Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Artigo:

HISTÓRIA E IDENTIDADE: UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA
CHAMADA TERRA
, DE MIA COUTO

HISTORY AND IDENTITY: MIA COUTO’S
UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

Andreza dos Santos Flexa
IFPA- Campus Belém

RESUMO:
Esse trabalho consiste na análise dos embates identitários sofridos pelo narrador- personagem “Marianinho”, no romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003), de Mia Couto. Para tanto, se discute como o narrador-personagem convive com um espaço e tempo, representativos da maneira como identidade e memória estão interligados no romance para a construção de sua personalidade, observando, sobremaneira, que o seu retorno a Luar -do- chão é, na verdade, um renascimento para sua identidade cultural.

PALAVRAS-CHAVE: identidade; memória; deslocamento; romance.

ABSTRACT:
This essay analyzes the identity struggles of Marianinho, the character-narrator of Mia Couto’s Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003). It examines how the character- narrator lives within a space and a time that represent how identity and memory mix themselves in the novel to build his personality; thus, we notice above all that his return to Luar-do-chão is actually a rebirth that reveals his cultural identity.

KEYWORDS: identity, memory, displacement, novel

Introdução

         Esse texto tem como foco os deslocamentos de Marianinho na Ilha de Luar-do-Chão, inferindo que a personagem, ao retornar para sua terra natal, fragmenta-se entre o tempo (responsável pelas memórias da família dos Malilanes) e a terra (representação das raízes tradicionais africanas), enquanto busca construir sua identidade.

         Logo no início do romance, quando o estudante se prepara para retornar à Ilha, os fragmentos de memória do tempo em que vivera com sua família já começam a se mostrar:

Os outros familiares eram muito diferentes. Meu pai, por exemplo, tinha a alma à flor da pele. Já fora guerrilheiro, revolucionário, oposto a injustiça colonial. Mesmo internado na ilha, nos meandros do rio Madzimi, meu velho Fulano Malta transpirava o coração em cada gesto. Já meu tio Últímio, o mais novo dos três, muito se dava a exibir, alteado e sonoro, pelas ruas da capital. Não frequentara mais a sua ilha natal, ocupado entre os poderes e seus corredores. Nenhum dos irmãos se dava, cada um em individual conformidade. O tio Abstinêncio [...] sempre assim se apresentou: magro e engomado, ocupado em traçar lembranças. Um certo dia, se exilou dentro de casa. Acreditaram ser arremesso de humores, coisa passatemporária. Mas era definitivo.

(COUTO, 2003, p.16, 17)

         O ressurgir das lembranças, a partir do sentimento de retorno a seu lugar de origem, acontece por meio da descrição do narrador sobre a diferença entre os familiares. Tais lembranças referem-se aos episódios da história da família Malilane: os conflitos sociais e psicológicos que os personagens enfrentam em seu cotidiano.

         As agitações familiares têm como pano de fundo a situação de decadência, mesmo após a independência, resultado da troca de um mundo em que o sistema de valor não funciona mais em nome da tecnologia, da modernidade dos costumes:

Me empoleiro no atrelado do tractor, vou circulando entre os caminhos estreitos de areia. Até há pouco a vila tinha apenas uma rua. Chamavam- lhe, por ironia, Rua do Meio. Agora, outros caminhos de areia solta se abriam, num emaranhado. Mas a vila é ainda demasiado rural, falta-lhe a geometria dos espaços arrumados.

(COUTO, 2003, p.27)

         Como se pode perceber, o narrador começa, não só a se deparar com a falta de progresso na Ilha, mas, também, a se posicionar como um sujeito esclarecido, que tem como referência de modernidade a cidade na qual se formou: “um espaço arrumado”. A Ilha para ele, embora tenha passado por transformações, preserva raízes rurais, que não atraem seu gosto de homem citadino.

         Nota-se aqui que a personagem mudou, de acordo com as mudanças que a vida lhe impôs. Assim, o embate entre a tradição e a modernidade reforça um dos motivos da fragmentação da identidade de Marianinho, visto que o conjunto de valores mantidos em Luar-do-Chão é muito diferente daqueles apreendidos na cidade.

