Mulemba - n.3 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2010

Artigo:

ZEFANIAS PLUBIUS SFORZA, UM MOÇAMBICANO COM QUALIDADES

ZEFANIAS PLUBIUS SFORZA, A MOZAMBICAN WITH QUALITIES

Zetho Cunha Gonçalves
poeta

Ao Kok Nam e à sua Nikon,
contra todos os cancros;
à memória de Rui Knopfli e José Craveirinha.

RESUMO:
O artigo propõe uma leitura sobre o desempenho da ironia, do humor e da desconstrução das teorias literárias sobre o romance na construção das personagens de “A canção de Zefanias Sforza”, de Luís Carlos Patraquim.

PALAVRAS-CHAVE: narrador; teorias do romance; mestiçagem cultural; humor; ironia; guerra; cidade; subúrbios.

ABSTRACT:
This article proposes a reading on the performance of irony, humour and the deconstruction of literary theories on the novel in the construction of the characters of “A canção de Zefanias Sforza”, by Luís Carlos Patraquim.

KEYWORDS: narrator; theories of the novel; cultural miscegenation; humour; irony; war; city; suburbs.

       O poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim − nascido em 1953, em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique − estreia-se na prosa narrativa de ficção com A canção de Zefanias Sforza (noveleta, e não romance, lhe chama o autor). Essencialmente − e com toda a justeza − celebrado como grande poeta que efetivamente é, Luís Carlos Patraquim (também jornalista, a quem o jornalismo pouco ou nenhum espaço dá à sua verve e ao seu talento) é igualmente um cronista de exceção – cronista de uma linhagem, que se entronca, na língua portuguesa, em Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino, Ernesto Lara Filho, Eugénio de Andrade, Baptista-Bastos ou Fernando Assis Pacheco −, e autor (ainda inédito em volume) de roteiros para cinema e de peças de teatro.

      Como roteirista de cinema − entre várias colaborações menores, que seria fastidioso enumerar aqui −, Luís Carlos Patraquim assina os guiões dos documentários Kuxa Kanema: Jornal de actualidades de Moçambique, e dos filmes O tempo dos leopardos, de Licínio de Azevedo; Tempestade na terra, de Fernando Almeida e Silva e Kilapa, de Zezé Gamboa.

      Já, enquanto dramaturgo, assinou as peças Karingana wa karingana, Tremores íntimos anónimos (em colaboração com António Cabrita), Vim-te buscar e Estaleiro geral – as duas últimas, encenadas por João Mota, indiscutivelmente um dos mais importantes encenadores portugueses contemporâneos.

      Das suas crônicas, apraz-me registrar (estão em vias de publicação dois volumes): Ímpia scripta e O senhor Freud nunca foi a África.

*****

       A canção de Zefanias Sforza nasceu do repto lançado pela Porto Editora ao autor, com o intuito de celebrar os 35 anos da Independência nacional de Moçambique. Desengane-se, porém, quem quiser procurar aqui um manifesto ou panfleto militante, ou aquela ressabiada raivazinha proverbial e tão humana, de absoluto gênio incompreendido por parte do autor, posto que aquilo que encontrará é literatura de altíssima qualidade e fatura estética.

      A turbulenta estória de Zefanias Plubius Sforza é construída através de 17 capítulos, numerados e titulados, cada um estruturando-se tal “uma narrativa momentânea, uma suspensão no tempo” (SENA, 1978, p. 248) e que, no seu conjunto, se lêem como se fossem uma vertiginosa sucessão de contos da tradição oral (Karingana wa karingana, como se diz em Moçambique, para significar “Era uma vez…”), que se interligam e complementam, num movimento em crescendo, e entre si ora se contraditam, ora se iluminam, desnudam e desconcertam.

      A (im)possibilidade, segundo os mais ortodoxos cânones ocidentais, da existência e da criação do gênero literário conhecido pelo nome de romance, em África e pelos africanos, é o ponto de partida de Patraquim para a construção de sua personagem e a estratégia de que se vai socorrer o próprio narrador, também ele intrometida personagem na vida e na trama narrativa de Zefanias Sforza.

