Mulemba - n.9 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2013

APRESENTAÇÃO

        

É com grande satisfação que apresentamos a nova edição da Revista Mulemba, que chega ao seu décimo número navegando pelo oceano Índico e aportando em Moçambique. Considerando o tema geral, “A ficção moçambicana contemporânea”, todos os colaboradores elencados se debruçaram sobre a atual produção literária em Moçambique, destancando alguns de seus principais escritores, entre eles João Paulo Borges Coelho, Mia Couto, Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa. Chegar à décima parada dessa nossa empreitada não foi tarefa fácil, mas nem por isso menos profícua. A preparação e a finalização de cada novo volume nos convence, a cada dia, da importância dessa iniciativa, haja vista a qualidade dos estudos enviados para publicação e o número crescente de leitores – acadêmicos ou não – interessados nos escritores de países como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, além de observarem com especial atenção as análises em torno das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Tal como nos anos anteriores, a publicação dos textos seguiu a ordem alfabética do nome dos autores. Assim sendo, o artigo que abre os estudos reunidos em Mulemba 10, intitulado “Terra sonâmbula e os (des) caminhos da memória e da linguagem literária como reforço das identidades culturais”, é da autoria de Andrea Trench de Castro e passeia pelos espaços agrestes do romance de Mia Couto, buscando interpretar-lhe as motivações da memória e os sentidos da utopia. Em seguida, somos transportados da terra seca e insone para o espaço marítimo. Com o artigo intitulado “Erotismo verbal em O outro pé da sereia: o tecido da sedução”, Cláudia Barbosa Medeiros investiga como Mia recupera a subjetividade do texto literário através da alegoria erótica, desconstruindo a organização das esferas do poder. Na sequência, surge-nos o texto de Flavio García, cujo título, “Estratégias de construção narrativa e novos discursos fantásticos na ficção de Mia Couto: suas incoerentes personagens insólitas”, mantém nossas atenções voltadas para a produção miacoutiana. Partindo da leitura dos textos reunidos em Contos do nascer da terra, o mencionado artigo investiga o processo de incoerência textual como base para a escrita das narrativas fantásticas do renomado escritor moçambicano.

É chegada a vez de Paulina Chiziane e quem abre os estudos voltados para a obra dessa escritora é Letícia Villela Lima da Costa. No artigo intitulado “Ventos do apocalipse: oralidade e escrita como marcas identitárias”, deparamo-nos com uma análise sensível sobre a importância da recriação da oralidade na produção ficcional de Paulina, principalmente no que diz respeito à construção do romance Ventos do apocalipse. Voltamos à escrita de Mia Couto com dois outros artigos: “Felicidade e autoconhecimento: imagens abensonhadas em Mia Couto” e “Mia Couto: A confissão da leoa ou das leoas? – ‘eis a questão’”. No primeiro texto, de Maria Teresa Salgado, partindo da análise de contos reunidos em Estórias abensonhadas, somos levados a refletir sobre o exercício de autoconhecimento, que poderá ser entendido como um dos pontos de partida para a travessia da busca da felicidade. Por sua vez, o artigo subsequente, de Priscila da Silva Campos, repensa o papel da memória enquanto instrumento construtor de um espaço social diferenciado, especialmente no que diz respeito à importância da mulher na comunidade, retirando-a dos seus silêncios. Suas análises estão concentradas sobre o romance A confissão da leoa.

Para aqueles que esperam um pouco mais de Paulina Chiziane, somos apresentados aos estudos de Rosilda Alves Bezerra e Francisca Zuleide Duarte de Souza, desenvolvidos no artigo “A mulher moçambicana e sua relação com a guerra em Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane”. Em suas leituras, as autoras procuram interpretar a participação da mulher moçambicana nos diversos espaços sociais, destacando a sua relação com a guerra e com a preservação dos valores da cultura tradicional. Por sua vez, o texto de Sávio Roberto Fonseca de Freitas, “Balada de amor ao vento: as relações de gênero na ficção de Paulina Chiziane”,envereda pela problematização das relações de gênero dentro do referido romance de Paulina, destacando considerações sobre o sistema de relacionamentos poligâmicos.

Encerrando a presente edição de Mulemba, o artigo “De Gaza ao Zambeze: a reinvenção da História em Ualalapi e Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa”, de Vanessa Ribeiro Teixeira, constrói uma ponte comparativa entre os romances Ualalapi e Choriro, destacando o processo de recriação ficcional da história, levado a cabo por Ungulani Ba Ka Khosa.

Alguns dos caminhos e descaminhos da ficção moçambicana na contemporaneidade são aqui trilhados pelas linhas dos estudiosos elencados. Nosso desejo é de que as sementes dessa nossa árvore sagrada produzam cada vez mais frutos.

Com os votos de proveitosa leitura,

a Comissão Editorial.