Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Artigo:

A SUL. O SOMBREIRO: MULTIFACETADAS HISTÓRIAS E ESTÓRIAS

A SUL. O SOMBREIRO: MULTIFACETED HISTORY AND STORIES

Edna Maria dos Santos*
UERJ

RESUMO:
A história de Benguela através da ficção de Pepetela. As metáforas do sombreiro: sombra, névoa, bruma. As estratégias de dominações: lutas, intrigas, conspirações, as múltiplas faces do colonialismo.

PALAVRAS-CHAVE: história, Pepetela, Benguela, conspirações, as múltiplas faces do colonialismo

ABSTRACT:
The history of Benguela through Pepetela’s fiction. The metaphors of the sombrero: shadow, fog, mist. The strategies of domination: struggles, intrigues, conspiracies, the multiple faces of colonialism.

KEYWORDS: history , Pepetela, Benguela, conspiracies, the multiple faces of colonialism

Mexer nas sombras,
clarear verdades,
configurar a vida,
quem sabe, como catarses... **

Edna Maria dos Santos, 2013

         Falar de Angola é falar, antes de mais nada, de multifacetadas histórias e estórias. Algumas muito antigas e outras mais recentes. As antigas nem sempre têm sombreiros, mas, principalmente, comerciantes e soldados que se localizaram no litoral, deixando, por muitos séculos, o interior sem um domínio efetivo português.

Gomes Eanes de Zurara, um dos maiores cronistas do rei de Portugal D. João II, foi o primeiro historiador a registrar presença portuguesa nas costas ocidentais africanas no século XV e a tratar das várias formas de captura e escambo, além do tráfico de negros da Costa da Guiné.

(HERNANDEZ, 2005, p. 25)

         A Conferência de Berlim em 1884/1885 é que, na verdade, formaliza a colonização.

Em 1849, Livingstone chegou à África do Sul. Em seguida, atravessou a África do Ocidente para o Oriente descendo o Zambeze. Em 1856, chegou à costa do Índico; em 1858, descobriu o lago Niassa e, em 1859, alcançou a Luanda. No mesmo ano, Burton e Spike descobriram o lago Tanganica. Spike atingiu, ainda, um grande lago que denominou Vitória, descobrindo as nascentes do Nilo. Em 1875, Stanley deu a volta ao lago Vitória, confirmando o encontro da nascente do Nilo. Verificou que o lago Tanganica não tinha saída para o norte e, lançando-se para o Lualaba, acabou chegando ao Atlântico, concluindo que o rio navegado era o Congo. A ele foram confiados a exploração e o estabelecimento de postos e assinaturas de tratados com chefes locais na região do Congo em nome do rei Leopoldo II, da Bélgica. Essas viagens destacaram-se pela importância e pela divulgação que tiveram. Mas, na verdade, houve muitas outras nas quais, ao lado dos ingleses, franceses e belgas, também os alemães, bôeres e belgas desempenharam um papel de relevo. Destas, vale ressaltar as de oficiais da marinha portuguesa, como a de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que, em 1877, saíram de Benguela, passaram por Luanda e, acompanhando o curso do rio Kuanza, viajaram para o norte, rumo ao Congo. Na volta, rumaram para o sul, chegando no Bié. Nessa viagem, foram descobertos os cursos dos rios Cubango e Tohicapa. Também merecem destaque as viagens de Serpa Pinto que, efetuadas em novembro de 1877 e março de 1879, deram a conhecer vastos territórios de Angola e Moçambique.

(HERNANDEZ, 2005, p. 57)

         A partir do momento em que Portugal se fixa na região, um sistema escravocrata dilacera corpos, desejos, pensamentos.

         O estabelecimento de províncias ultramarinas nunca teve como objetivos civilizar, mas, sim, explorar.

Tanto a partilha como a ocupação efetiva foram impulsionadas pela concorrência entre várias economias industriais, buscando obter e preservar mercados e pela pressão econômica de 1880 que desencadeou o expansionismo europeu.

(HERNANDEZ, 2005, p. 72)

         Assim aconteceu com Benguela, o “sombreiro angolano”, na baía das Torres, ou das Vacas, o cabo em forma de chapéu mexicano. Nessa região, Manuel Cerveira Pereira foi “um conquistador filho da puta” (PEPETELA, 2012, p. 5). Esta baía “larga de mato rasteiro e calmas águas, dominada por um morro com forma de chapéu largo, um sombreiro” (PEPETELA, 2012, p. 101).

         Para construir o romance A sul. O sombreiro, o escritor utilizou muitas fontes históricas e se valeu de muitas idas a arquivos.

Para fazer este livro utilizei várias fontes primárias tais como: O Reino de Benguela, História de Angola, de Ralph Delgado; Monumenta Missionária Africana, do Padre Antonio Brásio; História Geral das Guerras Angolanas, de Cadornega.

(PEPETELA, 2012, p. 377)

         A relação História-Literatura está presente em todos os romances de Pepetela e muito mais neste. A metodologia de escrita do autor se alicerça na ressignificação de memórias como uma forma de não perder as histórias de Angola e, ao mesmo tempo, de efetuar críticas e vomitar insatisfações. O romance A sul. O sombreiro se tece por meio de “metáforas esvoaçantes”, tais como: névoa, bruma, sombra, conspirações, claustros.

O Cerveira ambicionava deitar as unhas sujas ao ridículo território... Moveu-se nas sombras...

(PEPETELA, 2012, p. 9)

O Manuel Cerveira nunca escondeu a amizade tecida com os hipócritas jesuítas, os verdadeiros chefes do território, conspirando evidentemente.

(PEPETELA, 2012, p. 10)

As lições da brisa nunca se esquecem. Nem as dos claustros.

