Mulemba - n.4 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / julho / 2011

Artigo:

APRESENTAÇÃO

“A Poesia Africana em Língua Portuguesa: Vertentes na Pós-Independência” é o tema do quarto número de Mulemba. Nos onze textos que se seguem, jovens talentos e conceituados pesquisadores nos revelam a força da poesia no espaço africano de língua portuguesa.

Abrimos a revista com um tema livre, num instigante artigo de Inocência Mata, em torno da relação que os textos literários africanos estabelecem com o mercado editorial português, envolvendo “ideologias, apologias e irrupções celebrativas de interesses”.

Fátima Mendonça apresenta uma trajetória da poesia moçambicana, desde a notória década de 1950 até a atualidade, apontando características e tendências, desvelando, também, novas dinâmicas no espaço literário moçambicano contemporâneo.

A delicadeza e a força da poesia de Paula Tavares são evidenciadas no texto de Tania Macêdo, que, além de nos oferecer uma leitura comparativa da obra da autora, salienta as temáticas e as constantes estruturais do último livro da escritora angolana, Como as veias finas da terra.

A arte poética de Armênio Vieira, ganhador do prêmio Camões 2009, é observada, como trânsito e dilema entre a transitoriedade e a perenidade, pela pioneira, no Brasil, nos estudos da literatura cabo-verdiana, Simone Caputo.

No artigo da pesquisadora Jessica Falconi, as obras de Sangare Okapi e Helder Faifi, dois jovens poetas moçambicanos, nos são apresentadas como evocação de algumas margens da nação moçambicana no pós-independência.

Érica Antunes Pereira aborda a forma como a produção poética de Vera Duarte procura refletir sobre a situação das mulheres cabo-verdianas na atualidade. Pereira estabelece um diálogo entre o “fazer poético” da escritora cabo-verdiana e a teoria da hermenêutica do cotidiano, valendo-se também de uma entrevista que a autora lhe concedeu, em dezembro de 2009.

Uma jornada do herói como (auto)descoberta e percurso da nação angolana nos é proposta no artigo de Cláudia Fabiana. Somos convidados pela pesquisadora a realizar uma leitura comparada dos poemas "Noção geográfica: poema para cinco vozes e coro" e "Extracção nyaneka: das decisões da idade II: noção doméstica (também para vozes e coro)", de Ruy Duarte de Carvalho.

A poesia da obra Monção, de Luis Carlos Patraquim, é analisada, por Cíntia Machado, como metonímia das novas vertentes poéticas despontadas após a independência de Moçambique. A pesquisadora observa a retomada da subjetividade lírica, no cenário literário desse país, a partir de 1980, bem como a evocação e a reflexão acerca de memórias históricas, culturais e sociais.

Viviane Mendes de Morais enfoca a obra Rescaldo, do poeta Guita Jr., como um canto aos infaustos de Moçambique. Seu ensaio procura escutar os lamentos, as ironias e as melancolias que ecoam do livro do autor, tecendo uma análise coerente do balanço feito pelo poeta no período pós-guerra civil moçambicano.

Partindo do poema “Oblíquo o meu olhar”, de Virgílio de Lemos, Fábio Santana Pessanha nos mostra que a obliquidade do ver está no entortamento da realidade. Segundo Santana, a poesia de Lemos nos possibilita derivar um modo singular de perceber o mundo em seu amplo sentido ontológico.

A obra de Conceição Lima é vista como marcada pela distopia da pós-independência santomense. Para o pesquisador Guilherme de Sousa Gonçalves, em uma realidade social e politicamente fraturada, a poesia de Lima está atenta às situações que a rodeiam e busca criar um novo mundo a partir de velhas e dominantes estruturas de poder.

Fechamos o presente número com uma entrevista do poeta Guita Júnior, pertencente ao grupo moçambicano denominado Xiphefo. A entrevista foi concedida à Viviane Mendes de Morais, uma estudiosa da obra deste autor. Esse depoimento nos possibilita acompanhar o poeta refletindo acerca da guerra “civil”, que sucedeu ao período de independência, e buscando, por meio da escrita, repensar o passado, questionar o presente e olhar para o futuro, sempre indagando se há realmente um porvir.

A Comissão Editorial