Mulemba - n.1 - UFRJ - Rio de Janeiro - Brasil - Outubro de 2009

Título: Cabo Verde, da árvore da vida à árvore das palavras

Title: Cabo Verde: from the tree of life to the tree of words

Simone Caputo Gomes
Professora Pós-Doutora (Universidade de Lisboa)
Universidade de São Paulo
simonecaputog@usp.br

  RESUMO: As árvores de Cabo Verde na literatura. A partir da viagem de Darwin e de algumas de suas descrições de sua visita ao arquipélago, o primeiro ponto do périplo que o cientista percorreu, buscaremos documentar a variabilidade da flora caboverdiana, que se metamorfoseia a partir de condições geoclimáticas de cada ilha, da proximidade de ribeiras, da qualidade de vida que lhe imprimem os governantes. As condições passadas e as possibilidades futuras a partir do aproveitamento da flora existente serão expostas nesta nossa viagem literária. A circulação das espécies vindas de outros países e levadas de Cabo Verde para outros cantos do mundo evidencia o papel do arquipélago como importante plataforma giratória.

PALAVRAS-CHAVE : árvores de Cabo Verde na literatura; Darwin; espécies; plataforma. giratória

  ABSTRACT: Trees of Cape Verde in the literature. The trip from Darwin and some of his descriptions of his visit to the archipelago, the first point of the tour that the scientist has come, we will seek to document the variability of CapeVerdean flora, which morphs from geoclimatic conditions of each island, the proximity of streams, the quality of life that lends it the rulers. The past conditions and future possibilities from the use of existing flora be exposed in our literary journey. The movement of species from other countries and taken to Cape Verde for other corners of the world highlights the role of the archipelago as a important turntable platform.

KEYWORDS : trees of Cape Verde in the literature, Darwin; species; turntable platform.

Aqui foi onde em vi pela primeira vez a glória da vegetação tropical. Tâmaras, bananas e palmeiras floresciam no meu caminho. Eu voltei para o navio, pisando rochas vulcânicas, vendo novos insectos pousando em novas flores. Tem sido para mim um dia glorioso, como quando se dá visão a um homem cego.
. (Charles Darwin, Diário, fevereiro de 1832)

Talvez um dia onde é seco o vale e as árvores dispersas haja rios e florestas. (Arménio Vieira, 1962)

       A história da viagem pelo mundo do naturalista inglês Charles Darwin, iniciada em 1831, a bordo do Beagle, tem como marco um minúsculo ponto no mapa: o arquipélago de Cabo Verde. De fevereiro de 1832, época da chegada à ilha vulcânica de Santiago, a Janeiro de 1833, o Diário de Darwin começa a gerar uma teoria que revolucionará para sempre a geografia humana: a da “árvore da vida” ou Origem das espécies, com base no conceito de evolução.

       Chegando às ilhas de Cabo Verde em 16 de janeiro, o Beagle ancorou em “Porto Praia” por vinte e três dias. Durante a estadia, Darwin visitou várias regiões da grande ilha e, durante o percurso, fez detalhadas observações sobre a geologia, a flora e a fauna do berço da nação mestiça caboverdiana, que abrigou a primeira cidade européia nos trópicos. Uma nova visão da diversidade da vida no planeta se descortinaria para o estudioso a partir deste primeiro laboratório, onde foram observados plantas e animais, assim como o modo de vida das respectivas populações e a movimentação dos navios negreiros. Visitas a cavalo ao interior da ilha, à Ribeira Grande (atual Cidade Velha, erigida a Patrimônio da Humanidade em 2009), a Fontes e a S. Domingos possibilitaram ao pesquisador a recolha de inusitadas informações. O ilhéu de Santa Maria e o Monte Vermelho, na localidade denominada hoje Palmarejo, também foram objeto de observação. Além disto, Darwin teve a oportunidade de participar das festas de Fevereiro na Várzea da Igreja de N. Sra. do Rosário (da atual Cidade Velha), onde foi homenageado com uma sessão de batuque por um grupo tradicional de moças.

       Nas cartas dirigidas ao pai, Darwin referiu pequenos bosques a ladear ribeiras, repletos de coqueiros (possivelmente na Praia Negra), bananais e cafezais, no meio dos quais se sentava para escrever. Aquela vegetação contrastava com o aspecto “desolador” que constata na cidade da Praia vista do mar, o que evidencia já uma amostra da diversidade que mais tarde encontraria em macro-escala, em sua viagem ao redor do mundo.

