Mulemba - n.6 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2012

Artigo:

O COLORIR DA POESIA E A ARTE DE CONTAR E CRONICAR HISTÓRIAS

THE COLOUR OF POETRY AND THE ART OF TELLING AND CHRONICLING STORIES

Fernanda Antunes Gomes
Doutoranda de Literaturas Africanas de Língua
Portuguesa- UFRJ / Bolsista CAPES

RESUMO:
Este artigo tem por objetivo analisar crônicas da escritora angolana Ana Paula Tavares, a partir das trilhas da memória. Buscamos observar as características do gênero crônica nos textos da autora e indagar de que maneira a linguagem circunstancial, para além de palavras poéticas, pode também criar imagens inundadas de lirismo.

PALAVRAS-CHAVE: crônica, memória, lirismo.

ABSTRACT:
This article aims at analyzing, from the perspectives of memory, some chronicles by the angolan writer Ana Paula Tavares. We try here to point out the features of the chronicle genre in her texts and wonder how circumstantial language, can generate, beyond poetic words, lyrical images.

KEYWORDS: Chronicle, memory, lyricism.

A nossa conversa percorrerá oásis
Os lábios a sede

(TAVARES, 2007, p. 9)

         A crônica, geralmente, nos deixa a sensação de estarmos a conversar com um amigo próximo. Alguns textos acentuam, de forma explícita, essa característica e evocam o leitor, proporcionando com este um diálogo claro. Há crônicas que sugerem essa conversa de uma maneira velada, porém não menos íntima, afinal só para amigos (ou para quem deseja sê-lo) contamos nossas histórias e lembranças.

        Para Ruth Silviano Brandão, o “texto, literário ou não, exige uma extrema delicadeza para ser analisado, tocado, invadido em sua interioridade. Texto é o lugar onde o sujeito se inscreve e se escreve” (BRANDÃO, 1995, p. 21). Notamos, então, que o leitor amigo necessita ser atento e cuidadoso ao “escutar” o que o texto desejou contar, ou melhor, o que o sujeito quis que fosse contado sobre ele.

        O autor almejou não apenas escrever sobre algo, ou acerca dele mesmo, mas “se inscrever”, deixando marcas e traços de uma escrita própria, perpetuando-se a cada curva textual. Assim, também se quer o cronista: a cada instante flagrado, deseja mostrar-nos o que o tocou, o que o motivou a compartilhar conosco aquele acontecimento do cotidiano.

        Da mesma forma, as crônicas de Ana Paula Tavares, poetisa angolana. Seus textos querem dividir as experiências, histórias, lembranças, narrações com aquele que lê. Aspiram tanto à invasão por parte do leitor que não se contentam com as folhas diárias do jornal, quanto sua difusão por meio do rádio. Querem-se livro. É a partir desse contar, desse modo de “conversar”, ou melhor, “cronicar”, que nos deixamos levar pelas narrações da autora, cujas constantes reflexões líricas revelam sua face poética.

        Na crônica “O pintor”, percebemos o olhar observador da cronista a capturar a beleza e a arte, no ofício daquele que, assim como o poeta, tem por objetivo, para além do simples recobrir de tinta, o envolver de cores as paredes da vida:

Durante muitos anos vi-o na sua forma sólida, um pouco curvada, mas sempre discreta, passear pelos lugares num estudo minucioso dos materiais.
Era a um tempo estranho e familiar observar a figura alheada do pintor, longe da azáfama dos anos de brasa, procurando meditar e ressuscitar para a vida as coisas simples do chão, os imperceptíveis ruídos da terra (TAVARES, 1998, p. 54).

         A cronista olha, examina e narra minuciosamente o trabalho artesanal do pintor que busca o sentido das coisas, o significado dos tons, na tentativa de representar a simplicidade dos gestos através da mestria de colorir. E, para apreender a fugacidade dos segundos, faz-se necessário sentir e não apenas ver:

Seus olhos filtravam do chão, de terra batida, sabedorias antigas de encontrar o ocre, o branco e o negro, cores da vida e da morte.
O seu olhar sobre as coisas era tão quieto e tão atento que parecia ouvir mais do que ver, o jogo de transparência e sombra reflectido nos grandes silêncios da terra o nos ruídos do mar (ibidem, p. 54).

         Continuou, assim, a “perseguir” os passos do pintor, tentando também colher da terra a cor da vida, a pigmentação da poesia. Seu olhar de cronista atenta permite que o leitor experimente os gestos do pintor, sendo também guiado pelo ritmo desse artesão que busca não apenas o sentido das cores, mas as cores dos sentidos. Palavras a pincelar com sentimento um painel poético:

Eram muitas deambulações, na aparência sem sentido, atravessando os rios de jangadas, ou mergulhando nos oceanos à procura dos limites da cor, ao encontro da sua vibração mais íntima, para estabelecer diálogo com o visível e o invisível na fala de cera entre os espaços, depois enquadrados segundo outras perspectivas (ibidem, p. 55).

