da noção geográfica
que identifica as quatro direções
do sol às muitas mais que o homem tem.
Sou mensageiro das identidades
de que se forja a fala do silêncio.
Habito um continente e a comunhão prevista
além dos horizontes por transpor.
Renovo-me em saber, olhando o sol acesa a cor para além destas fronteiras.

(CARVALHO, 2005a, p. 68)

         O geógrafo Carlos Hissa lembra que “a tradição do olhar povoa os pensamentos de uma disciplina construída e desenvolvida segundo tais princípios: o domínio da ciência geográfica é delimitado por tudo o que é visível” (HISSA, 2006, p. 183). Contudo, as imagens, ainda para Hissa, “são processadas através das experiências cotidianas desenvolvidas ao longo da história, a partir de vários olhares que ultrapassam o exclusivamente “visual” (idem, p. 187).

        Assim, as noções geográficas apresentadas no poema não se caracterizam apenas por espaços bem definidos e caracterizados. Elas assumirão também uma dimensão simbólica. O herói inicia uma jornada em direção a um mundo de forças desconhecidas e, ao mesmo tempo, estranhamente íntimas, algumas das quais podem ameaçá-lo fortemente, ao passo que outras lhe oferecem ajuda, como faz o pastor, ao apresentar seu saber geográfico, saber da terra, de valores culturais próprios.

        Mais à frente, quatro outras vozes se manifestam e dramatizam uma breve história épica da geografia angolana, mas que bem poderia ser de inúmeros outros territórios: o herói, o rei, a mulher e o sacerdote (ou feiticeiro, na primeira edição) representam as mais significativas instâncias da sociedade.

        No percurso de iniciação do herói, a viagem é pelo continente africano e a “noção geográfica”, depreendida pelo sujeito, é orientada pela experiência, no sentido de uma percepção “interna”, subjetiva, e, ao mesmo tempo, de um sentido “externo”, de observação da própria natureza. No início das suas duas primeiras falas, o herói declara:

Um pouco mais ao norte é já manhã.
Circulo a plataforma das viagens
em que descubro as águas de um salgado oriente.
Meu sangue e o continente escorrem juntos
da Ponta Albina às ilhas deste mar.
(...)

Meu sangue e o continente escorrem juntos
da ponte-cais de Argel ao cabo das Agulhas
vertical perfuração das latitudes
percutir de tensões continentais.

(CARVALHO, 2005a, pp. 72-73)

         O continente, cartografado poeticamente de norte a sul, nos faz pensar que a geografia, de alguma forma, sistematiza tanto uma experiência no plano do espaço como uma revisão crítica da história. Conforme acrescenta Milton Santos, “a História não se escreve fora do espaço e não há sociedade a-espacial. O espaço, ele mesmo, é social” (SANTOS, 1979, p. 10). É assim que o herói problematiza tempo e espaço, fazendo um balanço histórico das veredas percorridas, em um processo de renovação do corpo individual e coletivo:

Este é o mar
a revestir-se de uma nova face
trazendo a novidade de outros mundos
e a distância de pátrias roubadas de outras pátrias
nas rotas consagradas de indizível perca.

E este é o continente
um corpo indesmentível de acidentes
o chão que permanece das batalhas
a terra exposta para além das chagas
o ventre a renovar-se em gerações
que erguidas da derrota
inventarão para a noite um hímen de estrelas
e para o sol a masculina brasa do vigor
e para as águas a função sagrada
de transmudar as mãos em cereal.
E para o povo um firmamento anímico
que lhe devolva e expanda a juventude.

(CARVALHO, 2005a, pp. 74-75)

         Ao final do poema, diferente do modelo clássico tradicional, em que o coro representa a coletividade dos cidadãos e o herói trágico os valores aristocráticos e individualistas, o herói, em companhia do coro, convoca as vozes da luta, da memória e do futuro vitorioso, pluralizando-se: “Há uma voz de heróis que a idade gera/ para atear no peito as decisões da idade” (CARVALHO, 2005a, p. 98).

        Porém, nos chama atenção a resposta dada ao herói 25 anos depois de sua fala. Utilizando fontes nyaneka, em Observação direta, obra publicada em 2000, no poema “extracção nyaneka: das decisões da idade: II: noção doméstica (também para vozes e coro)” (CARVALHO, 2000b, p. 13), outras noções são apresentadas. Agora elas são “domésticas” e as vozes dramatizadas são: a do amigo que acolhe o herói (25 anos depois), a das mães, a dos pais, e a dos pais das mães.

        Segundo Campbell, o trabalho final na jornada do herói é o do retorno. Se as forças abençoaram o herói, ele retorna sob sua proteção, é um emissário. Se não for esse o caso, ele pode empreender uma fuga e ser perseguido. De qualquer maneira, o herói ressurge do tempo da “guerra”, do tempo das dificuldades, e o que ele traz consigo pode restaurar o equilíbrio das coisas, pois sua jornada é, antes de mais nada, de (auto)descoberta.

