Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

A NEGLIGÊNCIA CONDENSADA, EM “QUANDO FALTA OXIGÊNIO NO BERÇÁRIO”, NA VOZ DE SÓNIA GOMES

THE CONDENSED NEGLIGENCE IN “QUANDO FALTA OXIGÊNIO NO BERÇÁRIO” THROUGH THE VOICE OF SÓNIA GOMES

André Lopes da Silva
Mestre em Literatura e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (UFG)
andrelopesdasilva@yahoo.com.br

  RESUMO: Nesse artigo será abordada a relação entre literatura e sociedade, tendo como ponto de partida a análise do conto “Quando falta oxigênio no berçário”, da escritora angolana Sónia Gomes. Acreditamos que a relação entre literatura e sociedade promove uma discussão madura no que diz respeito às problemáticas sociais que envolvem os textos pertencentes a um macrossistema literário de língua portuguesa. É sob esse enfoque que nossa discussão será concebida, levando em consideração a história, a sociedade e os elementos literários pertencentes à literatura de escritoras angolanas, cuja voz feminina assume plano de destaque.

PALAVRAS-CHAVE : literatura, sociedade, conto, Angola, mulher.

  ABSTRACT: This article is about the relation between literature and society. Its first proposal is the analysis of the short story "Quando falta oxigênio no berçário", of the Angolan writer Sonya Gomes. We believe that the relationship between literature and society promotes a mature discussion with regard to social problems involving the texts belonging to a portuguese literary macro-system. It is from this perspective that our discussion will be designed, taking into account the history, the society and the literary elements that belong to the literature of Angolan writers whose female voices assume prominence.

KEYWORD : literature, society, short story, Angola, woman.

       Uma das escritoras que ainda não alcançou um espaço privilegiado na contística contemporânea de Angola é a autora Antónia Sónia Ilunga Gomes, nascida no Luena, Província do Moxico. Um dos contos que analisaremos nesse artigo está em seu livro mais recente Apenas entre mulheres e outros contos (2008). O conto “Quando falta oxigênio no berçário”, pertencente a esse livro, foi coligido em uma antologia organizada pela União dos Escritores Angolanos, em 2009, coordenada por Domingas de Almeida, intitulada Como se viver fosse assim, que teve o mérito de reunir, além de Sónia Gomes, outros nomes de destaque na prosa contemporânea de Angola, como: Arnaldo Santos, Fragata de Morais, Isaquiel Cori, Manuel Rui, Pepetela, Ondjaki, Marta Santos, para citar alguns.

Sónia Gomes é a segunda e última escritora da coletânea, fato que me chamou a atenção e fez-me dirigir um olhar mais atento aos seus contos, sobretudo, pelo título dado pela escritora ao seu livro de contos: Apenas entre mulheres, que, ao invés de instaurar uma barreira, convocou meu olhar masculino à sua prosa. Um olhar masculino desviado do machismo atuante e crescente em nossa sociedade brasileira. O conto escolhido para análise – “Quando falta oxigênio no berçário” – levou-me a observar um problema que também é presente no Brasil: a negligência em relação à saúde pública, uma das grandes causas das mortes prematuras e, consequentemente, do prolongamento do sofrimento alheio.

       A leitura do conto possibilitou-me relacioná-lo a um problema político e social brasileiro, considerando o sofrimento, a que os menos favorecidos são submetidos, nos departamentos de saúde pública, carentes de médicos, aparelhos, medicações, etc. Em meio ao total descaso, há a instauração de um caos e, nessa circunstância, nós – cidadãos e cidadãs – que necessitamos desses departamentos de saúde, presenciamos, inertes, um drama social irreversível. É a partir da denúncia de problemática semelhante existente em Angola, que pretendo abordar o conto de Sónia Gomes, sob uma perspectiva social, aliada, evidentemente, à análise do construto estético literário.