         Uma procura pelas cores, pelos sentidos é clara na escrita da cronista que também revela, nesse texto, a sedução pela palavra, ou melhor, pelos caminhos que leva sua palavra também a colorir com narrações. Na poesia do pintar, a inspiração do contar, do cronicar: “Criava uma poética da transfiguração, com palavras feitas de materiais recolhidos do chão e organizados nos seus textos ocres e amarelos” (ibidem, p. 55).

        É do chão, da terra que brota a inspiração para os temas inscritos nas narrações de Ana Paula Tavares. Textos que, inundados de palavras preenchidas por tintas de tons vibrantes, despertam a atenção do leitor que deseja continuar a conversar com as crônicas e sobre estas, viajando, assim, pelas histórias contadas pela cronista. Histórias, às vezes, provenientes de suas lembranças de infância, como é o caso, por exemplo, da crônica “A escola 60” que reflete sobre os espaços marcados pelas descobertas do crescimento.

        Ecléa Bosi explica que a “lembrança é a sobrevivência do passado. O passado, conservando-se no espírito de cada ser humano, aflora à consciência na forma de imagens-lembrança” (BOSI, 1994, p. 53). E essa alomorfia da palavra em imagem nos é apresentada na referida crônica:

Era uma escola pequena, de bairro, quase portátil, entalada entre a oficina de automóveis “Auto Reparadora da Huíla”, a casa vazia do antigo Odeon-Cine-Teatro e o Parque Infantil.
Dois enormes jacarandás invadiam o pátio com suas raízes de tronco e a festa dos tapetes deixados pelas suas flores roxas, em Setembro, quando a escola reabria (TAVARES, 1998, p. 60).

         Assim como a crônica “O pintor”, também “A escola 60” se deixa inundar pelas cores, imagens e gestos que vestem a roupagem das palavras gravadas no papel por Ana Paula Tavares. E as ações tipicamente infantis vêm à tona num discurso que se mostra cheio de contentamento nessa viagem ao passado:

À oficina de automóveis ia-se tarde roubar rolamentos que, juntamente com as tábuas dos caixotes das lojas da esquina, serviam para elaborados carrinhos guiados a alta velocidade, encostas abaixo pelas ruas das cidades.
Os mais inaptos (nabo era a palavra), aqueles que mal conseguiam a proeza de manobrar tão sofisticadas máquinas, eram nomeados penduras, encargo que significava normalmente carregar às costas o carro dos mais hábeis na condução e na pancada (ibidem, pp. 60-61).

         Os medos, fantasias e descobertas de criança habitam as linhas desse texto, mostrando o faro aventureiro e a abundante imaginação que, em geral, todos nós esbanjamos em nossa meninice. A capacidade de transformar qualquer objeto e instante num inesquecível e valoroso momento de brincadeira:

O velho Odeon era um espaço misterioso escurecido de dia e de noite, com metros de película abandonada e mágicas caixinhas vazias com rótulos comidos pelo tempo, onde ainda se podia ler “CLEÓPATRA”, parte dois, que recuperávamos e enchíamos de novos tesouros (papéis, ossos, asas de salalé e gafanhotos, pedaços de cabelo da pessoa amada) e enterrávamos no jardim das casas dos avós e dos vizinhos, não sem antes ter elaborado complicados mapas do tesouro impossíveis de ler para todo o sempre (ibidem, p. 61).

         Enterrado, porém, não ficou o senso crítico da autora que revela o quanto sensível é o coração infantil que, desde novo, aprende a discernir a crueldade em alguns adultos e em sociedades opressoras, prenhes de discriminações e exclusões:

Ana Maria, loira e de olhos azuis que, nos teatros da escola, desempenhava sempre os papéis de nossa senhora, enquanto às nossas peles escuras estavam reservados os lugares menores de criados, o que mesmo sendo criado de Nossa Senhora, decididamente não nos agradava. Nos anos de sorte e no Natal alguns de nós puderam representar os reis magos, o que significou uma certa promoção (ibidem, p. 61).

         Assim é o gênero da crônica: se tece por entre lembranças, acontecimentos, reflexões críticas. Sempre, porém, acompanhado de um bom “papear”, o cronista conta com a figura de um amigo que o “ouça” do outro lado da página, que lhe empreste o ouvido para os temas “sérios” e também para as trivialidades. Afinal, “alguns escritores conseguem fazer do insignificante, do corriqueiro, ou mesmo do prosaico, matéria poetizável”, ensina-nos Lúcia Castello Branco (BRANCO, 1995, p. 122).

