Mulemba - n.4 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / julho / 2011

Artigo:

ENTREVISTA

GUITA JR. E XIPHEFO: ALGUMAS PALAVRAS
GUITA JR. E XIPHEFO: SOME WORDS

por Viviane Mendes de Moraes

Doutoranda em Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua
Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

         Guita Jr., poeta de Inhambane, Moçambique, estreou, literariamente, em 1997, com o livro de poesia O agora e o depois das coisas. Em 2000, publicou Da vontade de partir e, em 2001, Rescaldo. Estes dois últimos foram reunidos, num volume único, intitulado Os aromas essenciais (2006), editados, ao mesmo tempo, pelas Editoras Caminho (Lisboa) e Ndjira (Maputo).

        Com uma escrita considerada seca e pungente, ele tece com as linhas da língua portuguesa pensamentos e análises dos tempos do pós-independência em Moçambique, refletindo sobre a guerra “civil” que sucedeu à de libertação. Pertencente ao grupo denominado Xiphefo, o poeta busca, por meio da escrita, repensar o passado, questionar o presente e olhar para o futuro, sempre indagando se há realmente um porvir.


Viviane Mendes de Moraes (VMM): Existe um manifesto de Xiphefo? Discorra sobre os sentidos da palavra Xiphefo e explique porque ela foi escolhida para designar este grupo de poetas.

Guita Jr (GJ): O Xiphefo /xipêfu/ é uma lamparina rústica, fabricada artesanalmente em chapa metálica, que utiliza como combustível o petróleo e é bastante usada nesta região pelas populações mais carenciadas. Usamo-lo como símbolo de algo que serve para iluminar, embora a sua chama não seja muito forte. Na gênese do Xiphefo, Caderno Literário (e Caderno, por sermos, todos os quatro coordenadores, na altura, professores de Português), está a tentativa de fugir à dificuldade de se publicar nos media em Maputo. Então, criamos o Caderno para possibilitar a publicação do que se produzia em Inhambane, quer fosse em poesia, quer fosse em prosa. Mais tarde ainda, publicamos banda desenhada, cartoons e peças de teatro, crítica literária e um historial cronológico de autores moçambicanos. Numa primeira fase, trazíamos a público o que se produzia em Inhambane e, mais tarde, editamos escritores de outras províncias e até de fora do país.


VMM: Como você define a poesia de Xiphefo?

GJ: A poesia publicada no Xiphefo dividia-se em duas vertentes. Uma lírica, amorosa, que colocávamos na rubrica “Elo”, e outra – mais de intervenção social, mais crítica em relação à guerra civil vivida no momento e à atitude do establishment –, que era publicada na rubrica “Wona” (palavra que, em bitonga, língua local, significa “olha”, “vê”). Grande parte dessa poesia podemos considerá-la como que inicial, pois alguns de nós começamos a escrever a partir da edição primeira do Caderno.


VMM: Que temáticas e conquistas formais no campo da linguagem poética são peculiares a Xiphefo? Os poetas de Xiphefo ainda continuam produzindo?

GJ: A equipe de coordenação do Caderno era formada por Adriano Alcântara, português, e por Momed Kadir, (Danilo) Parbatus e por mim, os três últimos moçambicanos. É natural que o Adriano tivesse outras influências, para além de ser mais lido que nós. Nós teremos “bebido” mais de poetas de língua portuguesa. Mas, com certeza, foi sempre uma poesia livre, embora se possam encontrar alguns poemas com a preocupação em relação à rima. Na poesia de Wona, a linguagem é menos metafórica, ou é, numa fase inicial, por receio para com as autoridades, visto que se vivia em pleno monopartidarismo.

Aqueles com quem ainda mantenho contato, o Adriano, o Kadir e o Francisco Muñoz (colaborador), ainda produzem, com alguma regularidade. Quanto aos outros coordenadores (com a saída do Adriano, Artur Minzo passa a integrar o grupo editorial) e colaboradores, não tenho algum conhecimento.


VMM: Os poetas de Xiphefo são herdeiros de alguns poetas moçambicanos anteriores? Quais?

GJ: Se partirmos do princípio de que quem escreve, também, deve ter lido, então, essas leituras terão influenciado sua escrita. Não posso responder por todos, mas asseguro que os da minha geração, da minha faixa etária, terão lido quase tudo que vinha nos manuais escolares. E isso passa por Craveirinha, Luís Bernardo Honwana, Rui Nogar, Noémia de Sousa, Gorki, Manuel Rui, Drummond de Andrade, Vinícius, Alda Espírito Santo, Rui de Noronha, etc, não em termos de obra completa, mas, basicamente, poemas soltos, contos ou excertos de romances.


VMM: As novas gerações de poetas moçambicanos leram os poetas de Xiphefo? Xiphefo influenciou alguns desses jovens?

GJ: Os que, talvez, tenham tido a oportunidade de ter acesso aos Cadernos, provavelmente os leram. Contudo, o mais provável é terem lido os poetas que tiveram suas obras publicadas em livro ou que apareceram em jornais e revistas nacionais. Até que ponto isso os terá influenciado... não sei responder.


VMM: Que poetas e escritores moçambicanos foram importantes para os poetas de Xiphefo? Por quê? E para você, Guita, em particular?