1- O relato e a perspectiva social:

       Ao falar da literatura angolana nos dias de hoje, século XXI, temos que levar em consideração as mudanças políticas ocorridas em Angola. Esta, hoje, passa por um processo de restauração daquilo que foi devastado pelas guerras, a anticolonial e a civil, e, nesse processo, no auge da globalização e da invasão do ideário neoliberal, torna-se difícil alinhar-se à esquerda e à direita, como nos anos de 1970. Essa dificuldade, contudo, não nos impede de observar que ainda há problemas sem solução, por mero descaso governamental, como ocorre no Brasil e em países, cujo governo mantém relações de conchavo administrativo e industrial com potências imperialistas.

      A denúncia daquilo que não vai bem, seja na política ou na sociedade, encontra espaço nas literaturas de língua portuguesa de ênfase social, como nos lembra o professor Benjamim Abdala Júnior:

O estudo das literaturas de ênfase social dos países de língua oficial portuguesa conduz-nos à problematização das imbricações entre a adesão político-social dos autores engajados e o trabalho artístico que desenvolvem (JUNIOR, 1989, p.11).

       A partir dessa relação de engajamento e trabalho artístico, assumida por alguns escritores angolanos, é que vamos analisar o conto de Sónia Gomes, pois ele nos revela o sofrimento pessoal das mães e, ao mesmo tempo, nos mostra a parcela de negligência que se mistura a esse drama, com ele confundindo-se. Observaremos também como a autora transforma essa problemática em literatura, utilizando-se de estratégias narrativas e descritivas, revelando “a crueldade da vida social, o rebaixamento do nível de humanidade” (LUKÁCS, 1965, p.61).

       A perspectiva de Sónia Gomes em nos mostrar os dramas individuais e o descaso social torna sua literatura a alegoria de uma sociedade acometida por grandes dramas sociais. Contudo, o trabalho estético da linguagem confere literariedade ao texto de Sónia Gomes, afastando-o do relato puramente ideológico. As vivências da autora integram-se à expressão literária, estabelecendo uma relação aproximativa com o leitor. É nesse sentido que sua arte é de agregação, ou seja, é aquela que “se inspira principalmente na experiência coletiva e visa a meios comunicativos acessíveis” (CANDIDO, 2000, p.21).

      O fácil acesso que o leitor tem ao texto de Sónia Gomes deve-se ao fato de ela preferir a expressão vocabular simples e bem cuidada no que diz respeito ao acabamento de seus enunciados. É por meio de uma linguagem despida de maneirismos que a autora constrói uma narrativa próxima de seus leitores. A escolha vocabular simples permite um acesso rápido a sua mensagem, recurso que confere uma abrangência discursiva, angariando a simpatia de um número maior de leitores. O interlocutor de Sónia Gomes não necessita possuir um alto nível de erudição; trata-se do cidadão ou cidadã comum que, facilmente, reconhecerá seus dramas na prosa sincera da autora.

       A sinceridade discursiva de Sónia Gomes impregna seu conto de veracidade, o que, de certa forma, o aproxima do relato jornalístico. Esse relato é alavancado pela elaboração discursiva desenhada pela autora, principalmente na maneira habilidosa como ela desenvolve uma cadência narrativa para a sua prosa, dando-lhe uma movimentação quase cinematográfica. Os subentendidos e as elipses conferem uma atmosfera surpreendente ao conto, pois os intervalos e as situações não narradas ficam bailando na consciência do leitor, que tenta buscar uma solução para os conflitos textuais, conforme acontece, logo no início do conto, no momento em que a narradora menciona o alívio da atmosfera da sala, devido à presença de uma equipe médica mais humana do que a anterior: “Até a própria atmosfera da sala parecia aliviada a despeito dos gritos de dores das companheiras” (GOMES, 2009, p.303). Esse é um dos momentos em que a curiosidade do leitor é instigada a descobrir como era essa equipe anterior e qual a razão de sua substituição.

