Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Artigo:

VENTOS DO APOCALIPSE:
MENSAGEM DE ESPERANÇA EM TEMPOS DE CÓLERA

VENTOS DO APOCALIPSE:
MESSAGE OF HOPE IN THE TIME OF CHOLERA

Adriana Souza de Oliveira*
UFRJ

RESUMO:
Este artigo tem por objetivos discutir, literariamente, o contexto da guerra pós-colonial ocorrida em Moçambique e analisar seus reflexos no âmbito político, social e humano. Para tal propósito, o presente estudo abordará o romance Ventos do apocalipse, da escritora Paulina Chiziane, publicado em 1999, como corpus de análise, por entender que este apresenta um estreito diálogo entre história e literatura.

PALAVRAS-CHAVE: literatura, história, guerra, Moçambique.

ABSTRACT:
This article aims at discussing, in a literary sphere, the context of the post-colonial war occurred in Mozambique, and to analyze its political, social and human impacts. For this purpose, it will use Paulina Chiziane’s Ventos do Apocalipse (1999) as its corpus, understanding that it clarifies a narrow dialogue between history and literature.

KEYWORDS: literature, history, war, Mozambique

O meu ponto de partida é a oralidade e todos os meus trabalhos até hoje são baseados na tradição oral, daí que eu não gosto de dizer que fiz um romance, uma novela, ou seja, o que for. Eu conto uma história e, ao contá- la, acrescento um ponto. E ela pode ser grande ou pequena. Essa é a minha primeira receita.

(Paulina Chiziane)

         Inicio este artigo com considerações feitas por Paulina Chiziane sobre o seu próprio fazer literário, em uma entrevista concedida à revista Maderazinco, em abril de 2002.

        Paulina nasceu em Manjacaze, Moçambique, em 1955. Embora, a referida autora não se veja como romancista, mas sim como “contadora de estórias”, sua obra literária ocupa um lugar de destaque no cenário artístico moçambicano, pois seu primeiro romance, Balada de amor ao vento (1990), publicado depois da independência, é, também, o primeiro romance escrito por uma mulher moçambicana.

        Após passar pela guerra de libertação – que perdurou de 1964 a 1975 e foi liderada pela FRELIMO – e livrar Moçambique do jugo português, a nação recém-formada mergulha, mais uma vez, em uma disputa que começa em 1976 e termina em 1992, colocando em confronto, desta vez, os próprios moçambicanos, representantes da RENAMO e da FRELIMO.

         Em Ventos do apocalipse, segundo romance publicado por Chiziane, a autora recria, ficcionalmente, o cenário dessa guerra fratricida e desvela a face recrudescida dos povos de Mananga e Macuácua, ambos fartos de violência, fome e morte, mas que carregam, dentro de si, um fio de esperança por dias de paz.

        A obra Ventos do apocalipse revela o grande amor que o povo moçambicano tem pela vida e pela liberdade; esse sentimento lhes servirá de mola-mestra para a construção do sonho. Este pode ser entendido como um elemento chave em boa parte das narrativas moçambicanas; contudo, deve ser interpretado como instrumento gerador de força, de resistência, e não como uma ilusão utópica que sugere fuga da realidade.

        Movimento semelhante ao da narrativa em foco é encontrado na obra Parábola do cágado velho, do autor Pepetela, publicada em 1996, que narra as guerras angolanas, a partir do olhar do camponês, indivíduo pertencente às comunidades fixadas no interior de Angola e que representam uma das classes mais afastadas das decisões políticas do país. Essa narrativa de Pepetela mostra o ponto de vista dos mais afetados negativamente com a guerra travada, no período pós-independência, pelos partidos políticos que lutavam pelo poder em Angola (MPLA e UNITA).

        Além de sofrer com os reflexos da guerra, o homem do interior ainda tinha que lidar com as mudanças que sopravam da cidade e que acabavam por promover modificações em suas tradições, como podemos observar na seguinte passagem: “Em tempos novos, temos de esquecer muitas coisas e fechar os olhos para saltar sobre os obstáculos sem pensar que vamos partir a perna.” (PEPETELA, 1996, p. 64). Com isso, notamos na diegese o confronto que se estabelece entre tradição e modernidade, ficando clara a necessidade de apaziguamento para a nação, seja ela angolana ou moçambicana, poder seguir rumo ao futuro.

