Mulemba - n.4 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / julho / 2011

Artigo:

“O TEMPO DO CANTO”:
DESEJOS E MEMÓRIAS NA POESIA MOÇAMBICANA PÓS-80

“THE TIME OF CANTO”:
DESIRES AND MEMORIES IN THE POST 80’S MOZAMBICAN POETRY

Cíntia Machado de Campos Almeida
Doutoranda em literaturas africanas– FL/UFRJ
Bolsista/CNPq

RESUMO:
A poesia de Luís Carlos Patraquim em seu livro de estreia – Monção, publicado em 1980 - como metonímia das novas vertentes poéticas despontadas após a independência de Moçambique. A retomada da subjetividade lírica no cenário literário desse país a partir de 1980. A evocação e a reflexão acerca de memórias históricas, culturais e sociais.

PALAVRAS-CHAVE: poesia, Moçambique, memórias, desejos, resistência

ABSTRACT:
The poetry of Luís Carlos Patraquim in his debut book – Monção, published in 1980 – as metonymy of the new poetical tendencies that arose after Mozambique’s independence. The resumption of the lyrical subjectivity in the literary scene of that country since 1980. The evocation and the meditation on historical, cultural and social memories.

KEYWORDS: Poetry; Mozambique; memories; desires; resistance.


No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
            (Ivan Lins e Victor Martins, “Novo tempo”, Novo tempo, 1980) 

Depois de Junho

         A independência em Moçambique, proclamada em 25 de junho de 1975, embora tenha significado a ultrapassagem da condição oficial de “colônia lusitana”, não resultou, de fato, na abertura de uma era histórica, social e economicamente estável para o país. As utopias fomentadas pelo desejo de emancipação política dobraram-se frente à guerra de desestabilização, iniciada em 1976.

        É certo afirmar que, àquela altura dos acontecimentos, a poesia lírica moçambicana já não figurava tal qual uma novata em cenário de estreia. No entanto, é preciso reconhecer que foi a partir do período pós-independência, em meio ao contexto social marcado pelo desencanto, que tomou impulso uma expressão artística assinalada pelo lirismo existencial.

        A voz poética entoada por coletivos ecos, em luta persistente contra a metrópole, consistiu, por muitos anos, no veículo de protestos e denúncias, caracterizando uma fase conhecida por “literatura de combate”. Entretanto, tal perspectiva mudaria depois de junho de 75. A mesma voz, especificamente a partir de 1980, recorreu aos meandros mais íntimos que a palavra poética poderia dar a conhecer. Era urgente tentar reverter os efeitos da desesperança. Nascia, assim, o que Francisco Noa, em A escrita infinita (1998), chamou de “a nova poesia moçambicana”.

        O que antes significou o desejo pela instituição dos direitos nacionais, neste novo instante literário fez dos direitos individuais a sua bandeira definitiva. É importante ressaltar que migrar ao eu não submeteu o sujeito poético às rédeas da subjetividade. Ao contrário; ao invés de enclausurá-lo nele mesmo, permitiu-o ir além de si próprio, num jogo de experimentações poéticas embriagado de lirismo existencial. Afinal, não mais se deveria adiar o verso capaz de enaltecer a vida, acreditar no amor, extravasar emoções, desbravar o espaço onírico, apostar nos afetos, promover a metapoesia como veículo de reflexão da escrita e, enfim, ressignificar a palavra esperança.

        Nessa ebulição literária, dentre tantos nomes que deixaram – e ainda deixam – um rastro indelével na história da literatura moçambicana, evocamos o de Luís Carlos Patraquim, cuja produção poética de estreia nos servirá de metonímia aos novos caminhos trilhados pela poesia africana em Língua Portuguesa a partir da década de 80.

“Com palavras faço a voz e o vento”1: Monção e a reinvenção dos caminhos poéticos

         Na quarta capa de Monção, obra que fez despontar o nome de Luís Carlos Patraquim na cena literária moçambicana, lemos que se trata de um “livro de começo”. Todavia, em vista da aragem eufórica que soprava em direção a Moçambique, retificamos: mais que isso, Monção foi um livro para reinventar caminhos.

