Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

MATILDE VAN DUN E O DESEJO QUE ALIMENTA A VISÃO

Matilde van dun and the wish that feeds the vision

Vanessa Ribeiro Teixeira
Doutora em Literaturas Portuguesa e Africanas pela UFRJ
E-mail: vanessarteixeira@gmail.com

  RESUMO: Matilde Van Dum, através dos seus poderes de pitonisa, dialoga constamente com a possibilidade de criação de novas formas de compreensão dos meandros da história e do desejo feminino. As visões de futuro da bela filha de Baltazar Van Dum propiciam uma articulação diferenciada da memória que, a partir desse momento, não se sustentará apenas sobre os pilares do passado, antes pautar-se-á, com base em realidades diversas, projetadas, em imagens a serem projetadas no vir a ser. A visão especial de Matilde, alimentada pelo desejo, ilustra bem o fato de que tanto a história quanto a memória estão longe de serem construídas somente a partir dos fatos, pois dependem diretamente de uma instância subjetiva que pode carregar consigo não só a verdade que foi, mas também aquela que poderia ter sido.

PALAVRAS-CHAVE : crítica literária, Pepetela, romance angolano, sentidos físicos.

  ABSTRACT: Through her divining powers, Matilde Van Dum opens a constant dialogue with the possibility of creating new ways to comprehend history's secret curves and feminine wishes. The visions of the future of the beautiful Baltazar's daughter produce different forms to recreate memory. This memory doesn't work only with the past, it is also based on images projected in the future. Matilde's special vision, which is related to desire, shows us that the history and the memory depend less from the facts than from a subjectiviness that can bring not only what happened, but also what could have happened.

KEYWORDS : literary criticism, Pepetela, Angola's novel, body sensations.

       Em A gloriosa família – o tempo dos flamengos, Matilde Van Dum, a geniosa filha do patriarca Baltazar Van Dum, surge como um elemento singular na trama, pois possui um olhar diferenciado, que alcança espaços para além do seu próprio e, principalmente, consegue avistar as realidades futuras para o seu mundo.

      Matilde era a quarta filha legítima do flamengo Baltazar Van Dum, fruto de seu casamento com D. Inocência. Desde as primeiras páginas da narrativa, os mistérios que cercam a singularidade de sua visão potencializada tornam-se alvo da curiosidade e do temor do narrador. A moça nos é apresentada por conta de sua participação numa surpreendente iniciativa que marcou outro membro da família Van Dum, Gertrudes, sua irmã mais velha:

(...) Gertrudes espantou a cidade inteira quando no momento de dar o nome ao primogénito exigiu trocar a ordem dos apelidos, isto é, em vez de António Van Dum Pereira, como era uso, se pusesse o seu no fim. E ficou mesmo António Pereira Van Dum, pois o marido no fundo dava muito pouca importância ao seu apelido de circunstância. Gertrudes fez esta exigência, como mais tarde confessou à família, porque Matilde, sua irmã mais nova, muito bonita, mas também muito bruxa, inclinada a visões e profecias, lhe confidenciou numa noite de trovoada, propícia para essas coisas, que o pai estava a dar origem a uma linhagem notável, nas suas palavras, uma gloriosa família, e ela queria que seus netos e bisnetos carregassem o nome ilustre de Van Dum. Se ficasse o Pereira no fim, em duas gerações o glorioso nome desapareceria, em detrimento do arranjado para esconder o apelido judeu. (PEPETELA, 1999, p. 22-23)

       Tal como podemos notar, essa personagem feminina assume um importante papel dentro do arcabouço ficcional, visto que, nas suas palavras, encontramos não só o título da referida obra, mas também os motivos que o criaram. A irmã vidente de Gertrudes pertence à “gloriosa família”; é filha de um comerciante que, por muito tempo, teve livre acesso às instâncias dos poderes político e econômico da cidade de Luanda. No entanto, a posição privilegiada que identifica essa mulher não a impede de ser reconhecida sob o signo da diferença, seja por conta de seus dons divinatórios, seja em razão de sua personalidade forte, por vezes rebelde, que tanto dista da condição de outras mulheres da família.

      Algumas peças-chave da construção narrativa do romance de Pepetela estão associadas à figura de Matilde; podemos intuir que tamanha responsabilidade é atribuída a tal personagem, ainda que de maneira bastante sutil, por conta da atitude subversiva que a identifica e sobre a qual nos deteremos nas próximas páginas. Matilde é uma mulher à frente de seu tempo e a sua visão diferenciada, reveladora das coisas futuras, funciona como uma alegoria dessa sua faculdade. Em conversa com um interessante e “vigoroso” jesuíta – um dos seus enamorados – Matilde deixa clara sua visão do mundo dos homens, pouco condizente com os padrões da época, além de revelar o seu dom de visionária:

– Eu não vejo as coisas como vocês, religiosos – atirou ela, provocadora.– Nem tudo é mau, nem tudo tem pecado. A vida tem muitas coisas boas e bonitas, que nos dão prazer, sem pecarmos. (...) – É pecado ter visões, adivinhar o que vai acontecer? Porque eu muitas vezes adivinho. Não faço de propósito, só que vejo as coisas com tal clareza que fico com a certeza, isto vai acontecer. – E acontece? – Sim, quase sempre. São artes do demónio? (...) – Olhe, vou confessar uma coisa. Sei que os flamengos vão ficar aqui sete anos. Desde o dia da chegada ao da partida vão passar exactos sete anos. Vi no dia em que chegaram. Vejo isso constantemente escrito no céu. – Vês? Escrito? Escrito no céu? – Gravado a fogo no céu. (...) – Tens a certeza que vai acontecer? – Nunca tive uma visão tão forte. Por vezes as coisas não acontecem como imagino, mas é porque não as tinha de facto visto nitidamente. Mas quando as vejo nítidas nunca falha. E desta vez então, é tão claro que até me faz piscar os olhos, a frase gravada a fogo queima-me. Juro! (PEPETELA, 1999, p. 48-50)

       No romance de Pepetela, Matilde Van Dum é aquela que questiona a validade da noção de pecado impetrada pela tradição do catolicismo. Essa mulher está sempre a desafiar as instituições oficiais, ao indagar sobre seus princípios. Dentro da estrutura sócio-cultural predominante nos domínios da coroa portuguesa no século XVII, questionar é já um indício de rebeldia e transgressão em relação às verdades oficiais normatizantes. Neste diálogo com o padre jesuíta, deparamo-nos com a frase salutar proferida por Matilde: “nem tudo é pecado”. Não podemos esquecer que todo o Império Português vive sob a sombra das garras da Inquisição, que, de acordo com a reflexão do clérigo deslocado para Luanda, “(...) decide o que é de Deus e o que é do demónio (...).” (PEPETELA, 1999, p. 50).

      Na arquitetura romanesca, a personagem reafirma sua importância, se levarmos em conta o fato de que as suas misteriosas revelações indicam o tempo específico do desenrolar diegético: os sete anos da presença holandesa no território angolano. Suas profecias determinam, com exatidão, o início e o final da trama. Tal atitude, que poderia levar o leitor a desinteressar-se pela leitura, visto o anúncio antecipado do desfecho, ao contrário, incita-o a aventurar-se pelos bastidores da história que leva o governo de Angola a ser transferido de mãos nesse embate de interesses entre potências européias, nomeadamente Portugal e Holanda. Matilde e sua visão maximizada parecem vir arrematando a tecedura histórica recriada ficcionalmente e apresentada no romance A gloriosa família – o tempo dos flamengos.

      Por outro lado, a articulação de uma visão sobre aquilo que ainda não há e a consequente formulação de uma outra realidade possível a partir dessa visão em muito aproxima o dom de Matilde do exercício de criação impetrado pelo próprio narrador da obra de Pepetela. Se, em certo momento, Matilde afirma que, às vezes, “(...) as coisas não acontecem como imagino, mas é porque não as tinha de facto visto nitidamente” (PEPETELA, 1999, p. 50), o escravo-mudo, narrador do romance, por sua vez, é taxativo quando diz “eu imaginava, portanto tinha a certeza” (PEPETELA, 1999, p. 202). Estamos diante de duas formas de criação de realidades que dependem da instância imaginativa. As visões do futuro apresentadas por Matilde estão tão condicionadas às desenvolturas da imaginação, quanto as visões do passado que sustentam o recontar da história, articulado pelo narrador-escravo.

       Voltando à configuração da personagem, podemos inferir que seus questionamentos sobre a noção de pecado, verbalizados na conversa com o padre, ilustram, de maneira bastante pontual, a curiosa personalidade de uma mulher guiada pelo desejo, condição essa que caracteriza praticamente todas as suas atitudes, reveladas ao longo do romance. O diálogo com o jesuíta continua e Matilde sente arder a fogueira que existe dentro de si:

– Ser dominado sete anos é uma boa mensagem, padre? Pensei que não fosse. Não acha que devo pedir de qualquer modo a absolvição? – Não creio, não cometeste pecado. Mas não contes a mais ninguém, nunca se sabe como isso pode ser interpretado. Matilde, segundo contou à irmã, mudou então de postura. Até aí estava em atitude de humildade e alguma preocupação. Devia ser ele a tomar a iniciativa, era muito mais velho e sobretudo era homem. Mas tímido de mais. Soltei-me, disse ela, atirei tudo para o ar, nem queria saber o que ele podia pensar, era uma força interior, um grito impossível de calar, um fogo, uma sarça ardente que não dava para apagar. – Me absolva, padre, me absolva. Matilde se levantou encostou às pernas dele, olhando-o nos olhos. O padre estava encurralado pelo tronco, não podia recuar. Matilde se chegou mais, me absolva, padre, me absolva. O jesuíta balbuciou o começo de uma oração com os lábios entreabertos, meteu uma mão por baixo dos saiotes dela, sentiu o calor, revolveu os olhos. Ela o puxou e caíram abraçados no chão. E o padre absolveu-a no capim, nas palavras dela, misturadas com risinhos. (PEPETELA, 1999, p. 50-51)