       O relato literário de Sónia Gomes é ao mesmo tempo poético e denunciador; poético, pois ele revela a poesia dos seres humanos que lutam e as relações inter-humanas, de forma semelhante à salientada, por exemplo, por Georg Lukács: “A íntima poesia da vida é a poesia dos homens que lutam, a poesia das relações inter-humanas, das experiências e ações reais dos homens” (LUKÁCS, 1965, p.60). São as ações concretas, retiradas pela autora da realidade, que configuram seu conto, em que poesia e denúncia social se encontram fortemente relacionadas. Esses elementos evidenciam o engajamento artístico da autora, por meio do qual as ações alienatórias externas são evidenciadas. Dessa maneira, Sónia Gomes instaura uma dialética em sua narrativa, pois, ao observar o indivíduo e a sociedade, ela constrói uma tensão narrativa que leva não apenas à temática social, mas também a questões de ordem pessoal e existencial.

2- O conto e a sua tensão poética e narrativa

       Sem a intenção de apresentar uma discussão sobre a teoria do conto, que é vasta e não caberia neste espaço, recorrerei a teorias consolidadas como, por exemplo, a de André Joles, em seu livro Formas Simples, em que ele, na tentativa de diferenciar o conto da novela, tece considerações bem elucidativas a respeito desses gêneros narrativos.

       De acordo com o pensamento de André Joles, o conto é uma forma narrativa que, geralmente, engloba princípios básicos sobre a língua e a poesia, raciocínio que se coaduna ao nosso, quando observamos uma substância poética no conto de Sónia Gomes. Joles nos esclarece que: “O conto é, precisamente, a forma que requer um estudo prévio, que introduz um debate de princípios básicos sobre a língua e a poesia, e que propicia, simultaneamente, a conclusão e a introdução a todas as formas simples” (JOLES, 1976, p.183). Por ele ser a forma que introduz e conclui as outras formas simples, percebemos sua amplitude e a parceria que esse gênero faz com outros, como, por exemplo, o texto jornalístico e a poesia.

       A parceria do conto com outros gêneros textuais adquire relevo na modernidade; e, na narrativa angolana, não poderia ser diferente, pois, sendo esta parte integrante de um macrossistema literário de língua portuguesa, não se ausenta das confluências que ocorrem entre esses textos, dados pelo “comparatismo entre as literaturas de língua portuguesa” (JUNIOR, 2003, p. 209).

       A professora Walnice Nogueira Galvão, em seu texto “Cinco teses sobre o conto”, presente na antologia de ensaios O Livro do Seminário (1982), defende, na sua definição de conto, a incorporação de outras formas que são possíveis pela ação do conto de contar: “O conto é, pois, definido, antes de mais nada, pela ação de contar; e, desse modo, vem a incorporar as ‘formas simples’, que persistem ainda a seu lado como suas irmãs” (GALVÃO, 1982, p.167). Esse conceito de irmandade desenvolvido por Joles diz respeito à filiação do conto à poesia popular, pertencente a uma coletividade representada pelo povo, de onde derivariam as “formas simples”, em contraposição às “formas artísticas” por ele mencionadas: “a poesia popular sai do coração do Todo; o que entendo por poesia artística sai da alma individual” (JOLES, 1976, p.183).

      A filiação do conto àquilo que sai do coração do Todo, nas palavras de Joles, confirma sua característica de se irmanar a outros gêneros textuais, mantendo suas tensões poéticas e narrativas, confundindo-se vez ou outra com o relato informativo, como nos lembra a professora Walnice Galvão: “O conto, que por natureza é ficção, jogo livre da imaginação, passa a competir com a forma da notícia de jornal; a contradição se instaura entre conto e informação jornalística” (GALVÃO, 1982, p. 169).

      O conto “Quando falta oxigênio no berçário” se equilibra entre o relato e a substância poética, condensando-se em torno de um tema primário, no caso a negligência da enfermeira em negar socorro a um recém-nascido. Considero esse tema primário, pois outros se associarão a ele, como: a altivez da doutora, o sofrimento das mães e até mesmo a culpabilidade da enfermeira que age com negligência. Sem ser moralizante, no sentido estrito, o final do conto revela a enfermeira como uma personagem humana, que, submetida a condições sociais adversas, se torna uma espécie de algoz.