       Assim começa o relato da viagem de Darwin:

No dia 16 de janeiro de 1832 lançávamos âncora em Porto Praia, em São Tiago, ilha principal do arquipélago de Cabo Verde. É desolador o aspecto que apresentam as imediações de Porto Praia a quem as observa do mar. Em quase toda parte a terra se mostra inóspita à vegetação, um depoimento de passadas iras vulcânicas e do fogo abrasador de um sol tropical. O terreno eleva-se em platôs sucessivos, vendo-se aqui e ali colinas em cone truncado destacando-se de uma serra irregular de montanhas mais elevadas que confinam o horizonte. [...] De modo geral, a ilha seria considerada como excessivamente desinteressante; contudo a quem está acostumado a contemplar somente paisagens inglesas, a grandiosidade de um terreno absolutamente estéril oferece uma grandiosidade de aspecto, cujo encanto a presença de vegetação mais luxuriante poderia destruir. Mal se pode discernir, sobre a extensa planície de lava, a verdura de uma simples folha, entretanto, cabras em rebanho e algumas vacas conseguem ali viver.

       É de tácito conhecimento que os momentos da série literária caboverdiana que documentam a visão dramática da estiagem são antológicos e o poema “Paisagem”, de Jorge Barbosa, denota o realismo com que este fundador da Claridade busca retratar o seu Arquipélago:

Malditos
estes anos de seca! [...]
Árvores pasmadas
sequiosas
com restos ainda
dos ninhos que abrigaram,
deixam rogativas silenciosas
no deslocamento da paisagem!

E a terra seca
cheia de sol! [...]

Em tudo
o cenário dolorosíssimo
da estiagem
_ da fome! (APUD FERREIRA, 1975, p. 96)

       O poema “Seca”, de Ovídio Martins, reitera, na personificação das árvores, o quadro de desolação:

Árvores
de ramos arreganhados
a pingar suor e lágrimas [...]
Árvores 
sem carne (APUD FERREIRA, op.cit, p. 183-184).

       Mas esta visão trágica da seca não permite uniformizar estereotipadamente Cabo Verde como um arquipélago isento de qualidade de vida e paciente da desolação. É claro que, conjugado à repressão e ao abandono coloniais, o quadro de estiagem foi (ou tem sido) hiperbolizado pelo discurso literário como estratégia de expressão de revolta e resistência; contudo, devemos lembrar que dez ilhas dispersas no Atlântico e de configurações geoclimáticas, orográficas e hidrográficas variadas compõem a nação caboverdiana.

      Em seus manuscritos, Valentim Fernandes, um dos que primeiramente descreveu de forma sistemática a orografia, a flora e os recursos hídricos de Cabo Verde (Cartas das Ilhas de Cabo Verde: 1506-1508), assim caracteriza as ilhas, permitindo que as dividamos em três subgrupos: ilhas do Oriente, extremamente áridas e planas, com água salobra, quando há (Boavista, Sal, Maio); ilhas e ilhéus do Norte, pobres em cobertura vegetal, secos (São Vicente, Santa Luzia, ilhéus Raso e Má Sombra); ilhas altas ou “fragosas”, de cobertura vegetal rica e recursos hídricos provenientes de ribeiras com “boas águas” (Brava, São Nicolau, Santo Antão, Santiago e Fogo).

      Da vegetação das ilhas de Santiago e São Nicolau, já destacava Fernandes nos manuscritos:

Nesta ylha de Santjago ha tres meses de jnverno –a saber- junho julho e agosto. E este jnverno nom se chama por frialdade se nom pellas chuyuas. Esta ylha da todas as fruitas de Portugal que se nella prantam figos uvas melões açucares e todas outras fruitas ha per todo ho anno. Nom da trigo nem çeuada, Da milho e arroz como em Guynee [...]. Ylha de Sam Nicolao jaz ao norte da ylha Braua 30 legoas. He ilha alta e grande e de niuytos aruoredos e de muytas bõas agoas. Ha nesta ylha ha muytas aruores dragoeyros de que fazem o sangue de dragam. Esta ilha he pouoada de cabras e nom de gente (FoI. 192/59, grifos nossos).