       Ao longo deste diálogo, somos apresentados, num único momento, às características determinantes da personagem: a singularidade de sua visão extraordinária que vê o que está à frente e não é alcançado por olhos comuns e a sua personalidade “vanguardista”, no que diz respeito às artimanhas da sedução e ao saciamento de seus desejos. Matilde Van Dum se unirá a quantos homens desejar, simplesmente porque é bom e sente prazer e, assim sendo, não pode ser considerado pecado. A personagem insiste em se agarrar à única forma de liberdade que parece estar inteiramente em suas mãos: os direitos sobre o seu próprio corpo e a realização dos desejos de sua libido.

      Retomando o diálogo revelador entre Matilde Van Dum e o padre jesuíta, podemos destacar alguns elementos que contribuem para uma configuração alegórica da personagem. Atentemos, principalmente para a forma como as revelações surgem diante dos olhos da filha de Baltazar. Segundo suas declarações, Matilde vê “uma frase gravada a fogo” escrita no céu. Temos aí pelo menos dois universos simbólicos a serem observados. A partir da relação entre fogo e céu, poderíamos imaginar que as frases que surgem diante de seus olhos podem ser comparadas ao surgimento de raios ou relâmpagos. As simbologias representadas por esses elementos estão, de maneira geral, divididas entre as experiências de revelação divina e as manifestações do desejo sexual humano; curiosamente, em determinadas culturas, essas leituras simbólicas estão diretamente associadas.

      No que se refere ao fogo, por exemplo, é sabido que a significação sexual desse elemento natural está ligada, universalmente, à primeira das técnicas usadas para sua obtenção: por meio da fricção, num movimento de vaivém, alcançamos uma imagem primordial do ato sexual. A relação entre o relâmpago e a sexualidade é, em algumas culturas, bastante próxima. Em determinadas sociedades primevas, a manifestação do relâmpago é comparada à emissão do esperma e simboliza o ato viril de Deus na criação. Para a comunidade aborígene australiana, por exemplo, o relâmpago é um pênis em crescimento. A bela Matilde Van Dum vê uma clareira no céu que lhe revela o futuro e, mais do que isso, alimenta ainda mais o fogo do seu desejo. Ou seria o arder crescente do seu corpo que estaria alimentando suas visões? De qualquer forma, para a construção da personalidade de Matilde, sua veia de pitonisa não pode ser dissociada da constante necessidade de saciar os desejos de seu corpo.

      Por outro lado, o elemento fogo, tão caro à configuração da personagem, também é constantemente relacionado aos poderes divinatórios, sustentando a ponte entre o humano e o divino. Para o povo bambara, por exemplo, o fogo terrestre – ctoniano – está ligado à sabedoria humana, enquanto o fogo celeste – uraniano – associa-se à sabedoria divina. Em uma sociedade em que o humano está subjugado ao divino, o fogo terrestre seria devedor do fogo celeste, o que nos faz lembrar o mito de Prometeu. Sabemos que o famoso Titã, filho de Jápeto e Clímene e, portanto, primo de Zeus, teria ludibriado o deus do Olimpo, roubando-lhe uma centelha do fogo celeste para entregá-la aos homens perdidos na escuridão. Entretanto, sabe-se também que tamanha ousadia em favor dos humanos fora duramente castigada.

      A conquista do fogo, realizada por Prometeu, é geralmente celebrada por conta da sua funcionalidade prática, um meio de facilitar e garantir a sobrevivência humana. Por outro lado, o mito também simboliza a possibilidade de os homens compartilharem os dons divinatórios, ligados, sobretudo, às visões do futuro, com os senhores do Olimpo. Prometheús deriva de promethes, “previdente, precavido”, donde é aquele que “vê, percebe ou pensa antes”. Não era à toa que o valoroso Titã detinha poderes divinatórios.

      Voltando ao romance de Pepetela, de acordo com essa leitura sobre as relações entre o humano e o divino por meio do fogo, podemos inferir, de maneira intrigante, que Matilde, justamente aquela que está sempre a questionar e, principalmente, a violar os tabus “impetrados” por Deus, é quem mais se aproxima de suas capacidades superiores. Matilde recebe o clarão da revelação divina, tem o dom de ver as mensagens trazidas por esse fogo; por outro lado, transforma o seu dom numa fogueira de desejo, iluminando todos os homens eleitos por seus olhos.

