Mulemba - n.1 - UFRJ - Rio de Janeiro - Brasil - Outubro de 2009

Título: Guerra, poesia, estilhaç[ament]os – um olhar para Angola1

Title: War, poetry, splinter[ing]s – one look at Angola

Laura Cavalcante Padilha
Profa. Doutora Associada de Literaturas Africanas da UFF

  RESUMO: Representações da guerra na poesia angolana anterior e posterior à independência. Os estilhaçamentos presentes na produção lírica contemporânea à guerra civil. A poesia de Paula Tavares, Alexandra Dáskalos, João Tala, entre outros, e o sentido da esperança que se delineia poeticamente em Angola, após 2002, com a assinatura da paz.

PALAVRAS-CHAVE : guerra, poesia angolana, estilhaçamentos, esperança, paz

  ABSTRACT: War representations in angolan poetry pre and post independence. The splinterings noticed in poetry produced during civil war. The production of Paula Tavares, Alexandra Dáskalos, João Tala, among other poets, and the sense of hope, poetically designed in Angola, after 2002, with peace signature.

KEYWORDS : war, angolan poetry, splinterings, hope, peace

Olha-me p’ra estas crianças de vidro
cheias de águas até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.
      Paula Tavares
Estávamos escondidos quando os tambores anunciaram a folha desprendida da morte saímos do próprio imaginário em busca da terra. Logo à chegada replantamos os suspiros e cada dia seria menos uma pátria entrincheirada cada dia é um homem vivo.
      João Tala

       Tanto Paula Tavares quanto João Tala encenam, em seus versos, tempos estilhaçados. Distanciam-nos, no entanto, os momentos históricos de suas falas poéticas, pois, em 1999, ano da publicação de O lago da lua, de Paula, esse tempo era ainda o da guerra civil em andamento, daí a imagem dolorosa das “crianças de vidro”, espalhadas em uma cidade mais estilhaçada ainda por causa da presença delas “procurando a vida / nos caixotes do lixo” (TAVARES, 1999, p. 36). Já em 2005, quando se edita A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos, o sujeito poético vive tempos de paz, embora os estilhaçamentos se façam peças do arquivo de sua memória pessoal e da de sua terra. Assim, João Tala pode dizer que “e cada dia seria menos uma pátria entrincheirada / cada dia é um homem vivo” (TALA, 2005, p. 11). Também Paula, em 2007, em seu Manual para amantes desesperados, consegue recuperar um instante em que, em volta do “altar da família”, as mães já podem tornar a dar conselhos, como nos tempos antigos, pois a hora é de cuidar “do corpo da casa e das tranças”. Na vivência desse novo momento, diz o sujeito poético que

Ninguém falou de dor
Abandono solidão
A loucura é palavra interdita
Ficam os sonhos a voar
Pássaros na boca do vento. (TAVARES, 2007, p. 27)

       Uma leitura de poemas produzidos nos fins dos anos de 1990 e no início dos de 2000 revela esse movimento de passagem de um tempo, marcado por uma espécie de estado de morte e dilaceramento, para um outro em que reaparecem as antigas esperanças trazidas pela paz em 2002. Não obstante isso, evidenciam-se, ainda, no corpo do poema, as cicatrizes deixadas pela violência, cicatrizes que trazem à tona da linguagem o estado de morte, as torturas, os enfrentamentos de uma história muito próxima, como parecem demonstrar esses versos de “A fuga”, da mesma obra de João Tala:

o meu caminho é mesmo este que a tropa
incendiou;
é um esquecimento afastado dos ouvidos
como encontrei o passado negado pela vida.
o meu caminho é a história amedrontada
os passos que explicam explosões
[...] (TALA, 2005, 16)

       É sobre esse momento da produção poética angolana, na passagem do século XX para o XXI, que esta exposição prioritariamente se quer debruçar, embora também lhe interesse surpreender um pouco do que acontece, na série histórico-literária, quando o sonho da independência começa a articular-se como desejo para, a partir de 1961, firmar-se como ação armada, o que contamina a poesia e faz dela a voz avançada desse anseio coletivo. Quando o sonho revolucionário se cumpre, a hora se torna de euforia e certezas, para logo se fazer de disforia e incertezas, com a guerra civil. Na verdade, a guerra em Angola é uma espécie de “sinete” maldito que se estabelece quando os povos locais passam do estágio das “guerras pré-coloniais civilizadas”, como avalia Ki-Zerbo (2006, 60), para o das guerras de resistência ao dominador português que deságuam na de libertação nacional. Há uma componente cíclica no jogo de guerra e paz, em Angola, e a expressão poética se acumplicia com as regras desse intratável jogo, representando suas várias faces.