       Em Xaguate, Teixeira de Sousa, pela boca de uma personagem, traz à memória cenas de São Jorge, localidade onde se encontra o jardim botânico da ilha de Santiago:

_ Olha, lembrei-me muito de São Jorge dos meus tempos de criança. São Jorge tinha de tudo, caju, manga, papaia, cana da ilha, goiaba, ananás, sei lá que mais. Noutro dia fui lá, nem conheci o lugar. Está nu de arvoredo. Só havia as culturas de as-águas. [...] Outro exemplo. Quando saí daqui, a ribeira de São João, entre Lém e a vila, era atravancada de espinheiros, purgueiras, bombardeiros e outras coisas. Hoje não tem nada de nada (SOUSA, 1988, p. 321).

       Do contraponto entre esses textos de Valentim Fernandes e Teixeira de Sousa, conjugados às observações de Darwin quando desembarcou em Cabo Verde, podemos depreender a extrema diversidade da flora caboverdiana, segundo as estações do ano, a localização das ilhas, a altitude dos solos. Aprofundemos mais o estudo do tema.

      As chuvas que caracterizam o inverno da ilha de Santiago são sempre ansiosamente aguardadas, pois que propiciam a futura colheita do figo, do melão, do milho, do arroz e da cana sacarina (trazida da Madeira para Cabo Verde e de lá para o Brasil), entre outras espécies. Em São Nicolau, a paisagem de dragoeiros constitui uma das únicas no mundo, pela raridade da Dracaena draco, espécie endêmica da região da Macaronésia (ilhas de Cabo Verde, Canárias e Madeira); sua seiva vermelha (o sangue de dragão) é largamente usada na medicina popular, na tinturaria e na mistura do grogue, para “envelhecê-lo”.

      Chamada “ilha dos dragoeiros”, S. Nicolau possui uma reserva natural, o Monte Gordo, título de romance de Leopoldina Barreto (natural desta região) e uma agricultura-modelo. Como símbolo, o dragoeiro é comparado ao caboverdiano:

Espécie rara. Fóssil vivo teimosamente resistente desde a noite dos tempos. De um tronco esguio, crespo e agreste rebentam no topo braços e folhas-lanças espetadas pra o céu. O dragoeiro e o Homem cabo-verdiano, uma teimosia, dois caprichos da natureza” (LOPES, Gilberto, Introdução à coleção Dragoeiro, Praia, [s.d.].

       Sabe-se que, em Cabo Verde, em tempos mais afastados, a vegetação era exuberante, embora sem florestas ricas em madeira. Jorge Barbosa sintetiza magistralmente em seu poema “A terra” a correlação entre o tempo de as-águas (azáguas) e a fertilidade:

Terra fértil
Das bananeiras, das laranjeiras,
Dos acajus,
Dos cafeeiros, das uvas, dos batatais;
Do milho que dá cachupa, o cuscuz,
A batanca, o gufongo;
Das canas
Que dão grogue e mel...

Terra fértil
_ das oleaginosas,
Das acácias, dos cardeais,
Das roseiras,
Dos marmeleiros, das goiabeiras,
Das árvores resinosas,
Das árvores de fruta.
Das árvores de sombra...
[...]
Terra fértil!...

Se não cai a chuva,
_ o desalento
A tragédia da estiagem! _ (BARBOSA, 2002, p. 41).

       Fernando Pires, sobre as condições em que os primeiros povoadores encontraram a Praia Grande ou Branca (mais tarde vila da Praia), refere as “excelentes qualidades naturais do lugar”: a baía, com águas profundas e boas condições de navegabilidade, a possibilidade de construção de um bom porto, as condições favoráveis de defesa deste porto e da ilha, as várias ribeiras de água doce que percorriam a região, como a ribeira da Fonte Ana que, pela proximidade do ancoradouro, passou a ser ponto de paragem obrigatória dos navios (PIRES, 2007, p. 70).

