Mulemba - n.9 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2013

Artigo:

HOMENAGEM DOS AMIGOS A ROBSON LACERDA DUTRA

Ao amigo que parte
 
Talvez não possam alcançar-te
Os versos, lá onde estás;
Nenhum som, nenhuma arte,
Nenhuma música ou poesia.
Talvez nesse leito de paz
Não te alcance o meu pranto;
Da saudade o quebranto
Talvez não sintas mais.
Mas se te couber um olhar,
Um vislumbre fugidio
Deste mundo de vazios,
Saiba que, na partida, levaste
A parte de mim que te cabia.
E o que de teu aqui deixaste,
A amizade verdadeira,
Hei de guardar, destarte,
Pela minha vida inteira.

                                         Shirley Carreira

As palavras são poucas...

         Foram mais de dez anos que convivi com o Robson, durante a orientação de Mestrado e de Doutorado na UFRJ. Os orientandos viram espécie de filhos. E a perda do Robson doeu em mim dessa forma: foi um filho que perdi.

        As palavras já foram muito ditas e, nessas horas, se tornam ineficazes para expressarem o que, lá no fundo, sentimos. Mas, é preciso não esquecer tudo o que as pessoas que partiram nos legaram. E o Robson, além dos amigos e dos afetos, deixou muitos artigos, textos, livros e seu modo de ser que sempre serão lembrados.

Carmen Tindó

Partida

         Para Robson Dutra

Partir não é deixar para trás
imagens,
possibilidades,
distanciamentos e
aproximações.
É dizer, também,
que desistimos de esperar.

Nomes correspondem
a produtos da mente:
evocam
e não se constituem,
são e não são.
Nós
é que fazemos deles
uma propriedade nossa.
Assim, eles nos confirmam
e nos absolvem.

Partir devolve o nada
a si mesmo,
ao canto de trás
da mala do automóvel,
enquanto o movimento
prossegue
e a viagem não diz a que veio.

Um dia
um ponto assinala
o que poderia ter sido
e não foi.
O calendário
ganha importância,
fogos de fantasia
ecoam pelos ares.

Mas tudo volta à calma.

Continuamos os de sempre,
ajustes e desajustes
de causas
obcecadas por sentido.

Um nome que se foi
não é, afinal,
apenas um nome.
É a marca da angústia
e da convicção.
A certeza de que
terminamos a um passo
de saber
e jamais saberemos.

Daí a solidão
que nos fica-]
e que solidão!

       Ronaldo Lima Lins

À Memória de Robson Dutra
 
Tens agora o coração deposto
e em chamas
sobre as crateras e o silêncio do mundo.
 
Chegarás dançando
à entrada de Deus.
E, apontando
o lado fulminado do peito,
perguntarás:
− Estás contente, Senhor,
com o trabalho que fizeste?
 
Vejo-te a vasculhar – atento e atónito:
a cegueira vazia
das estantes de Deus.
E nenhum livro ali estará,
nenhum poema
− com seu dom,
sua ponte de precipício e salto,
sua voz de árvore rejubilante −
para te aproximarem ou te levarem pela mão
a uma nova
e cultivada
Amizade.
 
Saberás, então,
como o tempo do poema e o tempo
da morte
não coincidem no privilégio dos afectos.
Mas quem te dirá
quanto a tua ausência
é agora um rio
de águas para sempre intransponíveis?

 Zetho Cunha Gonçalves
 
Lisboa, 11 de Novembro de 2013

À memória presente de Robson Dutra, pelo que fez em vida e deixará fazendo-se na eternidade...

        A vida é tão simples que ninguém a entende” (COUTO, Mia. Mar me quer. 9.ed. Lisboa: Caminho, 2007, p.9), e a gente só pensa nela, mesmo e com seriedade, quando a morte bate à nossa porta ou a portas vizinhas. Sua proximidade natural – daquela naturalidade comum a todos os seres vivos – nos leva a medir “a verdadeira idade: vamos ficando velhos quando não fazemos novos amigos. Estamos morrendo a partir do momento em que não mais nos apaixonamos” (COUTO, 2007, p.12). Todavia, nem sempre a morte vem conforme as expectativas admissíveis em nosso quotidiano, e nos prega peças de mau gosto.