      É por tudo isso simbólico e sintomático que, no século XVII, tivesse já surgido, no plano da representação escrita, uma obra de fôlego que se faz o primeiro extenso registro cultural, fixado pela letra, desse nunca cessar do estado de guerra em Angola. Trata-se de História das guerras angolanas: 1680 de António de Oliveira de Cadornega, obra que transita pela história e pela ficção, como tão bem demonstrou Luandino Vieira em intervenção feita, em 2007, no I Ciclo de Colóquio-Curso em Literatura Angolana, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, intervenção esta já agora publicada em Lendo Angola, com o título “Literatura angolana: estoriando a partir do que não se vê” (VIEIRA, In: RIBEIRO e PADILHA, 2008, p. 31-37).

      Nessa obra do XVII, o corpo da terra angolana emerge principalmente pelas veias dos seus rios, daí Luandino considerar Cadornega um seu alter-ego, dizendo na referida intervenção: “E posto isto, vou falar do meu alter-ego, chamado António de Oliveira de Cadornega” (VIEIRA, In: RIBEIRO e PADILHA, 2008, p. 34). Tal projeção se justifica pelo fato de ter ele próprio, Luandino, decidido fazer do texto do autor do seiscentos uma espécie de palimpsesto sobre o qual ele escreverá o seu De rios velhos e guerrilheiros. I. O livro dos rios (2006), romance em que, ao mesmo tempo, em festa e dor, se percorrem as veias abertas, no território angolano, pelas águas / sangue de seus rios e de sua história de violação e de violência.

      Voltando à questão da série diacrônica da poesia angolana, surpreendida desde a segunda metade do século XX, lembro que, quando se analisa essa produção, pondo-a em relação com as guerras, vê-se que o sujeito produtor de versos perfaz uma trajetória instigante, se tomada em seu conjunto. Primeiro, tal sujeito se projeta como parte de um coletivo em transformação. Nesse momento, o imaginário dos poetas insiste em construir um espaço simbólico marcado pelo halo de certeza na construção do homem novo, esteja tal poeta historicamente produzindo seu texto no palco das operações bélicas; encarcerado dentro ou fora de sua pátria, ou mesmo no exílio, a reforçar o sentido da luta e da resistência. Os textos assim produzidos adensam não apenas o seu corpo expressional, do ponto de vista estético, mas se adensam como um compromisso ético e histórico, sobretudo por sua força testemunhal:

      1. Agostinho Neto, no exílio em “Ponta do Sol, Dezembro de 1960”, a representar, por palavras, o seu “Desterro”, ainda em um momento que antecede a luta e como uma forma de incitamento a ela:

O que no meu coração existe por todos vós
irmãos do meu sangue,
da minha raça, do meu povo
Para ti “Ti Duia”, rei no Cemitério Novo
é esta palavra de luta e de fogo
– Coragem até o regresso

[...]

No meu coração de exilado
todos vós com o vigor do nosso povo
estais ligados às manhãs dolorosas de despedida
pelo povo
pela humanidade
pela paz. (NETO, 1979, 132)

       2. Costa Andrade, no caderno “O guerrilheiro”, escrito no “Moxico, em 1969, 1970 e 1971”, projetando, no espelho do texto “Instante”, por exemplo, sua experiência da guerrilha, pelo que sua poesia se faz, ela também, um testemunho histórico:

... e há sonhos para nunca mais realizados
  tal é o instante
		preciso
			que antecede a bala.
[...]
E quando a bala
feriu o silêncio carregado
prostrando o homem sobre a terra
não foram assassinos que o mataram.
O guerrilheiro também vive
um tempo de poesia
como a vida de uma bala
[...]
O guerrilheiro é terra móvel
		decisão de liberdade
			na pátria raivosamente escrava.
(COSTA ANDRADE, 1975, p.65- 66)

       3. António Cardoso, em sua “cela disciplinar” no Tarrafal, em 18.7.70, a cantar o “cresc[imento] [d]a força – ventre do futuro” e a nos passar, igualmente, o testemunho da violência de seu encarceramento:

Hoje vou deitar-me sobre o mundo
Como se cama de algodão fosse.
Insuflar o peito, sorver fundo
Toda sua sânie amarga-e-doce...