      Sendo a literatura da tradição oral um fenômeno comum a todas as civilizações e povos, mesmo àquelas e àqueles em quem a escrita e a leitura são práticas quotidianas de milênios, natural e forçosamente, que, numa civilização como a banto-africana, o seu peso cultural e a sua importância como veículo de preservação da História e da memória dos povos tomem ou mantenham um estatuto que, nas civilizações e povos “letrados”, há muito se perdeu. Ou, pelo menos, em muito se desvaneceu. Porque não é de práticas de cultura e de sageza que se trata já, mas da decifração de símbolos – os da escrita, por um lado, e os dos ciclos da Natureza e da Vida ela mesma, por outro. Ou seja, duas formas diversas e complementares de narrativa possível.

      Ciente desta dicotomia entre dois universos que só a ficção poderá conglomerar, Patraquim começa, pela voz do narrador, a inquirir e a questionar “A possibilidade de Zefanias Sforza” (título do primeiro capítulo). É um jogo apostado na ironia: narrador e personagem conhecem-se. Há entre eles cumplicidades, mundividências (in)coincidentes, que o narrador vai segredando ao ouvido do leitor (ou do ouvinte, na sombra da página?).

      O narrador apresenta-se-nos como “um mero tabelião de afetos e descasos”. Zefanias, esse, tem sangue italiano a correr-lhe nas veias:

Os Sforza!... Olhem o mapa, qualquer mapa, e vejam a distância que vai desta Delagoa Bay, Zefanias denominava assim a cidade sempre que os seus pergaminhos genealógicos tiniam como cristal, imaginem, o castelo do ducado de Milão, lá nos longes da velha Europa e maravilhem-se com os séculos. (…) Os olhos, que eram enormes, brilhavam com gozo e a tez de Zefanias enrubescia. Alguns antepassados… Recolocava a voz, enrouquecida na ênfase da ressalva aos ancestrais, e emborcava rápido um gole de vinho rasca, murmurando, pesaroso, enquanto espargia algumas gotículas vermelhas pelo chão:
“Precisávamos de uma Idade Média.”
“Resta-nos a fortaleza”, suspirava. (PATRAQUIM, 2010, pp. 11 e 12)

       É um “Café com leite!”, um mestiço. “E com muito gosto!”, retruca, solicitando a Messere Silva que lhe retire da frente aquela cerveja Laurentina já choca, e lhe sirva um galão, “um galão equilibrado, metade leite, metade café.”. “(…) Queres da tua cor?”. “‘Na justa medida’, respondia o nosso homem.” (PATRAQUIM, 2010, pp. 13)

      E aqui começa o humor a ter papel preponderante no desenrolar da narrativa, ainda que seja, por enquanto, propositadamente fugidio, o retrato de Zefanias Sforza estabelecido pelo narrador que entra fundo na irônica e perversa elaboração de um pequeno tratado de desconstrução e subversão das catalogações teóricas do gênero literário “romance” e das suas possibilidades de fatura e sustentabilidade em África:

Devo confessar, amigo leitor, que a possibilidade de uma personagem como esta, um Zefanias Plubius Sforza, natural de Maputo, se descontarmos outras designações, este Zefanias que sofria de fortes afrontamentos de passados remotos, com um apelido deveras improvável, se afigura difícil para a escorreita composição desta noveleta.
O que será uma personagem? Se é uma máscara ou imitação compósita de pessoas que encontramos na chamada vida real… (…) isso da vida real não será sempre uma escolha, um ponto de vista, um concentrado de características repescadas aqui e ali? (PATRAQUIM, 2010, p. 14).

       A ironia com que Patraquim entrelaça a “Teoria do romance” (título do segundo capítulo) com a elaboração da sua personagem – um herói no avesso da História, ou, se se preferir, um anti-herói distraidíssimo do seu tempo e lugar – é directamente proporcional ao humor e desconcerto da própria acção narrativa, com seus intermitentes avanços e recuos na afirmação identitária de “Zefanias Plubius Sforza, um moçambicano com qualidades.”