       Neste momento, recorremos às palavras de Marilena Chauí, quando faz referência ao ver intuitivo, um tipo de olhar que atravessa a realidade comumente visível e penetra em subjetividades singulares:

O olhar na e da intuição não é simples video, nem simplesmente specio-specto. Sua referência é à visão numa outra família, a de perspectio: conhecimento cabal, pleno, completo, cujo ato se diz perspecto, olhar por e para todas as partes e em todas as direções com atenção. E seu resultado se diz perspicio: ver e conhecer perfeitamente, aperceber-se, ver através, atravessar com a vista, perscrutar. Esse olhar que se apercebe, atento, penetrante, atravessador e reflexivo é o de um olho perspicax (perspicaz, engenhoso) que vê perspicue (claramente, manifestamente, evidentemente) porque dotado de uma qualidade fundamental que reencontra no visível e que, dali, por mutação, transmite ao espírito e ao intelecto: a perspicuitas, clareza e distinção do transparente. Esse olhar é o único capaz de vidência perfeita, a evidentia, posta como marca distintiva do verdadeiro. (CHAUÍ. In: NOVAES, 1988, p. 37)

       A visão potencializada de Matilde, que consegue antever outras realidades através dos tempos, permite que ela se desloque dentro de um universo de conhecimento profundo. Entretanto, esse conhecimento, longe de estar concentrado num mundo fora do homem, é condicionado pela atuação da sensibilidade humana no mundo. A possibilidade de ver “claramente, manifestamente” determinadas realidades ocultas nasce da interação do corpo de Matilde – e de seus sentidos – com o mundo. Neste contexto, voltamos a falar duma interdependência sensorial, pois, se, por um lado, sua visão é especial, por outro, o tato – domínio da pele que congrega os espaços de todos os sentidos por insistir no contato com o corpo do outro – vai contribuir para a afirmação de sua personalidade. A visão de Matilde está em constante sintonia com a manifestação dos demais sentidos; tal como afirma Michel Serres, “(...) o sensível, em geral, mantém juntos todos os sentidos, como um laço ou trevo generalizado, todas as dimensões e todos os conteúdos.” (SERRES, 2005, p. 313).

      Somos parte do mundo e, consequentemente, construímos a sua história. Diríamos o mesmo, se afirmássemos que a história do mundo começa no nosso corpo. Quando nos referimos ao ato de ver e o compreendemos como um sinônimo de conhecer, intuímos que a própria construção da história dos homens encontra-se intimamente ligada à atuação dos nossos sentidos. Sabemos que toda ciência depende de uma subjetividade atuante, ainda que a mesma busque a neutralidade. No fundo, essa busca deixará marcas pessoais inerentes a uma determinada leitura de mundo. Enquanto o narrador d'A gloriosa família propõe contar a história da presença holandesa em Angola a partir de uma “outra versão”– versão essa formulada pelas suas memórias, pela sua imaginação, e impulsionada por um desejo de questionamento do discurso oficial –, as visões futuras de Matilde, condicionadas pelas atuações dos seus sentidos, proporcionarão, no espaço diegético, a concepção de uma outra realidade histórica, diferente daquela observada em seu próprio tempo. Estar à frente do seu tempo significa, para Matilde, a possibilidade de poder, desde já, articular uma postura crítica e questionadora frente às leis correntes do tempo e do lugar. Não é justamente essa a perspectiva que move os novos historiadores, preocupados em fazer uma leitura crítica, elucidativa, e não meramente quantitativa, das marcas que o passado legou ao presente? (TODOROV, 2002, p. 144-5).

      As paixões e os desejos despertados também têm sua parcela de contribuição na construção da história universal. No fim das contas, é sempre de homens que falamos. Não seria diferente com Matilde Van Dum que, com seus olhos azuis e suas belas formas, vai apimentando a recriação da história da capital de Angola em meados do século XVII. A filha bruxa de Baltazar Van Dum está sempre a dar provas do seu espírito transgressor e insubmisso. Lembremos das revelações do narrador acerca de seu comportamento, pouco ou nada usual, durante a festa de casamento de seu irmão Rodrigo com Cristina Corte Real, a filha do governador da Ilha de Luanda:

As mulheres se colocaram de um lado, sentadas sobre esteiras, e os homens conversavam em grupos, afastados delas. Mas Matilde estava no meio de uma roda de oficiais mafulos, treinando o flamengo que aprendera com o pai, como nós todos. Fui observando esse grupo e logo distingui o que devia ser o tenente Jean du Plessis. Se todos comiam Matilde com os olhos, esse oficial estava mais derretido que os outros e ela o mirava de vez em quando de maneira especial. (PEPETELA, 1999, p. 103)

       Sem qualquer cerimônia, Matilde participa da roda formada por um grupo de homens como se essa fosse uma atitude comum. Mais do que isso: Matilde parece fazer questão de estar na contramão do comportamento habitual das mulheres locais. Suas artimanhas de sedução abraçam o universo masculino, de forma a concentrar a atenção de todos os homens interessantes sobre si. No entanto, suas investidas parecem ter acertado em cheio uma figura em especial, o tenente francês Jean du Plessis, que nos é apresentado pelo narrador da seguinte forma:

(...) Jean du Plessis, se as minhas deduções não estivessem erradas, o que dificilmente sucede, era o mais baixo do grupo. Moreno, mas mais branco que os portugueses. Tinha barba negra pontiaguda e bigode de pontas reviradas, o que o distinguia dos outros, que tinham barbas ruivas ou louras. Não sei porquê, essas coisas não se explicam, são só intuições, mas me pareceu alguém inofensivo, de fraco carácter, o que era estranho se tratando de um oficial, correndo atrás de aventura e de dinheiro nos mares dos trópicos. (PEPETELA, 1999, p. 103)

       A essa altura, o tenente Jean du Plessis já era o namorado secreto da bela Matilde, como a mesma teria revelado à sua irmã e confidente Catarina. Entretanto, se atentarmos para as descrições efetuadas pelo narrador, baseadas em suas intuições, poderíamos nos perguntar: Por que justamente o tenente du Plessis, quando o mesmo apresenta uma personalidade tão distinta daquela que caracteriza a filha de Baltazar? A resposta que se insinua é a seguinte: Jean du Plessis está longe de ser um Dom Juan, vestido com o uniforme do exército holandês; o seu papel no relacionamento com Matilde não é de agente, mas, ao contrário, de paciente. Assim como Matilde apresenta uma personalidade diferente da maioria das mulheres, Du Plessis é diferenciado da maioria de seus iguais, primeiro, por suas características físicas e, na sequência, por conta de sua “fraqueza”, perspicazmente intuída pelo narrador. Lembremos que Jean é, ao mesmo tempo, o “mais baixo do grupo” e um ser “inofensivo”, qualidades estas que o distancia, irremediavelmente, dos demais oficiais. Matilde demonstra ser uma autêntica conquistadora, assumindo o papel dominante na relação com o militar. Poderíamos dizer que, enquanto os soldados que a cercam a “comem com os olhos”, a bela moça se alimenta do olhar embevecido de Jean du Plessis que se vai derretendo diante da amada. A presença altiva e insubmissa da jovem permite com que ela, ainda que comprometida em segredo, se entregue em diálogos de sentido duvidoso com outros militares mafulos.

      Em razão desse jogo de sedução, Jean du Plessis é inteiramente submisso à Matilde. A mesma independência que essa representante da família Van Dum demonstra ter em relação à autoridade do pai – haja vista que a mesma não parece nada preocupada em estar cercada de homens diante de todos – é refletida na relação com o tenente apaixonado. Para o desespero de Baltazar, Matilde não parece em nada com o retrato ideal das mulheres da época, baseado no comportamento exemplar das portuguesas que eram almejadas até mesmo pelos militares do exército holandês. Como aponta o major Gerrit Tack, são essas “(...) as mulheres que tanto apreciamos, por serem humildes e não cornearem os maridos.” (PEPETELA, 1999, p. 58)

       O narrador parece não se ter enganado e a “fraqueza de carácter” de Jean du Plessis é logo constatada quando Matilde lhe anuncia a repentina gravidez. Em nova conversa com Catarina, Matilde revela seu segredo e descreve a cena em que informara o tenente francês sobre o “acidente”:

– Já lhe disseste que estás grávida? – Já. – E ele? – Ia desmaiando. Depois perguntou se eu tinha a certeza que o filho era dele. – E tu? – Mandei-o à merda. Não era mesmo para lá que ele merecia ir? Não me admirei. A Matilde é uma forte personalidade, toda a gente se apercebe imediatamente disso. E bem me pareceu logo à primeira que o tenente Jean du Plessis é um fraco de vontade. Outro qualquer teria desafiado o Joost Van Koin para um duelo, depois de saírem da Ilha, na noite do casamento. Sem escândalo, discretamente. Ou pelo menos ameaçado, mato-te se voltares a atirar-te à minha pequena. Nem deve ter tido coragem de dizer que amava Matilde. Como fará ele para comandar homens? Ou é daqueles oficiais que só exercem o cargo nas cortes e nas danças de salão, sem nunca pisarem o terreno ardente de uma batalha? (PEPETELA, 1999, p. 117)

       Com o desenrolar da trama, a audaciosa Matilde, impulsionada por uma coragem singular, revela seu segredo ao pai, que, após muito esbravejar, vai fazer prevalecer a vontade da filha e a honra do nome dos Van Dum. A bela mulata e o tenente francês casam-se. Esse é mais um passo para a configuração do domínio que essa pitonisa de olhos azuis exerce sobre a figura de Du Plessis. Matilde Van Dum leva os homens que a cercam a saciarem suas vontades e realizarem seus desejos. Será o poder de seus olhos? Até mesmo Dimuka, o maldito carrasco, teme o alcance de seus poderes extraordinários e torna-se seu vassalo. Como a mesma afirma,