(Na raiz desperta sangue e sonho,
Na luta, a aurora rediviva...
– Vem imagem certa, onde te ponho
Flor desabrochada e sempre esquiva)

Hoje vou deitar-me sobre o mundo
Como se cama de algodão fosse.
Insuflar o peito, sorver fundo
Todo seu calor amargo-e-doce...

(... andam no ar lábios de mulher
– cresce a força-ventre do futuro!)   
                                                 (CARDOSO, 1980, p. 37)

       Quando o sonho de liberdade se concretiza, o tempo é de euforia, como já aqui afirmado. Também é o tempo de recolha da alegria e de dar forma de livro à produção literária utópica, cuja marca principal residia, nos anos da luta, na exaltação da certeza da vitória e, no pós-75, na ânsia de construção do tempo novo. Não por acaso Poesia com armas, de Costa Andrade, se publica em 1975 e os Onze poemas em novembro, de Manuel Rui, tenham seu primeiro número editado em 1976. O futuro que afinal se fez presente, depois de tantos estilhaços, sangue e dor, “abre alas” para a festa e, sendo assim, Manuel Rui pode também abrir as portas da “Manhã de 11 de novembro (leitura primeira)”, cantando:

O MAR

E tudo é novo
e chamado por novo vocativo:
Camarada!
E até o velho mar
de sal sabendo a tempo antigo
num marulhar tão grande e colectivo
arrombando o peito de ondas contra o sol
anda a bocar à toa que é mar novo
mudou de nome
diz chamar-se povo. 
(CARDOSO, 1985, p. 11)

       Até o “corpo físico do poema” se faz compacto e se espraia na mesma cadência com que a imagem do “mar novo” se fixa alegre na folha branca que o acolhe. O ritmo é em tudo contrário ao dos textos resgatados anteriormente, que se mostram como mais densos, tensos, incisivos e pesadamente fixados em suas folhas originais e nas das obras publicadas a posteriori. Em um ponto, porém, os poemas dos tempos da guerra pela libertação e os da euforia do pós-independência se tocam: trata-se da consciência da criação de uma literatura nacional, pela qual, para pensar com Fanon, não só se transtornam os gêneros – e poemas de Ruy Duarte mostram muito bem esse transtorno –, mas se cria um novo público e o povo passa a ser um dos sujeitos dessa literatura que Fanon chama de combate e classifica como nacional. Citando-o:

É a literatura de combate propriamente dita, no sentido de que convoca todo um povo à luta pela existência nacional. Literatura de combate, porque informa a consciência nacional, dá-lhe formas e contornos e abre-lhe novas e ilimitadas perspectivas. Literatura de combate, porque assume um encargo, porque é vontade temporalizada. (FANON, 1979, p. 200)

       Quando a existência desse nacional, tal como o propõe Fanon, começa a consolidar-se em Angola, fazendo-se mais que “vontade temporalizada”, rebenta a guerra civil. Como sabemos, tal se dá em parte por causa dos conflitos internos entre os vários movimentos locais de libertação. No entanto, não há como desconsiderar a pressão dos interesses externos dos chamados “senhores da guerra” e sua necessidade de manter suas armas a circularem pelo mundo, manchando-o de sangue e destruição, com o conseqüente lucro que daí advém. Por fim, como tão bem analisa Ki-Zerbo, pensando na África como um todo, há o fato de Angola ser um país rico em petróleo e diamantes, estes últimos, para o historiador burkinês, “uma das principais fontes da guerra na África” (KI-ZERBO, 2006, p. 55). Cito Ki-Zerbo, nas entrevistas de que me valho, realizadas entre 2000 e 2002 por René Holenstein:

Todos os homens e grupos do poder econômico ou político, africanos e não-africanos, estão agarrados aos produtos raros do continente e querem controlá-los. Daí os conflitos permanentes, dado que cada um tem os seus interesses: as multinacionais entre si, cada uma das multinacionais com as potências africanas, as potências africanas entre si e cada um dos africanos com as diferentes multinacionais. É por isso que a guerra está na ordem do dia. (idem, p.54)

       O certo é que o sonho, em virtude dessa guerra que se dá entre o “nós” e o “nós mesmos”, se desfaz, e o sujeito é tomado pela disforia. Isso é o que mostra, por exemplo, o poema “História de uma idéia franzina”, de Henrique Abranches, “história” que parece responder, pela negação, ao que os poemas, já aqui apresentados, disseminavam, ao mostrarem suas inabaláveis esperanças e certezas. Cito dele um fragmento:

E cresce o desengano
como um novo anátema
guinada dolorosa
de um velho quisto.
Apenas um curto momento
de piedade de nós mesmo.
Apenas um momento a esmo,
chorando tudo isto... (ABRANCHES, 1987, p. 19)

       Esses versos fazem eco com os de Paula Tavares e em parte com os de João Tala, citados na epígrafe, assim como o farão com os que se seguem, respectivamente de João Maimona, no mesmo ano de 1987, e de Arlindo Barbeitos, onze anos depois:

Nas nuvens onde vou chorando
sobre os olhos de amanhã
nascem e morrem dias sem sol
repletos de pontos de interrogação.

Na estrada onde vou cantando
as imagens destroçadas
inclinam-se cantos estropiados. (MAIMONA, 1987, p.30)


 longe
muito longe
para além
da cinza destes dias
em terra de esquecimento
um jardim
é órfão de suas flores
e
homens comem sombra. (BARBEITOS, 1998, p. 37)

       Vale convocar, neste ponto, Blanchot e o que postula em Foucaultcomo o imagino (BLANCHOT, s/d, p. 46) ou seja, que quando se cria o estado-nação o “subsolo” da liberdade “não muda, pois continua a residir numa sociedade disciplinar (a que eu acrescento e, no caso de Angola, bastante disciplinar) cujos poderes de controle se dissimulam ao mesmo tempo que se multiplicam”. E Blanchot conclui, com Foucault: “Somos cada vez mais subjugados” (idem, ibidem.).

      É essa subjugação inerente e, às vezes violentamente imposta, para além de sua inerência, que os poetas angolanos dos fins dos anos de 1990 e início dos 2000, vêm encenando, cada vez com uma percepção mais sofisticada do seu labor estético-verbal. São sujeitos que rejeitam essencialismos e transcendências e atravessam diversas fronteiras, rejeitando as sujeições de várias ordens e mostrando-se, pensando com Cornejo Polar, como sujeitos culturais migrantes por excelência (POLAR, 2000, várias páginas).

      Volto, para fechar, a Blanchot que, depois de dizer que “Somos cada vez mais subjugados”, conclui: “Dessa sujeição, agora, em vez de grosseira, delicada, extraímos a conseqüência gloriosa de sermos sujeitos e sujeitos livres, capazes de transformar em sabedoria os modos mais variados de um poder mentiroso [...]” (BLANCHOT, op. cit., p. 46 – grifo do autor).

      Quero aqui falar um pouco desse sujeito que, em sua condição de sujeito poético, deliberadamente se torna capaz de transformar tais “modos de poder” em sabedoria, muitas vezes insistindo em encenar, em seus enunciados, seu próprio corpo físico, sua experiência pessoal e histórica. É o que acontece com o constelado poético constituído por nomes já aqui citados e por muitos outros, cujas obras apresentam uma “especial cartografia de sinais”, para me valer de uma expressão de Paula Tavares que encontro na abertura da obra Ex-votos, de 2003: “Semeados por todo o lado de um vasto território [Lunda] existem santuários que, como marcos geodésicos da memória, estabelecem uma especial cartografia de sinais, histórias acontecidas. Ex-votos [...]” (TAVARES, 2003, p.9).