GJ: Com certeza, muitos foram importantes! Houve, na década de oitenta, uma grande preocupação (do Instituto Nacional do Livro e do Disco – INLD) de fazer chegar a literatura moçambicana às escolas, e não só, ao público em geral. E isso ocorreu, quer pela via do livro escolar, quer através do apetrechamento das bibliotecas escolares e públicas, para além do preço do livro ser bastante acessível. Nas capitais provinciais, era bastante fácil encontrar, nas livrarias, livros de Craveirinha, Rui Nogar, Luís Bernardo Honwana (Nós matámos o cão tinhoso era de leitura obrigatória nas escolas), Marcelino dos Santos, Orlando Mendes, Carneiro Gonçalves, Sebastião Alba, Luís Carlos Patraquim, Gulamo Khan, só para mencionar alguns autores. Também aí circulavam os Cadernos Caliban, para além das páginas literárias dos jornais e revistas nacionais.


VMM: Que autores estrangeiros leu e quais foram fundamentais para sua trajetória poética?

GJ: Sobretudo os romancistas, também por serem de mais fácil acesso. Comecei com Os Cinco e Os Sete, de Enid Blyton, e os quadradinhos todos (Tintin, Astérix, etc.); li Júlio Verne, José Mauro Vasconcelos, Jorge Amado, Irving Wallace, muitos policiais da Colecção Vampiro, Herman Hesse, Gabriel García Marquez, Al Berto, Reinaldo Ferreira, Saramago, Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Sepúlveda, só para citar alguns, e muitos mais...


VMM: A memória e a representação da guerra civil estão presentes na sua poesia. Por quê? Há, na sua poesia, uma atitude de poetizar a dor para ultrapassá-la?

GJ: Embora não tenha sido militar, vivi “a guerra dos 16 anos” muito de perto. Era natural ver prisioneiros da RENAMO em jaulas na via pública, feridos nos hospitais, tiros de morteiros e rajadas a menos de 2 quilômetros; muitas pessoas que viviam nos arredores vinham dormir na cidade ao fim da tarde; sob o som do recolher obrigatório, a partir da meia-noite, presenciávamos o pânico silencioso de toda a gente. Isso tudo durante muitos anos. Como professor, fiz dois treinos militares... Então, escrever (poemas, sobretudo) fucionou como que uma terapia... E, sendo em partilha, como uma terapia de grupo... Lendo mais tarde O agora e o depois das coisas (1990-1992) – meu primeiro livro –, vejo que a guerra está lá, e, de fato, poetizá-la terá ajudado a ultrapassar a dor e as frustrações que, com certeza, ela criou.


VMM: Como melancolia e amor convivem em seus poemas e qual a significação desses sentimentos na sua poética?

GJ: A melancolia pode surgir, provavelmente, como forma de exteriorizar o ambiente em que se vive nesta terra onde nasci e vivo, Inhambane. Cidade muito pequena, quase uma ilha, muito tranquila e, indubitavelmente, maravilhosa. A recorrência ao amor poderá ser um ponto de fuga a essa mágoa, desilusão, frustração? Uma bola de oxigênio? Um placebo?


VMM: Como vê a sociedade moçambicana hoje? E a literatura moçambicana?

GJ: Vejo uma sociedade “democrática” que vive sob um regime monopartidário. O Estado e as suas instituições estão completamente partidarizadas. Há toda uma “cegueira”, reflexo do medo que paira sobre as pessoas. Medo de exteriorizarem o que de fato sentem e querem. A capa da democracia é para os olhos dos doadores. Não há um investimento efetivo na educação, que penso ser a base para a liberdade, libertação de um povo. Passamos do socialismo para um capitalismo, saltando, ignorando etapas. Vejo Moçambique numa fase de enriquecimento duma pequena minoria, direta ou indiretamente, ligada ao poder. Enfim, este tema tem pano para mangas..., mas, como dizia o outro, o pessimismo é o otimismo esclarecido!

Em relação à literatura, Moçambique é um país de poetas, embora note que já se começa a publicar mais prosa. A edição de obras literárias continua difícil. Sendo baixo o poder aquisitivo do leitor, torna-se, aos olhos do editor, inviável a edição de novos escritores. A via para a publicação continua a ser por meio de concursos literários, na sua maioria. Começa a surgir uma preocupação de se reeditarem os autores consagrados. Enfim, julgo que a literatura vai pelo seu próprio passo...


VMM: Você tem algum livro novo em mente? Pretende continuar a escrever poesia?

GJ: É na poesia que me sinto mais à vontade… Estou agora a terminar uma série de quadras, que, em princípio, se chamará Da pele do rosto (ou monólogo para os pés) .


VMM: O que significa ser poeta para você?

GJ: Sinceramente, não me sinto nessa pele. O que mais me fascina, na poesia ou no poema, é como uma palavra simples, em determinado contexto, pode ter tanta carga semântica, a ponto de criar, provocar sensações, sentimentos…


VMM: Aborde algum assunto que julgue significativo e que eu não tenha sido focalizado nas perguntas desta entrevista

GJ: Julgo que as perguntas são bastante abrangentes! Espero que a tenha satisfeito. E que esta entrevista lhe seja útil para o trabalho que está a fazer. Sobra-me, apenas, agradecer-lhe que se tenha debruçado sobre a literatura moçambicana, em geral, e sobre a minha poesia, em particular. Fico-lhe muito grato!!!


Rio de Janeiro, julho de 2010.

Entrevista recebida em 25 /03/ 2011 e aprovada para publicação em 21 /04/ 2011.