Mulemba - n.9 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2013

Artigo:

APRESENTAÇÃO

Ao Robson Lacerda Dutra, in memorian.

As editoras da revista Mulemba 9 têm o prazer em apresentar ao seu público leitor, estudantes, professores, pesquisadores de história, cultura e literaturas africanas, um número, composto de dez artigos, quase todos inéditos, sobre diálogos entre literatura e cinema, tema especialmente importante, porque o cinema na África de língua oficial portuguesa obedece a um desenvolvimento próprio, revisitando momentos da colonização, da luta pela independência, da guerra civil, e renasce com a necessidade de “brotar de dentro para fora”, dizendo muito de si para os africanos e para o mundo.

O cinema e a literatura, após as independências, em África, se constroem, buscando realizar um processo de descolonização tanto da linguagem literária, como da cinematográfica. E é também com a literatura que o cinema estabelece relações interartísticas. Como diria Hauser (2000), as artes não se repelem, mas, ao contrário, se completam. A literatura e o cinema produzidos na África se completam na fruição, no estudo e na pesquisa, principalmente, quando se trata de despertar ou aprimorar a sensibilidade estética e as dimensões da leitura.

O ensaio que abre esta edição é de Alberto Gomes de Oliveira, Katia Avelar e Maria Geralda de Miranda. Os autores expõem um estudo sobre o filme O jardim de outro homem, do cineasta moçambicano Sol de Carvalho, a partir do conceito de cinema pedagógico e da verificação do modo pelo qual o diretor organiza a ação dramática, a progressão narrativa, o suspense e o diálogo de personagens.

Na sequência, Angela Maria Roberti Martins e Washington Dener dos Santos Cunha discutem o papel do cinema africano na desconstrução do chamado racismo científico, que perdurou, especialmente, até a década de 50 do século passado, além de destacar a contribuição da produção fílmica para a construção das identidades nacionais.

Carmen Lucia Tindó faz uma leitura do curta-metragem Phatyma, de autoria do cineasta brasileiro Luiz Chaves e da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Ela mostra que o filme coloca em tensão tempos diferentes – passado, presente, futuro – e que, por intermédio da protagonista Phatyma, a educação patriarcal das mulheres em espaços rurais do meridião moçambicano é, criticamente, problematizada.

Guilherme de Sousa Bezerra Gonçalves, por sua vez, faz um passeio pela produção poética de Glória de Sant'Anna e procura estabelecer um diálogo dos textos da escritora com o filme Luzes de Ribalta, de Charles Chaplin, por meio da dança.

José de Sousa Miguel Lopes trabalha o universo ficcional da obra literária Terra Sonâmbula (1992), de Mia Couto; contudo, mostra que o filme não é mera transposição do romance de Mia Couto para o cinema, pois inclui outros contos do escritor moçambicano. Discute o problema da adaptação de textos literários para o cinema e tece considerações em torno do poeta, artista e escritor, Mia Couto.

Jusciele Conceição Almeida de Oliveira trata do filme Nha fala (2002), uma satírica e crítica comédia-musical, do cineasta guineense Flora Gomes, enfocando a discussão sobre gêneros cinematográficos e musicalidade africana. Aborda, em especial, as músicas que compõem o filme e narram a história da protagonista Vita.

O artigo de Laura Cavalcante Padilha versa sobre a relação entre linguagem fílmica e linguagem literária. Demonstra, em sua análise, que as sequências narrativas dos romances do escritor angolano Pepetela são compostas de cenas e planos que lembram a montagem cinematográfica e que o jogo metalinguístico presente, em quase todas as obras do autor, confere progressão e leveza às histórias contadas.

Marcelo Brandão Mattos propõe uma leitura do romance O quase fim do mundo (2008), de Pepetela, como uma narrativa que sugere a alternativa africana para o argumento cinematográfico desenvolvido no filme Eu sou a lenda (2007). Desenvolve-se a ideia da adaptação cinematográfica como pressuposto preliminar para o grande desvio literário de Pepetela.

Marta Aparecida Garcia Gonçalves analisa também aspectos do filme Nha Fala, de Flora Gomes, observando os recursos estético-filosóficos-discursivos utilizados e as confluências com algumas teorias pós-colonialistas, buscando mostrar a opção por uma produção de liberdade e de reação existencial que se firmará na busca de uma linguagem, poeticamente, contraideológica.

Por fim, Robson Lacerda Dutra, procura articular a história contada na novela As aventuras de Ngunga, de Pepetela, com o filme Na cidade vazia, de Maria João Ganga (2004), destacando os momentos diferenciados de produção, já que o filme é baseado em argumento do livro de Pepetela, mas, em um cenário urbano e pós-colonial, que leva os espectadores a compreenderem alguns impactos históricos e sociais que se revelam, criticamente representados, no cinema e na literatura.

Desejamos a todos uma ótima leitura.

Não poderíamos deixar de expressar aqui nossa grande dor e saudade pela partida repentina de Robson Dutra que, recentemente – e tão cedo –, foi afastado desta vida. Pelo pesquisador que ele foi, sempre presente, demonstrando grande seriedade em seus artigos, resolvemos dedicar este número de Mulemba à sua memória. Assim, na seção seguinte, antes dos artigos da revista, abrimos um espaço para mensagens de amigos em sua homenagem.

A Comissão Editorial