        Também compartilhamos dessa matéria-poesia nos textos de Ana Paula Tavares que trava um aparente “papear” da crônica com aquele que a lê. Às vezes, certos cronistas invocam claramente esse leitor, outros assumem o lugar “entre” da crônica e preferem o chamamento mais velado, implícito, contudo, não menos convidativo, pois demonstra que seu texto (literário, não nos esqueçamos!) se “quer fazer desejar, deseja ser lido e se comporta de forma semelhante a todo discurso sedutor, armador de trapaças, criador de armadilhas” (ibidem, p. 22).

        A crônica tem um caráter multifacetado e incorpora esse discurso de sedução. Nos textos de Ana Paula Tavares não há referência explícita ao leitor, mas, nem por isso suas crônicas deixam de exigir o comparecimento deste na abordagem do tema, uma vez que dissertam sobre questões dignas de serem conversadas, discutidas e, como nos diálogos, há uma relação entre duas ou mais pessoas. No caso da crônica, acirra-se esse vínculo entre o leitor e o texto literário; sendo assim, “o leitor sublinha, recorta, seleciona, pontua, reescreve o texto lido” (ibidem, p. 21).

        Roland Barthes nos ensina que “ler é fazer o nosso corpo trabalhar (...); ao ler, nós também imprimimos certa postura ao texto, e é por isso que ele é vivo” (BARTHES, 2004, p. 29). E nosso corpo responde aos apelos da crônica, pois refletimos e tecemos comentários acerca daquele instante flagrado pelo cronista, mesmo que estes fiquem guardados no texto da nossa mente. Não vivenciamos o ocorrido, mas, assim como fazemos com nossos amigos, sentimo-nos no dever de também esboçarmos a nossa postura diante do fato. Poderíamos até fazer nascer uma outra crônica daquela já lida.

        Diante desta inevitável intimidade leitor-autor proporcionada pelo gênero crônica, ficamos a ouvir as narrações de Ana Paula Tavares. Viagens, recordações, história, Angola, Huíla, infância, língua: a diversidade temática é grande e a palavra é sempre utilizada como ferramenta condutora por entre essas trilhas que nos levam a viajar e refletir.

        Nas linhas desenhadas por Paula, há muitas histórias e muito a se capturar com a alma, conforme a própria autora ressalta em “Recensões críticas”: “Dizem-me os sábios cabinda [sic] que isso é mesmo assim e que a história resulta da hábil conservação de segredos, daqueles que nunca são revelados a não ser aos iniciados na linguagem secreta das coisas da alma”. (TAVARES, 1998, p.108).

        Algumas histórias extrapolam os limites das terras angolanas, como é o caso da crônica “Chão das ilhas” que discorre acerca de Cabo Verde. Sabe a cronista que muitos leitores não conhecem o território cabo-verdiano; não obstante, cumpre o papel de conduzir o leitor-amigo ao “chão das ilhas” pelo fio narrativo-poético:

Demorei muito tempo a perceber esta deambulação fascinada por uma terra desconhecida, embora muito frequentada pelo recurso às literaturas e outras músicas chegadas de lá e com morada certa no coração das gentes.
Talvez não seja preciso conhecer as ilhas para adivinhar a sua pequena extensão plantada no meio do atlântico, atravessando em súplica a sua solidão de seca, fazendo de intérpretes entre o mar e o continente, entre o continente e o resto do mundo (ibidem, p. 80).

         O tema é a seca; todavia, a cronista não assume um discurso lamentador sobre o assunto. Ao contrário, busca, através da poesia, mostrar o encantamento das ilhas e das águas. Fala-nos das línguas, da musicalidade no cantar e falar dos habitantes de Cabo Verde. Os pedidos por chuva se transformam em sensíveis canções dentro do peito de quem vive e conhece as ilhas:

Só essa experiência pode explicar o granulado das vozes falando uma língua suavemente encaracolada, uma língua feita para sentir e, portanto, forte e, ao mesmo tempo, capaz de se fazer cicio na oração pela chuva passada de boca em boca durante a “estação das brisas”, que dura de Dezembro a Junho e às vezes se eterniza o ano inteiro (ibidem, p. 80).