        Robson Dutra – como desde sempre o conheci – era um eterno apaixonando-se. Seduzido pelas (des)graças da literatura do insólito – ficção de coisas maravilhosas, fantásticas, mágicas, animistas etc. –, deu-se a escrever sobre o tema e a compartilhar novas amizades, chegando em um grupo que, antes, não era bem o seu, mas que, então, passava a ser. E, chegado, ia fazendo novos amigos a cada encontro, alargando o espectro de paixões, trazendo, para esse universo de estudos, autores e obras das literaturas africanas em língua portuguesa que já compartiam seus antigos afetos.

        Naquela manhã, ainda sorumbático, no entre-acordar, movi o mouse do meu computador – sempre ligado para me manter, a qualquer momento, informado, como espero, das boas novidades – e vi uma mensagem de email que me deixava transido. Trazia o dessabor das “peças de mau gosto” que a morte às vezes prega, contrariava as expectativas referentes à vida de quem continuava fazendo amigos e se apaixonando continuamente. “Aquilo era rasteira para fazer tropeçar machices” (COUTO, 2007, p.49). A voz engasganou-se, os olhos embasbaçaram-se, a mão tremulinou. Não era coisa de crer. Só podia ser ficção.

        Mas não era uma narrativa fantasy, não se tratava de um discurso do metaempírico, nem era sonho ou ilusão. Era a morte que, traiçoeiramente, driblando calços e percalços, tinha batido à porta ao lado. Levava-nos, do grupo de amigos, um apaixonado de si e por todos os que com ele compartilhavam aventuras pelos bosques da ficção. Robson ia, sem nos ter dado sinal, habitar o mundo feérico de muitas das personagens que encontramos nas páginas dos bons livros que lemos. Ele deixava de ser a pessoa em vida para se tornar a personagem da eternidade. Sua produção o faz eterno. É, agora, um ancestral, como o veem os africanos.

Rio de Janeiro, 14/10/2013.
Flavio García

Para Robson Dutra

O que dizer que já não tenha sido dito sobre Robson? É tarefa árdua, pois nós todos o fizemos, para dentro e para fora de nós. Vou tentar.

        Começo, louvando um amigo ímpar que sabia como ninguém nos afagar nos momentos dolorosos de nossas vidas e comemorar conosco nossas conquistas, alegrias, momentos felizes, ou mesmo vitórias muito pessoais. Ele sempre estava conosco, sorrindo, espalhando felicidade. Foi assim no nosso passeio de um dia inteiro por uma Lisboa ensolarada. Paramos em vitrines; vimos coisas bonitas que não podíamos comprar; rimos disso; sentamo-nos em duas confeitarias e fizemos bela refeição em uma ótima tasca perdida em uma das ruazinhas da cidade. Foi um dia para lá de feliz. Coisa de nunca esquecer.

        Lembro, também, sua refinada elegância; o gosto por bons perfumes e seu inigualável senso de humor. Quantas vezes ele me fez rir em momentos em que só me aprazia chorar. Borrifava-me corpo e alma nessas horas em que, ele sabia, eu estava precisando de um abraço amigo.

        Sei que, talvez, esperassem de mim um depoimento acadêmico, o que não posso deixar de fazer, pois Robson, com quem partilhei a mesma área de docência e pesquisa, sempre se revelou, até aí, mais que um simples colega, um AMIGO. Não tenho como deixar de louvar o exímio pesquisador que foi; o desbravador de caminhos teóricos e analíticos; o professor cúmplice dos alunos; o belo produtor de textos ensaísticos inovadores e bem sedimentados; enfim, um acadêmico, em todos os sentidos.

        Por tudo isso, não há como talvez não dizer o já dito, o que só reforça quem Robson Dutra foi, é e será: uma ESTRELA. Por isso mesmo, quando olhar o céu estrelado, conversarei com ele e, de novo, vou ficar feliz.

Laura Cavalcante Padilha

Meu amigo Robson,

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Morais – “Soneto da Separação”)

         Quando relembro os momentos que passei com meu amigo Robson, uma imagem me vem imediatamente à cabeça. Aquela do seu sorriso de fina ironia, sempre disposto a brincar ou a fazer uma piada aguda; uma ironia, contudo, que parecia traduzir, antes de mais nada, a sua percepção da fugacidade da vida e das contradições da nossa humana condição.

