Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Escritos Literários:

COM A CABEÇA À TONA DA ÁGUA

Ana Paula Tavares
Escritora angolana

Toda a gente conhece Lagos. A empregada de limpeza do seu escritório tinha um filho que habitava em Apapa, um bairro de Lagos; o rapaz da Companhia do Carvão que tinha vindo no dia anterior inspecionar a chaminé sabia tudo sobre Lagos. O aborrecido era que , assim já não se podia contar mentiras sobre o seu próprio país. Antes de se poder abrir a boca, o interlocutor sabia tudo o que se ia dizer. Isso tornava a vida muito monótona.

Muito bem, Minha Senhora, se conhece Lagos, as minhas felicitações...

O calor intenso e sufocante da tarde tinha deixado lugar a uma doçura de fim de tarde. As sombras alongavam-se. Um vento ligeiro soprava da lagoa. O sol preparava-se para desaparecer e tinha deixado já o centro de céu. Os mercadores e motoristas cansados estavam sentados à sombra preparados para beber o vinho de palma refrescante. Os comerciantes de comida alimentavam-se com o que restava. Os motoristas de caminhão andavam, preguiçosamente, em volta dos seus veículos, verificando uma coisa aqui, outra acolá, como se não tivessem pressa de partir para a longa viagem.

Aku-nna e Nna-nndo observavam estes últimos preparativos. Ainda não acreditavam que estavam a ponto de deixar Lagos. Lagos onde tinham passado toda a sua infância e onde moravam todos os seus amigos.

Buchi Emecheta

Em O Dote, Buchi Emecheta constrói um romance quase iniciático de regresso às origens. Através da personagem Aku-nna, uma menina de treze anos, assistimos à luta entre tradicional e moderno, quando a morte do pai a obriga a regressar à sua aldeia e deixar Lagos, a cidade grande onde cresceu.

A morte do pai determina a condução do tecido narrativo e da sua articulação em torno da viagem de regresso às origens para ficar com a mãe que aí tinha permanecido para resolver com os melhores curandeiros da aldeia um problema de esterilidade complicado, pois não era pelo fato de ter sido mãe de dois filhos que já conquistara o estatuto de “mãe de família”, digna desse nome...

Dividido em dez capítulos sucessivamente intitulados (o dote – o equivalente ao lobolo em Moçambique e ao alambamento em Angola); A Morte; Os Funerais; O Regresso a Ibuza; A Vida em Ibuza; Tradições, Os Escravos, Uma Espécie de Casamento; A Fuga; Desafio à Providência, a autora desloca a personagem central do romance numa viagem de revisita e reapropriação das tradições e repensa as relações profundas das mulheres com esses mundos de contrastes que os especialistas das Literaturas Africanas sublinham como um simbolismo: o drama de África e das rupturas entre tradição e modernidade. Como se o romance fosse a um tempo tributário das formas fixas do conto tradicional que a oralidade preservou e, numa estratégia de sobrevivência, se apropriasse das vantagens da escrita do romance moderno.

Falamos de um romance da escritora nigeriana Buchi Emecheta, nascida em 21 de julho de 1944, em Yaba, perto de Lagos. Órfã desde muito cedo, Buchi, filha de um funcionário dos Caminhos de Ferro, foi educada numa escola missionária. Aos dezesseis anos, casou com Sylvester Onwordi, um estudante de Lagos. Acompanha-o na sua viagem para Londres. Com ele vive seis anos e é mãe cinco vezes.

Em 1972 publica o primeiro livro (In The Ditch), trabalho autobiográfico sobre as aventuras de uma nigeriana, mãe de cinco filhos, estudante de sociologia e escritora nas horas vagas.

Abandono, solidão e frio não impedem que Adah (a personagem chave do romance) se aplique em sua formação, na alimentação das crianças e na expiação do sacrifício de expor o seu orgulho à caridade pública e à incompreensão de uma Europa hostil.

Pensei muito, diz Adah de repente. Antigamente eu sonhava ir ao Reino Unido. Podíamos levar as crianças conosco. Toda a gente vai agora ao Reino Unido. Eu ficaria feliz se também pudesse ir.

Francis deixou-a acabar antes de dizer: O meu pai não é partidário da ida das mulheres para o Reino Unido. Mas, tu compreendes, tu pagarás a minha deslocação, tomas conta de ti e das crianças e, dentro de três anos, eu estarei de volta. O meu pai diz que aqui tu ganhas mais que a maioria das pessoas que vivem em Inglaterra. Para que perder um bom lugar para ir para Londres?! Dizem que Londres se parece com Lagos...

Com um humor requintado e fino, Buchi Emecheta constrói o seu segundo romance – Cidadão de Segunda Classe, sobre as relações homem X mulher, e o fato de às mulheres ser negada uma educação universitária. As obras seguintes da escritora recuperam espaços, viagens, ligações na Nigéria e, nessas complexas ligações, as diferenças entre litoral e interior, não esquecendo o papel da colonização inglesa e da ação dos missionários das diversas congregações. Os dois acontecimentos históricos são habilmente ligados à fixação da mulher à casa e aos filhos, à sua submissão ao marido e ao poder.