        Tais obras colocam em evidência o contexto de guerras ocorridas no período pós-independência em Moçambique e Angola. Desvelam momentos em que a euforia da libertação é superada pela desilusão e pela disputa política que marcaram diversas nações africanas recém-formadas no século XX.

        Em Ventos do apocalipse, a narrativa traz ficcionalmente a realidade de Moçambique, dilacerada por sucessivas guerras. O contexto histórico, recriado no romance, é recontado por um narrador onisciente que se mostra conhecedor dos sentimentos mais profundos de cada personagem envolvido na trama. Tal nível de consciência atribuída ao narrador lhe permite traçar críticas acerca do cenário dantesco instaurado pelas guerrilhas e agravado pela seca que assolava o país neste mesmo período.

        Dessa forma, é possível entender os questionamentos que permeiam a narrativa como reflexos da desilusão vivida pelo povo moçambicano, em razão do rumo tomado pela nova pátria.

        Em Ventos do apocalipse, Paulina Chiziane conta as estórias das guerras pós-independência, sob o ponto de vista daqueles que se viram obrigados a migrar em busca de terras mais seguras, promovendo o êxodo, que, na narrativa em foco, será protagonizado pelos sobreviventes da aldeia Mananga. Com isso, a autora, ao apresentar extratos da sociedade moçambicana situados à margem, colocando-os no foco de sua narrativa, promove uma escrita questionadora.

A guerra: uma visão apocalíptica

         Dividido em duas partes (mais um prólogo), Ventos do apocalipse narra a história de Mananga, uma aldeia de camponeses, que sofre com a seca, a fome e com a guerra. A descrição do cenário é feita pelo narrador. Este apresenta um discurso marcado pela oratura, que se configura pela dramatização da oralidade na escrita, um processo largamente utilizado não só pelos autores moçambicanos, mas pelos africanos, em geral.

        Nesta perspectiva, convém lembrar o filósofo alemão Walter Benjamin, no ensaio intitulado “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”: “entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (BENJAMIN, 1993, p. 198).

        No tocante à diegese, os traços orais, reinventados pela escrita, irão favorecer a construção de imagens, pois o narrador incorpora uma postura performática, encenando a “estória” narrada. Ou seja, “conta a estória” como se fosse um griot, conforme é possível observar no seguinte trecho:

A desgraça penetrou em Mananga. Já se ouvem rumores da guerra em Macuácua, mas ultimamente os roquetes de bazucas e rajadas de metralhadoras aproximam-se de Alto Changane. Já se ouvem notícias de camponeses mortos e capturados. O momento é de dificuldades. Quem escapa da fome não escapa da guerra; quem escapa da guerra é ameaçado pela fome. Os jovens arrumam a trouxa e partem. Os velhos, as mulheres e as crianças ficam. (CHIZIANE, 1999, p. 58)

         Em meio à fome, à seca e à proximidade da guerra, o povo de Mananga se vê imerso em um estado de desespero e começa a aspirar por soluções que o libertem de sua atual conjuntura. É essa busca por soluções que marca a primeira parte do romance. Nesse contexto, o sofrimento se torna um catalizador, que, em mãos inescrupulosas, como as do antigo régulo Sianga, é capaz de causar danos ainda maiores. O antigo régulo fora destituído do seu trono durante o processo de independência de Moçambique e relegado ao desprezo pela aldeia; desde então, se tornara cruel, como o descreve o narrador:

Sianga é, sem sombra de dúvida, o guardião do Sol. É ambicioso, ocioso e solitário. O ódio e a vingança acasalaram-se dentro dele e escolheram o ninho do lado esquerdo do coração que se desequilibra para o ponto negativo. A terra é uma roda que gira, ele sabe disso, mas a vida só tem interesse quando a bola da vida gira no centro do nosso mundo. (CHIZIANE, 1999, p. 63)