        Já no título, a mesma ideia nos é sugerida: monções são ventos oriundos da Ásia, favoráveis às navegações, que bafejam do mar para o continente e apontam para uma transição climática. De velas abertas, à espera do sopro certo, eis um livro-nau que, impulsionado pelos ventos alvissareiros, anunciou a chegada de uma nova fase da poesia moçambicana ao aportar em 1980.

        Em Monção, uma espécie de nota de abertura – de responsabilidade não do autor, mas dos editores – recepciona-nos a fim de conosco compartilhar a compensadora sensação de os livros poderem ser, enfim, “editados em liberdade”:

Consequência da luta de libertação que conduziu à independência do País os poetas e prosadores de Moçambique podem agora ser editados em liberdade. Esta colecção é a afirmação duma cultura que o poder opressor não pôde destruir, pois não se pode manter indefinidamente silenciada a voz de um Povo. (PATRAQUIM, 1980, s/ p.)

         Era bem-vindo “o tempo do canto”, de modo a simbolizar a tão aguardada liberdade de criação estética. E para comemorar essa conquista, tomou a reflexão metapoética como um de seus eixos temáticos.

        O verso, matéria agora passível de ser dotado de leveza, permitiu-se alçar voos em plena imensidão da escrita. A única incerteza a que se lançou o sujeito lírico foi a de não saber “se é canto ou ave” o que se expressava (PATRAQUIM, 1980, p. 15). Em Seis propostas para o próximo milênio, Calvino apontou a leveza como um dos valores a serem preservados pela literatura:

O peso da vida [...] está em toda forma de opressão. [...] Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que eu devia voar para outro espaço. [...]. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. (CALVINO, 1995, p. 19)

         De modo a promover o alívio do peso terrestre e a consequente descompressão histórica, Calvino defendeu o encontro da Literatura com a leveza, o que significaria uma potente “reação ao peso do viver” (CALVINO, 1995, p. 39). Era necessário afrouxar “os laços com que a morte fez residência no chão”, como bem nos disse Mia Couto no prefácio intitulado “Escrevoar”, de Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave, de Eduardo White (1992, p. 9).

        A fim de empreender “a descoberta (...) de mais sol”, o poeta propaga as mensagens trazidas por suas monções poéticas repletas de imagens otimistas e eróticas, na medida em que não deseja menos do que experimentar “o sorriso de ser mundo”. Afinal

nosso é o tempo do canto
conquistado a sangue
e terra

sobre o vibrato dos dias
alguma voz
são todas as vozes

este rosto etéreo a meu lado
e musgo nas marés do corpo
o sorriso de ser mundo 
a noite nua
fremente

nosso é o tempo do canto
sobre o lugar
na descoberta palmo a palmo
de mais sol

o tempo amante
a voz da amada
o escrutínio deste sexo
fundo com palavras
                                 (PATRAQUIM, 1980, p. 33)

         É o próprio poeta quem dita em seu “Auto-retrato”, publicado em Sonha mamana África, que “(...) sempre o amor da terra, das pessoas e dos animais” constituem os motores de sua poesia. (cf. MEDINA, 1987, p. 76). Em Monção, Patraquim dedica-se a tudo o que é essencialmente erótico: almeja voltar suas retinas líricas ao canto do ser, ao canto da vida, como lemos em “Saga para ode”:

(...)
é preciso inventar-te porque existes
enquanto os deuses adormecem nas páginas dos livros
e o real é a infinita medida do canto
como acender as luzes ao meio-dia
e no mais sol das pétalas abertas
verter a seiva a singrar na terra

é preciso, meu amor, percorrer o tempo que nos deram
suspensos onde estamos nas pálpebras do verão
                                                                              (PATRAQUIM, 1980, p. 56)

         Do erotismo aflorado, que sintetiza um grande elogio a tudo o que pulsa, inclusive a terra, eclode a figura da mulher dotada de contornos paisagísticos, na mesma medida em que a paisagem moçambicana assume contornos fêmeos. Patraquim se lança ao propósito poético de instaurar novas paisagens, assinaladas pela liberdade e acentuadas pela dinâmica da voluptuosidade. O poeta se lança a delinear cartografias próprias, únicas, propícias, principalmente, à fruição dos desejos:

afasto as cortinas da tarde 
porque te desejo inteira
no poema

e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de casuarinas
rumorejando perto

a fúria das ondas
caindo brandas
no meu gesto
                      (PATRAQUIM, 1980, p. 38)