      A trama do conto vai-se desenrolando no plano da surpresa, pois a autora privilegia a descrição dos espaços como elemento complementar das ações das personagens. As metáforas colaboram para a arquitetura das cenas reais, reduzindo as ações das personagens a episódios objetivos, como podemos observar nesses exemplos: “No pequeno espaço, ouvia-se apenas o som dos gemidos por duas parturientes.” (GOMES, 2009, p.303); “Estavam sob o cuidado do pessoal de um novo turno. Era tão diferente o tratamento que recebiam destes profissionais que a menina sentia-se como se tivesse sido transportada do inferno para o paraíso” (GOMES, 2009, p.303).

      Nessa primeira parte do conto, tudo parece tranquilo com a chegada da nova equipe, mais cuidadosa, apesar dos gemidos das parturientes, da sala abafada e pequena, ou seja, de um espaço que oprime as meninas que darão a luz a bebês. Nesse espaço minúsculo, surge a oportunidade de alivio, conforto e segurança, como se constata no seguinte trecho:

Por algum tempo, além dos gemidos ouvia-se um ruído leve de passos que cessou com a chegada à sala da Doutora. A mulher corpulenta e alta parou entretanto á porta. Percorreu a sala com o olhar. A sua presença não inquietava as parturientes, pelo contrário reforçava a sensação de segurança (GOMES, 2009, p.303).

       A figura da doutora nos faz lembrar uma mulher altiva, matriarcal, que, apenas pela sua presença, consegue acalentar. Ela se mostra oposta à figura da enfermeira, que nega socorro ao recém-nascido, como explanaremos mais adiante. A presença da doutora aplaca o sofrimento em que as parturientes se encontravam, antes da chegada de sua equipe. Esse gesto de ternura é evidenciado pela maneira como ela se dirige a Elisa, uma das parturientes: “Devagar, dirigiu-se ao leito em que estava Elisa. – Então, menina, já te decidiste? Falava num tom carinhoso e o seu olhar estava repleto de ternura” (GOMES, 2009, p.303).

       É nesse clima de gentileza e zelo, entrecortado pelos avisos de cuidado da doutora para Elisa, que a primeira parte do conto se desenvolve: ” – O bebê não pode permanecer muito tempo na barriga depois da bolsa de água rasgar-se, ele entra em sofrimento” (GOMES, 2009, p.303). A voz gentil e maternal da doutora estabelece uma relação de simpatia entre ela e as pacientes. A gentileza da médica logo dá lugar à preocupação, pois ela prontamente verifica que algo não vai bem: “Vinte e quatro horas depois do começo do trabalho de parto caracterizado por dores lentas e leves, a doutora informara-lhe de que algo corria mal” (GOMES, 2009, p.303). Nesse momento, a narradora prepara um momento de tensão que antecipa, mas não revela, o momento de maior suspense e conflito do conto.

       A voz da narradora interfere em poucas ocasiões, dando autonomia às personagens. As interferências dela são marcadas por uma dicção poética, que aponta para o sofrimento das parturientes. Esses são momentos que podemos considerar como canais poéticos dentro dessa narrativa, pois eles são capazes de estabelecer uma proximidade afetiva com o leitor, como podemos observar no seguinte trecho:

Elisa baixou o olhar para a própria barriga, depois olhou para a obstetra e uma vez mais verificou que aquelas mulheres tinham, em relação às do turno da véspera, uma maneira diferente de falar e tratar as pacientes: sempre com delicadeza e diligência (GOMES, 2009, p.304).

       Dessa forma, Elisa se prepara com tranquilidade para o seu parto e é com esse sentimento que a personagem vai para a obstetrícia, alheia às surpresas que lhe aguardam. É pela linguagem do conto e pelas situações narradas que associamos o texto de Sónia Gomes a muitos fatos da nossa realidade brasileira, também exaustivamente estampados na imprensa. Esse tipo de procedimento só é possível pelas técnicas empregadas nos contos contemporâneos, que, ao desbastarem a linguagem narrativa de “clichês mortos”, torna esta mais acessível, como nos lembra Fábio Lucas:

Na verdade, a visão moderna do conto encarregou-se de despojar a narrativa curta de seu tratamento pomposo e prolixo, tratou de cortar uma floresta de verbosidade, desbastou a escrita de clichês mortos (LUCAS, 1982, p.120-121).