         Outro aspecto recorrente na obra se refere ao papel atribuído à ação dos ventos que, no romance, irão produzir pistas metafóricas, reveladoras da mudança de percursos tanto da história, quanto das personagens. Toma-se como exemplo o desejo expresso pelo antigo régulo em retomar seu posto; Sianga conspira contra sua própria aldeia e planeja contra ela um ataque impiedoso. Num discurso direcionado aos seus seguidores, ele diz: “Sopram ventos de novas mudanças e tudo voltará a ser como antes.” (CHIZIANE, 1999, p. 49)

        Movido pelo ódio, Sianga dá continuidade ao seu plano e, com a ajuda de seus colaboradores, começa a influenciar o povo de Mananga para a realização do mbelele, cerimônia destinada aos espíritos que recobra antigas tradições e requer um chefe para ministrá-lo. Amplamente combatido no período colonial, por ser condenado pela fé cristã que o classificou como prática obscurantista, o ritual do mbelele foi esquecido pelo povo de Mananga, conforme lemos no seguinte trecho:

Os costumes e as tradições sofreram alterações nos últimos séculos. As gentes ouviram as palavras dos homens vindos do mar e transformaram-se; abandonaram os seus deuses e acreditaram em deuses estrangeiros. Os filhos da terra abandonaram a tribo, emigraram para terras estrangeiras e quando voltaram já não acreditavam nos antepassados, afirmaram-se deuses eles próprios. (CHIZIANE, 1999, p. 60)

         É possível identificar, nesta passagem, o jogo de caracterização e descaracterização de que fala Albert Memmi, por meio do qual o opressor retira a humanidade e a personalidade do colonizado; os que pertencem a esse grupo passam a ser tratados de modo homogêneo, o que deflagra um franco processo de desumanização do sujeito. Essa construção mítica do colonizado exerce sobre ele um efeito devastador, pois, de acordo com Memmi, ele acaba por aceitar e viver o estereótipo imposto pelo colonizador (MEMMI, 1977, p. 81). Dessa maneira, o dominado passa a compactuar com a ideologia do dominador, uma vez que, de certo modo, incorpora o papel que lhe fora atribuído. Como bem lembra Alfredo Bosi: “O papel mais saliente da ideologia é o de cristalizar as divisões da sociedade, fazendo-as passar por naturais” (BOSI, 1997, p. 145).

        Memmi ressalta, ainda, que a colonização nega ao colonizado todo e qualquer direito e, diante deste cenário árido, o oprimido encontra refúgio no seio familiar, na tradição e na religião, cabendo a ele apenas duas alternativas: “O colonizado tenta ou torna-se outro, ou reconquista todas as suas dimensões, das quais foi amputado pela colonização.” (MEMMI, 1977, p. 106).

        Observamos, em Ventos do apocalipse, uma tentativa, por parte do povo, de restabelecer as cerimônias tradicionais do passado. Como bem sentencia o narrador: “O céu de Mananga é um manto adornado de mitos, revivem-se tradições centenárias de modo imperfeito” (CHIZIANE, 1999, p. 61).

        A obra de Paulina traz marcas oriundas das culturas que transformaram Moçambique em um mosaico cultural, influenciado por africanos, árabes, indianos e portugueses; essas marcas se mostram mais nítidas toda vez que se dá o embate entre tradição e modernidade, confronto viabilizado pelo recurso mnemônico, ativado pelo narrador e pelas personagens de Ventos do apocalipse. Na trama, a tradição é revisitada, por meio da memória, pelos mais velhos da aldeia.

        Com o argumento de resgate das tradições, cria-se, na aldeia de Mananga, um conselho supremo, no intuito de julgar os impuros e proceder à cerimônia de purificação. Desse modo, o antigo régulo começa a exercer certo poder sobre a aldeia, ao utilizar a crença nos antepassados como meio para manipular o povo, o qual passa a acreditar que a causa da seca se devia ao abandono das antigas tradições.