        Ora, no caso do herói africano representado nos poemas de Ruy Duarte, a viagem parece não ter acabado, porque há muito que conhecer no cotidiano doméstico. A primeira voz em destaque é a do amigo. Os provérbios ensinam e, ao mesmo tempo, fazem um balanço da história não só de Angola, mas do próprio homem:

1
. saltaste a cerca porquê?
quem trepa não bate as palmas...
1.1
é mesmo culpa ou é só fama
de quem não cuidou maldades?

*

prometeram-lhe a abelha
e levaram-te à vespa?

a coxa é que era comprida
ou o pano é que era curto?

(CARVALHO, 2005a, p. 317)

         As noções domésticas recolhidas traduzem, enfim, a necessidade de renovação da palavra. Esta é, possivelmente, a última e mais difícil tarefa do herói: refazer o ciclo.

Conclusão

         Na poética de Ruy Duarte de Carvalho, a linguagem é retomada como espaço de recuperação do sujeito histórico e social e as vozes líricas colocadas em cena seduzem pela palavra, manifestando inúmeras experiências.

        Sobre o termo “experiência”, lembremos Walter Benjamim (BENJAMIN, 1994, pp.197-221), para quem as ações da experiência estão desaparecendo no mundo moderno. No célebre ensaio sobre “O narrador”, mostra a oscilação entre um mundo desprovido de sentido e a necessidade de construirmos um sentido para esse mundo fragmentário através da linguagem. Dessa forma, podemos pensar o processo de revisitação de fontes orais realizado por Ruy Duarte como a doação de uma experiência. Através da referência dialógica, constituída pelo mundo do texto e pelo mundo do ouvinte ou do leitor, a poesia nos aponta sua capacidade de trocar experiências.

        São as experiências do/ sobre o mundo, as histórias do sujeito e da própria linguagem encenadas nos poemas que permitirão ao poeta constituir uma memória humana necessária. Através da palavra, apresenta-nos novas perspectivas de olhar a nação, o sujeito e o fazer poético. Em um trabalho de mediação criadora, reflete sobre o ser e o estar no mundo, em um ato de consciência histórica e, efetivamente, no caso angolano, de construção de uma identidade cultural.

        Desse modo, a jornada do herói é cíclica, e a experiência da realidade expõe o sujeito a inúmeras provas. Na travessia iniciática, sempre “um corpo se desfaz e um corpo se anuncia” (CARVALHO, 2005a, pp. 67-68).

NOTAS:
1 Este trabalho foi apresentado no VII Seminário de Literaturas de Língua Portuguesa: Portugal e África, NEPA, UFF, em novembro de 2010.
2 No estudo Entre voz e letra – o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX (1995), Laura Cavalcante Padilha destaca a tensão existente entre a voz e a letra na produção literária angolana dos anos 50 aos 80, em que “as antigas marcas da oralidade buscarão tecer-se à da letra literária, construindo-se o fecundo entrelugar da voz e da letra” (p. 163).
3 Indicação do autor ao final do poema: “Fazenda Cahombo, Cacuso, Malange, 25 de outubro de 1974.” (CARVALHO, 2005a, p. 101)

REFERÊNCIAS:
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BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Trad. Paulo Neves. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Coleção Obras Escolhidas, v. 1).
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. Org. Betty Sue Flowers; trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Pallas Athena, 1990.
_____. O herói de mil faces. Trad. Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Cultrix, 1995.
CARVALHO, Ruy Duarte de. Chão de oferta. Luanda: Culturang, 1972.
_____. A decisão da idade. Lisboa: Sá da Costa, 1976.
_____. Como se o mundo não tivesse leste. Luanda: UEA, 1977.
_____. Vou lá visitar pastores. Rio de Janeiro: Griphus, 2000a.
_____. Observação directa. Lisboa: Edições Cotovia, 2000b.
_____. Os papéis do inglês. Lisboa: Edições Cotovia, 2000c.
_____. Lavra: poesia reunida 1970-2000. Lisboa: Cotovia, 2005a.
_____. As paisagens propícias. Lisboa: Cotovia, 2005b.
_____. A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras. Lisboa: Edições Cotovia, 2008.
_____. A terceira metade. Lisboa: Cotovia, 2009.
CHAVES, Rita. “Ruy Duarte de Carvalho: a educação pela terra”. In: CHAVES, Rita; MACÊDO, Tânia; VECCHIA, Rejane (org.). A kinda e a misanga: encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda: Nzila, 2007, pp. 109-116.
HISSA, Cássio Eduardo Viana. A mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói, RJ: EdUFF, 1995.
ROCHA, Cláudia Márcia. Ruy Duarte de Carvalho: a construção do texto e de (muitos) percursos. In: SEPÚLVEDA, Maria do Carmo e SALGADO, Maria Teresa (org.). África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Atlântica, 2000, pp. 321-328.
SANTOS, Milton. Espaço e sociedade. Ensaios. Petrópolis: Vozes, 1979.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1996.

Texto recebido em 12 de maio de 2011 e aprovado em 04 de junho de 2011.