Mulemba - n.7 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2012

Artigo:

APRESENTAÇÃO

É com muito prazer que apresentamos a Mulemba 7, com artigos dedicados à intertextualidade. Tal como o 7, número desta edição, é considerado mágico e representa o movimento total, o presente tema se revela dinâmico e poderoso.

A ideia central das relações denominadas intertextuais surgiu com Mikhail Bakhtin, no começo do século XX e, mais do que uma forma de observarmos o intercâmbio existente entre autores e obras, configurando-as como dialogismos, conduziu-nos a um redimensionamento da atividade crítico-literária, trazendo-nos visões das mais inovadoras, como as de Gerard Genette e Julia Kristeva.

No desejo de ampliar o constante diálogo na área das literaturas e estudos africanos, perseguido desde a primeira edição da revista, convidamos os leitores a escutarem as vozes plurais que nos ajudaram a construir mais um número de Mulemba.

Para ordenarmos os artigos, optamos, a partir de agora, pelo critério alfabético dos nomes dos autores-colaboradores.

No artigo, “Ficções de si: auto-etnografia em Rui Duarte de Carvalho”, Ana Lúcia Liberato Tettamanzy, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, investiga a obra do angolano Ruy Duarte de Carvalho, observando de que forma se misturam os territórios da Literatura e da Antropologia. Para a autora, o foco está na posição ambivalente do narrador e na opção do escritor por uma “meia-ficção” para representar as vozes sociais e a relação com a paisagem angolana.

Em “O oral e o escrito de Ungulani Ba Ka Khosa”, Ana Margarida Fonseca, da Universidade de Lisboa, analisa a relação dialógica entre os textos orais da tradição africana e textos escritos que relevam de formas ocidentais. Discute a pluridiscursividade como uma força presente na narrativa africana moderna e, particularmente, no romance de estreia do escritor moçambicano.

No artigo “As entrelinhas das cores e as entrecores das linhas: intercâmbios artísticos em Moçambique”, Cíntia Machado de Campos Almeida, doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro, discorre sobre os diálogos entre a pintura e a poesia, a partir da obra Mariscando luas (1992), de Luis Carlos Patraquim, Ana Mafalda Leite e Roberto Chichorro.

Diego Ferreira Marques, da Universidade Estadual de Campinas, em “Olhares distanciados: o sangue kwanyama em três versões coloniais”, discute alguns aspectos relacionados à constituição de distintos modelos de apreensão e representação do contato colonial, em contextos africanos no século XX, tendo em vista as diferentes relações entre agentes do processo colonizatório e as chamadas sociedades “nativas”. Seu ponto de partida é o romance Sangue cuanhama (1949), de António Pires, em paralelo com os ensaios do administrador Emílio Pires e do missionário e etnólogo Carlos Estermann.

Com o sugestivo título “A bailarina que dançava em versos”, Guilherme de Souza Bezerra Gonçalves, mestrando da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explora a intersecção entre a poesia de Virgílio de Lemos e a pintura de Roberto Chichorro, evidenciando o papel da dança como estratégia de busca ao corpo do outro.

Em “Mariana e Mwadia, identidades errantes da nação moçambicana”, Kamila Krakowska Rodrigues, doutoranda da Universidade de Coimbra, desenvolve uma análise comparativa do documentário Mariana e a lua, de Licínio Azevedo, e do romance O outro pé da sereia, de Mia Couto; dedica especial atenção ao papel de viagem e das relações entre modernidade e tradição.

Lúcia Helena, professora e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, no artigo “As mandingas do Senhor Coetzee em Diário de um ano ruim: algumas reflexões em torno da literatura como intertextualidade e passagem”, aborda a intertextualidade como um procedimento eficaz na construção dos textos do autor e busca compreender como o autor repensa a literatura como representação e, também, como interrelação do ser humano com a solidão, a fragmentação e o desassossego, tão característicos de nossa era.

Em Identidade e história em “Terra sonâmbula e A geração da utopia”, artigo de tema livre, previsto por nossa revista, em cada um de seus números, Mailza Rodrigues Toledo e Souza, Doutora pela Universidade de São Paulo, tece algumas considerações acerca da identidade ou do processo de identificação do sujeito e de suas relações nas referidas obras de Mia Couto e Pepetela.

Em “Ilhas e continentes: uma poesia de limares”, Maria da Glória Bordini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, analisa de que forma a poesia da são-tomense Conceição Lima reencena a história antiga e recente das Ilhas e, ao mesmo tempo, as relaciona ao continente africano e ao mundo contemporâneo.

“Os sotaques musicais na poesia de José Craveirinha”, de Michelle Cardoso Chagas, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, enfoca Xigubo e Karingana ua karingana, abordando a musicalidade presente na poesia do autor como um dos elementos fundamentais de afirmação identitária moçambicana e da expressão dos sentimentos do sujeito poético.

Acreditamos que oferecemos aqui uma mostra expressiva dos caminhos do diálogo intertextual nas literaturas africanas. Boa viagem!

A Comissão Editorial