      Fica bastante evidente, pela representação dessa “especial cartografia de sinais”, projetada no espaço poético, um impulso dos sujeitos para vencerem seu próprio dilaceramento como seres históricos e regressarem a si mesmos e aos “marcos geodésicos” de sua memória identitária e cultural. E eles o fazem, sempre movidos pela esperança. Reforçam, desse modo, tanto sua condição de indivíduo africano quanto a de sobreviventes de um tempo dominado por sentimentos e vivências que remetiam à “orfandade da esperança”; aos “dias sem sol”; às “crianças de vidro”; à “folha desprendida da morte”. Tentam fazer, dos estilhaços, peças mais palatáveis de memória, para superarem o tempo ainda percebido como um tempo de bloqueio e para manterem viva a crença na “força-ventre do futuro”.

      Como africanos que são, a terra, para eles, é sagrada e só ela lhes permite seguir em busca dessa “força-ventre”, tal como posta por António Cardoso, força sempre ligada aos espíritos dos antepassados e a seu legado simbólico, como descreve, dentre outros, a historiadora Isabel Castro Henriques, ao demonstrar que, em África, o valor da terra não se assenta no de troca, mas no de “uso social e simbólico” (HENRIQUES, 2004, p.11), já que ela, a terra, é sempre morada dos ancestrais. Assim como o faz Paula Tavares, Isabel Henriques assinala a importância dos “sinais”, para ela, “marcadores que as comunidades reconhecem e respeitam” (idem, p. 22).

      Eu diria, assim, que boa parte dos poetas angolanos, que produzem suas obras entre o fim do século XX e o início do XXI, encetam uma espécie de viagem imaginária por seus marcadores físicos, simbólicos, históricos, etc., usando o quadro teórico proposto pela historiadora portuguesa (idem, 22 e seguintes). Buscam, pela recuperação dessa memória, vencer seu dilaceramento e se reforçarem como sujeitos do conhecimento. Para fazê-lo, ou seja, para “navegarem” por sua terra, eles se dispõem a olhar em volta, sempre prontos a “navegar o medo”, como Paula Tavares alerta na crônica de título nada inocente: “Peregrinações”:

As viagens por terra exigem uma disponibilidade do corpo e do olhar para a compreensão das diferenças entre territórios organizados e outros afogados em capim e solidão. [...] Uma viagem por terra obriga-se a trilhos muito alargados para navegar o medo com uma fita de capim a segurar o tempo, a sugerir direções, a impedir a correria. Antes, corrige e mede as distâncias, suaviza as curvas, amortece a queda. (TAVARES, 2004, p.23)

       Há, nos poemas produzidos, nesses tempos de passagem, uma deliberação clara de “navegar o medo”, pelo que os seus enunciadores viajam imaginariamente pelo território físico, simbólico, cultural e histórico de Angola, para além de trilharem, com confiança cada vez maior, os caminhos da linguagem literária, suavizando suas curvas e/ou amortecendo sua queda, como o faz João Maimona, em “Memória”, poema de 2001:

a Lopito Feijó

baloiçando em escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
e quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para
a península dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste”
(MAIMONA,2001, p.56)

       Estabelecem-se, por essas novas formas de navegação pela terra física e pelas da linguagem, outras negociações de sentido e as subjetividades ganham outras dimensões simbólicas. O núcleo temático dos deslocamentos e das viagens pelo espaço, pelo tempo e mesmo pela linguagem, portanto, ganha, no quadro assim posto, uma força de simbolização surpreendente, fazendo com que se abra, frente aos olhos do leitor, uma outra espécie de mapa. Tal mapa, como sabemos, a colonização portuguesa nunca foi capaz de cartografar; depois, os tempos das guerras impediram, muitas vezes, que por ele o sujeito poético se guiasse, nele sustentando sua própria forma de ver o mundo e de por esse mesmo mundo atravessar. Aparecem, por isso mesmo, na tela dos poemas que serviram de corpus desta fala: outros lugares nunca cartografados; o desenho das raízes mais profundas das identidades; o som dos ancestrais tambores; as tranças que contam as histórias das mulheres; os rios físicos e metafóricos da terra, na abundância de seus vaus, e os “ex-votos” espalhados sobre o território, dele fazendo-se os mais fortes e poderosos sinais.

