Mulemba - n.4 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / julho / 2011

Artigo:

A DELICADEZA E A FORÇA DA POESIA

THE DELICACY AND THE STRENGTH OF THE POETRY

Tania Macêdo
Professora Titular de Literaturas Africanas da USP

RESUMO:
O texto apresenta o livro Como veias finas na terra (2010), de autoria de Paula Tavares, situando-o no processo de escrita da autora. A partir de uma leitura comparativa dos textos da autora, salientam-se constantes temáticas e estruturais do referido volume.

PALAVRAS-CHAVE: delicadeza, poesia; Paula Tavares, constantes temáticas e estruturais

ABSTRACT:
The text presents the book Como veias finas na terra (2010), written by Paula Tavares, placing it in the process of writing the author. From a comparative reading of texts by the author, we stress constant theme and structural elements of this volume.

KEYWORDS: delicacy; poetry; Paula Tavares; constant theme and structural elements

         Começo com a seguinte lembrança: em 2010, ano do lançamento de Como veias finas na terra, completaram-se 25 anos da publicação do primeiro livro de Paula Tavares. Essa é data para festejarmos. E o fazemos da melhor forma possível: tendo em mãos um novo livro da autora.

        Já que há muito a festejar, vale lançar um brevíssimo olhar retrospectivo a esses 25 anos.

        Como sabemos, a publicação de Ritos de passagem, em 1985, surgiu no cenário angolano, com a força de uma boa semente que irrompia em uma terra fértil e iniciava uma dicção poética nova na literatura do país. Tratava-se de uma poesia em que uma outra subjetividade feminina brotava, sem que, no entanto, as raízes angolanas fossem esquecidas. Uma estreia que prometia grandes frutos.

        A poetisa, publicada inicialmente pela União dos Escritores Angolanos, também escreveu prosa: o conjunto de crônicas radiofônicas seriam publicadas em 1998, apresentando, no título do volume Sangue da buganvília, a metáfora da árvore, “forte na sua estrutura retorcida, de metal, e [que] resiste, podendo mesmo transformar-se em tecido fino aéreo se a isso o tempo a obrigar”, como se lê à página 34 do referido livro. Já em A cabeça de Salomé, de 2004, temos reunidas as crônicas inicialmente publicadas no jornal O Público e que trazem mitos revisitados, redifinindo paradigmas, entre os quais, por exemplo, o da história bíblica que se apresenta como sedução e sacrifício, não exatamente do elemento masculino.

        No ano seguinte, em Os olhos do homem que chorava no rio (2005), a autora volta à prosa poética, de forma inusitada, reunindo dois autores e três cidades: respectivamente, Ana Paula Tavares e Manuel Jorge Marmelo, co-autor do livro, e as localidades de Huíla ( em Angola), do Porto ( em Portugal) e de Belo Horizonte (no Brasil).

        O lago da lua, de 1999, traz no título as águas e, segundo Urbano Tavares Rodrigues, “a associação de uma serena, quente, sensível, natureza africana à mais vibrante, dolorosa, misteriosa sensibilidade feminina” (RODRIGUES, 1999, (http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=28623 ).

         Em 2001, outro livro, Dizes-me coisas amargas como os frutos, retoma o reino vegetal em sua nomeação, para expressar, com “voz macia de capim e veludo/ semeada de estrelas” (TAVARES, 2001, p. 9) – como dizem versos do poema-título –, as dores da guerra, o universo angolano e a relação, muitas vezes, interrompida, dos amantes.

        Já em Ex-votos, de 2003, destacam-se a terra e as tradições, entre outros temas, e dá-se ênfase a uma imagem que vinha se insinuando na poesia de Paula Tavares e aqui adquire plena carga simbólica: a da tecedeira, que realiza a trama não apenas do tecido, mas, principalmente, da poesia.