       A partir desse mecanismo de desbastamento da linguagem, é que vamos encontrar patterns literários suficientes para melhor compreendermos a tensão poética e narrativa no conto de Sónia Gomes. Ademais, podemos afirmar também que o espaço degradado e as cenas dramáticas instituem, no conto de Sônia Gomes, uma tensão poética, lembrando que essa intensa poeticidade está aliada ao teor de humanidade que a autora confere às suas personagens.

3- Os elementos estruturadores da narrativa

       Um dos aspectos mais marcantes que qualifica o conto de Sónia Gomes é a maneira como ela explana acerca do comportamento humano, nos mostrando que, de fato, ele é ambivalente e multifacetado. A transparência com que a autora mostra isso impede qualquer tipo de julgamento cerrado e unilateral das atitudes de suas personagens, pois estas são bastante humanas e verossímeis.

      Usando de uma técnica apropriada, a autora consegue recortar da realidade situações cotidianas e transportá-las para a ficção, sem prejudicar a essência dos fenômenos. Isso ocorre pela adoção de uma linguagem enxuta. O cuidado com a linguagem, num estilo direto, também auxilia a sedimentação da trama narrativa, tornando o conto compacto. Com esse tipo de alicerce linguístico, a autora sente-se à vontade para criar suas personagens com características bastante humanas, fazendo com que nós, leitores, reconheçamos cada uma delas.

       Do início ao fim do conto, nossos olhos são lançados para fora da narrativa, repousando em uma realidade alheia ao sentimento humano. A autora comprova que as relações humanas estão-se esvaindo e criando uma situação social desfavorecedora em relação ao cooperativismo solidário. No conto, o ser humano é resultado de suas ações, e suas escolhas definirão sua conduta, pois não nos cabe julgar a ação das personagens, mas, sim, constatar um fato que afeta milhões de pessoas e que a habilidade da autora condensou no curto espaço do conto.

      Um dos aspectos mais marcantes, no que diz respeito à caracterização das personagens, é a presença do individualismo da enfermeira Elisabeth, sobrepujando a cooperação da doutora Carla, como podemos comprovar nesses trechos: “- Doutora Carla, por que demorou tanto o meu parto? A obstetra aproximou-se mais da parturiente. Permaneceu calada, fitando-a. Pensava em como responderia aquela pergunta” (GOMES, 2009, p.304). Seguidamente, a atitude de Elisabeth inverte o clima de gentileza e zelo do hospital, instaurando uma atmosfera de descaso e prepotência, ao negar socorro à criança doente que necessitava de uma incubadora:

–Nenhuma delas está a funcionar. Há vários dias que o Berçário não é abastecido de oxigênio. Era falsa a sua afirmação. Havia uma a funcionar. Mas como sempre quando ela notava esgotar-se o oxigênio, ela fazia uma reserva para o caso de surgir a necessidade de usá-lo com o bebé de um parente, ou de alguém que pudesse lhe valer com algum dinheiro (GOMES, 2009, p. 306).

       A atitude de Elisabeth era prática e bem funcional; mas ela agia sempre a favor dela; até então, contudo, seu procedimento nunca criara problemas. Desse momento até o final do conto, a situação se inverte, dando lugar a um quadro dramático na vida da enfermeira que nega socorro a um bebê, que, mais tarde, ela descobre ser seu sobrinho. O proceder de Elisabeth, permeado de ironia, coloca-a em um patamar ilusório, acima das suas colegas e, até mesmo, da diretoria do Hospital.