      A ação do homem sobre a natureza, porém, provocou dramáticas alterações na paisagem com a criação de campos de cultivo com desvio de cursos de água, a introdução de novas plantas de pastagem, a instalação do gado (sobretudo cabras), o corte de árvores e arbustos tão rapidamente que não permitia à flora natural regenerar-se. E o abandono a que o governo colonial reduziu o seu principal entreposto de escravos. Desde a independência têm sido empreendidos esforços para proteger as espécies endêmicas e reflorestar as encostas, para deter a erosão dos solos. A descrição do aspecto cada vez mais desértico (e inserto no Sahel) do arquipélago tem sido uma constante nos textos literários caboverdianos, como poderemos perceber neste extrato expressionista de Chuva Braba (capítulo I, parte II), de Manuel Lopes:

Porto Novo não tem montanhas. Ali há vento à solta, mar raso por aí fora franjado de carneirada. Há distância: um azul que navega e naufraga num mundo sem limite. [...] As árvores são torcidas e tenazes, têm a riqueza dramática das desgraças hereditárias ou das indomáveis perseveranças.

       Ou no poema de António Pedro:

Eram castanhos os montes
E as árvores esgalhadas,
E atormentadas,
E nuas... (APUD FERREIRA, 1975, p. 80)

       Mas voltemos ao Diário de Darwin e à descrição que realiza do meio ambiente da ilha de Santiago, sujeito aos caprichos das chuvas temporárias:

Raramente chove, mas durante um curto período do ano desabam pesadas torrentes, e isso basta para que, imediatamente depois, de todas as fendas e orifícios brote uma vegetação ligeira. Cedo se estiola, porém, é deste feno natural que se nutrem os animais existentes. Havia, agora, um ano inteiro que não chovia. Por ocasião da descoberta da ilha, a vizinhança imediata de Porto Praia revestia-se de árvores, e a destruição intempestiva do arvoredo causou aqui como em Santa Helena, e em algumas ilhas Canárias, a quase total esterilidade do solo. [...] Os vales amplos e planos, muitos dos quais, na estação chuvosa, servem durante alguns dias de curso as águas, acham-se atapetados de arbustos cerrados e sem folhas.

       Cabe ressaltar ainda que a flora caboverdiana diferencia-se, horizontalmente, de ilha para ilha ou no interior de uma mesma ilha, e verticalmente, de acordo com as altitudes das ilhas.

       Sobre as mudanças abruptas de cenário, Darwin observa a diversidade horizontal:

É espantoso como a natureza consegue sobreviver nestas condições tão secas e quentes. No outro lado da ilha, na aldeia de S. Domingos, o cenário muda notoriamente e é belo de verdade. Chegámos num dia festivo em que a população negra nativa cantava e dançava. Um pequeno ribeiro cristalino atravessa a aldeia e as plantas crescem nas imediações. Tudo é viçoso e verde. Aproveitei a oportunidade para examinar a lava vulcânica. Que maravilha poder observá-la aqui, no sítio a que pertence! Tomei várias notas para o meu livro. Mais tarde vou escrever sobre o assunto aos meus amigos de Inglaterra (grifos nossos).

       Perto de uma ribeira ou “Depois da chuva” (título do poema de Jorge Barbosa), o aspecto desolador descrito por Darwin nas partes mais áridas da ilha reverdecem. Observemos como a linguagem poética capta esta mutação:

Quando a chuva passar
Hei-de ir ao cimo do Cutelo
Para ver o cenário soberbo que a terra tem
E sentir o cheiro húmido da terra encharcada (BARBOSA, op. cit, p. 87)

       Nas espécies da Macaronésia encontra-se a maior percentagem das espécies vegetais endêmicas de Cabo Verde, especialmente o marmulano, o dragoeiro, a tamareira caboverdiana (citada por Darwin), a língua de vaca, o tortolho, o lantisco e a losna. As espécies provenientes da África tropical, principalmente das zonas sudano-sahelianas, predominam nos andares baixos: é uma vegetação de transição entre a savana (estepe) arbórea ou herbácea, tipos relativamente secos não diferenciados, e a estepe arbórea com abundância de acácias ou outras espécies de zonas úmidas. Destacam-se dentre as espécies sudano-sahelianas a calabaceira, o poilão, o tamarindo, a figueira brava, o zimbrão, o espinho branco, o bombardeiro e o barnelo. Nos andares superiores, entre os 400 e os 1.400 metros, predomina a vegetação úmida ou sub-úmida com culturas tropicais.

      As plantas introduzidas pelo homem perfazem mais de 200 espécies, com procedência de quase todos os continentes, como as que constituem a base da alimentação: milho, fava, batata doce, batata comum, mandioca, abóbora (levados do Brasil para o arquipélago e depois para os continentes africano e europeu).

