Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Opinião:

A HISTÓRIA NA FICÇÃO

Pepetela
Escritor angolano

         Historiadores, com certa frequência, põem em causa a utilização do passado feita por alguns ficcionistas pelo fato de, de acordo com os primeiros, os segundos não prestarem o cuidado devido aos conhecimentos já adquiridos pela ciência histórica. Há críticas, por os romancistas, ao tentarem reconstituir cenas e ambientes de tempos anteriores, usarem mais imaginação que ciência, cometendo equívocos, por desconhecimento ou mesmo voluntariamente, adulterando aquilo que os vestígios e evidências propõem. Alguns escritores se defendem, dizendo estarem a fazer ficção; se esta pode recorrer ao imaginário, não são, portanto, obrigados a descrever, minuciosamente e com rigor, as épocas, mais próximas ou longínquas, em que situaram a ação de suas narrativas. Outros afirmam fazer pesquisas históricas aturadas e que respeitaram o ambiente da época, se bem que utilizando a arte da invenção para criar personagens ou cenas de ação mais sugestivas. É uma discussão que vem provavelmente já da Grécia antiga e, muito particularmente, da Ilíada e da Eneida, nas quais História se fundia com Mitologia e a Literatura com as duas. Podemos ou não confiar inteiramente em Homero (se é que existiu e escreveu a Ilíada) para compreender a Guerra de Tróia? O problema existe, talvez, desde o aparecimento da própria Literatura.

        Um escritor não faz num romance trabalho de historiador, não é essa tarefa sua. Mas, no caso das nossas sociedades, me parece haver necessidade de alguma cautela na reconstituição de uma época. Isso exige trabalho apurado de investigação, seja a partir de obras escritas existentes, seja de testemunhos orais ou de relatos da tradição, colhidos na maior parte dos casos nas obras dos antropólogos ou no terreno. Poderá haver (e tem de haver) invenção de fatos e personagens, mas a história narrada deve inserir-se num contexto que seja o mais próximo possível daquilo que os investigadores conseguiram desvendar.

        No caso angolano, em que a maior parte das fontes escritas provêm do tempo colonial e muitas foram produzidas por pessoas de ideologia colonialista, relatando os fatos conforme os seus interesses e os do sistema que defendiam, há ainda que saber interpretar e traduzir esses documentos, o que permite ao ficcionista maior liberdade de subversão, tentando interpretar os fatos narrados segundo uma ótica diferente da do cronista da época. Neste caso, os erros serão talvez mais “perdoáveis”, embora deva insistir na necessidade de se procurar sempre um certo rigor. Pelo fato de estar apenas em gestação uma história de Angola abrangente, a ficção é, muitas vezes, compreendida como constituída por fatos reais, acontecidos. Daí as cautelas. Daí o grande desafio.