         Num texto inundado pela sinestesia, as palavras se ligam por uma musicalidade poética sussurrada em nossos ouvidos. Como em uma “morna”, a típica canção popular dos cabo-verdianos, as palavras cantam a dor e a saudade daqueles que suplicam pelas águas pluviais e por aqueles que saíram das ilhas, mas deixaram suas almas nelas inscritas. A crônica celebra a sabedoria de outras viagens em histórias dentro de outras histórias:

Os deuses vagueiam inquietos e habitam essa zona de espera entre Agosto e Outubro. Tentam controlar os ventos e cumprem estranhas profecias, entre as quais o hábito de olhar a multidão e com ela apreender a leitura dos lábios da linguagem antiga e aos caracóis que é, a um tempo, voz poética e instrumento que molda todos os sentidos e os convoca na auscultação dos segredos da terra e do céu (ibidem, pp. 80-81).

         Vozes, línguas, bocas, lábios, olhares, águas, canções, letras inundadas de poesia e sedução que embalam, com ritmo e sensualidade, as literaturas africanas de língua portuguesa, aqui representadas pelo cronicar de Ana Paula Tavares.

        As palavras contidas nesse texto, e em tantos outros já citados, dançam, sussurram, seduzem, gesticulam, assumem vida dentro de um discurso que se quer sedutor perante um leitor que se deixa seduzir pela aparente simplicidade de uma crônica. Mínimas palavras num máximo de representações, de sugestões. Uma relação da linguagem com a própria linguagem, conforme explicou Lúcia Castello Branco ao falar sobre poemas de Drummond, o que pela associação com a poeticidade do discurso de Ana Paula Tavares, nos permite tal incorporação:

(...) o olhar do leitor é substituído pelo ouvido de um ouvinte supostamente distraído – a leitura se transformando antes numa escuta acariciante, acalentadora, perturbadora, hipnótica. Como o sopro da voz da mãe na orelha do bebê, como o murmúrio dos amantes num momento de amor, como um dialeto peculiarmente íntimo, absurdamente singular, a que apenas o escritor e o leitor – únicos no ato da leitura – têm acesso (...) (BRANCO, 1995, p. 120).

         É a poesia das palavras de Ana Paula Tavares, ao narrar os flagrantes do cotidiano, isto é, o circunstancial típico das crônicas, que realiza essa relação de intimidade com o leitor que se mostra conduzido pelo sopro poético de letras dramatizadas em forma de voz a chamar, a clamar. O caráter intimista se dá para além de um diálogo. Estabelece uma relação de sedução e toque, pois, como teoriza Roland Barthes acerca do erotismo das palavras,

a linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação (BARTHES, 1981, p. 64).

         E, nessa relação de intimidade entre as palavras e o texto, entre a crônica e a poesia, entre a cronista e o leitor, Ana Paula Tavares deixa aflorar histórias, narrações, personagens e tradições ao realizar a arte de cronicar.

        As crônicas de Ana Paula Tavares se tecem de Memória, História e outras histórias vividas, experimentadas pela cronista e também por outras personagens, muitas delas mulheres. O título A cabeça de Salomé (2004) de seu segundo livro de crônicas já anuncia um sacrifício de fêmea a oferecer-nos palavras que, assim como Salomé, dançaram um ritual sedutor: corpo-texto a semear a vida e a guardar as histórias e a tradição.

        Algumas crônicas de O sangue da buganvília (1998) também já começavam a apontar a importância de personagens femininas. Esse livro nos conta sobre o sangue derramado nas guerras, sobre a luta pela sobrevivência necessária em meio a tempestades e também sobre o papel da “buganvília mulher”, sempre a resistir ao tempo e a guardar as palavras.

        Aquele que narra doa um pouco de sua vida, de suas experiências, de suas vivências aos leitores. Assim ocorre, em geral, nas crônicas, pois os seus autores mostram-se atentos ao que acontece ao redor, na tentativa de narrarem o que os tocou, o que conseguiram apreender de certas circunstâncias. E desse “aprendizado” flagrado em seu cotidiano querem os cronistas compartilhar; afinal “narrar” acontecimentos, instantes é o principal objetivo da crônica. Mas, Paula narra, muitas vezes, como se contasse uma história, um conto.

        Ecléa Bosi ressalta o valor daquele que narra:

O narrador é um mestre do ofício que conhece o seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira.
Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo.
Uma atmosfera sagrada circunda o narrador (BOSI, E., 1994, p. 91).

         Como esse narrador, também, Ana Paula Tavares narra suas experiências e aprendizados. Os provérbios destacados em suas crônicas expressam algumas das lições passadas à cronista. E esta continua a cumprir a tradição de repassá-las, no caso, para nós, privilegiados leitores, que podemos partilhar dessa “atmosfera sagrada” de ensinamentos. Vejamos alguns provérbios que destacamos do livro A cabeça de Salomé:

“A centopéia com 100 pernas só anda por um caminho” — Provérbio cabinda, p.13;
“No sítio onde se parte um vaso só ficam os cacos” — Provérbio umbundo, p.21;
“Caiu a noite chegou a hora da caça ao caracol” — Provérbio cabinda, p.27;
“Coitado dos cordeiros quando os lobos querem ter razão” — Provérbio cabinda adaptado para português muito livremente, p.49.