      Manuel Lopes, no texto em prosa que inaugura a literatura caboverdiana , Paúl, em seu registro da viagem à localidade da ilha de Santo Antão, um vale junto à ribeira, refere este fato:

Quem vai ao Paúl e saboreia o explendido clima que paira sem violência em toda a sua extensão e vê com os próprios olhos a variedade de vegetação que nele se adapta; a facilidade com que as árvores frutíferas dos paízes mais distantes ali se acomodam; e avalia a prodigiosa fecundidade do seu subsolo liberal, onde se acotovelam raízes de muitas nacionalidades (LOPES, 1993, p. 246).

       A “prodigalidade da bacia hidrográfica paludense” (p. 243) possibilita a presença, entre sua “vegetação densa” (ibidem), de “coqueiros abundantes” (p. 241), “palmeiras e canas” (p. 242). A “variabilidade da flora”, abundante nas “encostas cobertas de “vegetação heterogénia” (p. 244), compõe a paisagem, pintada em quadros (em “tons picturais múltiplos”) por Manuel Lopes como “rapsódia monumental” ou “apoteose” (ibidem), aliando as artes que com mestria soube utilizar como expressão: literatura e pintura.

      Dentre as espécies observadas por Lopes na Ribeira do Paúl, destaca-se a cana, transplantada da ilha da Madeira para o arquipélago e depois trazida para o Brasil.

A cultura da cana sacarina é a que domina no Paúl. Peço menos, é a mais vulgarisada (p. 244).

       O ficcionista refere, além da cana sacarina, matéria-prima do grogue ou aguardente caboverdiana, as laranjeiras, as mangueiras, as bananeiras, os cafeeiros como árvores que se espalham pelas montanhas do Paúl nos “varandins de vegetação luxuriante” (p. 244 a 246).

      Como o tamarindeiro (cantado e decantado como árvore secular, 1988, p. 333 em diante), Teixeira de Sousa, em Xaguate, refere ainda outras das espécies levadas de longe para Cabo Verde:

No ar pairava o cheiro da época da colheita, as espigas amarelecidas, os feijões pendendo dos caules, as abóboras adormecendo na palha, a batata-doce mandando no terreno (SOUSA, 1988, p. 331).

       O coco da Índia veio depois para terras brasileiras. A semente de purgueira, levada de Portugal para as ilhas, abastecerá, segundo projeto financiado pelo Bayer Crop Scienc, a Alemanha do futuro, com biodiesel proveniente de 130 hectares de plantações na ilha do Fogo.

      Chamada “ouro verde” em Cabo Verde no século XIX, a purgueira, originária das Caraíbas, transplantada para o arquipélago pelos colonizadores, cobria quase nove mil hectares, por volta de 1830, em Santiago, Fogo e Boa Vista. Porto Gouveia, hoje concelho da Ribeira Grande de Santiago, era o escoadouro das toneladas de purga que abasteciam navios rumo a Portugal e França.

      Após o ciclo do açúcar, que desenhou na Ribeira Grande os primeiros anos do povoamento da ilha de Santiago e impulsionou a importação de mão de obra escrava, o ciclo da purgueira terá sido um dos grandes momentos da história da economia do arquipélago. Hoje, o “ouro verde” torna-se uma alternativa viável para a substituição do “ouro negro”, como adiante destacamos.

      Sobre a história econômica da Ilha do Fogo com base no comércio local da purgueira e posterior monopólio da indústria nacional, Teixeira de Sousa, em Ilhéu de Contenda, evoca, pela voz da personagem Eusébio, os tempos áureos do negócio da purgueira, produto que assumiu um dia relevo na economia do arquipélago:

Ouvia contar ao pai que outrora exportavam purgueira para Marselha por bom preço. Depois que a indústria nacional se assenhoreara dessa oleaginosa, o preço desceu escandalosamente. Antigamente a purgueira era o mealheiro do pobre e a burra do negociante. O povinho vestia-se com a purgueira que colhia. O comerciante pagava em tecidos a purgueira que comprava. Vinham grandes lugres e patachos carregar purgueira. E era negócio que não falhava, quer chovesse, quer não (s.d., p. 26-27).

       Também o ambiente de O escravo, considerado o primeiro romance de temática caboverdiana, apresenta a flora apropriada ao solo da ilha de Santiago: a purgueira, os zimbrões, as tamareiras. E muitas outras espécies. Observemos.