        Em 2007, Manual para amantes desesperados, o verbo da autora traz-nos, entre outros textos iluminados, o poema “DO LIVRO DAS VIAGENS (caderno de Fabro)” que tem como imagem recorrente as origens, a partir da anáfora “De onde eu venho”, de maneira que a pertença vai-se ampliando a cada repetição, até perfazer o mundo e a própria poesia, como se lê nos versos finais: “de onde eu venho há lá e cá / luz, risos de gargantas feridas / almas abertas/ uma ciência antiga de treinar / os olhos para as fibras / depois as águas/ logo a seguir as tintas / e nadar sobre a terra / com passos de silêncio / para que nada perturbe aos olhos / a luz” (TAVARES, 2007, p. 22).

        Essa rápida referência às publicações de Ana Paula Tavares tem em vista não apenas fazer lembrar brevissimamente os livros publicados ao longo dos últimos 25 anos, mas também focalizar de que maneira em seu mais recente livro, Como veias finas na terra, são revisitadas algumas das imagens e temas dessa que é, sem dúvida, uma das vozes poéticas mais importantes da atualidade.

        Se fosse antecipar uma síntese do que seria esse livro, talvez pudesse dizer que ele realiza a articulação, de forma magnífica em seus versos, da força do solo com a delicadeza das pequenas veias que cortam a terra poética.

        Mas essa é uma das visões possíveis, já que o título é ele mesmo uma proposta aberta ao leitor, na medida em que o “Como” retira o primeiro termo da comparação, deixando, pois, um campo aberto a várias leituras.

        Por isso, esta leitura constitui-se, apenas, em um dos caminhos possíveis de chegar às veias finas na terra.

        Segundo entendo, um dos motores de força da mais recente obra de Paula Tavares advém da pertença ao território da poesia e de sua explícita ligação à terra natal. Ou seja, o livro expressa a articulação dialética de duas linhagens: a dos poetas europeus (e não podemos nos esquecer, sob este aspecto, da moderna literatura de autoria feminina de nosso tempo, como por exemplo, a de Ana Luísa Amaral, citada em um dos poemas, ao qual, logo mais adiante, me referirei), aliada à dos poetas africanos, quer sejam eles do reino da escrita (e não é gratuito que o poema que abre o livro seja dedicado a Leopold Sédar Senghor e que ainda compareça uma citação de Luís Carlos Patraquim no poema «A cabeça de Nefertiti»), quer do reino da oralidade, como o provérbio burkinabe: «O facto de dormimos na mesma esteira não significa que temos os mesmos sonhos», citado como epígrafe do poema da p. 27. Há ainda uma pertença ao quadro de Angola, seja em imagens sobre a sua geografia (o sul), seja nas candeias «acesas pelas mãos das mães» (TAVARES, 2010, p.7), índice dos cantares ancestrais de sua terra.

        Com relação às imagens e a uma poética do ocidente, chamo a atenção para o poema “La dame à La Licorne” (pp. 46-47), em que há a referência explícita a um dos símbolos da cultura europeia, o conjunto de tapeçarias, hoje, no Museu de Cluny (do qual o poema toma o nome – “A dama e o unicórnio”), as quais representam os cinco sentidos, com uma peça a mais, A mom seul désir, significando a compreensão e, de certa maneira, remetendo ao livre arbítrio, ao retratar a mulher que recolhe as suas jóias, em uma caixa, em lugar de adornar-se.

        É interessante verificar como o poema, desde os versos de Ana Luísa Amaral que lhe servem de pórtico, tece um diálogo com a tapeçaria e acaba por deflagrar uma espécie de programa poético, em que o lugar-comum e o exotismo são afastados para afirmar que a arte pode apanhar-nos pelas veias:

La dame à la Licorne

        Reaprender o mundo
        Em prisma novo:
        Pequena bátega de sol a resolver-se
        Em cisne,
        Sereia harmonizando o universo
                                                   Ana Luísa Amaral, A génese do amor

