Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Opinião:

A ESCRITA DA HISTÓRIA PELA LITERATURA

Zetho Cunha Gonçalves
Escritor angolano

         Sempre entendi a história como uma “outra” forma narrativa de ficção, mesmo quando o seu suporte de estudo e de trabalho se baseia nos mais fidedignos documentos de época. Digo-o sem nenhum menosprezo pelos historiadores e pelo seu trabalho, o que vale dizer que não deixará de ser um modo entusiasmante de aferir a(s) verdade(s) dos factos, esse que é o de poder ler vários autores (quando e onde eles existem, cada qual com sua visão, descrição e interpretação pessoalíssimas dos documentos e dos factos) sobre temáticas afins e/ou contraditórias. É, aliás, o mais salutar dos exercícios para quem queira documentar, minimamente, algum tema em concreto, o que fatalmente levará o leitor a muitas outras paragens, se para isso estiver disponível, tal como acontece na descoberta de poetas e poemas, de contos e contistas, de crônicas e cronistas, de romances e romancistas, ou de ensaios e ensaístas, naturalmente

         Acontece serem orais a maior parte das fontes com que os historiadores angolanos se veem obrigados a trabalhar, tal como acontece em muitos dos países e sociedades onde a tradição oral sempre foi a seiva e o húmus das próprias culturas e memórias coletivas. A esse fenômeno, desde sempre, prestaram os poetas e ficcionistas uma permanente atenção, transformando, não raro, as suas obras literárias, escritas, numa espécie de pré-história da própria história de Angola, ou, mais recentemente, numa espécie de antecipação da história que só ainda o quotidiano vai estabelecendo.

         Se, como afirma Octavio Paz1, “A poesia como palavra fundadora de um povo é um traço que aparece em todas as civilizações” (PAZ, 1993, p. 96), uma vez que “o poeta conhecia o futuro porque conhecia o passado” (PAZ, 1993, p. 96) e o “Seu saber era um saber das origens” (PAZ, 1993, p. 96), então, é aqui, também, que reside o nascimento da história, tal como a conhecemos e concebemos nos nossos dias. Porque, como acrescenta ainda Octavio Paz, “Sem esses poemas é impossível conhecer e compreender essas sociedades; sua influência estética, ética e filosófica foi imensa.” (PAZ, 1993, p. 96)

         Mas a essa poesia se deve, por direito próprio, juntar a música, essa música que vem fazendo, a par dos textos que a enformam, o rosto do povo angolano, como são os exemplos maiores de “Muxima”, “Humbiumbi”, “Birin Birin”, “Invulusi”, “Monetu ua Kassule”, “Kaputu”, “Dituminu”, “Etu Tuan’Angola”, “Nga Kuambela Kiá”, “Hoola Hoop”, “Paxi Ni Ngongo” ou “Mana Fatita” , entre tantos outros temas e canções, hoje patrimônio imaterial do povo angolano, quer pelo seu desempenho histórico na luta de libertação nacional, quer pelo papel que ainda mantêm como rosto identitário e de unidade nacional.

         Na mais contemporânea poesia e ficção produzidas por autores angolanos, não deixa de ter uma forte presença a história que se está quotidianamente a produzir e a viver no país. Ou seja, poesia, ficção e história entrelaçam-se com a maior naturalidade e na melhor convivialidade possíveis, num fascinante processo de criação literária a múltiplas vozes, que é o que hoje melhor caracteriza a nossa literatura.

         Recuemos, porém, aos primórdios da construção da literatura angolana. E aí encontramos Alfredo Troni, com a noveleta Nga Mutúr; António de Assis Júnior, com o romance O Segredo da Morta: romance de costumes angolenses, a que, em breve, se irão juntar os romances Homens sem Caminho e Uanga, de Castro Soromenho e Óscar Ribas, respectivamente. Nessas obras, tão diversas entre si, mas que as tem a unir o empenho na criação de uma literatura verdadeiramente angolana, o que se dá a ler é um vasto panorama histórico do tempo e das condições e contradições humanas, sociológicas e antropológicas, que os seus autores testemunharam, bem assim como a narração das lutas travadas pela libertação e dignificação do ser humano, na edificação da angolanidade.

         E, do mesmo modo, como ler o movimento “Vamos Descobrir Angola” e a obra dos poetas que vieram a enformar a Geração da “Mensagem” e da “Cultura”, se não como a escrita da história do país que ainda o não era, história essa feita a quente, ou seja, à temperatura do pulsar do sangue dos seus criadores? Sem essa poesia, como se poderia aferir hoje o que foi esse tempo tenebroso de repressão, e de heróica resistência, de combate para a libertação do país e do seu povo, pela sua afirmação nacionalista?

         Toda a obra de Pepetela é um questionamento histórico e um relato da própria história, quer a mais longínqua no tempo (Yaka, Lueji: o nascimento de um império, A Gloriosa Famíla: o tempo dos flamengos e A Sul. O Sombreiro), quer a história mais recente (Mayombe, A Geração da Utopia). Aliás, o mesmo se passando com Nzinga Mbandi, de Manuel Pedro Pacavira; A Casa Velha das Margens, de Arnaldo Santos; A Conjura e A Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa.

         Depois do chamado “cantalutismo” e da celebração revolucionária da independência nacional (em que se destaca a série de sete volumes intitulada Onze Poemas em Novembro, de Manuel Rui), a poesia angolana contemporânea, numa forte intertextualidade com a poesia sua predecessora, trabalhando a sua construção de voz pessoal e de identidade coletiva e nacional, muito embora caminhe mais sobre o lirismo, não raro é à história que recorre como tema do seu dizer-se. O poema “Em Soweto, Alexandra”, de David Mestre, é um bom exemplo, premonitório até do desenrolar dos próprios acontecimentos históricos. Arnaldo Santos é outro exemplo de poeta que se socorre da mais imediata história de Angola para a elaboração de poemas como: “No Massacre de Kamabatela”, “Kamukanda ao Guerrilheiro”, “No Cerco de Njiva”, “Na Linha da Frente”, entre outros. Mas são alguns poemas de Ruy Duarte de Carvalho, como “Chagas de Salitre”, “Novembrina Solene”, “Tempo em Ausência”, “Um Homem vem Ardendo”, “Noção Geográfica”, “Memória da Guerra em Julho”, “Sinal”, “Ciclo do Fogo”, “Parábola do Planetário”, “Fala de Diogo Cão às Portas do Zaire”, “Fala do Capitão António José da Costa na Pédiva”, “Fala de um Brasileiro ao Capitão-mor Lopo Soares de Lasso”, “Fala da Rainha de Regresso ao Quimbo”, “Fala da Rainha para Bento Banha Cardoso”, “Fala da Rainha Exilada na Matamba”, “Fala de Musurukutu” e “Fala do Povo, Sendo o Rei o Primeiro Aricultor”, aliados às epopeias que são os seus livros Ondula, Savana Branca e Observação Directa, que melhor dão a medida de como outra coisa não são senão narrativas históricas. Ou, se se preferir, diálogos que leem a história pela sua escrita, em poema.

NOTAS:

1PAZ, Octavio. A outra voz. Tradução: Wladir Dupont. São Paulo: Editora Siciliano, 1993.