        O narrador, com seu olhar clínico, desvela a face cruel da guerra e da seca, pouco a pouco, como se montasse um grande quebra-cabeça. Por ser onisciente, ele revela o efeito que essa catástrofe gera no íntimo de cada camponês, expondo sentimentos e pensamentos que afligem os aldeões, em meio à barbárie. Esse movimento mostra que, exposto a situações extremas, o ser humano se vê capaz de ações incomuns; como produto dessas ações, podemos citar a desconstrução dos afetos. Um exemplo, referente ao fenômeno observado, diz respeito às mudanças geradas na convivência familiar e no tratamento dado, pelo povo de Mananga, aos refugiados da aldeia vizinha, Macuácua. Essa situação é expressa no romance de Paulina:

Bem-vindos a Mananga diríamos nós, se boas novas nos trouxessem. O novo bebé é indesejável na família, é rival, compete com os mais velhos por um pedaço de alimento. O irmão que visita não é bem recebido. Os casais mais amorosos desfazem-se, os mais idosos são abandonados à sorte e as doces mãezinhas sentem lá no fundo o desejo inconfessável de eliminar os frutos do próprio ventre porque já não há comida que chegue. A chegada dessas pessoas de Macuácua é uma agressão, uma invasão e causa revolta em todos os habitantes de Mananga. (CHIZIANE, 1999, p. 109)

         Diante das circunstâncias impostas pela guerra e pela seca, as duas comunidades passam a compartilhar do mesmo espaço que, a cada dia, é fertilizado pelo ódio e pela indiferença ao sofrimento alheio. Neste contexto, observamos o franco processo de desconstrução dos laços afetivos, resultado das adversidades ocasionadas pelas instâncias citadas anteriormente:

Os foragidos são tipos cheios de sorte. Recebem maior atenção das autoridades e não entendemos porquê. Desde que aqui estão, só assistimos à chegada de carros trazendo comidas, roupas, alimentos, mantas, tendas, ou para evacuar um doente para o hospital da cidade, e nós, donos da terra, que lhe damos abrigo e conforto, sofrendo tanto como eles, não recebemos sequer um pedaço de consolação. Se não fosse por temer as autoridades, já os teríamos expulso à pedrada. (CHIZIANE, 1999, p. 111)

         A ação dos ventos que antecede o ataque à aldeia é o prenúncio da tragédia: “Do sul sopra um vento forte, caminhando para o norte” (CHIZIANE, 1999, p. 116). Mais uma vez, esse elemento, dotado de uma força vital, direciona o rumo da narrativa, o que denota que a natureza é abordada, na obra, de acordo com a visão animista, na qual tudo tem vida. Neste contexto, é possível identificar o vento como uma força ativa no romance.

        Ao som dos primeiros tiros, instalam-se a confusão e o pânico em Mananga, como demonstra o fragmento a seguir:

O povo desespera-se. As casas são incendiadas. Os homens são os primeiros a correr na saraivada de fogo na busca desesperada de um abrigo. Só depois de alcançar a proteção da savana é que as mães se lembram dos bebés nas palhotas em chamas, demasiado tarde para reparar o erro. (CHIZIANE, 1999, p. 117)

O êxodo

         O ataque arrasa a aldeia e quem sobrevive carrega no peito, além da desilusão por ter sido arrasado pelos seus, um imenso desejo de fugir em busca de um abrigo seguro. Em meio à dor, os aldeões desorientados encontram consolo e orientação junto aos seus irmãos da aldeia Macuácua. Estes se esquecem dos maus tratos dos quais foram vítimas e, ao lado dos sobreviventes de Mananga, traçam uma rota de fuga. Esta nova reconfiguração evidencia, na trama, um jogo de construção e desconstrução no âmbito dos laços afetivos.

        Nesse contexto, surge um novo líder, eleito pelos demais sobreviventes: Sixpence. Este é nomeado para levar o grupo em direção à aldeia do Monte. Para tal, ele traça um verdadeiro plano de guerra. Enquanto isso, os feridos permanecem na antiga aldeia, à espera de um transporte para levá-los ao único hospital da vila.