Dói-me a ilha como está, a decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza parece sofrer de mau-olhado. Os capinzais se estendem secos, parece que empalharam o horizonte. À primeira vista, tudo definha. No entanto, mais além, à mão de um olhar, a vida reverbera, cheirosa como um fruto em verão: enxames de crianças atravessam os caminhos, mulheres dançam e cantam, homens falam alto, donos do tempo.

(COUTO, 2003, p.28).

         As primeiras experiências de um tempo marcado pelas consequências do colonialismo violento que devastou a Ilha de Luar-do-Chão são angustiantes aos olhos do narrador, pois ele vê a si próprio perdido nas referências que tinha daquele lugar. Com isso, resolve pensar a tradição, parando para observar os costumes que ainda se conservam na Ilha: o brincar das crianças, a dança das mulheres e a profecia dos homens.

         O posicionamento assumido pela personagem pode ser visto como uma tentativa de pôr em ordem os paradoxos que muitas vezes informam o tratamento da identidade na literatura. As obras literárias caracteristicamente representam indivíduos, de modo que as lutas a respeito da identidade são lutas no interior do indivíduo e entre o indivíduo e o grupo.

         Demarca-se o início do deslocamento de um sujeito moderno para um pós-moderno: Marianinho, a partir de seu deslocamento, que não é somente geográfico – no caso, da cidade para Ilha - mas, também, um deslocamento social, econômico e cultural, precisar reinventar a si mesmo. Assim, com auxilio da memória, vai em busca da tradição.

         É conveniente assinalar que é Marianinho quem registra as suas memórias pessoais, bem como as memórias de sua família, contadas de várias formas.

As cartas instalavam em mim o sentimento de estar transgredindo a minha humana condição. Os manuscritos de Mariano cumpriam o meu mais intenso sonho. Afinal, a maior aspiração do homem não é voar. É visitar o mundo dos mortos e regressar, vivo, ao território dos vivos.

(COUTO, 2003, p.257, 258).

         O sentimento despertado pelas cartas pode ser lido como um indicativo de que o narrador estará construindo sua identidade em meio a memórias difusas que o deslocam o tempo inteiro. Por tal motivo, seus posicionamentos identitários se apresentam, por vezes, contraditórios.

         A respeito disso, tem-se que "os deslocamentos ou os desvios da globalização mostram-se, afinal, mais variados e mais contraditórios do que sugerem seus protagonistas ou seus oponentes" (HALL, 2001, p.97).

         Nota-se, com isto, que a associação entre o conjunto de valores constitutivos da tradição e as situações relacionadas às experiências da modernidade, vivenciadas por Marianinho na cidade, permitem conceituar o personagem como um sujeito contemporâneo que perdeu seus antigos perfis e, por tal razão, se acopla a outros.

         Assim, Marianinho, sujeito moderno, vive a liberdade de seus atos e, embora a tradição diga que não se pode consumar o sexo quando há um morto na casa, o estudante o faz sem culpa: “Tudo acontece sem contorno, sem ruído, sem peso. Nunca o sexo me foi tão saboroso. Porque eu sonhava quem amava, sonhando amar naquela todas as mulheres.” (COUTO, 2003, p.112).

         Nesse trecho, observamos um contravalor a guiar as ações de Marianinho. Em virtude disso, o jovem se entregava ao sexo, proibido pela tradição em tempos de luto, com liberdade e sem preocupações com os comportamentos morais.

         Diante de tal posicionamento, podemos entender o narrador-personagem como um sujeito pós-colonial, pois reflete a realidade dos sujeitos contemporâneos que transitam em meio a identidades fragmentadas múltiplas e deslocadas, geradas a partir das mudanças na estrutura social.

         Assim, o jovem narrador desloca-se da tradição para a modernidade e desta para aquela, identificando-se com as identidades plurais e complexas que o transformam a cada contato.

Na praia esperam-nos. É a família, quase completa. Os homens á frente, pés banhados pelo rio, acenam-nos. As mulheres atrás, braços de uma cruzando braços de outras como que segurando um só corpo. Nenhuma delas me olha no rosto.

