Mulemba - n.3 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2010

O “MUNDO MISTURADO” DE GUIMARÃES ROSA E MIA COUTO

TITLE: THE “MIXED WORLD” OF GUIMARÃES ROSA AND MIA COUTO

Vima Lia Martin
Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP
Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP
e-mail: vima@usp.br

  RESUMO: O texto discute particularidades do modo de composição ficcional de Guimarães Rosa e Mia Couto, a partir da aproximação dos contos “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”.

PALAVRAS-CHAVE : conto; literatura comparada; Guimarães Rosa; Mia Couto.

  ABSTRACT: This paper discuss the particularities of the fictional composition mode used by Guimarães Rosa and Mia Couto from a comparative reading of the short stories “A terceira margem do rio” and “Nas águas do tempo”.

KEYWORD : short story; comparative literature; Guimarães Rosa; Mia Couto.

       Nos últimos anos, as obras de Guimarães Rosa e de Mia Couto têm sido aproximadas em vários trabalhos acadêmicos. O próprio autor moçambicano já declarou inúmeras vezes que há convergências significativas entre seus textos e os do escritor mineiro. Especialmente em “O sertão brasileiro na savana moçambicana”, palestra já antológica, proferida na cerimônia de sua nomeação como correspondente da Academia Brasileira de Letras, em 2004, Mia Couto esclarece que a obra roseana lhe mostrou ser possível, por meio da linguagem poética, recriar literariamente um universo marcado por estratos sociais e culturais diversos – no seu caso, a paisagem moçambicana.

      Parece-nos que o estabelecimento de pontes que ligam a literatura produzida pelos dois autores é importante por diferentes motivos: porque amplia os horizontes da crítica sobre ambos, porque explicita particularidades do intercâmbio estabelecido entre as literaturas de língua portuguesa, e, porque, em última instância, pode aproximar Rosa dos leitores moçambicanos, e Mia Couto, dos leitores brasileiros.

      Neste texto, buscaremos estabelecer alguns paralelos entre o modo de construção ficcional que singulariza as suas obras a partir da aproximação entre dois contos: “A terceira margem do rio”, do livro Primeiras estórias, publicado em 1962, e “Nas águas do tempo”, narrativa que abre Estórias abensonhadas, publicado em 1994, logo depois do fim da guerra civil em Moçambique. Naquela altura, segundo o próprio escritor atesta no texto de abertura do volume, a esperança embalava os homens, e imaginar um futuro menos violento era fundamental para aqueles que haviam sobrevivido ao horror dos combates.

      Quando confrontamos os dois textos, logo percebemos uma grande afinidade entre eles, confirmando a hipótese de que Mia Couto escreveu a sua estória a partir da leitura que fez de “A terceira margem do rio”, numa espécie de homenagem ao escritor brasileiro. De fato, a semelhança entre elementos que estruturam os dois contos, ambos narrados em primeira pessoa – por um filho e por um neto –, é flagrante.

      Num nível mais imediato, o que se nota é uma convergência no modo de criação da linguagem literária. Convergência essa que pode ser justificada, se levarmos em conta as realidades sociais e culturais que a obra dos dois autores se propõe a ficcionalizar. Ao comparar as obras de Rosa, de Luandino Vieira e de Mia Couto, afirma Carmen Lucia Tindó Secco:

Embora se inscrevam na esfera transgressiva da ficção contemporânea, não rompem com a tradição oral, trabalhando com a memória viva e com o imaginário mítico popular. Os três autores captam aspectos de suas realidades regionais: Guimarães focaliza o sertão de Minas, repleto de jagunços, de lendas e leis próprias; Luandino ficcionaliza a vida nos musseques luandenses, onde o português, mesclando-se ao quimbundo (uma das principais línguas nativas de Angola), se encontra africanizado; Mia Couto, por sua vez, traz para sua prosa os sonhos e as superstições do povo moçambicano, anestesiado pelos anos de guerra e violência.
(SECCO, 2008, p.61)

       Assim, tanto o sertão mineiro como a nação moçambicana – que Guimarães Rosa e Mia Couto buscam representar literariamente – seriam uma espécie de “matéria-prima”, que está na base de toda a sua criação linguística. No caso da obra do escritor brasileiro, aspectos da tradição oral sertaneja, transmudados em estilo, moldam o texto escrito; já na obra coutiana, dados constitutivos da lógica da oralidade, sobretudo daquela vinculada às línguas changana e ronga, também conformam a linguagem, dotando o texto de grande expressividade.