Em 1835, ali não havia azedinhas, nem as ameixeiras, nem as pereiras, nem outras árvores, que, em seis anos, (...) _ como saudosas do seu país natal _ permanecem tristes, temendo expor seus frutos aos raios abrasadores de este sol africano. Mas, em seu lugar, vereis fartas laranjeiras, abundantes bananeiras, o cajueiro, o zimbrão, a norça, os tamarindos, as palmeiras altas (...), o rubicundo café; a cana-de-açúcar (...) a purgueira (...) o coqueiro, (...) o nespereiro, (...) o caju, (...) os mamões, as papaieiras (D’ALMEIDA, 1984, p. 26 e 44).

       Para além das espécies acima referidas, existem ainda em Cabo Verde a lantuna, o carrapato, o sisal, o rícino, a vinha, a macieira, a laranjeira, a figueira de Portugal.

      A lantuna é um arbusto rasteiro, aromático, que abunda nas encostas do arquipélago de Cabo Verde. Dizem que quem o sente o seu doce aroma nunca o esquece. Utilizado literariamente como símbolo identitário, inaugura, em texto, o número um da revista Claridade.

       Inspirado por estes arbustos, Corsino Fortes os assemelha à própria ex-colônia, transformada em nação:

Ó velho arbusto! Que foi colônia
Ó velho arbusto! Sem sombra.
(FORTES, Árvore & tambor, 1986, p. 25).

       Lembremos que, no início da colonização portuguesa em Cabo Verde, foram levados para as ilhas elementos essenciais à vida do homem, que permitissem a sua sobrevivência, para que o arquipélago pudesse assegurar a sua importância (para o colonizador) de entreposto comercial e de placa giratória de mercadorias: plantas e animais, numa primeira fase, provieram do continente africano e de Portugal; mais tarde, da Ásia e do Brasil.

      Elo atlântico entre os três continentes, o arquipélago funcionou como "um centro de concentração e de difusão de plantas, animais e homens, como porventura nenhum outro nos vastos territórios do mundo tropical" (RIBEIRO Apud PEREIRA, portal da Embaixada de Cabo Verde no Brasil), as ilhas foram viveiros de aclimatação das plantas e culturas em movimento.

      Sintetiza o historiador Daniel Pereira, que denomina o arquipélago de “placa giratória”:

Encontram-se, por isso, representadas nas ilhas de Cabo Verde, em maior ou menor escala, as espécies comuns da flora alimentar de todas as partes do Mundo. [...] Por tudo isso, nas palavras judiciosas de Orlando Ribeiro, em Cabo Verde o campo é mediterrânico, na forma como os terrenos são amanhados, as plantas são americanas e a alimentação é africana, o que nos confere uma dimensão universal na nossa própria maneira de ser, em consequência da localização geográfica do arquipélago que, simultaneamente, funcionou como instrumento universalizador pela função que teve como receptador e irradiador dos elementos em presença na construção e permanência do factor humano nas ilhas cabo-verdianas (Op. Cit).

       A simbólica do milho, por exemplo, tem sido largamente estudada por antropólogos e disseminada em textos literários como representante da caboverdianidade, sobretudo em seu fundamento cultural pautado na mestiçagem e no hibridismo. Jorge Barbosa, em poema dedicado à “morna”, associa a modalidade musical que une todos os caboverdianos dispersos pelo mundo por um elo identitário “às folhagens do milharal/ musicando rapsódias em surdina/ nos tectos das casas pobres” do “caboverdiano anónimo”, seu “irmão” (APUD FERREIRA, 1975, p. 94).

      Trazido do Brasil pelo colonizador, o milho maíz ou milho grosso (juntamente com os feijões que lhe estão associados) instalou-se no arquipélago e, de início utilizado como alimento dos escravos e animais, converteu-se na base da agricultura e da alimentação caboverdiana. Com trajetória semelhante à da morna, migrou em ascendência vertical da cuia do escravo para a mesa do senhor. A coroa de milho é um dos elementos do brasão caboverdiano e o amarelo-milho, uma das cores da atual bandeira.

      No poema “País ilhéu”, José Luís Hopffer Almada refere o “pujante milho onírico/ da espiga da bandeira” (ALMADA, 1990, p.23), aludindo ao antigo símbolo de Cabo Verde dos tempos do PAIGC e da união com a Guiné Bissau (na bandeira atual, a espiga de milho não figura e este é simbolizado pela cor amarelo-ouro).

