Mulemba - n.3 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2010

Artigo:

HOMENAGEM

MUKANDA AO RUY DUARTE DE CARVALHO

Lisboa, 12-08-2010

       Meu Caro Mais-Velho Ruy Duarte de Carvalho,

      Escrevo-te para a posta-restante de um mutiati, posto ser agora incerto o teu endereço e ter eu muito pouca fé na eficiência dos serviços postais, quer nos virtuais, quer nos de distribuição de porta-a-porta ou caixa postal, sobretudo quando é entre poetas que as palavras deflagram os seus dizeres transumantes sobre esse destino que nos tolhe a percepção dos instintos e dos sentidos.

      Chega-me a notícia por telefone celular, na voz ferida de traição e mágoa do Luís Carlos Patraquim, a dar-me conta da tua partida intempestiva para “um outro deserto”, lá, onde o cortejo do boi sagrado não contará tua presença entre seus grãos de areia e festa. E eu pergunto-me: que bússola de luas e de estrelas, ou de ventos e dunas movediças, te guiará agora as mãos e os passos, sobre as palavras e a “coisa dita”? Que voz colocarás agora naquela caligrafia exuberante e límpida de sageza que é a tua, amassada que era no adobe feito de ramos secos de mutiati, lascas de mármore e areias do Namibe, à mistura com as poeiras levantadas e às “paisagens propícias” devolvidas, por esse gado kuvale, nyaneka e kwanyama, em sua busca de subsistência e Vida?

      Sempre te soube nômada irrequieto e atento, humildemente montando a tenda e a banca de trabalho nas mais desvairadas geografias do mundo. Mas o teu mundo, primevo e matricial, é esse mundo das “estórias de Sul e Seca”, que vai, desde o mar e o deserto do Namibe (cujas areias intimamente conheceste e, grão a grão, aferiste no rodar dos ventos e das luas), aos territórios kuvale da pastorícia que o alimento escasso torna viajeira e onde a água é só a das cacimbas que a memória da chuva incrusta luminosas na Pedra e na Terra, quando a estação é mais favorável. E nômada te vejo agora, sem bússola, sem cantil nem bornal, partindo naquela solidão que foi sempre o teu mais bem guardado tesouro, em demanda do por ver e conhecer nesse “novo deserto” que começaste a palmilhar neste cacimbo de agosto (o mês das últimas queimadas, dos ventos e da doença), a passo diverso daquele andar, auscultar, aferir e anotar, que foi desde a infância o teu calcorrear o mundo desmedido, a pés firmes, assentes na sólida matéria do chão angolano, mesmo quando eram outras e estrangeiras as ruas que cruzavas, nômada cosmopolita.

      Não subiste de Moçâmedes, atravessando o deserto e contornando íngreme a serra da Leba, até ao Tchivinguiro, para te fazeres aí regente agrícola. Antes, rumaste a Santarém, em Portugal, onde nasceste, em 1941, e de onde, concluído o curso, em 1960, regressaste à Terra, cujo húmus te haveria de fazer definitivamente angolano, Poeta, e cidadão.

      Ao publicares, em 1972, Chão de oferta, entraste na poesia angolana pela porta mais alta: a de uma voz de rotura e de catarse, essa voz “De uma nação de corpos transumantes/confundidos/na cor da crosta acúlea/de um negro chão elaborado em brasa.” E voz, desvairadamente pessoal, telúrica. Voz transmudante e transumante, inaugural. E desse teu dizer primevo, um apuro e um rigor encantatórios se vieram sedimentando num tom crescente de métrica libertária e de epopeia, para se afirmarem cada vez mais como um dizer poético de sábio e longuíssimo fôlego, e caracterizar toda a tua obra, na qual, “as artes de que sobretudo [dás] notícia são aquelas expressões da actividade humana imediatamente ligadas ao exercício de estar vivo e dar continuidade à vida.”

      Regente agrícola do café, das ovelhas “caracul” e da cerveja “Laurentina”; documentarista do “Tempo Mumuíla”; cineasta de “Nelisita” e “Moio”. “O recado das Ilhas”; antropólogo de bois e de pastores; fotógrafo e artista plástico − tudo isso foi um modo apenas de alongares os braços para mais fundo tocares a raiz do Poema, enquanto que com a outra mão o erguias em epopeia ao mundo. Tu, meu caro Mais-Velho Ruy Duarte de Carvalho: o Poeta da miraculosa força da Terra e de quem, nela, a muito respeita, lhe segue e atende religiosamente os ciclos, e em Vida ou ritual a celebra. Porque foi a Vida, a ciência imponderável das suas cosmogonias, e essa “razão de Angola”, o que tu tomaste como a “justeza do testemunho”, num dos monumentos maiores, mais sólidos e avassaladores, não só da angolanidade, como de todas as literaturas de língua portuguesa que os tempos vêm registando, e que dá pelos belos altivos nomes de Lavra; Como se o mundo não tivesse leste; Vou lá visitar pastores; Os papéis do inglês; As paisagens propícias; Desmedida; A terceira metade; ou ainda: Ana a Manda. Os filhos da rede; A câmara, a escrita e a coisa dita...; Actas da Maianga.

      Bicho da Terra, tremendo e fabuloso, eis como agora e desde há muito te sei, e vejo: sem concessões ao fácil, à hipocrisia mercantil, à face medíocre e reles da Humanidade − cínica, onzeneira.

      Bicho da Terra, nômada tremendo e fabuloso, “Atento, desde sempre, às falas do lugar...” − làlypo, meu caro Mais-Velho Ruy Duarte de Carvalho, làlypo: a gente encontra-se nos livros!

Zetho CunhaGonçalves
(poeta angolano)