(COUTO, 2003, p.26).

         Compreende-se que Luar-do-chão é o local do encontro com os parentes e, também, o local da identificação constituída por uma política de diferença. Na Ilha, Marianinho tem a preocupação em ser reconhecido. Por tal razão, seus posicionamentos identitários dependem das memórias da tradição familiar experimentadas por ele.

         De acordo com Chauí (1997), a memória revela-se fundamental para a compreensão da existência, à medida que está relacionada com o tempo, e este, com aquilo que se encontra escondido, ausente e distante: o passado.

         Vale ressaltar que a identidade cultural encontra-se associada aos fragmentos da história individual e coletiva de uma sociedade. Nesse sentido, tanto os indivíduos quanto a sociedade são os responsáveis por preservar essas memórias.

         Desse modo, Marianinho carrega na memória lembranças de épocas anteriores à colonização, longe das influências culturais portuguesas, mas, também, dos acontecimentos no período da invasão colonial, como os deslocamentos e a guerra.

Não são apenas casas destroçadas: é o próprio tempo desmoronando. Ainda vejo numa parede um letreiro já sujo pelo tempo: “A nossa terra será o túmulo do capitalismo”. Na guerra, eu tivera visões que não queria repetir. Como se essas lembranças viessem de uma parte de mim já morta.

(COUTO, 2003, p.27)

         Nesse excerto, o narrador denuncia os efeitos da colonização, posicionando-se como um sujeito consciente de que sua pós-colonialidade: percebia que a paz não trouxera a tranquilidade almejada pelas comunidades; a Ilha se encontrava imersa num caos político e econômico.

         Na afirmação de Reis (2010), a realidade africana, após a independência de suas colônias, fez com que os africanos buscassem uma forma de se desprenderem das metrópoles imperiais. Assim, uniram-se e construíram uma nova territorialidade, reinventando suas identidades por meio da preservação das memórias da África.

         Segundo Hall, é preciso compreender que as identidades são construídas dentro dos discursos e “emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e, assim, são mais produto da marcação da diferença da exclusão do que do signo de uma unidade idêntica” (HALL, 2001. p. 109).

         Sendo assim, confirma-se que as identidades são construídas dentro de representações da cultura e se moldam de acordo com os códigos culturais absorvidos pelos sujeitos em seus grupos sociais. Isto quer dizer que as lógicas comunitárias afetivas mobilizam os indivíduos ou uma coletividade em torno de um imaginário comum; no caso de Marianinho, a busca por identidade.

         Diante da sua condição de estrangeiro, Marianinho almeja, por meio de fragmentos de toda a história da família, reconstruir sua identidade. Desse modo, o narrador-personagem, ao despertar para a consciência de si próprio, descobria a consciência dos seus.

Ainda bem que chegou, Mariano. Você vai enfrentar desafios maiores que as suas forças. Aprenderá como se diz aqui: cada homem é todos os outros. Esses outros não são apenas os viventes. São também os já transferidos, os nossos mortos. Os vivos são vozes, os outros são ecos. Você está entrando em sua casa, deixe que a casa vá entrando dentro de si. Sempre que for o caso, escreverei para si. Faça de conta que são cartas que nunca antes lhe escrevi. Leia mas não mostre nem conte a ninguém.

(COUTO, 2003, p.56)

         Por intermédio das cartas misteriosas, Marianinho vai explorar a dimensão dos segredos que cercam a família Malilane, além de tentar descobrir por que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto. Nesse sentido, as cartas funcionam como “pistas” que o auxiliarão a decifrar os mistérios que circulam na enigmática Ilha de Luar-do-Chão.

Estas cartas são o modo de lhe ensinar o que você deve saber. Neste caso, não posso usar os métodos da tradição: você já está longe dos Malilanes e seus xicuembos. A escrita é a ponte entre os nossos espíritos e os seus espíritos. Uma primeira ponte entre os Malilanes e os Marianos.

(COUTO, 2003, p.126).

         Fragmentada entre o tempo e a terra, a personagem colherá inúmeras memórias dos habitantes da Ilha, a fim de preencher as lacunas de sua história, ressignificar o passado e tecer o futuro nas linhas do presente.

