Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Escritos Literários:

MULHER

Fátima Langa
Maputo, novembro 2006

Procurei palavras bonitas
Palavras caras e raras
Palavras de dicionário
Palavras que só os doutores sabem dizer
Para falar de ti, mulher
E não encontrei

Perguntei ao vento ao fogo e ao mar
À terra, ao tempo e espreitei no ar
Buscando alguém,
 alguma coisa
Que me dissesse o teu nome
Para eu falar de ti, mulher
E ninguém me respondeu

Então, vasculhei sentimentos e atitudes
E no fundo de cada um
Descobri as tuas pegadas
Por vezes longínquas,
Outras vezes ténues
Mas sempre presentes 
numa caminhada perene, penosa

 por fim encontrei-te.
Encontrei-te no rosto das crianças 
que  geraste e criaste
No amor que criaste com grãos de dor
Na esperança que semeaste 
em pedaços de desespero
Em feridas que curaste 
com lágrimas escondidas
Para não mostrar a face

Encontrei-te
 nas bocas saciadas da família
Em pedaços de percurso
 entre caminhões e fronteiras

Encontrei-te 
também no sono reparador do teu lar
Que semeaste em cada viagem arriscada 
A pé, de chapa ou de boleia
Entre insultos, violência e abusos                                       
respondes com um sorriso

Encontrei-te nesse amor que só tu sabes cultivar
Nos ombros que emprestas a quem precisa de chorar
Encontrei-te nesse amálgama de emoções
Que vives em cada dia
E que transformas num olhar

Mas vi também pegadas recentes
Nas salas de trabalho de políticos e cientistas
Reconheci-te com microfones falando para multidões
Descobri que já começaste a consolidar espaços novos
Nas tecnologias, nas decisões e nos espaços nobres
Nas empresas que algumas já te pertencem
Até condenas criminosos em salas de audiência.

Num momento de pausa
Encontrei-te sozinha com o olhar iluminado
E perguntei-te o teu nome
Respondes: Sou mulher

CRIANÇA

Fátima Langa
Maputo, abril 2005

Tu ! Que a ninguém pediste para vir ao mundo.
Tu! Que és o fruto daquele grande amor!
Daquele amor que leigos e jurados testemunharam
Daquele amor fogoso, de muita mentira
Daquele amor selvagem
Daquela violência que marcou tua mãe para todo o sempre
Por tudo isso, criança
Muito amor e muita rejeição te marcam.
Então não vejo?
Vejo sim criança!
Vejo quando divagas com a manada à procura de pasto.
Chova, troveje ou debaixo do sol árido estás ali!
Vejo nas grandes escolas lá da cidade alta
Quando logo pela manhã, bem equipado, o carro te deixa à porta do colégio
Quando desces do Chapa e cuidadosamente atravessas as largas Avenidas
Quando te metes naquela modesta rua a caminho da escola 
Quando com camisola e sapatilhas rotas lutas por vencer a pobreza
 Quando passo por ti ali no passeio encostado à padaria com uma bacia
 vendendo badjias
 Quando com uma caixa de papelão repleta de quinquilharias interpelas a todos
Tentando ganhar qualquer coisinha.
Quando junto ao semáforo te aproximas de cada carro pedindo uma moeda
Ó criança,
Ergue a cabeça
Ergue a cabeça e grite bem alto pelos teus direitos
Grite e lute com todas as armas e forças, pois, 
Criança! Tu és o nosso amanhã 
O País conta contigo amanhã