      Baltasar Lopes, em Chiquinho, define Cabo Verde como “uma terra que estava bradando por milho para a cachupa”. Várias passagens de Flagelados do vento leste, de Manuel Lopes, tornaram-se verdadeiros hinos ao milho e à sementeira. No capítulo 1, “Chuva”, João da Cruz, ao “desamparinho da tarde” (crepúsculo), semeia “em pó” (sem chuva, confira-se o belo livro de contos Semear em pó, de Fátima Bettencourt) o milho-esperança, “para lá do último momento”! Mesmo com as “chuvas de outubro tardias e escassas”. Os “milharais dobrados para o Sul”, o milho “viçoso, que agüentava tudo”, não resistirão, todavia, no capítulo “Lestada”, aos aguaceiros que a tudo submergem. O flagelo consiste exatamente no capricho das chuvas. Ora escassas, ora avassaladoras, conforme o soprar dos ventos. Secas de até sete anos (“Havia sete anos, sete dias, sete repartições do mundo que a chuva não caía”, DUARTE, 1952) são referidas no texto “Migração”, de Pedro Duarte, o “rosto castanho da terra”, por José Luís Hopffer Almada (1990, p. 82). Na atualíssima narrativa de Danny Spínola, Os avatares das ilhas, uma deusa, depois de várias provas, presenteia o herói com uma espiga de milho, símbolo da conquista da caboverdianidade (cf. 2008).

      Outra árvore-símbolo, neste caso, de africanidade, terá destaque em textos literários caboverdianos: o poilão ou baobá (árvore da savana africana, símbolo da resistência dos povos que as habitam), com seus vários nomes _ imbondeiro, árvore kapok, calabaceira. Referido como local-símbolo (recanto do interior da ilha de Santiago) de beleza e resistência, em virtude de sua idade antiga e seu tronco extremamente volumoso, o poilão habita a série literária como marca cultural de tradição.

      É tempo de findar. Poderíamos daqui continuar descrevendo toda a riqueza que se desvela por detrás de uma cortina que teima em ver Cabo Verde como terra seca e miserável, flagelada, em suma. Vários poetas recusaram este rótulo e, tomando este mote, buscamos levantar, na origem das palavras, inúmeras pistas para a apreciação de uma rica diversidade de espécies botânicas que Darwin sabiamente utilizou como base para sua teoria da origem das espécies.

      Cabo Verde, “enquanto as mãos /se crispam na areia/(...) sonha milharais e nuvens” (FORTES. Apud: FERREIRA, 1975, p. 208). “De pé! O arquipélago ganha vela/porto & terra/ De árvores com hélices nas raízes”. As cicatriz da mão/brotam raízes/Que vicejam a memória dos séculos” (FORTES, Árvore & tambor, 1986, p. 50 e 49). Welwitschia mirabilis (nome da antologia dos novíssimos poetas caboverdianos), o arquipélago, como esta planta do deserto, que floresce em secular resistência, inventa as boas-águas do futuro: refloresta, dessaliniza a água do mar, produz biodiesel de purgueira, sai do grupo dos países subdesenvolvidos e avança. Com determinação, firmeza, BELEZA.

REFERÊNCIAS :

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 Povo”, 1990.
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BARBOSA, Jorge. Obra poética. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,
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BETTENCOURT, Fátima.  Semear em pó. Praia: Instituto Caboverdiano do Livro,
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 Abril Cultural e Companhia Brasil Editora , s/d . Vol.1.
DUARTE, Pedro. Migração. In: Boletim de Cabo Verde, ano IV, 39, dez 1952.
FERNANDES, Valentim. Cartas das ilhas de Cabo Verde, de Valentim Fernandes:
 1506-1508 / COSTA, A. Fontoura da. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1939.
FERREIRA, Manuel. No reino de Caliban: antologia panorâmica da poesia africana de
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FORTES, Corsino. Árvore & tambor. Praia-Lisboa: Instituto Caboverdiano do 
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LOPES, Baltasar. Chiquinho. Lisboa: Prelo, 1970.
LOPES, Manuel. “Paul”. In: HANRAS, Marie-Christine.  Manuel Lopes, um roteiro
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