– (...) esse não mete medo. Pois o maldito, como dizes, já descobriu há muito tempo. Mas não abrirá a boca. Percebi que ele vinha atrás de mim, logo da primeira vez. Uma intuição, sabes como é, das que eu tenho. E lhe avisei, se vires alguma coisa e se quiseres contar alguma coisa do que vires, eu faço de maneira que só cobras vão sair da tua boca, até morreres. (PEPETELA, 1999, p. 122)

       Com o auxílio de seus poderes extraordinários, Matilde mantinha até mesmo os homens mais ameaçadores sob seu jugo. Foi o temor às maldições dela que fez com que o carrasco Dimuka pudesse, finalmente, ser visto em suas reais dimensões, o que, de certa forma, veio a enfraquecer o seu poder e autoridade sobre os escravos a ele subjugados:

Tive o prazer de ver o Dimuka de olhos baixos, procurando um buraco onde esgaravatar o pé. Gostava de nos meter medo? Pois agora era ele que estava quase a tremer. Dividido entre dois medos. O do meu dono e o do feitiço. Quem triunfaria? Não tinha dúvidas, a fidelidade a Matilde tinha de ser mais forte. Entretanto rebolava a vista, mexia com o pé no chão, mudo como eu. Pela primeira vez o via nas suas reais dimensões. A nós, os escravos, parecia sempre um monstro enorme, um ser de horror. Afinal era um homem normal, até mais baixo que Baltazar, o qual era menor que um mafulo médio. (PEPETELA, 1999, p. 130)

       Os dons ameaçadores de Matilde Van Dum propiciaram, portanto, o desvelamento de determinadas realidades camufladas, entre elas, as “reais dimensões” do negro Dimuka. É por conta das incríveis manifestações da sua “memória do por vir”, das suas visões e maldições de futuros, que algumas verdades soterradas pelas exigências do poder instituído – neste caso, dentro da sanzala dos Van Dum – começam a emergir. Diante dos atributos especiais da mulata, não podemos deixar de compará-la à pitonisa grega Cassandra. Segundo a etimologia do seu nome, Cassandra – da forma mais antiga Κεσ(σ)ανδρα (Kes(s)ándra) – provém, muito provavelmente, “(...) de um radical κασ- (kas-) que se encontraria no perfeito κεκασμαι (kékasmai) do verbo καινυσζαι (kaínysthai), “brilhar”, e de uma forma de ανηρ,ανδρσ (aner, andrós), “homem”, donde Cassandra seria “aquela que brilha entre os homens”. (BRANDÃO, 1991, vol. I, p. 188). Matilde, inegavelmente, “brilha entre os homens”. Entretanto, ao contrário da malfadada mântica grega – que ludibriara o deus Apolo e, em consequência disso, fora amaldiçoada para que suas predições nunca recebessem crédito, ficando, assim, fadadas à inutilidade –, a filha do flamengo Van Dum conseguiu alcançar êxito em suas aventuras, ao utilizar-se de suas visões, bastante temidas, para surpreender e intimidar. A singularidade desta personagem nos leva a perceber que manifestações pouco usuais dos sentidos físicos, sobretudo o da visão, farão com que algumas figuras, antes intocáveis, sejam vistas pelo avesso. Diante dos seus olhos, Jean Du Plessis mostrava sua fraqueza humana por detrás da farda militar; em temor ao que sua boca dizia e seus olhos pareciam ver, Dimuka tornava-se mudo e demonstrava uma pequenez jamais imaginada. Matilde funcionava, assim, como uma espécie de agente desestabilizador da tradicional imponência masculina em seu espaço social. No entanto, curiosamente, essa sua personalidade diferenciada, marcada por uma altivez desconcertante, será, no fundo, bastante bem vista pelo patriarca Van Dum. O próprio narrador se surpreendente com uma certa benevolência demonstrada por seu dono no que se refere aos deslizes amorosos da filha:

(...) Eu esperava maior severidade de parte do meu dono, mas então se viu que Matilde era de facto a sua preferida, pois o surpreendi três dias depois do escândalo a dizer para Benvindo, a tua irmã ao menos enfrenta as coisas, quando viu que não conseguia convencer o tenente, veio ter comigo e abriu o jogo, eu não soube por terceiros, soube por ela, isso é muito importante, revela carácter, quem me dera que todos vocês o tivessem. (PEPETELA, 1999, p. 141)

       Essa interessante preferência de Baltazar pela filha “muito bruxa” reafirma o poder de sedução associado à personalidade singular desta última. Aliás, a força de caráter de Matilde Van Dum nos permite compará-la a uma ilustre contemporânea sua, reconhecida por sua desenvoltura no comando de centenas e milhares de homens: a rainha Nzinga Mbandi, soberana do reino da Matamba durante boa parte do século XVII. Tal como o chefe dos Van Dum, Ngola Kiluanji, rei do Ndongo e pai de Nzinga, também era um grande admirador da filha. Segundo Roy Glasgow, “(...) [seu] velho pai tinha grande orgulho dela e esperava que ela fosse uma grande rainha. Ele frequentemente rezava aos deuses pedindo-lhes que derramassem suas bênçãos sobre sua filha favorita.” (GLASGOW, 1982, p. 40)