      Mas os universos focalizados pelos autores não se constituem apenas de oralidade. Via de regra, as realidades regionais que ambos ficcionalizam trazem as marcas da cidade e, por isso, apresentam uma mistura entre visões de mundo distintas, que estão relacionadas e interagem entre si. Essas duas visões de mundo que poderíamos chamar de lógica da oralidade ou lógica rural, de um lado, e lógica letrada ou lógica urbana, de outro, correspondem a temporalidades distintas e estão em profunda tensão, tanto na obra de Guimarães Rosa, como na de Mia Couto. Mais ainda, podemos dizer que é a tensão entre essas duas ordens a responsável pela produção da linguagem misturada através da qual os escritores contam as suas estórias. Uma linguagem profundamente poética, proverbial, carregada de neologismos, ditos populares, termos eruditos e inversões frasais.

      Ao estudar a obra de Rosa, especificamente seu romance Grande sertão: veredas, Davi Arrigucci Jr. relaciona a mistura de níveis da realidade histórica, característica do sertão, à presença de diferentes formas de narrativa no romance:

[Em Grande sertão: veredas] é possível notar a significativa mistura dos níveis da realidade histórica, combinados nas profundezas do sertão, demonstrando como esse espaço se acha siderado pelos valores da cidade, que penetram fundo nos modos de vida onde parece que reina apenas a natureza. (...) Considerado, pois, em seu conjunto, esse modo mesclado de caracterizar, com suas articulações sutis entre níveis distintos de representação da realidade, logo permite ver que estamos de fato diante de diferentes formas de narrativas misturadas, correspondendo no mais fundo a temporalidades igualmente distintas, mas coexistindo mescladas no sertão que é o mundo misturado. Não é à toa que esse é o lugar do atraso e do progresso imbricados, do arcaico e do moderno enredados, onde o movimento do tempo e das mudanças históricas compõe as mais peculiares combinações. (ARRIGUCCI Jr., 1994, p.16-17)

       Segundo o crítico, a mistura de distintos modos de estar no mundo que, no limite, corresponderia à coexistência de temporalidades distintas, explicaria não apenas a linguagem misturada, característica de Rosa, como também a arquitetura original de sua obra romanesca que mescla mito e romance, narrador tradicional e herói problemático. Em “O sertão brasileiro na savana moçambicana”, Mia Couto sublinha a importância de mergulhar na oralidade como forma de escapar à racionalidade dos códigos de escrita que se impõem como sistema único de pensamento:

(...) E foi poesia que me deu o prosador João Guimarães Rosa.
(...) Mais que a invenção de palavras, o que me tocou foi a emergência de uma poesia que me fazia sair do mundo, que me fazia inexistir. Aquela era uma linguagem em estado de transe, que entrava em transe como os médiuns das cerimônias mágicas e religiosas. Havia como que uma embriaguez profunda que autorizava a que outras linguagens tomassem posse daquela linguagem. Exatamente como o dançarino da minha terra que não se limita a dançar. Ele prepara a possessão pelos espíritos. O dançarino só dança para criar o momento divino em que ele emigra do seu próprio corpo. Para se chegar àquela relação com a escrita é preciso ser-se escritor. Contudo, é essencial, ao mesmo tempo, ser-se um não escritor, mergulhar no lado da oralidade e escapar da racionalidade dos códigos da escrita enquanto sistema único de pensamento. Esse é o desafio de desequilibrista – ter um pé em cada um dos mundos: o do texto e o do verbo. Não se trata apenas de visitar o mundo da oralidade. É preciso deixar-se invadir e dissolver pelo universo das falas, das lendas, dos provérbios. (...) (COUTO, 2005, p.107)