“Noções de Geografia”

a sul
implanto uma cartografia sem limites
traço e compasso
depois da madrugada

de ti
um rosto iridescente
alastra o vôo claro
das mãos

a sul
descobrimos vozes abertas
sem oclusão
e mastigamos água
                              (idem, p. 46)

         Observemos que a poesia nos conduz por espaços cuja terra encontra-se totalmente conjugada ao ser, estabelecendo uma relação simbiótica entre habitat e habitante. É igualmente notável que a simbiose instituída entre o ser e a terra na poesia patraquiniana recebe uma especificidade feminina. Devido a inúmeras aproximações simbólicas, mulher e terra constituem instâncias assiduamente em interseção em sua poesia.

        O fascínio de Patraquim pela vida é, definitivamente, a chave de leitura para adentrarmos nos versos de Monção. A vida é de tal forma enaltecida que o poeta promove, inclusive, a fruição da própria escrita, concedendo vez ao “sexo fundo com palavras” e voz à “palavra nua”. Se para Georges Bataille a expressão erótica excede a condição de mero apelo de prazer aos sentidos, o poeta funda o “idioma do corpo” à luz do conceito batailliano, para quem a palavra, uma vez potencializada com uma carga erótica, é capaz de colocar o ser em questão (BATAILLE, 1987, p. 27).

Ó minha palavra nua 
idioma do teu corpo

aqui fundo a raiz
e o espaço
neste ciciado cio
teu monte azeviche
aberto às manhãs
cacimbadas a nervo!
                                    (PATRAQUIM, 1980, p. 52)

         Seus poemas nos levam ao encontro de imagens em que o sensual e o sensorial atuam juntos de modo a reverter os rastros deixados por Thanatos durante os anos da guerra. Dentre todos os motivos pelos quais Patraquim deixa seu nome registrado na história da literatura moçambicana, apontamos o erotismo como um de seus eixos temáticos mais representativos, visto que para Bataille podemos qualificar como erótica toda “aprovação da vida até na morte” (BATAILLE, 1987, p. 11).

        Não só dos desejos pretendeu se constituir o tempo do canto. Para desejar é necessário saber o que se quer e, principalmente, o que não se quer. Daí a essencial necessidade de lembrar. Monção constitui uma obra alicerçada em dois dos pilares fundamentais que também edificam a nova poesia moçambicana: o querer e o ser. Paralela aos desejos, eclode a memória como outro patamar temático das poesias desse livro.

        No poema “Metamorfose”, dedicado ao poeta José Craveirinha, imagens indeléveis de um passado exalam pelos poros dos versos e se contrastam às expectativas para com o tempo do canto:

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
       vê lá que nem casaco tinha
nem sentido do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
       para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa
a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
       e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e a metáfora
mas agora   morto Adamastor
       tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
       das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
       as rótulas já não tremulam não e a sete de Março
       chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
       de satanhocos moçambicanos   todos poetas   gizando
       a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo


              enquanto os tocadores de viola
                        com que latas de rícino e amendoim
              percutem outros tendões de memória
              e concreta
              a música é o brinquedo
                                                    a roda
                                                                e o sonho
              das crianças que olham os casacos e riem
              na despudorada inocência deste clarão matinal
              que tu
              clandestinamente plantaste
                                                   AOS GRITOS
                                                                                 (PATRAQUIM, 1980, p. 27)

         O poema se divide em dois movimentos que são marcados pela instância temporal: o antes e o agora. Ao iniciarmos a leitura, regressamos a um outrora “quando o medo puxava lustro à cidade”, tempo em que “os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens / e flores vermelhas” e “a Mãe não era ainda mulher” (PATRAQUIM, 1980, p. 27). Somos conduzidos ao encontro de um poeta menino “que nem casaco tinha / nem sentimento do mundo grave / ou lido Carlos Drummond de Andrade” (ibidem).