Podia ter-me guiado os passos para o café
Assim me haviam dito
de ser poeta em Paris
ter um bloco de notas
de capa preta
um lápis e as palavras soltas
boina vermelha
as botas pretas um frio atento
a noite e as suas sombras
e estar ali ao abandono
do dia contra a noite
alinhar as palavras esquecidas
uma a uma as mais bonitas.
Podíamos ter trocado os silêncios
ou as histórias do sul e do norte
à vez entre sorrisos
e o ruído da rua 
mas assim é Paris
Apanha-nos pelas veias
E foi preciso reaprender o gosto
o cheiro o toque os olhos
os sentidos todos
os fios de seda e lã
diante da senhora e do unicórnio azul
mon seul désir.
                       (TAVARES, 2010, pp. 46-47)

         Como se vê, a poesia, para Paula Tavares, não é “alinhar as palavras esquecidas/uma a uma as mais bonitas” (TAVARES, 2010, pp. 46-47), mas uma forma de reaprender o mundo, a partir das malhas da poesia. E, aqui, a tecedeira, presente em outros livros, reaparece em toda a sua simbologia e beleza a dialogar com a tapeçaria, com a representação feminina e com a própria escrita.

        Há ainda a notar que, em Como veias finas na terra, existe uma espécie de pacificação do amor, diferentemente, de, por exemplo, o que ocorria em Dizes-me coisas amargas como os frutos, em que a guerra selava o silêncio e a separação. Agora, o erótico marca o encontro, como em “Segura para mim o tempo”:

Segura para mim o tempo
Dizias
Enquanto movias a mão
Como a folha se vira para a luz
A sombra desenha-se na parede
Avanças.
Ah! Tanta estrada
Nessa mão parada. 
                               (TAVARES, 2010, p. 17)

         A delicadeza do texto, como se pode notar, assim como em outros livros de Paula Tavares, também se faz presente neste volume, a partir do título mesmo, quando se pensa nas pequenas veias que recortam a terra como uma metáfora bastante produtiva para o próprio poetar da autora, na medida em que os delicados traços no solo, oriundos da seca – a nossa árida linguagem cotidiana – transformam-se, logo chega a chuva da poesia refinadíssima de Paula Tavares, em cursos d´água que conduzem mais fundo a água que refaz a fertilidade da terra. Da mesma forma, os leitores da autora não devem esperar uma poesia que seja rio grandioso de palavras. Pelo contrário, o seu trabalho artístico é econômico e pede atenção: cada verso deflagra significados, especialmente a partir dos vários enjambements que ensejam leituras variadas, como “veias finas na terra” que repõem, após a leitura cuidadosa, o húmus que toda poesia deixa em nós.

        Mas vale lembrar ainda um outro elemento que julgo merecer uma referência: o longo poema, composto de VI partes, “Os novos cadernos de Fabro”, que retoma, do livro Manual dos amantes desesperados, o poema LIVRO DAS VIAGENS (caderno de Fabro), já referido. E o leitor que conhece a poesia de Paula Tavares deve ficar atento, pois há aqui a revisitação de alguns de seus textos ao longo dos 25 anos de poesia, trazendo-os sob novas luzes e, assim, incitando-nos a uma leitura retrospectiva do importante trabalho dessa autora, referência na poesia contemporânea. E creio que retirar aos senhores o jogo de espelhos proposto nesse texto seria desfazer o trabalho da artesania poética que, afinal, o nome Fabro oculta.

        E é, pois, com esse convite para a descoberta dos fios com que se tramam os poemas desse Como veias finas na terra, que encerro este texto, uma sombra à luz da brilhante escrita de Ana Paula Tavares.

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Urbano Tavares. Recensão de O lago da lua. Lisboa: Fundação Gulbenkian, 1999. (http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=28623)

TAVARES, Ana Paula. Ritos de passagem. Luanda: União dos escritores angolanos, 1985.

__________________. O lago da lua. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

__________________. Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa: Editorial Caminho, 2001.

___________________. A cabeça de Salomé. Lisboa: Caminho, 2004.

____________________ e MARMELO, Manuel Jorge. Os olhos do homem que chorava no rio.Lisboa: Caminho, 2005.

____________________. Manual para amantes desesperados. Lisboa: Caminho, 2007.

_____________________. Como veias finas na terra. Lisboa: Caminho, 2010.

Texto enviado em 28/01/2011 e aprovado em 30/03/2011.