      Curiosamente, tal como acontece com Matilde, um dos elementos que mais chamam a atenção na figura da soberana são os seus olhos, pois alguns relatos afirmam que a “(...) jovem princesa tinhas os mesmos olhos sedutores de sua mãe, 'a cor da noite', e o caráter forte de seu pai, que era o mais terrível adversário com que os invasores portugueses se haviam defrontado até então.” (GLASGOW, 1982, p. 36). Sejam eles azuis, como no caso de Matilde, ou negros, como os de Nzinga, esses olhos têm o poder de provocar, excitar e desconcertar os homens que estão à sua volta, pois sua atitude perscrutante traz para o encontro “à primeira vista” a revelação do poder que se esconde por trás deles. Algumas descrições sobre a rainha levam-nos a reconhecer semelhanças entre a sua personalidade e a de Matilde Van Dum:

Amplamente admirada por sua inteligência, energia, precocidade, sutileza e audácia no esporte, Nzinga também era uma jovem atraente, com uma figura provocante. Era graciosa e esbelta, de quadris arredondados e bem modelados. Atraía muita atenção e respeito por toda a parte. Já havia sinais daquela aparência magnética descrita com termos que iam de magnífico a feroz. Seu cabelo cobria-lhe as orelhas e seus olhos escuros podiam refletir ódio imediato ou ternura. Um queixo com ligeira ponta, com corte pétreo, sustentava lábios atraentes. (GLASGOW, 1982, p. 40)

       A partir desse breve retrato da rainha, podemos imaginar que Nzinga fazia, por vezes, da junção entre inteligência e beleza sua arma de ataque. Atraente e provocante, a soberana da Matamba seduz e comanda todo um reino. O espaço de Matilde é mais reduzido, mas nem por isso sua força passa despercebida. A participação dessas mulheres em seus universos sociais é semelhante quanto à sua função desestabilizadora das estruturas de poder castradoras. Nzinga Mbandi enfrenta com afinco as investidas do exército português pelas terras do interior; Matilde Van Dum enfrenta pais e irmãos, representantes de uma sociedade moralista, obrigando-os a respeitar suas vontades. Podemos também atribuir à figura de Matilde outras considerações formuladas por Roy Glasgow em torno da personalidade da soberana: a “(...) habilidade de Nzinga em moldar os eventos e não ser por eles moldada e, consequentemente, em saber tomar a iniciativa em todas as oportunidades.” (GLASGOW, 1982, p. 84)

      As diferenças entre Matilde e a grande maioria das mulheres locais persiste ao longo de seu casamento com o tenente Jean Du Plessis. A casa onde o casal passa a viver, localizada na parte alta da cidade, torna-se um ponto-de-encontro bastante visitado por jovens militares mafulos:

A casa da bela Matilde na cidade alta se tornou num lugar elegante para os mafulos. Os oficiais não tinham as mulheres com eles, preferiam deixá-las na Holanda ou no Brasil. (...) não desdenhavam um chá de caxinde, à tarde, pretexto para esvoaçarem à volta de Matilde e discutirem livros, pintura, viagens, filosofia. (...) De facto havia razão para isso. Matilde saiu da terrível provação que é o primeiro parto mais bela ainda. Como se com o filho e as porcarias que eliminou se tivesse purificado. Os olhos brilhavam mais luminosos, a pele ficou de uma suavidade nunca vista e até os lábios cheios pareciam mais vincados. (PEPETELA, 1999, p. 145-6)

       Matilde tinha, ao seu redor, os homens mais interessantes da cidade; todos embevecidos pela sua beleza e encantados com sua conversa. Alimentando sua vaidade e sua libido, a bela mulata divertia-se com a formação de uma espécie de “harém” masculino, no qual a experiência dominante era a do flerte. Relevadas as sensíveis diferenças, não podemos deixar de nos referir à singular relação que a filha de Ngola Kiluanji mantinha com seus eleitos. Lembremos as palavras de Selma Pantoja acerca da vida íntima da rainha:

(...) [contam] que ela tinha um séquito de homens, escolhidos entre os sobas, e que ela os obrigava a vestir-se como mulheres e lhes dava um nome feminino. De um ponto de vista pouco aprofundado do assunto, diríamos que se tratava de um caso de poliandria, forma de matrimônio em que uma mulher pode ter mais de um marido. Neste caso Nzinga teria assumido a forma usual de casamento na região, a poligamia. A sua ascensão ao poder foi um rompimento com as normas estabelecidas pelas linhagens tradicionais: os macotas não “admitiam uma mulher com o título ngola”. (PANTOJA, 1987: p. 74)