      Vivendo no que fora um majestoso “chalet”, na Avenida 24 de Julho − a avenida “que atravessava a cidade a meio” −, Zefanias tem “trinta e cinco anos, quatro mulheres e oito filhos.” É, contudo, um homem de princípios: “Não é por causa da sua perdição que não se devem respeitos àquelas senhoras. Compete a um verdadeiro gentleman desabrochar-lhes a flor delicada que têm dentro delas” – assevera ele, cujo humor sofre de súbitas variações: “Se julgas que vais contar a minha estória com as mesmas palavras com que me fazes as perguntas, olha que te canho, canho mesmo!”, atira assim de chofre ao narrador, que, por sua vez, se resguarda na sua proverbial ironia:

Tudo isto pode parecer um confusionismo de narrador incompetente, mas a verdade é que em terra de espíritos, sendo os de cor verde os mais deletérios, melhor é ir avançando com cautela nestes episódios que fui ouvindo. (…) dadas as circunstâncias, a possibilidade de Zefanias Sforza é a de alguém com genealogia. Toda a pretensão é da sua responsabilidade, mas como não tê-la quando aqui tudo é demasiado recente, sem patine?” (PATRAQUIM, 2010, pp. 16 e 17)

       Concedendo o narrador: “Sei que vou soçobrar à teoria do romance”, entra no segundo capítulo do livro, “Teoria do romance” propriamente dita, pondo-a em causa e, com ela, num tom quase pícaro, a própria consistência ficcional de sua personagem:

O problema da teoria do romance é o de haver muitas e não me parecer que Zefanias Plubius Sforza caiba em nenhuma delas. Em linguagem chã, não foi a pensar nisso, na complexidade do romance, que me resolvi a escrevinhar sobre ele. Se houve intencionalidade, ou melhor, impulso, tal deveu-se a um certo fascínio pelo homem. O homem ele mesmo, de carne e osso, subindo e descendo a 24 de Julho, bulabulando [conversando] nas tascas, perorando verdades que ele reputava de universais, ou sentado numa grade de cerveja a servir de banco no balcão improvisado de um qualquer dumba-nengue [boteco], quando os mercados informais desaguaram nos baldios da cidade, afrontando alvenarias e alguma, pouca, pedra lavrada. (PATRAQUIM, 2010, p. 23)

       E uma nova personagem, mais que apenas o espaço ou cenário onde decorre a ação, entra na estória, numa declaração de amor incondicional à cidade de Maputo. Ou, mais exatamente, às várias cidades e tempos que vieram a dar na atual cidade de Maputo.

      Quanto a Zefanias, esse ser que “cultuava a palavra, que sabia utilizar conforme as circunstâncias.” (PATRAQUIM, 2010, p. 25), pergunta-se e responde o narrador: “Vê-lo como personagem de romance? Seria atraiçoar-me”, para logo confessar:

A personagem tomou-me. (…) se já não há o herói mas a mais variegada das gentes, a quem chamamos heróis quando soçobram, como resgatar Zefanias do seu mapeamento quotidiano? Contar a cidade que o viu nascer? Fazer dele um produto dessa invenção, da precipitação de interesses, culturas, dominações, cruzamentos? (PATRAQUIM, 2010, pp. 25 e 27).

       Zefanias é “uma alma sentada à varanda da linguagem”. Só bebe cerveja preta, a moçambicana Laurentina, quando está “com muita fome!”. E tem relutância “em aceitar para si a designação de ‘Coca-Cola’” – essa designação dos lourenço-marquinos mestiços, que vem dos tempos coloniais.

       “Nomes”, o terceiro capítulo, é uma homenagem discreta, mas propositada, através de Zefanias Sforza e da sua genealogia (filho de pai branco, italiano, e de mãe negra, moçambicana), ao poeta José Craveirinha, quando, pela voz do narrador, se diz que

Só muito depois Zefanias percebeu as razões. E então lembrava-se que só podia chamar mamã quando não havia estranhos em casa, as visitas lustrosas, as jantaradas copiosas. A Rosa, de avental a servir à mesa, atarefada junto aos panelões nas traseiras da casa, a Rosa silenciosa a obedecer às ordens do patrão e os olhos esbugalhados de Zefanias a vê-la arrumar tudo, quando os convivas se retiravam e ela a dirigir-se para o quarto do pai. (PATRAQUIM, 2010, p. 35).

       É notória a intertextualidade com o poema “Ao meu belo pai ex-emigrante”, de José Craveirinha, sobretudo, na parte, onde o poeta diz: “E na minha rude e grata/ sinceridade não esqueço/ meu antigo português puro/ que me geraste no ventre de uma tombasana/ eu mais um novo moçambicano/ semiclaro para não ser igual a um branco qualquer/ e seminegro para jamais renegar/ um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue” (CRAVEIRINHA. In: FERREIRA, 1989, p.329).