         Para Michael Pollak:

a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si.

(POLLACK,1992, p.5)

         De acordo com Pollack, torna-se a memória o fator mais importante ao entendimento dos sentimentos de continuidade e coerência, processada individual e/ou coletivamente na vida da personagem. Halbwachs também argumenta a propósito:

Para que nossa memória se auxilie com a dos outros, não basta que eles nos tragam seus depoimentos: é necessário ainda que ela não tenha cessado de concordar com suas memórias e que haja bastante pontos de contato entre uma e as outras para que a lembrança que nos recordam possa ser reconstruída sobre um fundamento comum.

(HALBWACHS, 2006, p. 38.).

         De fato, como esclarecem os autores, o processo de interação entre as memórias não ocorre somente com o intuito de ordenar imagens do passado condicionadas pelo presente, mas, também, para complementar o indivíduo com elementos exteriores, os quais acentuam o senso de comunidade e tornam os indivíduos e os outros cúmplices em torno de um objetivo comum.

         A construção da identidade do narrador-personagem Marianinho é um processo extremamente complexo, pois implica uma série de revelações de segredos da família dos Marianos (como eram conhecidos no aportuguesamento), fatos velados, seguramente, por cada um dos membros desse sistema.

Você não veio a Ilha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento. Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estão morrendo não por doença, mas por desmérito de viver.

(COUTO, 2003, p.64)

         Para assegurar a construção de uma identidade cultural em que caminham a tradição e a modernidade, Marianinho passa a receber comandos que o instruem a registrar as experiências dos agentes de Luar-do-Chão e, com isso, preservar as memórias da família a ponto de repassá-las às gerações posteriores.

         Nota-se, com o desenrolar da narrativa, que Marianinho não se resume a uma personagem a delinear as histórias de uma família em uma Ilha; antes, consiste em um elemento preponderante para a restauração da cultura de seu povo, de modo a registrar as memórias da história e da cultura de uma Nação. Daí o fato de o narrador-personagem sofrer uma crise de identidade ao chocar- se com o passado, tempo em que imperam dúvidas e incertezas acerca de sua própria história, além de sua vida parecer interligada a de seu avô e patriarca da família, Dito Mariano: “Sim, você é a água que me prossegue, onda sucedida em onda, na corrente do viver” (COUTO, 2003, p. 238).

         Sabe-se que a água é um símbolo que contém muitos significados, entre eles o de manutenção da vida. No romance em questão, a água é um elemento metafórico (dentre outros, ao longo do enredo), que se apresenta na forma de um rio, simbolizando a passagem de um tempo que leva adiante as memórias dos Malilanes, lembranças de uma etnia esquecida no pós-independência.

         Ao nomear o neto da mesma forma como era nomeado por todos, em Luar-do-Chão, Dito Mariano o faz não somente com intuito de deixar um sucessor na Ilha, mas, principalmente, com o objetivo de manter viva a tradição através da figura do neto e, assim, fazer renascer, como água, a cultura africana. Para Hall,

[...] a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”.

(HALL, 2001, p. 38).

         Cativo do tempo e da terra, em um universo de fronteiras difusas, Marianinho, com o subsídio das memórias da família, principalmente as do avô Dito Mariano (reveladas pelas cartas) e da avó Dulcineusa, vai de encontro a um passado repleto de sentimentos e tradições, contrastando com a então modernidade de seus valores adquiridos na cidade.

         Nessa perspectiva, um dos aspectos da questão da identidade assinalados por Hall “está relacionado ao caráter de mudança na modernidade tardia; em particular, ao processo de mudança conhecido como “globalização” e seu impacto sobre a identidade cultural” (HALL, 2001, p. 14). Assim, embora as identidades surjam com o indivíduo no local do seu nascimento, eles são deslocados, constantemente, pela modernidade dos meios sociais, perdendo a “fixidez” que acreditavam possuir.