         Muitos ensinamentos e muitas histórias as crônicas de Ana Paula Tavares têm a nos contar, como ocorre, por exemplo, no texto “Funge de sábado” que focaliza o tradicional hábito angolano de saborear as receitas oriundas do milho ou do aipim, aos sábados. Receitas “secretas”, realizadas pelas mãos das mais velhas:

Algumas mulheres mais velhas (nota-se que esta designação ⁄ estatuto “mais velhas” comporta um universo de mulheres de idades tão variadas como as que ainda freqüentam há pouco tempo o lugar dos trinta até àquelas mulheres de origens remotíssimas, árvores de grande porte onde o tempo entrou, e se perdeu, e que têm das suas origens e nascimentos uma vaga noção – “nasci no ano dos ratos”, “quando era pequena houve a sétima praga de gafanhotos”).
Mas, dizia eu, transportam estas mulheres a secreta ciência dos sabores, patrimônio ciosamente guardado, pessoal e intransmissível, exercido com a eficiência dos longamente iniciados...intransponível.
São elas que inventam o sábado, num amanhecer de todas as cores, transformando cada sábado num dia único irrepetível, para ser vivido devagar.
Antigas viagens do milho e da mandioca são trazidas de volta, nas intermináveis buscas e nas cerimônias de prova e compra dos melhores produtos (TAVARES, 1998, p. 50).

         As mulheres, conhecedoras dos sabores e segredos da terra, cumprem seu ofício e guardam as tradições como a do “funge de sábado”. Passam esse e outros costumes umas às outras, legando às futuras mais velhas a responsabilidade da preservação cultural.

        Desde a escolha do milho, da farinha, até a cozedura do alimento, há um cuidado e uma disponibilidade destas mulheres em cultivar o hábito cultural de “bater o funge”, tão frequente em Angola. A crônica, passo a passo, descreve essa prática ancestral e mostra a importância da ferramenta fundamental, e de grande valor, utilizada para a preparação desse saboroso patrimônio gastronômico angolano:

A panela do funge é uma instituição em cada casa. É aquela e mais nenhuma, sendo que as verdadeiras apresentam uma pátine reveladora das marcas do tempo, numa estratigrafia que corresponde aos segredos da família, como a terra, a árvore secreta, as malas dos panos, as rugas das faces (ibidem, p. 51).

         A panela funciona como metáfora das trilhas culturais de Angola e das famílias angolanas que veem nela seus próprios traços, suas histórias e seus segredos. E são também as mulheres que, nas linhas narrativas de Ana Paula Tavares, nos apresentam a “panela” de histórias que a autora guarda na memória e reinventa em muitas de suas crônicas.

         Somos envolvidos pela “artimanha” da escritura de Ana Paula Tavares, que encanta ao colorir de poesia as linhas desenhadas em seus textos e surpreende os nossos ouvidos que, ao perceberem o “acariciar” do verbo, se abrem ao prazer de ouvir. Tais crônicas preservam a tradição oral do narrar e se querem oralizadas na perspectiva também da sedução. Desse modo, mais uma vez, as crônicas se revelam um lugar “entre”: entre a palavra escrita e a palavra oral, ambas a tocar a pele do leitor, a estabelecer mais uma possibilidade de aproximação com aquele que, ao ler, se deixa seduzir. Sobre a “escritura em voz alta”, Barthes chama atenção para o erotismo e a musicalidade das palavras e dos fonemas:

(...) o que ela procura (numa perspectiva da fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se pode ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda (...) Uma certa arte da melodia pode dar uma idéia desta escritura vocal; mas, como a melodia está morta, é talvez hoje no cinema que a encontraríamos facilmente (...) o corpo anônimo do ator na mina orelha: isso granula, isso acaricia, isso raspa, isso corta: isso frui. (BARTHES, 2004, 4. ed., p. 78).

         Também nós, leitores, nos deixamos levar pelo fruir dos textos de Ana Paula Tavares, crônicas que narram em voz alta e ultrapassam o limite do gênero, assumindo sua condição “entre”, perante a sagacidade das palavras a nos desvelarem múltiplas faces e sentidos. Afinal, como também afirma Lourenço Rosário sobre a tradição oral, “(...) através da narrativa, a memorização se torna mais fácil por causa da curiosidade e do prazer” (ROSÁRIO, 1989, p. 48).

