Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2012

Opinião:

AS FRONTEIRAS ENTRE A HISTÓRIA E A FICÇÃO

João Paulo Borges Coelho
Escritor moçambicano

         As fronteiras entre a história e a ficção podem, de fato, parecer tênues, mas, para mim, são muito claras. Li, algures, já não posso precisar onde, nem em que circunstância, acerca da indignação de Umberto Eco com o Código da Vinci, de Dan Brown, pelo fato de este último autor fazer passar especulações por indícios de verdade. De fato, para mim, é este o limite último da ficção, a única coisa que não lhe é permitida, a linha que jamais pode ser transposta: confundir-se deliberadamente com a verdade.

        Numa das suas aulas de literatura na Universidade de Cornell, o escritor Vladimir Nabokov afirmava que A literatura é invenção. A ficção é ficção. Chamar a uma história uma história verdadeira é um insulto tanto para a arte como para a verdade. Em suma, há uma definição muito conhecida de ficção que a apresenta como uma espécie de contrato em que o escritor finge dizer a verdade e o leitor finge acreditar. Trata-se de um contrato que não pode, em circunstância alguma, repito, ser quebrado. Sob pena de anular irremediavelmente a magia (a verdade) da literatura. Dito isto, não quer dizer que a ficção não aspire a uma certa verdade dentro dela, a “sua” verdade. Ou seja, ela deve desempenhar a sua parte do contrato com competência, buscando a verosimilhança, aquilo a que Antônio Cândido chamou o sentimento de verdade. Mas não é uma verdade literal, objetiva. É, antes, a verdade que cada leitor retira privadamente da leitura.

        Tenho um romance histórico que flerta com esta questão, correndo até uns certos riscos, ao movimentar-se, ao longo dessa fronteira que não pode nunca ser cruzada, fazendo conviver personagens inventados com figuras que, de fato, existiram, acontecimentos hipotéticos com acontecimentos que a história narra como verdadeiros. A questão-chave que me coloquei foi: E se o desfecho de um determinado acontecimento historicamente verdadeiro, do conhecimento de todos, não tivesse sido como foi? E se ele tivesse sido de outra maneira? Mas, no fundo, trata-se de um exercício que não aspira à verdade literal, nunca poderia fazê-lo. Recorro, até, à introdução de personagens historicamente muito conhecidas para criar uma certa inverosimilhança, e, assim, ir lembrando ao leitor de que nada do que conto é verdadeiro. Até porque, no nosso caso, em que a cultura da leitura é mais recente e frágil, o risco se apresenta redobrado. Enfim, verdadeiro é o sal que resta no fim de toda a invenção, verdadeiro é o que o leitor retira da leitura.