        Na terceira estrofe, a metamorfose anunciada pela mensagem poética também se estende ao corpo do poema: “(...) mas agora morto Adamastor / tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada das mambas cuspideiras nos trilhos do mato” (ibidem). O verso iniciado com a conjunção adversativa promove uma completa mudança de perspectiva. O tempo da infância, evocado pelas duas primeiras estrofes, testemunhou uma época nada fácil para o sujeito e para o país, marcada por escassez, medo e inocência. Porém, o desconcerto do mundo presente introduzido pela conjunção adversativa anuncia o início de uma era também adversativa. “(...) porque a monção chegou (...)” (PATRAQUIM, 1980, p. 27), é tempo de inadiáveis metamorfoses humanas e, acima de tudo, metamorfoses moçambicanas.

        Evocadas pela poesia, memórias históricas e sociais se deixam acompanhar por uma instância crítica. A lucidez emanada desse lirismo não se admite à margem do referencial histórico. Enfim, o mesmo eu, outrora relegado a segundo plano nos anos em que a palavra poética privilegiava o nós, foi readmitido à cena do real.

         “Metamorfose” representa um exemplo mais que oportuno de que o teor subjetivo da poesia de Patraquim não significa um enclausuramento em si mesmo. Em seus versos, o eu não quer estar em solidão: está “impregnado de povo”, como observou Cremilda Medina em Sonha mamana África (MEDINA, 1987, p. 69). As monções da nova poesia moçambicana anunciam que o novo tempo deve atrelar o lirismo subjetivo ao comprometimento histórico-social, sem jamais desconsiderar que, depois de junho, “alguma voz / são todas as vozes” (PATRAQUIM, 1980, p. 33).

        As memórias evocadas em Monção não habitam somente o “parnaso das balas”. As tradições culturais moçambicanas, como manifestações de resistência, resgate e revalorização cultural, são também comemoradas pela poética patraquiniana.

        Ouçamos os sons dos faunos que eclodem dos versos do poema “Variação de nyau”:

e os faunos bateram o som a pele fremente das planícies abertas o vento corria vermelho por dentro e as mulheres acordaram batendo mordendo o sumo dos cajueiros com largas mãos acesas na noite a monção agônica nos tandos espermáticos do olhar seios espigas verdes escorrendo leite então o grito a alegria batendo alguém trouxera máscaras e as gazelas húmidas sob a lua e o nervo das planícies abertas quando os faunos bateram o som (PATRAQUIM, 1980, p. 26)

         Em 1985, em A inadiável viagem, seu segundo livro, o poeta retoma essa expressão cultural em um novo poema, dessa vez dedicado à amiga Ana Mafalda Leite, intitulado “Máscara de nyau” . Vale a pena ouvir seus versos:

eis a noite verde
esculpida
onde jugulada ao fogo
a mão a embosca
na voz para o rosto
permeável da terra
                               (PATRAQUIM, 1985, p. 46)

         O nyau consiste em um ritual praticado na província de Tete, ao norte de Moçambique, proclamado “obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade”, pela UNESCO, em 2005.

        Ao ritmo de tambores e coro de canções entoadas por mulheres, os dançarinos – exclusivamente homens, segundo dita a tradição milenar –, aparecem com vestes compostas por ornamentos produzidos de tiras de trapos, pedaços de sacos, fibras de árvores, penas de águia ou avestruz.

        A dança nyau, também conhecida como gule wankulu, é praticada através dos ritmos rápidos e estonteantes dos tambores. Os faunos usam máscaras e tradicionalmente se apresentam com o corpo besuntado de cinza, lama vermelha ou branca, cores que entre os praticantes, possuem significados tradicionais. Consiste em uma dança ritualista que entrava em cena em ocasiões como ritos de iniciação, funerais ou festas tradicionais.

        Os dançarinos, transvestidos de figuras zoomórficas, simbolizam diferentes tipos de animais; são “os faunos” aos quais Patraquim se refere em “Variação de nyau”. Imitam o som do animal que representam e as mulheres, ao reconhecerem os ruídos, respondem em coro entoando canções especificas para o animal ali reproduzido. Essas cantigas transmitem uma série de ensinamentos relativos à vida da comunidade.