      Através do diálogo, de pendor um tanto bíblico, em torno de Noé (“O único gajo justo chamava-se Noé!”) com o seu amigo desde os tempos de crianças, Agostinho Demos, Zefanias rememora a sua infância e faz como que um balanço de vida, dos filhos (“‘Os filhos são das mães’, rematava Zefanias.”), das mulheres que lhe coube amar, e do próprio “nome recebido de seu pai.” Sim, porque Zefanias é “um escondido, um escondido de Deus”, justamente por se chamar Zefanias, espécie de corruptela de Sofonias, o Profeta.

      O capítulo seguinte, “Um braço”, é a abertura na narrativa − com o caso absurdo e inusitado do aparecimento de um braço sem dono numa lixeira: um braço dobrado em forma de manguito −, que põe em confronto não só a diversidade cultural, como o posicionamento ideológico, chamemos-lhe assim, de Zefanias (relapso do processo revolucionário em curso, ao qual não se cansa de contrapor a reivindicação dos seus pergaminhos genealógicos, inerentes a um “Sforza”) e Agostinho Demos, que, nada sabendo de manguitos: “Se fosses um Sforza, alcançarias a dimensão profunda do manguito”, está cada vez mais participativo nas reuniões dos grupos dinamizadores e dos comitês da revolução em curso, esforçando-se por um lugar de destaque no aparelho do Partido e, consequentemente, no aparelho de Estado.

Um manguito, convenhamos, não faz parte da paisagem cultural da terra. […] Um manguito, na cidade do Índico, era verdadeiramente um caso. Mesmo o manguito dum falecido. As variadas gentes têm muitas formas de esconjuro, umas mais feiticiosas do que outras, uma infinidade de sinais, com as mãos, os dedos, a língua, a gingação do corpo. (PATRAQUIM, 2010, p. 40)

       É um tempo de escassez de tudo. Literalmente. Um tempo de utopias, também. Mas, sobretudo, um tempo de guerra civil e de degradação física e moral da cidade, cuja História Zefanias vai estudando, desde os alvores da sua fundação, em livros, mapas e documentos antigos. Porque o presente, as transformações que a cidade vai sofrendo pelas mais variadas razões, esse presente bem o testemunha Zefanias (“Cervejo-me, em homenagem à minha cidade”, declara ele) nas suas longas caminhadas a pé, ou do alto da sua varanda, estático, saboreando a brisa acompanhada de uma inevitável Laurentina, e assistindo indiferente à passagem da História do país que começa a inscrever a sua voz sobre os mapas do mundo.

      Não é um fervoroso patriota, este Zefanias Plubius Sforza. Por ele, nenhum equívoco, despautério ou despropósito advirá ou levará a cometer a palavra Pátria. A sua atenção é toda ela voltada para a cidade onde nasceu e vive, a cidade onde está incrustada a memória da mãe: essa mãe que morreu jovem e a cujo funeral o pai não permitiu que fosse, desculpando-se

(...) que os familiares dela não iriam gostar. E podia haver o perigo de mau-olhado, maldições, o espírito inquieto da emudecida para sempre a querer visitar o filho perdido.
Como se isso fosse possível, mãe! Fazeres-me mal.
Oiço a tua língua, a língua que não tiveste tempo de me ensinar, e roo-me de inveja, talvez não seja bem inveja mas uma falha, quando oiço o Agostinho em desenfreada falagem. Uma língua cheia de sonoridades, molhada, oscilando entre ênfases e murmúrios, ritmados silêncios. Que sei eu das sagas, das canções das chuvas e das sementeiras, das alegres ou doloridas canções de trabalho, das louvações, das adivinhas, dos cantos religiosos, dos cantos dos mortos e das vaticinações para os vivos? (PATRAQUIM, 2010, p. 48)

       Hino, ou canto elegíaco à Mãe e à cidade – enquanto corpo vivo e espaço didático –, eis Zefanias Sforza em crescendo, como personagem, debruçando-se em meditativas anotações sobre os seus pessoalíssimos cadernos. Ou ainda, denotando “na imagem dessa mãe, algo difusa e etérea”, a percepção do “labirinto que era o seu e o da sua cidade”. E este é o quadro e o cenário para a irreverência da personagem em relação ao narrador [“Esse gajo que quer saber a minha vida e fala de pena e musa e confrades das letras, essas merdas, (…) anda aí nas ruas, fala maningue [muito], desconfio que é um roubador, chupa-sangue de letras, um sem-abrigo de estórias”] (PATRAQUIM, 2010, p. 49), ao mesmo tempo que a tensão e o conflito com Agostinho Demos, nas conversas de varanda e dessedentação de Laurentinas ao fim da tarde, “a ver passar o povo, (…) o povo organizado.”, se vão acentuando. Na justa proporção, aliás, da decadência e alastramento da cidade em subúrbios inumanos, a que Zefanias assiste impotente, mas nunca resignado.