      Não é por acaso que duas vozes de mulheres são aqui por mim convocadas para que eu possa calar a minha própria voz. Para mim, essas mulheres, como outras, se projetam, conforme em outro lugar já afirmei, como fiandeiras de novas palavras que vão tecer essa possibilidade de deslocamento para dentro de sua própria territorialidade física e simbólica, representando o movimento de suas águas e a possibilidade de nelas, em certo sentido, mergulharem ou navegarem, sempre negando que a violência e a guerra possam prevalecer sobre a paz e sobre a força dessa mesma terra e de seus mais que antigos sinais.

Maria Alexandre Dáskalos:
Fomos peregrinos de tantos lugares e de gentes de outras línguas bebemos água de muitas fontes. Mas àquela cachoeira que nos pertencia não podíamos chegar. Prenderam-nos no exílio e na tortura de a sonhar. Não somos mais peregrinos, estamos em outro lugar. Mas viaja a alma para nessa cachoeira mergulhar. (DÁSKALOS, 2001, p. 31)
Paula Tavares:
Venho de muitos rios e um só mar o Atlântico suas cores secretas a música erudita da praia a espuma lenta das redes de onde venho há lá e cá luz, risos de gargantas feridas almas abertas uma ciência antiga de treinar os olhos para as fibras depois as águas logo a seguir as tintas e nada sobre a terra com passos de silêncio para que nada perturbe aos olhos a luz. (TAVARES, 2007, p. 22)

       Para fechar diria que, com as avaliações, desenhos e/ou projeções de Maria Alexandre e de Paula, podemos concluir que as travessias e viagens por terra, rios e mar, que os sujeitos poéticos angolanos nossos contemporâneos propõem, nos permitem apreender a força simbólica de suas rotas de navegação. Por outro lado, esses mesmos sujeitos nos ensinam que, angolanamente, não há como negar a força de seu próprio lugar de pertencimento que eles querem reconstruir, pela linguagem, já, depois de 2002, principalmente, sem as sombras dos estilhaços e sem o barulho dos estilhaçamentos. Quase eu diria: em paz.

NOTAS:

1Este texto, até hoje não divulgado por meios editoriais, foi apresentado, em 2007, em forma de comunicação no “I Seminário Literatura, Guerra
e Paz: discursos da memória”, realizado na Universidade de São Paulo.

REFERÊNCIAS :

ABRANCHES, Henrique. Cântico barroco. Lisboa: Edições 70 para a União dos
 Escritores, 1987.
ANDRADE, Fernando Costa. Poesia com armas. Poemas. Lisboa: Sá da Costa, 1975.
BARBEITOS, Arlindo. Na leveza do luar crescente. Lisboa: Caminho, 1998.
BLANCHOT, Maurice. Foucault como o imagino. Trad. Miguel Serras Pereira e Ana Luisa
 Faria. Lisboa: Relógio d’Água, s/d.
CADORNEGA, António de Oliveira de. História geral das guerras angolanas. 1680. Anotado
e corrigido por José Matias Delgado. Tomo 1. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Agência – Geral do Ultramar, 1972. CARDOSO, António. Chão de exílio. Lisboa: África Editora, 1980. DÁSKALOS, Maria Alexandre. Lágrimas e laranjas: Poesia. Luanda: Nzila, 2001. (Colecção Letras Angolanas – Poesia – 6). FANON, Frantz. Os condenados da terra. 2. ed. Prefácio de Jean Paul Sartre. Trad. De José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979 (Coleção Perspectivas do Homem – vol. 42). HENRIQUES, Isabel Castro. Território e identidade: a construção da Angola colonial (c. 1872 – c. 1926). Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2004. KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África?: entrevista com René Holenstein. Trad. Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. MAIMONA, João. Traço de união. Lisboa: Edições 70 para a União dos Escritores Africanos, 1987. MAIMONA, João. No útero da noite. Luanda: Nzila, 2001 (Colecção Letras Angolanas / Poesia – 3). NETO, Agostinho. Sagrada esperança: Poemas. 9 ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1979. POLAR, Antonio Cornejo. O condor voa. Trad. Ilka Valle de Carvalho. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000 (Org. Mario J. Valdés). RUI, Manuel. Cinco vezes onze: poemas em novembro. Lisboa: Edições 70 para a União dos Escritores Angolanos, 1985. TALA, João. A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. (Guaches da Vida, 15). TAVARES, Paula. O lago da lua. Lisboa: Caminho, 1999.