       E, mais adiante, relacionando o sertão inventado por Rosa à savana africana, território também construído na linguagem, continua o escritor:

O sertão é, pois, um mundo em invenção. Tudo isto se pode dizer da savana, o espaço onde se constrói não apenas a paisagem de África, mas onde África se constitui. O sertão e a savana são assim mundos construídos na linguagem. Nestes territórios o leitor é, ao mesmo tempo, viagem e viajante. Sendo muito caminháveis, esses territórios não são, contudo, espaços que se atravessa. O sertão de Rosa é a própria travessia. (COUTO, 2005, p.109)

       Se “o sertão de Rosa é a própria travessia”, a savana de Mia Couto também o é. Isso significa que os seus textos, elaborados por meio de processos composicionais que misturam, em níveis diferenciados, aportes culturais de matriz oral e aportes culturais de matriz letrada, se configuram como desafios para os leitores que são impelidos a encontrar formas próprias de reflexão sobre a realidade.

      Estabelecida uma das convergências fundamentais que aproxima a escrita literária dos dois escritores – o fato de ambos recriarem, por intermédio de uma linguagem misturada, um universo misturado –, faremos algumas considerações sobre os contos “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”. Como veremos, se as semelhanças entre eles são grandes, diferenças centrais em sua elaboração acabam por evidenciar não apenas as especificidades das realidades sociais apreendidas, como também das linhas de força das propostas literárias desenvolvidas por cada escritor.

      Na narrativa de Rosa, um homem comum, de posse de uma canoa, resolve, sem mais explicações, lançar-se nas águas de um rio. Ele aporta no meio das águas, passa muitos anos isolado da família e da comunidade, até que seu filho – que nunca havia tido coragem de abandonar a casa onde moravam – decide tomar o lugar do pai. Da margem, ele acena com um lenço para chamar a atenção do velho e grita a ele a sua decisão. O velho concorda com ela, resolve aproximar-se, mas, antes que a troca de lugar na canoa se efetivasse, o filho resolve fugir, cheio de medo, de angústia e de culpa. É o que acompanhamos no final da estória:

Ele, meu pai, me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto – o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio. (ROSA, 1985, p.37)

       É importante salientar que a estória de Rosa coloca em cheque os limites entre loucura e sanidade. Isso acontece porque a inexplicável atitude do pai – lançar-se com uma canoa no meio do rio e nunca mais voltar para sua margem – gera um questionamento sobre o seu estado mental. Quando o filho resolve chamar o pai para lhe dizer que havia resolvido tomar o seu lugar, por exemplo, ele reflete: “Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos.” (ROSA, 1985, p.36)

      No conto de Mia, vários elementos fundamentais que estruturam a estória de Rosa se mantêm: também há, neste caso, um velho, uma canoa e um rio, cujas águas desembocam numa lagoa. Só que esse velho é um avô que, à revelia da família, resolve levar o neto para navegar em “interditos territórios”. Seu objetivo é ensinar ao menino como se dá a comunicação entre os vivos e os mortos, ou seja, os espíritos que habitam as margens do lago proibido. Numa dessas pequenas viagens, o avô decide saltar da canoa e passar para a margem, acenando ao neto com um pano vermelho que, aos poucos, vai clareando até tornar-se branco – sinal de que o velho havia deixado de ser vivente comum. Observe-se o final do conto:

E o avô saltou para a margem, me roubando o peito no susto. O avô pisava os interditos territórios? Sim, frente ao meu espanto, ele seguia em passo sabido. A canoa ficou balançando, em desequilibrismo com meu peso ímpar. Presenciei o velho a alonjar-se com a discrição de uma nuvem. Até que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem. (...) Foi então que deparei na margem, do outro lado do mundo, o pano branco. Pela primeira vez, eu coincidia com meu avô na visão do pano. Enquanto ainda me duvidava foi surgindo, mesmo ao lado da aparição, o aceno do pano vermelho do meu avô. Fiquei indeciso, barafundido. Então, lentamente, tirei a camisa e agitei-a nos ares. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando, em desmaio de cor. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões. Enquanto remava um demorado regresso, me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar os brancos panos da outra margem. (COUTO, 1996, p.13)

       Quando comparamos as narrativas, parece claro que os procedimentos do pai e do avô são animados por objetivos diferentes, geram atitudes diferentes e, nesse sentido, adquirem significados também diversos. No conto brasileiro, a atitude de isolamento do pai, que não apresenta nenhuma justificativa plausível, causa confusão e aflição em seu filho. Já, no conto de Mia Couto, a atitude clara e companheira do avô provoca compreensão e conforto no neto.

      O que os contos nos revelam, então, são modelos de conduta bastante distintos, no que tange à relação entre os mais velhos e os mais novos. Se no conto roseano o saldo da ausência do pai é a ruptura social e familiar e a falta de entendimento, no conto de Mia, a presença do avô determina aprendizado e garante a continuidade das tradições e a manutenção dos valores no interior da família.

      Essas diferenças talvez nos façam pensar sobre a perda dos sentidos imanentes no universo contemporâneo. Como tanto se discute, desde o advento da modernidade, vivemos num universo de valores em crise. Um universo que Rosa configura de forma dramática em seu texto e que Mia Couto, utopicamente, parece querer refrear. Isso, porque o conto brasileiro encena a cisão do sujeito com a linguagem e a quebra do circuito de transmissão do saber; enquanto o conto moçambicano encena a possibilidade de atualização das formas imemoriais da tradição, pautadas nos valores comunitários. Afinal, o fato de o avô navegar com o neto, buscando estabelecer contato com os espíritos que moram nas margens do lago, pressupõe a existência de uma ponte de trânsito livre entre os vivos e os mortos. Trata-se de um dado familiar aos africanos, especialmente aos africanos do interior que compartilham da chamada “lógica da oralidade”.

      Importa dizer que os projetos literários de Mia Couto e de Rosa são marcados por um viés utópico, embora não seja exatamente essa a tônica do conto “A terceira margem do rio”. Em grande parte de seus textos, essa perspectiva esperançosa se traduz na possibilidade de articulação, ainda que tensa, de elementos da tradição e da modernidade, do sertão/savana e da cidade.

      Ao se apresentarem como misturadas, as estórias de Guimarães Rosa e de Mia Couto constroem-se como formas de resistência à hegemonia do conhecimento científico europeu. Abordando os dramas e dilemas que se colocam no cruzamento do oral e do letrado, do rural e do urbano, seus textos nos fazem enfrentar a travessia solitária e enigmática, mas, de certo modo, reconciliadora, da leitura literária. Para encerrar, vale recordar mais uma reflexão de Mia Couto. Ele diz: “o que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo”. (COUTO, 2005, p.110). No seu caso, e também no de Rosa, um “mundo misturado”.

REFERÊNCIAS :

ARRIGUCCI, Davi. “O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa”. 
In: Revista Novos Estudos CEBRAP, 40. São Paulo, novembro, 1994, pp. 7-29. COUTO, Mia. “Nas águas do tempo”. In: Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1996. ______. “O sertão brasileiro na savana moçambicana”. In: Pensatempos. Textos de
opinião
. Maputo: Ndjira, 2005. ROSA, Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1985. SECCO, Carmen Lucia Tindó. “Luandino Vieira e Mia Couto: intertextualidades”. In:
A magia das letras africanas: ensaios sobre as literaturas de Angola e Moçambique e
outros diálogos
. 2. ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2008.