      A cidade, nesse tempo imediatamente a seguir à Independência, fervilhava de cooperantes: “os aliados naturais”, ou seja, “os oriundos dos países socialistas, e os outros, uma fauna heterogênea que gostava de andar de bicicleta, apesar da orografia da urbe.” E é dessa “fauna heterogênea” que aparece Eva, justamente na “tarde em que foi decretada a nacionalização das casas e da barbearia onde o Zefanias fazia o seu shaving capilar e facial”.

      Eva é de nacionalidade sueca, casada com um “camarada cooperante” também ele sueco, e naturalmente loira. Está em Moçambique com o firme propósito de estudar “a condição da mulher moçambicana”, e pede desculpa a Zefanias por não saber falar nenhuma das línguas nacionais, o que o deixa numa viva espantação: “Como iria ela saber? Eva trilíngue, uma gaguez sensual a ligar os idiomas…” Depois, desconcerta-o, declarando-lhe frontalmente ser trotskista.

      Zefanias revolveu todas as velhas revistas e livros herdados de seu pai, em demanda de explicação cabal para tão inusitada questão. E, numa caixa de papelão a esboroar-se e cheia de caganitas de rato, dá com uma série de livros, todos amarelados e forrados com as mais absurdas notícias de jornal.

      À estranheza causada por tão inaudita descoberta, sucedeu-se o desvendamento do mistério “trotskista” de Eva, ou, pelo menos, parte dele: “Trotsky assassinado no México.” A forrar a capa do livro, outra capa e outro título: “Como escrever cartas de amor”.

       “Afinal o gajo existiu.”, suspira Zefanias. Mas uma inquietação logo se instala: “O que é que a Eva tem a ver com isto?” E Zefanias lê, lê tudo quanto encontra sobre Lev Trotsky. Lê obsessivamente. Lê até tiritar de frio e acordar a meio da noite ensopado em suor, como se estivesse em estado febril. Mas “Ler não dá paludismo. Nunca li isso”, diz ele, tentando acalmar-se. E assim, o mais documentado que pôde, partiu ao encontro da sua Eva, assistindo pelo caminho ao resultado final do suicídio de um português, que, ao ouvir a declaração de nacionalização das casas pelo governo, ele, que vivia dos rendimentos de vários prédios, não resistiu a atirar-se do andar onde jogava sueca com amigos. “O cadáver é contra as nacionalizações?”, ouviu ainda Zefanias dizer a um agente das FP, que tomava conta da ocorrência, antes de seguir caminho em direcção ao Hotel onde Eva se hospedara. E aí,

Nos acalorados comícios a dois, inteiros comícios fundacionais, Eva e Zefanias recompunham a ordem natural das relações, numa descolonização objectiva e física e num cosmopolitismo coerente com a estória da cidade.
“Só o orgasmo é revolucionário.” ( PATRAQUIM, 2010, p. 60)

       Göran, o desenganado marido de Eva, saxofonista nas horas de lazer e de quem Zefanias chegara a sentir pena, partira, entretanto, “ajoujado a um saxofone, tresandando a álcool, levando consigo a bela Elisa, grávida de ventre e de sonhos, rumo aos antípodas”. Isto soubera Zefanias pelo amigo Agostinho Demos que “começava a preocupar-se com os devaneios do amigo. O Zefanias balda e desprendido dava lugar a alguém parecia que obcecado com as acontecências à volta. E até começava a falar de política.” Porque Zefanias, com a sua pontinha de ciúme, não deixou de perguntar a Eva: “O teu Trotsky existiu mesmo ou era só aquele do México?”