Aqui e ali, a memória da importância da mulher como agente e sujeito de determinados espaços sociais, onde o mercado desempenha um papel fulcral, aparecem. Atribuída à mulher desde sempre a obrigação do sustento da família, o exercício dessas atividades permitiram espaços de liberdade e exercício de um poder à margem do poder masculino.

As mulheres comerciantes da Nigéria tinham-se rebelado mais do que uma vez e, em épocas sucessivas, durante o século XX, contra os impostos e as restrições da administração colonial.

As mulheres Ibo (das quais Buchi Emecheta descende) foram as principais atoras dos processos conhecidos como “A GUERRA DAS MULHERES”.

Wole Soyinka, o poeta, dramaturgo e novelista, prêmio nobel da literatura, dá-nos um relato vivo dessas manifestaçãoes no seu trabalho autobiográfico Ake, ou os anos da Infância:

Nnu Ego começava a sentir-se cansada, e estremecia de vez em quando, como uma criança assustada; mas caminhava muito depressa, irritada consigo própria por sofrer fisicamente. Enquanto caminhava, a dor e a raiva lutavam dentro dela; a raiva vinha por momentos, ao de cima, mas a dor emocional ganhava sempre. E era por isso que queria acabar depressa muito depressa. Não tardaria a chegar, dizia para consigo... Poderia então procurar o seu chi, o seu deus pessoal, a quem indagaria por que motivo a castigara assim. Sabia que o seu chi era uma mulher: não só porque, na sua maneira de pensar, somente uma mulher castigaria outra tão rudemente, mas também porque lhe haviam contado na sua terra, em Ibuza, que o seu chi era uma escrava que fora sepultada viva com a sua falecida dona. .. Mas ela ia agora procurar essa vingativa escrava, princesa de uma terra estrangeira, para discutir tudo com ela: não neste mundo, mas na terra dos mortos lá no fundo do mar...

Em As Alegrias da Maternidade, escrito em 1979 e disponível em português (Editorial Caminho, 2002), dedicado a todas as mães, Buchi Emecheta conta-nos a atribulada vida de Nnu Ego e a sua relação conturbada com o seu chi (destino pessoal, antepassado, deus particular) –Buchi Emecheta dá uma definição de chi mais alargada do que aquela que, por exemplo, Chinua Achebe lhe reserva.

É o regresso a Ibuza: “Uma aldeia cujos habitantes, segundo dizia a lenda, já viviam nessa parte do que hoje é Ibuza antes dos Ibos orientais chegarem... mas o orgulho local mantinha-se: os seus habitantes ainda se consideravam filhos do solo, embora este de há muito tempo lhes houvesse sido tirado debaixo dos pés”...

Organizado em torno dos problemas da maternidade, esse livro rememora a mãe, a mãe da mãe, as primeiras comoções da maternidade, a morte na infância, o marido e suas esposas, a participação da Nigéria na segunda guerra mundial com a mobilização dos homens para sítios dos quais nunca tinham ouvido falar:

No corredor onde os mandaram esperar, muitos deles tinham-se já rendido ao silêncio, com as mentes a funcionar como relógios e os olhos atentos. A tarefa do médico terminou rapidamente. Foram depois chamados alguns homens que Naife não voltou a ver... Noutra sala disseram-lhes, por fim, que tinham sido alistados e iam ser militares.

As mulheres ficam de novo sozinhas com os seus filhos. Assim foi toda a vida de Nnu Ego:

Histórias contadas depois disseram que Nnu Ego, até na morte, era uma mulher má, visto que, embora muitas mulheres lhe pedissem que as tornasse férteis, nunca satisfazia tais pedidos. Pobre Nnu Ego, que nem depois de morta teve paz. Apesar disso, muitas pessoas reconheciam que ela dera tudo aos seus filhos. A alegria de ser mãe era a alegria de tudo dar aos filhos – diziam.

Da obra de Buchi Emecheta destacam-se A Menina Escrava (escrito em 1977) e traduzido e editado pela Caminho em 2000, Titch the Cat, 1979, Nowhere to Play,1980; The Moonlight Bride,1980, On our Freedom,1981, Destination Biafra,1982, Gwendolin ,1990, entre inúmeros outros títulos que incluem peças de teatro e histórias para a infância.

Com a Cabeça à Tona da Água, (título de uma novela escrita e publicada em 1986), sua autobiografia, Buchi Emecheta resume a vida de uma mulher na diáspora, a sua luta pela sobrevivência e a conquista de um estatuto há muito almejado, o de escritora a tempo inteiro.

Terminamos a nossa jangada que hoje nos levou para lá do Niger e das várias Nigérias, onde as alegrias da maternidade podem ser ainda hoje a condenação à morte e a prazo de uma mulher (Amina do nosso descontentamento) com as palavras de Ojebeta, a menina escrava:

– Ao fim de tantos anos, está cumprido o contrato. Sinto-me livre ao pertencer a um novo dono, natural desta minha terra de Ibuza; o meu espírito está agora tranquilo.

– Obrigada, meu novo dono. Agora sou livre na tua casa. Não podia desejar melhor senhor.