Mulemba - n.8 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2013

Artigo:

APRESENTAÇÃO


À memória do grande professor e filósofo, Doutor Carlos Nelson Coutinho, exemplo de coerência e lucidez ideológica e humana.

“Diálogos entre Literatura e História” é o tema da Mulemba 8. Embora seja um assunto já muito discutido pela Historiografia e pela Teoria Literária em geral, este número da revista consegue reunir reflexões de escritores africanos e artigos sobre as literaturas africanas, que, em diversos aspectos, contribuem, significativamente, para a ampliação de tão desafiador e polêmico debate, do qual participam filósofos, historiadores, críticos literários, tanto estrangeiros como brasileiros.

O crítico Luiz Costa Lima, Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da PUC-RJ, em seu livro História. Ficção. Literatura (SP: Ed. Companhia das Letras, 2006), é um dos críticos brasileiros que chama atenção para as tênues fronteiras entre literatura e história, entre factum e fictum, demonstrando ser necessário distinguir as metas da escrita da história e as da ficção, pois a “veracidade” da história é bem diferente da “verdade” da ficção.

Sandra Pesavento, por sua vez, com seu olhar de historiadora, assevera, em seu artigo intitulado “Em busca de uma outra História: imaginando o imaginário”. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 15, n. 29, p. 9-27, 1995, que a ficção não seria “[...] o avesso do real, mas uma outra forma de captá-lo, onde os limites da criação e fantasia são mais amplos do que aqueles permitidos ao historiador [...]. Para o historiador a literatura continua a ser um documento ou fonte, mas o que há para ler nela é a representação que ela comporta [...] (PESAVENTO, 1995, p. 117)

Observamos que tanto Costa Lima, como Sandra Pesavento alertam para o fato de que a História e a Literatura “são formas de explicar o presente, inventar o passado, imaginar o futuro”; “[...] de representar inquietudes e questões que mobilizam os homens em cada época de sua história” (PESAVENTO. História e história cultural. BH: 2004, pp.80-81).

Os textos de Mulemba 8 também apontam, de um modo ou de outro, para tais questões. Este número da revista se organiza em duas partes: a primeira, na qual se encontram inseridas as Opiniões dos Escritores que, gentilmente, responderam á nossa chamada: Dina Salústio; João Paulo Borges Coelho; Pepetela; Vera Duarte; Zetho Gonçalves; na segunda, estão incluídos os Artigos, cuja ordenação segue o critério alfabético dos nomes dos autores-colaboradores.

A escritora cabo-verdiana Dina Salústio, em seu depoimento, ressalta que “o diálogo entre a história e a literatura concorre para o seu enriquecimento mútuo, ao mesmo tempo que alarga os horizontes do leitor e o prazer da leitura”. O escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho lembra que Vladimir Nabokov, numa de suas aulas de literatura na Universidade de Cornell, afirmava: A literatura é invenção. A ficção é ficção. Chamar a uma história uma história verdadeira é um insulto tanto para a arte como para a verdade” . Para Pepetela, conhecido escritor angolano, “um escritor não faz num romance trabalho de historiador, não é essa tarefa sua ”. Continuando sua argumentação, adverte: “Mas, no caso das nossas sociedades, me parece haver necessidade de alguma cautela na reconstituição de uma época. Isso exige trabalho apurado de investigação, seja a partir de obras escritas existentes, seja de testemunhos orais ou de relatos da tradição, colhidos na maior parte dos casos nas obras dos antropólogos ou no terreno ”. Vera Duarte, reconhecida poetisa de Cabo Verde, enfatiza: “Embora a história seja do domínio do científico e a literatura emane do mundo ficcional, entendo que, nas nossas sociedades africanas, a história fornece temáticas para a literatura que ainda se expressa muito através da oratura e das estórias transfiguradas na e pela palavra escrita, enquanto a literatura concede subsídios para a elaboração da história, em geral, extremamente, lacunosa”. Finalizando a primeira parte, destacamos a opinião do escritor angolano Zetho Gonçalves: “Sempre entendi a história como uma “outra” forma narrativa de ficção, mesmo quando o seu suporte de estudo e de trabalho se baseia nos mais fidedignos documentos de época. Digo-o sem nenhum menosprezo pelos historiadores e pelo seu trabalho, o que vale dizer que não deixará de ser um modo entusiasmante de aferir a(s) verdade(s) dos fatos, esse que é o de poder ler vários autores (quando e onde eles existem, cada qual com sua visão, descrição e interpretação pessoalíssimas dos documentos e dos fatos) sobre temáticas afins e/ou contraditórias”.