      E vai de rememorar infância, os pais, amigos, os seus “avatares”. E, nesses “avatares”, discorre Zefanias na primeira pessoa pela amálgama de culturas, religiões, gastronomias e costumes que enformam a cultura moçambicana. Esta escrita de Zefanias − em cadernos de que nem Eva, nem Agostinho Demos, nem ninguém pode saber −, espoletada, porque “estou chateado devido ao meu filho Augusto que foi apanhado numa rusga e está na tropa” gira entre o trágico (“O que já não sei é onde está Deus. Mas quero saber onde está o meu filho”) e o cômico − quer pelas diatribes com Eva (“Trazes maçãs, lhe perguntei, e a Eva mandou-me à merda mais outra vez. Mulher mandar um gajo à merda? Nunca as minhas outras estavam assim tão desenvolvidas. E fez-me um manguito!”) , quer pela preocupação estilística, num tempo em que Eva está ausente do seu mundo e de Moçambique, com a sua caligrafia (“Minha caligrafia tem muitas pessoas…”) e com a sua prosa:

Mas também posso estilar e vestir substantivos que, na sua dança com ideias claras, verbo certeiro como um chuto e adjectivação brocando de ouro o tecido da frase, investem as minhas miudezas com a dignidade dos clássicos e a tentação de um guisado de cabrito. Digo cabrito porque não gosto de faisão. (PATRAQUIM, 2010, p. 71)

       E é nestes cuidados e atribulações que Zefanias Sforza escreve uma carta para Eva, na qual a ironia bíblica dos nomes (“Eva! Nem posso exclamar ‘filha da mãe!’ porque não és. Saíste-me da costela, a flutuante”) e outros temperados humores iludem ou acentuam a angústia da ausência e da separação da amada, e o sofrimento confesso pela partida forçada do filho para a frente de combate, com a qual Zefanias, que, ao tempo, “aliava uma crise de abastecimento monetário à de cariz alimentar”, “desconcorda” em absoluto.

      O nono capítulo, “Tarantela e marrabenta”, é um poema que recombina em si, pelo caldeamento cultural e pela mestiçagem de que Zefanias é acabado exemplo, dois tipos de música e de dança – a italiana tarantela e a moçambicana marrabenta −, numa espécie de exorcismo através desse frenético desejo de dançar, para esconjuro do pânico, numa religação aos “ritmos da terra” e aos “deuses que sobem/ Das raízes das árvores”.

      O capítulo seguinte, “Metamorfose da Kalash”, é a narração do reencontro de Zefanias com o seu filho Augusto, calcorreando os labirintos da cidade e seus subúrbios. A narração, por onde mais uma vez perpassa a homenagem de uma ininterrupta declaração de amor à cidade de Maputo, é um diálogo dolorosíssimo, entrecortado por rememorações de Zefanias sobre a gestação e nascimento de Augusto, as discussões com Alice, a mãe, a quem Zefanias nunca permitiu que saísse do subúrbio (a cidade do caniço que apodrece, “é preciso estar sempre a mudar”) e viesse viver para o seu “chalet”, posto ser ela menor, aquando da acontecência da gravidez deste filho, e não querer Zefanias ser acusado de desvio de menores e supliciado, juntamente com Alice, pelo Grupo Dinamizador.

      Para “reclamar a desnacionalização” do filho, e trazê-lo de volta à casa da mãe, Zefanias socorreu-se do nepotismo do seu amigo Agostinho Demos, isto é, das suas influências e dos seus conhecimentos no exército. É cauteloso com as suas “considerações” escritas, esperando nunca ser mal interpretado caso alguma estrutura do aparelho de Estado um dia as leia: “Escrevo, às vezes, numa entoação de falagem”, diz ele, “para me aproximar do povo.” E acrescenta: “A desnacionalização do Augusto é, até, um termo bem empregado. O miúdo estava a estudar e foi obrigado a ir.” Voltou, porém, “inclinado para o lado”, “coxeado”, como ele próprio diz, ferido num pé por uma bala de ricochete.

      A recepção em casa da mãe (que não faz as pazes com Zefanias, muito embora o deixasse petiscar juntamente com o filho o caril de amendoim que acabava de cozinhar) foi de choro e desembrulho de “uma capulana com uns manipanços quaisquer” (Zefanias, tal como seu pai, o velho Zefanias, é um positivista e um incréu, mas sempre gostou desta “palavra manipanço, ouvi-a desde que também era miúdo”), manipanços esses destinados ao mais natural ritual feiticista de proteção e boas-vindas.