         No encontro com a Nyumba-Kaya, “a casa grande, a maior de toda a Ilha” (COUTO, 2003, p.28), Marianinho percebe que aquela está destelhada, conforme manda a tradição africana quanto ao luto, para que o céu entre e limpe as sujeiras cósmicas, deixando o caminho livre à passagem do morto para outro mundo. No entanto, na manhã seguinte, o jovem percebe que o corpo do velho Mariano encontra-se fora do caixão “com dificuldade de transição, encravado na fronteira entre os dois mundos”. (COUTO, 2003, p.41).

         A dificuldade de passagem do Avô se dava pelo fato de que Dito Mariano não podia atravessar o portal para o mundo dos mortos, sem antes recompor a família e a Ilha (em degradação por conta da colonização). Além disso, precisava revelar ao neto a verdadeira história sobre sua origem, enterrada com um tesouro por longos anos na Ilha. Desse modo, o velho Mariano escolhe ninguém menos que o próprio neto para continuar o seu trabalho de preservação do Clã dos Malilanes.

Esse é o serviço que vamos cumprir aqui, você e eu, de um lado e outro das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar -do- Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.

(COUTO, 2003, p. 65.)

         Percebamos com este trecho que a identidade de Marianinho está se construindo na relação entre a tradição (oralidade do avô) e a modernidade (escrita do neto).

         Incumbido da proteção das memórias da família, o narrador-personagem recebe, pelas mãos da avó Dulcineusa, as chaves da Nyumba-Kaya, para que ele defendesse a casa e a avó. Esta precisava ser protegida dos parentes que a acusavam da morte do velho Mariano.

[...] No fundo, ela sabia que, com o desaparecimento do velho Mariano, todas as certezas ganhavam barro em seu alicerce. Se adivinham o desabar da família, o extinguir da casa, o desvanecer da terra - Desaparecendo o velho mariano e o que é que mais nos vai unir?

(COUTO, 2003, p.147.)

         Na cultura da África, o idoso é bastante valorizado, pois carrega consigo a responsabilidade de transmissão dos acontecimentos e experiências dos antepassados. Desse modo, Adimirança sabia que, com a morte do Velho Mariano, quebravam-se os alicerces que mantinham a família Malilane na tradição africana.

        Nesse sentido, Dito Mariano repassa suas memórias ao neto, o qual vai sendo, aos poucos, costurado à tradição. Por intermédio das cartas, Marianinho é conduzido de volta ao seio familiar e descobre um passado de conflitos, incertezas e descobertas. Embora encarregado do cerimonial fúnebre, não podia deixar que o enterro se completasse antes de desvendar todos os mistérios da Ilha e construir sua identidade realizando os últimos desejos do Avô:

Se terminar a cerimônia você não receberá as revelações. Sem essas revelações você não cumprirá a sua missão de apaziguar espíritos com anjos, Deus com os deuses.

(COUTO, 2003, p.125)

         Percebe-se, neste trecho, a sensatez do velho patriarca, pois ele sabe que somente a construção da identidade do neto era o meio de reabilitar os valores culturais e, assim, reestruturar a ilha, bem como a família dos Marianos, seu desejo maior. Com a afirmação dessas raízes em Marianinho, este poderia sair do dualismo que o retorno à Ilha de Luar-do-Chão lhe causou.

         O jovem estudante recebera muitas cartas, todas elas escritas por suas próprias mãos, mas, de acordo com a quarta correspondência, de autoria do “falecido” avô, “Sou eu, Dito Mariano, o sombrio escrevente” (COUTO, 2003, p.138)

         A cada carta, o narrador-personagem vai construindo sua identidade num tempo e numa terra mais viva do que ele pensa. Contudo, é somente na oitava carta que lhe é revelada sua real identidade: é filho biológico do seu Avô, Dito Mariano, e de sua tia Admirança. “[...] uma voz infinita se esfumava em meus ouvidos: não apenas eu continuava a vida do falecido. Eu era a vida dele.” (COUTO, 2003, p. 22.).