Em Mananga, os cerca de sessenta sobreviventes terminam o plano de fuga, está tudo combinado para a partida. Elegeram um comandante para a louca marcha e a escolha recaiu em Sixpence, homem jovem a quem as turbulências da vida envelheceram. Possui o perfil do dirigente desejado. Conhece a aldeia do monte e já lá viveu. Já esteve na guerra dos portugueses e está familiarizado com as longas marchas e os mistérios dos caminhos. Como homem que se preza, trabalhou nas minas de Rand... (CHIZIANE, 1999, p. 154)

         Desse modo, a segunda parte do romance é marcada pela viagem, protagonizada pelos sobreviventes que se deslocam da aldeia recém-destruída para a aldeia do Monte, no intuito de fugirem dos horrores promovidos por uma guerra, cujos motivos eram desconhecidos pelos camponeses, os mais vitimados nesse processo. É esse panorama que Paulina Chiziane põe em relevo no romance em foco. Através de uma narrativa perspicaz, que desvela a face desumana de uma guerra fratricida, critica as inúmeras e desleais disputas pelo poder.

        Ao longo do caminho para a aldeia do Monte, os sobreviventes de Mananga vivenciam, mais uma vez, as consequências dolorosas que a guerra causa ao povo: morte, fome, destruição e órfãos compõem a paisagem por onde passam. Mesmo diante de um cenário desolador, é possível perceber um resquício de humanidade, que é compartilhado pelos sobreviventes; notamos, ainda, o olhar crítico do narrador:

Sixpence ordena cuidados para os novos moribundos. Ele mesmo limpa as imundícies da criança achada e entrega-a a uma das mulheres que imediatamente oferece a mama enquanto chora. Sixpence é um herói e um campeão, ensina a lição da humanidade sem uma única palavra. As mulheres olham-no e choram. Os homens veneram-no, a vida é assim, muitos destroem e só poucos têm coração para construir. (CHIZIANE, 1999, p. 170)

         A viagem tem seu fim após vinte e uma noites de sofrimento e incerteza; ao chegar à aldeia do Monte, o pequeno grupo de sobreviventes é recebido como mandam as tradições africanas: lhes dão comida, roupas e abrigo. Porém, os bons dias vividos no novo lar cedem lugar ao desespero e à desolação, pois a aldeia é arrasada por uma forte chuva. Neste momento, entra em cena a bandeira da filantropia, uma forma de ajuda humanitária, que será questionada pelo narrador, ao enxergar sua prática como uma nova forma de colonização:

Já não há pobreza nem sofrimento na aldeia do Monte, o mundo está cheio de almas bondosas. Todos comem até saciar e esquecem o trabalho da machamba, para quê trabalhar se os homens bons nos dão tudo? Quando esta comida acabar, receberemos outra. O povo não exerce seus deveres, as suas tradições, e espera pela esmola, nova forma de colonização mental. Mas nem tudo o que vive no mar é peixe. A desgraça de uns é a sorte de outros. Alguns indivíduos neste grupo de boa gente com o pretexto de ajudar, ajudam-se. (CHIZIANE, 1999, p. 238)

         O narrador continua as reflexões acerca das verdadeiras intenções que estão por trás da ajuda humanitária, neste contexto; ele estende suas críticas àqueles que lucram com o estado de dependência que se estabelece no país. Desse modo, ele esboça um raio-x do cenário sócio-político referente ao período histórico moçambicano focalizado pela obra de Paulina Chiziane:

Os produtos de primeira necessidade são escassos no tempo de guerra, têm muita procura e são bem pagos. Desviam-se. Vendem-se nos mercados clandestinos. Os desonestos enriquecem. Os pobres depauperam. Os esfomeados recebem apenas migalhas dos alimentos a eles destinados... Se um dia a guerra terminar e a vida voltar à normalidade, o que será feito dos filantropos de ocasião? (CHIZIANE, 1999, p. 238)

         Em meio aos apontamentos e questionamentos levantados pelo narrador, no romance, em torno da situação sócio-econômica em Moçambique, depreendemos, também, um desejo por um futuro livre das mazelas que assolam o país. Esse anseio é expresso, por meio das aspirações das personagens, como, por exemplo, as de Danila, uma enfermeira representante da ajuda humanitária, que assiste aos camponeses da aldeia do Monte.