        Ana Paula Tavares preserva a tradição de narrar histórias sem, entretanto, abrir mão do comprometimento com a literatura marcada pela escrita. Como ela mesma chama atenção, a

“construção da literatura“ angolana, tendo em conta os seus legados, faz-se num jogo de alternância entre tradição e modernidade de fronteiras nem sempre bem definidas. Entre oralidade e escrita, pese embora o facto de existirem poucos trabalhos de análise sobre estes problemas, resistem jogos de formas, estruturas, toda uma simbólica que remete para a sobrevivência da tradição com as suas marcas próprias, no interior dos géneros e das escolas que definem a modernidade (TAVARES, 2001, p. 109).

         Por entre a tradição e a modernidade, as crônicas de Paula Tavares fotografam o circunstancial, os acontecimentos do real histórico, mas vão além. Alguns textos, ao realizarem a arte de narrar, abrem mão do pacto com a realidade imediata e tangenciam o gênero conto, utilizando personagens ficcionais para realizarem o gozo, a arte de contar e cronicar histórias.

        O lugar da crônica, afinal, também é o da literatura, “lugar privilegiado”, onde o fictício e o imaginário repensam e recriam contextos circunstanciais do dia-a-dia captados pelos cronistas:

Literatura é lugar privilegiado do imaginário: é duplamente imaginária, mesmo quando se quer realista e documental. A literatura é lugar onde a memória mostra seu mecanismo, querendo-se plena ou faltosa, mas com sua especial qualidade de fictícia ou ficcional (BRANDÃO, 1995, p. 23).

         O sangue da buganvília nos apresenta características mais “tradicionais” da crônica, como o compromisso com o cotidiano, com o factual, com os acontecimentos históricos de Angola, já que esses textos da autora focalizam as datas em que os mesmos foram escritos pela cronista. O trabalho com a linguagem poética, todavia, também não foi esquecido.

        Esse primeiro livro de crônicas de Paula Tavares, todavia, já anunciava uma alquimia de gêneros, como podemos perceber, em “Os ovos do arco-íris”, já pela epígrafe escolhida: “[...] Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é fumo, leve demais para se prender na vigente realidade [...] – Mia Couto” (TAVARES, 1998, p. 64). Na referida crônica, Paula acaba por estabelecer um diálogo com o conto e sobre o conto:

Uma viagem ao mundo acidentado dos contos é uma viagem guiada a uma arqueologia de saberes, rigorosamente ordenada de forma a servir de manual de ensinamentos úteis e práticos para a vida.
Sua absoluta dimensão de verdade enfeita-se, por vezes, da matéria dos sonhos, mas não é assim que são feitas todas as verdades?
Tudo isto parece confundir os especialistas que, desde há pelo dois séculos, se afadigam na recolha, dissecação e classificação meticulosa de um património que se destinava a servir um momento e depois se perder ou ganhar uma nova dinâmica, sobre outras cores das palavras (ibidem, p. 64).

         Assim, ao colorir a transmutação dos gêneros, a autora explora as fronteiras da crônica, inserindo aspectos ficcionais na tentativa de transmitir a tradição de narrar histórias, preservando, desse modo, grande parte do patrimônio cultural de Angola. Ela sabe que ao conto são permitidas certas transformações próprias à narratividade característica da tradição oral; por isso, suas crônicas, muitas vezes, se esmeram na arte de contar:

Sempre me pareceu que o conto na sua especial morfologia resultava da sua capacidade de transformação. Uma pequena estrutura permite que a linguagem da oralidade a fermente e assim migra e aninha-se no núcleo daquilo que, à primeira vista, parece um conto diferente e mais não é do que uma variação de outro conto apresentando a marca original de cada contador. “Quem conta um conto”!...(ibidem, p. 65).

         É contando “crônicas-contos” que nasce A cabeça de Salomé, um livro de histórias que seduzem o leitor pela “marca original” da autora Ana Paula Tavares: o colorir da poesia e a arte de contar, de cronicar histórias. São crônicas que vão além do tempo factual. Textos que transportam o leitor ao tempo da experiência da cronista, aos momentos vividos por esta, às histórias ouvidas pela autora, como ocorre em “O meu encontro, à porta fechada, com a beleza...”. Essa crônica, narrada em primeira pessoa, relata uma experiência “real” (ou que deseja ser) do narrador que nos apresenta uma personagem especial, o homem-ovo:

Para todos os efeitos, os conhecidos e os outros, tratava-se do homem-ovo. Assim mesmo, ovo, porque segurava nas mãos uma enorme barriga protegida por uma casca à prova de tempo, fome e outros fenômenos, como a chuva de pedras desencadeadas pela inocência das crianças.
(...) Um dia, vencendo barreiras de som e de cheiro, cheguei à conversa com o homem-ovo que, ao que me contou, tinha mudado de nome várias vezes durante as muitas vidas e algumas mortes de que era feita a sua existência. Quando nasceu, menino grande para alegrar o quintal da avó, ficou Jesus Maria, que os amigos de bola, fruta roubada e fome, vendo a sua pouca habilidade para a pancada e fuga, rapidamente transformaram em Maria Jesus, Menina Jesus, nos dias piores de polícia e alcatrão (TAVARES, 2004, p. 32).