(PEPETELA, 2012, p. 11)

Luanda, terra de meias palavras.

(PEPETELA, 2012, p. 25)

Pairava uma névoa sobre aquelas cubatas? A névoa ou bruma estava lá de facto. Como a dos pântanos nas cercanias do rio Bengo. Toquei no crucifixo de prata pendurado ao pescoço, o qual me afastava dos perigos e do mau olhado.

(PEPETELA, 2012, p. 114)

         O que significa “ser esvoaçante”? É estar entre lugares, entre lusco-fuscos, entre vozes polifônicas, multifocos, muitos ares, águas, paisagens. É colocar as palavras em movimento, ouvir e ser ouvido, num diálogo de muitas vozes, em idas e vindas que fazem os sentidos se multiplicarem, polifonicamente:

O fato de ser ouvido, por si só, estabelece uma relação dialógica. A palavra quer ser ouvida, compreendida, respondida e quer, por sua vez, responder a resposta, e assim ad infinitum. Ela entra num diálogo em que o sentido não tem fim.

(BAKHTIN, 1992, p.357).

         A estrutura narrativa é construída por intermédio de vários personagens, vários olhares: de Manuel Cerveira Pereira, conquistador de Benguela; de Carlos Rocha de Luanda, filho de Mbaxi, que faz uma trajetória até Benguela, querendo encontrar o túmulo de Diogo Cão; do inglês Betwell, que andou por várias partes de Angola e fez sua cartografia; do padre católico Simão de Oliveira; enfim, de uma série de atores que produzem um espetáculo de saberes e poderes na ocupação e colonização de Benguela, principalmente, nos pesados tempos inquisitoriais dos Felipes.

Não se trata, bem entendido, nem da sucessão dos instantes do tempo, nem da pluralidade dos diversos sujeitos pensantes; trata-se de cesuras que rompem o instante e dispersam o sujeito em uma pluralidade de posições e funções possíveis...

(FOUCAULT,1970, pp. 58-59)

         Fazem parte deste espetáculo dissensões entre as ordens religiosas; conspirações de poder entre padres, vice-reis, conquistadores, sobas; negociações de tráficos, etnias – o que é depreendido por intermédio das falas de vários personagens e narradores.

O rei voltou à antiga decisão que tomou uma vez e teve de abandonar em seguida, tal o clamor da medida. Se tratava de mudar a maneira de tratar os sobas. Até há uns anos, o governador distribuía os sobas que se submetiam ao rei de Portugal pelos fidalgos que queria distinguir. Os fidalgos ficavam como amos dos sobas, o que obrigava a estes a trabalharem para aqueles, sobretudo em tributos.

(PEPETELA, 2012, p. 63)

         Apresentando este jogo de poderes, lutas e conspirações, através dos quais a maior parte da sociedade da Benguela da época participava, Pepetela vai construindo uma cartografia histórica de Angola e, principalmente, de Benguela, sob a falsa premissa de Carlos Rocha que iria buscar as ossadas de Diogo Cão.

         O itinerário do romance é labiríntico; muitas são as abordagens possíveis; grande parte delas se movimentam nas sombras, como “a de uma baía larga de mato rasteiro e calmas águas, dominada por um morro com forma de chapéu largo, um sombreiro.” (PEPETELA, 2012, p. 101)

         No meio de densos nevoeiros, a cuspideira do Cerveira (cobra do mato) dispara seu veneno para aumentar seu poder: “O governador detinha a autoridade máxima da terra e servi-lo era melhor que ser escravo de um kaxiko qualquer” (PEPETELA, 2012, p. 127). Pelo meio de uma manhã cinzenta, “os degredados por crimes de sangue ou de roubo acabam por ser magistrados, meirinhos, comerciantes, mesmo capitães de exército ou vigários” (PEPETELA, 2012, p. 134). E, assim, vão-se formando os quadros nas colônias. Mas, antes deles, quase nada é falado dos africanos que desceram rios e subiram serras para fazerem travessias terrestres, marítimas e fluviais e, também, ficaram esquecidos como os grandes viajantes árabes.

Perto do mar atracavam os botes que traziam as mercadorias das naus e caravelas. Aí embarcavam os escravos para as Américas. Havia mais movimento na ilha, território do rei do Kongo, onde se recolhia o nzimbo, a principal moeda que se apresentava sob a forma de conchas. O conjunto das quatro cubatas mostrava a importância de Sebastião Rocha, o Mbaxi, quando negociava marfim, escravos, artigos vindos do interior em longas caravanas...

(PEPETELA, 2012, p. 30)

         A conquista de Benguela se deu através de conspirações, traições, interesses espúrios de poderes que se escondiam em sombras. O romance de Pepetela expõe as tiranias da metrópole portuguesa, mas também as vilanias e as disputas internas entre os próprios africanos.

Este aglomerado de casas era de Benguela? Menor que Luanda, muito mesmo e sem comparação possível com Caxinde, a cidade de Imbe Kalandula, de quem fugia. Mesmo Sumbe-Ambuela, a capital dos Sumbes, governada pelo seu amigo Ebo-Kalunda, era muito maior e mais povoada.

(PEPETELA, 2012, p. 347)

         O narrador, ao finalizar o romance, relembra o mote das ossadas de Diogo Cão, estratégia ficcional utilizada para falar de uma possível história de Benguela. E como os sonhos “se sonham mas não se partilham” (PEPETELA, 2012, p. 145), cabe ao leitor imaginar possíveis leituras e releituras de A sul. O sombreiro.

NOTAS:

* Doutora, Profa. Adjunta de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

** Fragmento de poema inédito (2013) da própria autora deste artigo.

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Trabalho recebido em 25 de fevereiro de 2013 e aprovado em 08 de abril de 2013.