        Honorat Aguessy, no texto “Visões e percepções tradicionais” (AGUESSY, 1977, p. 95-136), possibilita-nos concluir que é também a dança uma forma de percepção de mundo, bem como um veículo de transmissão de ensinamentos tradicionais. O nyau, para os povos chewa e nyanja, significa a garantia do (bom) funcionamento da estrutura de toda a comunidade e o que garante a perpetuação de suas tradições.

        A poesia produzida em cada um dos países africanos falantes de Língua Portuguesa, após o advento de suas independências políticas, teve de redescobrir as rotas de suas próprias monções. Cada uma, a seu modo e a seu tempo, teve de sentir e respeitar a densidade, a velocidade e a direção dos novos ventos que lhes chegavam. Que fossem, ao menos, favoráveis, como uma monção deve ser.

        A poesia moçambicana pós-80 optou por fazer dos sonhos, do erotismo, das reflexões metapoéticas, do resgate das tradições instâncias confiáveis e, enfim, acessíveis a fim de promover a tão adiada reforma subjetiva em Moçambique. Dentre tantas restaurações necessárias naquele país, àquela altura dos acontecimentos, adquiriu senso de urgência a reforma humana, sobre a qual se responsabilizou o exercício poético.

        A poesia de Luís Carlos Patraquim serve-nos sempre de exemplo para ilustrar as exigências de um tempo que almejou buscar um bordo contrário àquele de onde sopravam as monções homicidas, que trouxeram à terra moçambicana as convulsões sociais de uma guerra fratricida.

        Aproada ao rumo da reconstrução, da escrita poética de Patraquim brotaram novos sentidos para as palavras: sujeito, desejo, memória, medo, tradição, histórias e História. Sua produção, desde 1980, propõe novos olhares e motivações para que se possa, enfim, edificar o “novo tempo”, “apesar dos perigos”, como nos diz Ivan Lins na bela canção que nos serviu de epígrafe para este artigo. Pois o novo tempo tem de propiciar àqueles que o vivenciam modos alternativos de ver, sentir, expressar e pensar o lugar onde estão ou de onde vieram. Será esse o principal legado das múltiplas vertentes da Poesia Africana de Língua Portuguesa na pós-independência. Será essa a fortuna deixada pela nova poesia moçambicana. Será essa a herança poética de Luís Carlos Patraquim, o poeta que fez do lirismo uma via incondicional de resistência histórica, social e existencial. Que fez do real a infinita medida de seu canto, como nos diz em um de seus versos. Que fez romper, enfim, um novo sentido para a palavra Moçambique.

NOTAS:

1 “A Voz e o Vento”. PATRAQUIM, 1980, p. 16.

REFERÊNCIAS:

AGUESSY, Honorat. “Visões e percepções tradicionais”. In: BALOGUN, et alii. Introdução à cultura Africana. Lisboa: Edições 70, 1977. pp. 95-136.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Porto Alegre: L&PM, 1987.

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

COUTO, Mia. “Escrevoar”. Prefácio. In: WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Editorial Caminho, 1992.

LEITE, Ana Mafalda. “Poesia moçambicana, ecletismo de tendências”. In: Poesia sempre: Angola e Moçambique, 13, Rio de Janeiro, n. 23, pp. 139-142, 2006.

LINS, Ivan e MARTINS, Victor. “Novo tempo”. LP Novo tempo, 1980. Disponível em http://www.vagalume.com.br/ivan-lins/novo-tempo-cifrada.html Acesso em 18/03/2011.

MEDINA, Cremilda de Araújo. Sonha mamana África. São Paulo: Epopéia / Secretaria de Estado da Cultura, 1987.

MENDONÇA, Fátima. Literatura moçambicana: a história e as escritas. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 1988. 119 p.

NOA, Francisco. A escrita infinita. Maputo: Livraria Universitária, UEM, 1998.

PATRAQUIM, Luís Carlos. Monção. Lisboa: Edições 70; Maputo: INLD, 1980.

______. A inadiável viagem. Maputo: AEMO, 1985.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. A magia das letras africanas. 2. ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2008.

Texto recebido em 10 de março de 2011 e aprovado em 30 de maio de 2011.