Mulemba - n.5 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2011

Artigo:

Apresentação

A quinta edição da revista "Mulemba" reúne ensaios que buscam discutir aspectos do cômico e do trágico presentes nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. A maior parte dos artigos aborda a ironia e o riso, havendo três artigos que focalizam também a melancolia e o desencanto. Nos dois enfoques, houve sempre um olhar bastante crítico. Consoante Linda Hutcheon (2000, p. 66)i, a ironia não é um simples tropo literário, porém um modo de elaboração textual, em que o discurso sai da esfera do verdadeiro e do falso e entra no reino do ditoso e do desditoso. É, em razão disso, que a ironia enseja “inferências, não só de significado, mas de atitude e julgamento”, na medida em que produz efeitos consequentes sobre sentimentos e pensamentos dos leitores. Também a melancolia, segundo Walter Benjamin (1984, pp.222-232)ii , é um modo de dizer o que estava reprimido.

Assim, para abrir este número, a partir das palavras de Hutcheon e Benjamin, encontra-se o ensaio "O guerrilheiro angolano que antecipou Lyotard", da pesquisadora Jane Tutikian, da UFRGS, que analisa o riso como estratégia estético-ideológica nos contos do escritor angolano João Melo, no qual as formas do cômico servem para questionar as “verdades absolutas”, sejam elas sociais, políticas ou morais, e também as “verdades literárias”. A seguir, em "Mobilidades e trânsitos diaspóricos: a ironia em vestes recicladas", a pesquisadora Maria Nazareth Soares Fonseca, da PUC de Minas Gerais, relê textos literários produzidos por escritores angolanos para discutir estratégias em que a ironia e a paródia aparecem em arranjos novos e reveladores de procedimentos híbridos e recicladores.

Lola Geraldes Xavier, da Universidade de Coimbra, em "João Melo: contos risíveis ou talvez não", aborda o cômico e o trágico nos contos de João Melo. A pesquisadora mostra que, nos cinco livros de contos deste autor angolano, não se pode falar do cômico, mas antes do risível; nem do trágico, mas antes do trágico-risível. Robson Dutra, da UNIGRANRIO, também traz reflexões sobre a escrita deste escritor angolano, em "João Melo: humor e amor em tempos de cólera". Ele analisa a utilização da ironia em algumas narrativas curtas do escritor, contudo privilegia, em sua leitura, O homem que não tira o palito da boca, mostrando que o riso, presente na escrita de Melo, faz refletir criticamente sobre a ficção, a literatura e a trajetória de Angola, país.

Salgado, da UFRJ, em "Carnavalizar é preciso: uma leitura da paródia em Quem me dera ser onda", do escritor angolano Manuel Rui, procura estabelecer diálogos desta obra com o romance A revolução dos bichos, do escritor inglês George Orwell. A pesquisadora explora os conceitos de carnavalização, paródia e de realismo grotesco para pensar criticamente a sociedade angolana na pós-independência. Em "O malandro, o mendigo, o ladrão e o papagaio: a quadrilha do humor", Bruno Santoro, mestrando na UFRJ, compara o conto “Estória do ladrão e do papagaio”, do escritor angolano Luandino Vieira com o texto da peça Ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht. Santoro pontua que, num primeiro momento, ri-se fácil da situação das “presonagens-bandidos”, mas, à medida que a história se desenvolve, o divertimento cômico obtido culmina num riso que leva à reflexão.

Em "Falar para curar, ouvir para aprender – Niketche: uma história de poligamia", de Paulina Chiziane, Eufrida Pereira da Silva, da Universidade de Massachusetts, analisa a oralidade como instrumento de aprendizagem no romance de Chiziane e mostra que as “conversas de mulheres” funcionam como instrumento pedagógico de aprendizagem e que a dança do niketche e a oralidade questionam a sociedade patriarcal moçambicana. Já Isabel Bellezia dos Santos Mallet, Mestre pela UFRJ, em "Para tecer a manhã em risos úmidos e azuis", faz um estudo do romance Bom dia camaradas, de autoria de Ondjaki, escritor angolano, cuja leitura tem como fio condutor a investigação da relação entre o riso e o desejo. A autora trabalha com o conceito de humor, a partir de conceitos desenvolvidos por Pirandello e Freud, que sinalizam para o desejo de preservação de resquícios utópicos, reveladores de teimosia e rebeldia contra a ordem vigente.

Em "Seria cômico se não fosse trágico – apontamentos sobre o "criado-mudo" de Pepetela", Vanessa Ribeiro Teixeira, da UFRJ, investiga, por intermédio da leitura do romance A gloriosa família – o tempo dos flamengos, de Pepetela, as funções da memória, do esquecimento e do humor, na releitura crítica e irônica de momentos significativos da história angolana. Também na linha de reler momentos históricos problemáticos, Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, da UFRJ, em "Entre crimes, detetives e mistérios... (Pepetela e Mia Couto – riso, melancolia e o desvendamento da história pela ficção) ", aborda os enigmas e as lacunas da História angolana e moçambicana, a partir de romances de Pepetela e Mia Couto. Para seu estudo, a pesquisadora adota o olhar melancólico benjaminiano como suporte para análise das alegóricas leituras, realizadas pelos escritores, em relação às sociedades moçambicana e angolana em tempos pós-coloniais e de globalização econômica.

Para fechar esta edição, Carlos Liberato e seu orientando, Felipe Paiva, ambos da Universidade Federal de Sergipe, nos brindam com uma entrevista com o escritor angolano Pepetela, cuja escrita é quase sempre forjada pelo viés da ironia e da melancolia benjaminiana. Em "A ideologia da escrita: Pepetela, uma entrevista", os estudiosos nos revelam o pensamento do escritor acerca de variados temas, como: cultura, política, história, literatura, ideologia, revolução. Conceitos distintos e que podem parecer até inconciliáveis, mas que estão todos na pena de Artur Pestana dos Santos: Pepetela.

Por fim, vale dizer, a partir das discussões trazidas a essa edição da revista "Mulemba", que o riso é transgressor, seja na concepção de Freud, Pirandello, Bakhtin, Hutcheon, etc, mas não gratuito, porque faz refletir sobre a condição humana e sobre as instituições criadas pelos homens. Textos que incorporam a ironia ou o humor em suas elaborações discursivas, como diria Bruno Santoro, podem ser um caminho viável na formação crítica de leitores, porque sua aceitação é mais rápida, e não impositiva, surgindo sempre de forma inusitada, improvável e reflexiva. Também o trágico e a melancolia – concebida esta no sentido de Walter Benjamin – são imensamente transgressores, na medida em que promovem “escritos indignados”, capazes de despertarem, nos que leem, ampla consciência crítico-social.

Desejamos a todos uma prazerosa e proveitosa leitura.

A Comissão Editorial

NOTAS:

i HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000.
ii BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.