         A emergência de uma identidade atrelada ao Tempo e à Terra faz com que o avô, “clinicamente morto”, interrompa o funeral a fim de reescrever, a partir do neto, os modos de ser do africano, que precisa transitar entre os pólos da tradição e da modernidade para garantir seu espaço. Dessa maneira, revelado o segredo acerca da paternidade e maternidade de Marianinho, além de resolvidas as pendências da família, o avô envia ao neto a última carta. Nela despede-se com a sensação de dever cumprido: “você, meu filho, você disse o certo: a morte é a cicatriz de uma ferida nunca havida, a lembrança de uma nossa já apagada existência. [...] Eu apenas estou usando a morte para viver.” (COUTO, 2003, p.256.)

         O trecho encerra um ciclo da narrativa que trata do envio das vozes do avô, pelas quais o narrador-personagem descobre-se filho de uma tradição a velejar nos rios da modernidade. Dito Mariano ainda se mostra orgulhoso por Marianinho ter redescoberto suas raízes e recuperado sua identidade:

Já não necessito lhe escrever por caligrafada palavra. Falaremos aqui, nesta sombra onde ganho dimensão, corpo renascendo em outro corpo. Você meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser, só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida.

(COUTO, 2003, p.258)

         Com esse trecho, retirado da última carta recebida por Marianinho, percebe-se que o jovem não só construiu sua identidade, como também, cumpriu sua missão de reconstruir a ilha e a família dos Marianos. Portanto, o narrador personagem, além de desempenhar o seu papel de registrar a memória e a voz da sociedade moçambicana, também contribuiu para a perpetuação da cultura de Luar-do-Chão.

Eis o que eu aprendi Nesses vales onde se afundam os poentes: afinal, tudo são luzes e a gente se acende nos outros. A vida é um fogo, Nós somos suas breves incandescências.

(COUTO, 2003, p.241).

         Verifica-se aqui uma característica do sujeito pós-colonial: a tomada de consciência de que tudo na vida é condicionado. Por isso, Marianinho precisou abandonar a sua condição de único e centrado para se reinventar, assumindo múltiplas identidades que se transformaram continuamente.

         Conclui-se que, embora o processo de colonização tenha sido a grande causa dos deslocamentos dos sujeitos no romance, o pós-colonialismo foi o momento dos questionamentos, das dúvidas, da fragmentação e dos deslocamentos das identidades e de tudo o quanto era considerado fixo.

         Assim, tem-se que as identidades dos sujeitos pós-coloniais são marcadas por diversos elementos que dizem respeito à história, à classe social e à sociedade a que pertencem. Assim, foi possível constatar que, em meio ao conflito tradição/modernidade, o protagonista reconfigurou sua história – através de suas memórias atreladas às de seus familiares e amigos – na busca de um bem comum: a reestruturação da Ilha de Luar-do-Chão e a preservação da identidade de seu povo.

         Numa reflexão mais detalhada, infere-se que as personagens aludem, de certa forma, à história de Moçambique e a de sua sociedade, obrigada a se afastar de seus valores tradicionais para assimilar a cultura do colonizador.

         Por esse motivo, nos deparamos com a Ilha de Luar-do-chão em pleno estado de abandono após a independência. Esse fato em muito se assemelha à realidade das ex-colônias africanas, como é o caso de Moçambique, por exemplo. Isso permite identificar que é o próprio país que se encontra ficcionalmente representado em “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, pois a Ilha de Luar-do-Chão é configurada na obra com os mesmos problemas de abandono, além dos embates identitários e da luta de uma sociedade que, mesmo após a independência, quer se libertar dos laços coloniais.

         Assim, também, o narrador-personagem é revelado no romance como um interventor, criado para evitar o desaparecimento gradual das tradições nativas, em consequência da invasão da economia transnacional e do fracasso político no pós-independência.

REFERÊNCIAS:

COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

HALBWACHS, Maurice. “Memória coletiva e memória individual”. In: A memória coletiva. São Paulo: Editora Centauro, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes louro. 5. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

MAQUÊA, Vera Lúcia da Rocha. Memórias inventadas: estudo comparado entre Relato de certo oriente, de Milton Hatoum e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto. 2007. 330 p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2007.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.

REIS, Eliana Lourenço de Lima. Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural. A literatura de Wole Soyinka. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

Texto recebido em15 de dezembro de 2012 e aprovado em 13 de abril de 2013.