         Pelo trecho citado, observamos que “homem-ovo” revela sua capacidade de adaptação aos tempos que sempre mudam. Seus vários nomes se alteram de acordo com suas características e situações vividas. Assim também as crônicas de Ana Paula Tavares vestem diferentes roupagens, segundo as situações que desejam narrar. O que os textos da autora desejam é fazer nascer o colorido das palavras, conforme ocorre com o “homem-ovo”. Ele conta o seu segredo ao narrador da crônica que fica a ouvir atentamente, pois sabe que a proximidade com esse homem é também o encontro com a beleza das palavras: “Sabe, o que eu choco realmente são palavras, textos secretos, fórmulas de entrar no paraíso das cidades. Um dia, vou virar finalmente a Mãe Natal e pôr meus ovos de Beleza no grande ninho da terra”. (ibidem, p. 32).

        Walter Benjamin ensina que a “experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores” (BENJAMIN, 1994, p. 198). Também as vozes narradoras das crônicas de Paula contam-nos suas experiências vividas e ouvidas. Muitas dessas histórias parecem ter sido oriundas de outras histórias escutadas cuidadosamente pela cronista. Vozes que ecoam nos textos dos livros e que são, como mostra Ruth Silviano Brandão, “vozes que compõem o texto interno” de cada um:

Cada um de nós tem seu texto interno, complexo, composto de vozes recentes ou vozes arcaicas, vozes representadas, fantasmáticas. Texto consciente e ⁄ ou inconsciente – escrituras produzidas por outras leituras ⁄ escrituras, por mitos familiares, por vozes que não se distinguem umas das outras, avós, mães ou filhas umas das outras, confundidas, entretanto, no espaço familiar (BRANDÃO, 1995, p. 21).

         Dessas vozes “fala” Ana Paula Tavares, mas estas também “falam” ao mesmo tempo em que a cronista narra as histórias, desvelando personagens que circundam suas lembranças e suas linhas narrativas. O texto “As mais-velhas”, por exemplo, é iniciado pelo “falar” de um poema kuanyama, metáfora da força dessas idosas, representantes do patrimônio cultural angolano. Tais provérbios trazem ensinamentos do tipo: “Os teus chifres são agudos e direitos como uma azagaia: / Quando ferem alguém, este morre sem ter tido doença. (...)” (TAVARES, 2004, p. 79).

        Também, nós, leitores, somos “feridos” pelas palavras que nos apresentam essas personagens femininas que são “mães, mulheres, irmãs” e “guardadoras de palavras”, pois vivem a soprar “histórias, provérbios, adivinhas”, num viver poético, rico de tradições, como mostra a crônica:

Nunca sabem a idade, porque nasceram antes do tempo das sementes, num qualquer ano da praga dos gafanhotos ou epidemia da varíola. (...) Crescem sob o signo das sobreviventes, com a testa marcada pela estrela em brasa das vacas eleitas para serem mães, mulheres, irmãs.
(...) Por vezes e sem que se note muito param, entre o dia e a noite, um momento, para passar, em forma de história, provérbio ou adivinha, as fórmulas de sobrevivência, lições de parentesco, lugares de culto, os nomes do caminho. São livros de marinharia que trazem escritos dentro da memória e, em segredo, libertam do esquecimento.
Quando isto acontece, acontece um momento de milagre em que esquecem sua condição de formiga e acendem a voz, soprando as palavras até que o fim do dia apague a trémula chama de um ritual de cacimbo bem afinado (ibidem, p. 80).

         As vozes “faladas” por Ana Paula Tavares em suas crônicas permitem ao leitor o acariciar das histórias feitas de reinvenção das experiências vividas e ouvidas pela poetisa-cronista. Assim, conhecemos uma maneira de cronicar, que se tece também das cores da poesia.