O futuro será melhor, sim, estes são os verdadeiros combatentes, geração da nova consciência. Nas pequenas almas incubam-se sementes de ódio pelas guerras e nos peitos germinarão flores. Esta geração tudo fará para eliminar a desarmonia do mundo asfaltando o caminho de espinhos para que os homens caminhem na estrada da paz e da tranquilidade. (CHIZIANE, 1999, p. 243)

         Nesses anseios, é possível identificar uma mensagem de esperança, um sentimento motivado pelo amor à vida e à liberdade, em meio ao cenário desolador estabelecido pela guerra, pela seca e pela fome que afetam as diversas províncias de Moçambique. Assim, por intermédio da ficcionalização do referido recorte histórico, a autora promove uma reflexão crítica acerca do presente e dispersa a semente da esperança com relação ao futuro.

        Nessa perspectiva, a escrita literária, para além da arte, expressa o ideal do povo moçambicano e transforma esse ideal em força de resistência e de luta contra as mazelas que, ainda, castigam o país. Diante das considerações apontadas, neste estudo, é válido ressaltar as colocações de Alfredo Bosi, pois, segundo ele:

Há um denominador comum que sustenta o imaginário profético e o apocalíptico: é o eixo presente-futuro com sua vigorosa e concreta antinomia, pela qual o presente é o cenário da maldição, objeto de escarmento, e o futuro é antecipado pelo sentimento como reino da justiça e da liberdade. (BOSI, 1997, p. 161)

         O futuro antecipado, por meio do sentimento, é invocado pelas personagens da narrativa, em Ventos do apocalipse. Essa constatação faz com que percebamos uma mensagem de esperança em tempos de cólera. Podemos afirmar, assim, que a praxis, expressa pela obra de Paulina Chiziane, corrobora com a ideia de hibridação cultural como consequência do entrecruzamento entre diferentes raças, processo intensificado durante o período em que o continente africano esteve sob domínio de potências europeias. O Tratado de Berlin ratifica esse momento histórico, lembrado, na trama, por meio da memória do narrador: “No passado, os grandes homens da Europa, em sessões magnas, festins e banhos de champanhe dividiram o continente negro em grandes e boas fatias, escravizaram, torturaram, massacraram e deportaram as almas desta terra.” (CHIZIANE, 1999, p. 234)

        Com isso, é possível observar em Moçambique e na África, de um modo geral, a inexistência de uma cultura puramente africana, tendo em vista o processo intercultural vivenciado no período colonial pelos povos africanos, conforme sinaliza Kwame Anthony Appiah:

Se há uma lição no formato amplo dessa circulação de culturas, certamente ela é que todos já estamos contaminados uns pelos outros, que já não existe uma cultura africana pura, plenamente autóctone, à espera de resgate por nossos artistas... (APPIAH, 1997, p. 217)

         Nesse sentido, notamos que os textos literários africanos produzidos após as independências representam uma África plural e multifacetada. Se durante a luta pela libertação houve a necessidade de resgatar as tradições para afirmar uma identidade africana, agora observamos uma certa abertura, no tocante aos parâmetros utilizados pelos escritores africanos, para o exercício de práticas culturais não autóctones, em paralelo com práticas culturais de seus antepassados.

NOTAS:

*Mestranda em Literaturas Portuguesa e Africanas/ UFRJ.

REFERÊNCIAS:

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução Sérgio Paulo Rouanet, 6. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.

CHIZIANE, Paulina. Ventos do apocalipse. Lisboa: Ed. Caminho, 1999.

___________. http:// www.maderazinco.tropical.co.mz/edic_III/entrevista/paulina.htm Acesso em: 01 de set. de 2004.

FANON, Frantz. Pele negra,mascaras brancas. Salvador: EdUFBA, 2008.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Tradução: Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1991.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. Tradução de Roland Corbisier e Mariza Pinto Coelho. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

PEPETELA. Parábola do cágado velho. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1996.

Texto recebido em 30 de janeiro de 2013 e aprovado em 22 de fevereiro de 2013.