        Seu olhar atento e interessado pelo mundo a sua volta parecia desejar abarcá-lo em todas as variedades e paradoxos, demonstrando seriedade e concentração no trabalho ao lado de um entusiasmo quase infantil pela vida. Além de dedicar-se à arte – colecionador de obras de diversas procedências e frequentador de espetáculos de música, teatro e dança –, Robson se dedicava aos amigos, às viagens, à boa comida, à elegância, enfim, aos prazeres variados que o mundo pode nos oferecer...

        Para os que não tiveram a chance de com ele conviver, esse seu temperamento de inquietude crítica e multiplicidade de interesses pode ser encontrado nos muitos textos que nos deixou, que abarcam todas as literaturas africanas em diálogo com a música, o cinema, as artes, enfim, que nos traduzem um olhar comparatista, inquieto, crítico e fino.

        Eu tive a sorte de conviver com Robson e desfrutar de bons momentos a seu lado, tanto nas horas de lazer quanto nas horas de trabalho. Sou grata a ele por ter cantado ópera comigo nos corredores da faculdade, por ter-me mostrado as ruas de Lisboa que eu não conhecia, por ter me ajudado a receber amigos com seus conhecimentos gastronômicos, por ter-me auxiliado tantas vezes com seu cartão de crédito – sem deixar de me “gozar” por sempre esquecê-lo –, por ter-me contado tantas histórias que só ele sabia contar, com sua graça e verve; enfim, por tantos momentos dos quais me lembrarei sempre com prazer.

        Agora que meu amigo se foi, penso que ele viveu a vida plena e intensamente, como se soubesse que ela lhe seria arrebatada ainda no auge de suas capacidades de aproveitá-la e também de continuar a nos dar o melhor de si.

Maria Teresa Salgado

Robson

         Conheci Robson na Faculdade de Letras da UFRJ, no meio do grupo de estudantes da Carmen, quando fiz minha primeira palestra sobre a literatura da Guiné-Bissau. Robson me impressionou ao comentar que, da Guiné-Bissau, só havia conseguido encontrar, em Lisboa, o livro de contos Corte Geral, de Carlos Lopes, grande intelectual guineense, com inúmeras publicações de teor histórico e sociológico, sendo aquela a sua única ficção, praticamente desconhecida.

        Esse episódio deixa claro como os interesses de Robson, que tinha uma formação multidisciplinar (graduação em Música e em Literatura Brasileira, ambas pela UFRJ), eram amplos e chegavam “até” a levá-lo a procurar, em suas viagens pela Europa, autores de um país que, na época, era de fato pouquíssimamente estudado.

        Nós nos encontrávamos, em geral, uma vez por ano, quando eu estava no Brasil, ou em congressos pelo mundo afora, Lisboa, Coimbra, Madeira, Viena, Paris. Sempre trocávamos informações, livros e artigos; partilhávamos opiniões; discutíamos, pela via eletrônica, aspectos, sobretudo, da literatura guineense que ele passou a estudar, pois Robson não parou em Carlos Lopes. Publicou vários artigos sobre a literatura guineense: Safando mistidas, (des)construindo a nação (2008; 2010), sobre Mistida, o terceiro romance de Abdulai Sila; O romance guineense e a redenção do presente (2010), sobre a obra de Abdulai Sila; A prosa guineense: admirável diamante a ser lapidado (2010), sobre um novo excelente contista também pouco conhecido, Waldir Araújo; No meio do caminho havia cadernos: oralidade, língua e literatura na Guiné-Bissau e Moçambique (2011); O desafio do escombro: nação, identidade e pós-colonialismo na Guiné-Bissau, resenha (2011); Canto, poesia e revolução na arte de José Carlos Schwarz (2012), o celebrado compositor, músico e cantor da época da independência; A Guiné-Bissau (en)cena (2012), sobre as peças teatrais As orações de Mansata, de Abdulai Sila, e a desconhecida A estátua de pedra, de Raul Mendes Fernandes; Tony Tcheka e a exteriorização do olhar (2013), seu último artigo, apresentado uma semana antes de seu falecimento, no II Congresso Internacional da UFRJ.

Moema Parente Augel, professora aposentada da Universidade de Bielefeld