A seção dos Artigos é constituída por dez ensaios e se abre com “Ventos do Apocalipse: Mensagem de Esperança em Tempos de Cólera”, assinado por Adriana Souza de Oliveira, que aborda, com base na leitura crítica do romance da escritora Paulina Chiziane, os efeitos da guerra civil moçambicana, no âmbito político, social e humano. A seguir, Andreza dos Santos Flexa, no artigo “História e Identidade: Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto”, discute a questão da memória e da identidade cultural no contexto de Moçambique pós-colonial. O terceiro ensaio “A História nos Subsolos da Literatura: as Narrativas Coloniais e Pós-Coloniais de Língua Inglesa”, da autoria de Divanize Carbonieri, efetua uma reflexão a respeito das relações nem sempre transparentes entre literatura e história, apontando para determinados temores e desejos, decorrentes da colonização inglesa em terras africanas, os quais se encontram representados, literariamente, em romances da literatura colonial britânica dos séculos XIX e XX. Após este artigo, o de Edna Maria dos Santos, intitulado “A Sul. O Sombreiro: Multifacetadas Histórias e Estórias”, analisa a história de Benguela através desse romance de Pepetela, interpretando as metáforas do sombreiro e as estratégias de dominação que desvelam múltiplas faces do colonialismo em Angola. Flávio Quintale, em “Pepetela e a Crítica Literária”, traça um esboço panorâmico da recepção de alguns romances de Pepetela pela crítica literária brasileira. Giulia Spinuzza é autora de “O Cânone Poético em Construção na Literatura Moçambicana”, ensaio de temática livre, no qual, a partir da problemática inserção no corpus literário moçambicano da poesia de Glória de Sant’Anna, é discutida a questão dos “poetas de fronteira”, na maioria moçambicanos de origem europeia ou europeus que viviam em Moçambique. No ensaio seguinte, cujo título é “A História na Alcova: Figurações da Prostituta no Campo Literário Moçambicano e nos Romances de João Paulo Borges Coelho”, Nazir Ahmed Can estuda, sob uma abordagem estética, as significações históricas da figura da prostituta na obra de João Paulo Borges Coelho, particularmente nos romances As Visitas do Dr. Valdez e Crónica da Rua 513.2. O artigo “Estação das Chuvas: História e Literatura na Encruzilhada do Romance”, de Renata Flavia da Silva, concentrando-se na análise do romance Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, aprofunda a discussão da relação entre a História e a Ficção na literatura angolana contemporânea. O ensaio de Roberta Guimarães Franco, “As Duas Sombras do Rio: a Cisão como Herança”, evidencia, a partir da leitura do romance As duas sombras do rio, do escritor João Paulo Borges Coelho, uma série de heranças deixadas pelo colonialismo português, bem como as dificuldades enfrentadas pela FRELIMO ao assumir o governo de Moçambique independente. Encerrando a revista, o artigo “Ungulani, Paulina e as Várias Faces de Ngungunhane”, de Vanessa Ribeiro Teixeira, analisa a atuação histórica de Ngungunhane – último imperador de Gaza que lutou contra os portugueses –, cuja figura é recriada, crítica e ficcionalmente, pelo romance Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa, e pelo conto “Quem manda aqui?”, que faz parte do livro As andorinhas, de Paulina Chiziane.

Feita essa breve apresentação dos textos que o leitor encontrará em Mulemba 8, deixamos aqui não só o convite à leitura, mas também à reflexão. Assim, concluímos com palavras do crítico literário brasileiro José Castello que incitam a pensar nas relações existentes entre realidade e ficção: “A literatura descerra a grande cortina de ficções que recobre nosso mundo dito real, não para apagá-la, mas para ampliá-la. A literatura desdobra, torna mais vastas e costura essas ficções de que somos feitos” 1.

A Comissão Editorial

NOTAS:

1 CASTELLO, José. “Ficção e Realidade”. In: Rascunho. http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ficcao-e-realidade/ Acesso em 15 de abril de 2013.