       É imprescindível lembrar que, a certa altura da diegese, o romance de Pepetela também informa sobre o comportamento sexual incomum da soberana. É através das palavras do alferes-historiador António de Oliveira Cadornega que tomamos conhecimento sobre o harém de Nzinga. Cadornega faz referência à Batalha do Dande, confronto do qual Nzinga saiu derrotada, mas conseguiu fugir:

– (...) Ela escapou, mas deixou connosco documentos, parte da corte e até parte do seu harém. – Harém?– estranhou Ambrósio. – Harém de homens, evidentemente. Os seus homens, mas que ela chama de mulheres, porque ela é rei e por isso tem concubinas. – Já era conhecido que ela exigia ser tratada por rei e não rainha – disse Baltazar. – Exacto – concordou Cadornega.– Mas também se sabia que tinha um harém de amantes machos? (PEPETELA, 1999, p. 261-2)

       Enquanto a rainha da Matamba subjugava os homens que a cercavam como forma de afirmar o alcance do seu poder real, Matilde seguia envolvendo seus eleitos numa teia de sedução, que parecia ter-se estendido ainda mais após o nascimento de seu filho, Henri. Novamente, era a exuberância dos olhos dessa mulher que indicavam, a princípio, os passos para a mudança.

      Nzinga Mbandi era uma verdadeira devoradora de homens e Matilde Van Dum podia comparar-se-lhe quanto à sua voluptuosidade. Por conta desse desejo transbordante, a filha de Baltazar poria o seu casamento em risco, vivendo aventuras amorosas na companhia do insistente tenente Joost Van Koin. Como adianta o narrador d' A gloriosa família :

Quem pelos vistos se não preocupava muito com a doutrina de Cristo era Matilde, a qual aceitou um dia sair de casa pela manhã, dispensando a companhia da escrava (...). Matilde parou à frente, olhou para todos os lados, virou para a esquerda e acompanhou a parede lateral da sé. Atrás tinha uma porta encostada, que permitia a entrada na sacristia. (...) olhou de novo para todos os lados e empurrou a porta. Dentro da sacristia mal iluminada estava o sorridente tenente Joost Van Koin. Se trocaram beijos esfaimados e logo Matilde o afastou, num gesto de recato ou de temor, desconheço, também não posso imaginar todos os detalhes. (...) A sacristia estava suja, por não ser varrida durante três anos. E quase despida. (PEPETELA, 1999, p. 155-6)

       O encontro na sacristia era perfeitamente condizente com as manifestações do comportamento transgressor de Matilde Van Dum. Além disso, o estado lastimável em que se encontrava o santuário católico, dominado pela falta de luminosidade, pela sujeira e pelo vazio, fazia desse espaço o palco ideal para a configuração de uma atitude que era marcada não só pela infidelidade, mas, sobretudo, pelo questionamento das instituições e das vontades que costumavam impor limites e regras para os relacionamentos humanos.

      É interessante observar que a última expressão utilizada pelo narrador para caracterizar o estado em que se encontrava a sacristia, ao afirmar que a mesma estava “quase despida”, aponta para uma aproximação metafórica entre o espaço e o sujeito da ação, a saber, entre a igreja e Matilde. Não parece muito comum dizer que um lugar está despido. Dessa forma, o local onde Matilde se encontra com Joost Van Koin reflete, ironicamente, a sua atitude: era ela quem estava despida. Vale lembrar que, simbolicamente, as imagens da igreja e da mulher estão associadas há tempos. Durante o século XII, por exemplo, segundo vários depoimentos, algumas visões bastante recorrentes remetem a uma imensa imagem de mulher que se assemelhava a uma cidade; na cabeça dessa forma gigantesca surgia uma coroa e do seu ventre entravam e saíam centenas de pessoas. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2007, p. 500).

      É claro que, através desse jogo de aproximações, não é simplesmente a atitude da bela mulata de olhos azuis que está em xeque. Toda uma tradição religiosa, cerceadora dos desejos humanos, também é questionada. Matilde Van Dum não será expulsa do paraíso por ter-se deixado enganar pela serpente, ela é o próprio fruto proibido e, quiçá, a própria face da serpente, consciente do desejo que urge saciar.

REFERÊNCIAS :

 BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 
1991. v. I. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva
et al. 21 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007. GLASGOW, Roy. Nzinga. Trad. Silvia Mazza, J. Guinsburg & Fany Kon. São Paulo: Perspectiva,
1982. NOVAES, Adauto (org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. PANTOJA, Selma Alves. Nzinga Mbandi: comércio e escravidão no litoral angolano no século XVII.
Rio de Janeiro: UFRJ, 1987. Dissertação de Mestrado. PEPETELA. A gloriosa família: o tempo dos flamengos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1999. SERRES, Michel. Os cinco sentidos. Trad. Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. TODOROV, Tzvetan. Memória do al, tentação do bem. Indagações sobre o século XX. Trad. Joana
Angélica D´Ávila Melo. São Paulo: Arx, 2002.