       O protesto de uma de suas colegas pouco adiantou, pois a atitude de Elisabeth já era cristalizada; nesse momento, a enfermeira tornou-se uma espécie de “senhora do destino” dos recém-nascidos doentes: “ – Mas então o que vai acontecer com o bebé? Houve um novo silêncio. De costas para a janela, Elisabeth apoiou ambas as mãos no parapeito. Sentenciou, então: – O mesmo que tem acontecido com os outros... morrer!” (GOMES, 2009, p. 306).

       Esse episódio que antecipa o clímax do conto é trabalhado com maturidade pela autora, pois é aí que percebemos a potência da unidade de efeito, elaborada ao molde da técnica desenvolvida por Poe: “no conto breve, o autor é capaz de realizar a plenitude de sua intenção.” (POE. Apud: GOTLIB, 2002, p. 33).

      A intenção da autora é clara: mostrar um problema social que continua atingindo os menos favorecidos. Em meio à exposição desse problema, existe também um desfecho dramático, envolvendo a enfermeira Elisabeth, o que, de certa forma, confere literariedade ao conto, pois demonstra, de modo claro, o “domínio do autor sobre os seus materiais narrativos” (GOTLIB, 2002, p. 34).

      A problemática social e a substância dramático-literária que permeia o conto são elementos estruturadores da narrativa. Esses elementos convocam o interesse do leitor para o assunto a ser tratado ou, nas palavras de Julio Cortázar, “identifica o acontecimento como sendo o grande instrumento de causar interesse no leitor” (GOTLIB, 2002, p.37). O acontecimento narrado por Sónia Gomes condensa o tema central da narrativa: a negligência recorrente na saúde pública, cuja repetição insistente justifica “a capacidade de marcar o leitor, prendendo-lhe a atenção (...)” (GOTLIB, 2002, p.43).

       No momento final, nos deparamos com a tensão máxima do conto, pois a sequência de eventos ocorridos, após a enfermeira negar socorro à criança, prende a nossa atenção, compactando a narrativa pela sua brevidade: No que diz respeito a essa brevidade, Tchekhov, lembrado pela professora Gotlib, também considera necessário ao conto causar esse efeito de condensação ou o que ele denomina de impressão total no leitor, que “deve sempre ser mantido em suspense’” (GOTLIB, 2002, p. 42).

      O suspense, no conto por nós analisado, persiste em relação ao destino da enfermeira Elisabeth, pois a autora revela o que ocorrerá à criança, exceto à enfermeira:

- Elisabeth. O médico cruzou os braços nas costas e baixou o olhar para os próprios pés e disse: - Aqueles minutos, privado da respiração... foram suficientes para o menino perder o oxigênio que lhe afectou o cérebro. Encarou-a então resolutamente: - O rapaz terá um desenvolvimento retardado (GOMES, 2009, p.309-310).

       É nesse aspecto que o conto se aproxima das considerações de Poe, uma vez fica evidente a habilidade da autora em tratar a matéria literária escolhida para a elaboração da sua narrativa. A denúncia social e o drama humano se irmanam, no conto de Sónia Gomes, conferindo a esse texto um valor poético, uma vez que a autora conseguir tratar com argúcia e comprometimento a linguagem do conto e os temas sociais abordados, sem deixar de trabalhar literariamente a narrativa engendrada.

REFERÊNCIAS :

CANDIDO, Antonio. “A literatura e a vida social“. In: Literatura e sociedade.  São Paulo:
Publifolha, 2000. GALVAO, Walnice Nogueira. “Cinco teses sobre o conto”. In: O livro do seminário. São
Paulo: LR Editores, 1982. GOMES, Sónia. “Quando falta oxigênio no berçário”. In: Como se viver fosse assim.
Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2009. GOTLIB, Nádia Battella. Teoria sobre o conto. São Paulo: Ática, 2002. JOLES, André. Formas simples. São Paulo: Cultrix, 1976. JUNIOR, Benjamin Abdala. Literatura, história e política. São Paulo: Ática, 1989. LUCAS, Fábio. “O conto no Brasil Moderno“.In: O livro do seminário. São Paulo: LR
Editores, 1982. LUKÁCS, Georg. “Narrar e descrever”. In: Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1965.