        A crônica “A cabeça de Salomé” também “reinventa” o mito bíblico de Salomé. Esta, segundo a história, foi uma mulher envolvente que fez de sua capacidade de sedução sua “armadilha” maior. Ao dançar, encantou Herodes e o fez jurar que tudo o que ela desejasse seria concedido. Usou o erotismo de seu corpo para conseguir a cabeça de João Batista, ofertada numa bandeja de prata. A crônica de Paula mostra os ritmos dançados pela beleza das palavras e pela oferta que a cronista faz aos leitores, quando nos conta e nos encanta com seu “cesto de narrações”:

(...) Os homens e as mulheres, muito assustados, lembraram o tempo da grande fome antiga, quando a desgraça foi tanta que o ar se tornou sólido, à força de abrirem as bocas para o beber. Dizia-se, muito baixo, que o sangue de uma mulher virgem era esperado pelos deuses e que só assim a cólera regressaria de novo às bainhas e haveria descanso para os ferreiros.
Todos olharam a-mais-nova, a filha de muata, tão linda que a máscara Mwana Pwo se recusara a sair diante dela e a acabar de vestir o corpo do bailarino.
Por isso, ele dançou só, sem protecção, com o despeito da máscara, a do espelho. E tão bonita foi a sua dança, tantas vezes o seu corpo se torceu em música, que a terra se abriu de desejo, e a cólera dos deuses pôs a vibrar todos os tambores. Era precisa uma cabeça.
O bailarino não descansou com seu corpo de arco-íris e distraiu homens e deuses e desposou a mais nova filha do muata. No intervalo, e com a festa, homens e deuses esqueceram a promessa.
(...) Ao longe, ouvem-se os sons dos tambores duplos. O ruído da faca no altar dos sacrifícios. Alguém deseja a terra. Diz a tradição que chegou a hora de cumprir a promessa: entregar a deus, no cesto de adivinhação, a cabeça de Salomé (ibidem, pp.15-16)

         É necessário o cumprimento das tradições: em geral, uma oferta feminina nos espaços rurais da Huíla. No livro de Paula que leva o mesmo nome dessa crônica, a doação da mulher nos é oferecida por palavras poéticas, criadoras de imagens, sons, vozes, cores e histórias desenhadas pela autora. A cabeça de Salomé metaforiza, assim, uma escrita que se doa, que se quer desejada.

        Ao procurar novos caminhos para a escritura de suas crônicas que travam uma grande aproximação com os leitores, Ana Paula Tavares domina a arte de cronicar, descortinando diversas faces e vozes desse gênero. Para contar a história e as estórias, a autora estabelece diálogos com os leitores, entregando-se às conversas sobre “oásis, lábios e sede” que permitem o dançar das palavras num autêntico ritual de narrações da vida. Afinal, como afirmou a própria autora, é necessária a introdução do novo naquilo que é tradicional para haver mudança; as transformações são sempre bem-vindas:

(...) a tradição, longe de constituir um legado imóvel e fixo, pronto para ser transmitido de geração em geração, a tradição é também mudança e sinônimo de um quadro dinâmico longamente entretecido entre o indivíduo e o grupo, que alimentam o antigo e estabelecem a necessária ponte entre o velho e o novo (TAVARES, 1998, p. 52).

         Apresentando essa capacidade de mesclar as tradições e a modernidade, os textos da cronista se tecem de memórias do passado, mas também preparam o futuro, na medida em que refletem sobre os erros do presente e do outrora.

        Ao longo deste artigo, pudemos perceber palavras inundadas de imagens poéticas, inseridas num discurso que transita pelas trilhas da memória, da história e da tradição. Enfim, por meio das crônicas de Ana Paula Tavares, a nossa “conversa” , como a epígrafe deste texto sugere, percorreu o prazer da palavra, o “oásis” da linguagem.

REFERÊNCIAS:

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.

_________________. O prazer do texto. 4. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004.

_________________.O rumor da língua. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

BRANCO, Lucia Castello e BRANDÃO, Ruth Silviano. Literaterras: as bordas do corpo literário. São Paulo: Annablume, 1995.

ROSÁRIO, Lourenço Joaquim da Costa. A narrativa africana de expressão oral. Lisboa; Luanda: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa; Angolê, 1989.

TAVARES, Ana Paula. A cabeça de Salomé. Lisboa: Caminho, 2004.

___________________. “A literatura em construção”. In: Revista Metamorfoses 2. Lisboa; Rio de Janeiro: Edições Cosmos; Cátedra Jorge de Sena, setembro 2001.

__________________.Manual para amantes desesperados. Luanda: Editorial Nzila, 2007.

__________________.O sangue da buganvília. Praia; Mindelo: Centro Cultural Português, 1998.

Texto recebido em 30 de março de 2012 e aprovado em 31 de maio de 2012.