       “Camarada Inimigo” é talvez o capítulo mais pungente de todo o livro. Nele se narra a captura de Augusto pelos guerrilheiros rebeldes, os maus tratos e a fome que sofreu, a porrada que levou, as mortes que viu, os insultos como nunca tinha ouvido. Mas “A guerra faz crescer para dentro”, aprendeu ele. E o que perpassa pela narrativa é toda a violência tenebrosa daquele limite em que qualquer ser humano se transforma num facínora, em que o lado pior da besta humana se sobrepõe inteiro ao mais ínfimo resto de humanidade: a violação de mulheres à frente dos próprios filhos e maridos, antes de serem decapitadas, ou obrigadas, depois, a assassinar os próprios filhos, das formas mais cruéis que imaginar se possa.

      Até que Augusto, depois de muita persistência e sofrimentos, consegue evadir-se. Quando é finalmente encontrado pelas forças governamentais, nas quais havia sido incorporado à força, antes de ter sido capturado, leva novamente porrada: “julgavam que eu era um bandido qualquer e começaram a me bater”.

      Augusto volta não volta, fala em Deus, o que irrita e perturba solenemente o pai: “‘Deixa Deus’, sentenciou Zefanias.” E Augusto: “Não pude deixar, papá.”.

      É, então, que Zefanias vai fazendo desfiar pela memória as estórias ouvidas a seu pai sobre carbonárias e maçons, greves, resistências e traições, a fundação da cidade e a sua crônica mudança de nomes amalgamando-se com a cidade de hoje, os tempos coloniais e estes tempos simultaneamente de euforia nacionalista e de tragédia no sentido mais lato da palavra, como se fossem duas paralelas que se encontrassem nos tortuosos pensamentos e congeminações de Zefanias, “o escondido de Deus”.

      A despedida de ambos é pautada por um insólito humor, um non-sense hilariante, com o pai a sentenciar: “Meu augusto Augusto! (…) O caniço espera-te”, ao que o filho retruca: “Posso vir outra vez?”. “Varia-me os pratos, meu rapaz, varia-me os pratos”, responde-lhe Zefanias, depois de se ter deleitado com um belo caril feito pelas mãos de Alice, sublinhando a frase com uma estrondosa palmada nas costas do filho.

      Augusto parte rumo ao “caniço” que o espera, ruminando o seu monólogo interior pelo caminho que é longo. De mais a mais, o pai, “que tem a mania que sabe”, nem sequer “se organizou para ter um carro” que o levasse agora comodamente à casa da mãe.

      Mas, mais que o “pai quase desconhecido” e a mãe que cospe para o chão, mal ouve falar dele (“Fiquei muito perturbado, uma senhora mãe a cuspir no chão”), é Deus quem move e alimenta os pensamentos de Augusto e o seu monólogo: “Sou um filho de Deus e do Zefanias, é verdade, apesar de este segundo pai chamar analfabeto ao mais velho.” No entanto, foi a esse pai “mais velho” e “analfabeto”, ou seja, a Deus, que Augusto escreveu uma carta “oralmente na cabeça quando estava muito enrascado nos matos”, onde “chorei agasalhadinho nas minhas lágrimas, tapado com as mãos”. Uma carta que começava assim: “Camarada Deus”. Nem mais. E é um belo e comovente naco de prosa, em que sobressaem a ingenuidade e a lucidez da personagem que diz: “Ainda estou a sair de ser criança”, “Se conseguisse até te fazia um papagaio de papel com um fio muito compridinho para desenrolar até onde ficas”. Sabe que “Toda a gente gosta de pedir. Só se ouve pedir, pedir, pedir”, não está a pedir: “Estou a falar contigo, muito respeitosamente, é verdade. Estou a estrategiar uma possibilidade que só tu podes implementar”: a fuga, a deserção daquele horror. Porque já antes, diz Augusto, “Viajei muito. Viajei as viagens que a minha cabeça desenhava.” Por fim, é a este “Camarada Deus” que Augusto, apesar de que “nunca lhe vi” e estar Ele sempre “parado lá em cima”, atribui o maior contributo na implementação da sua saída do exército e da frente de combate, e o seu regresso a casa. Ainda que “coxeado”, mas vivo.

       “Povo organizado”, o décimo segundo capítulo, é a “desorganização” da amizade entre Zefanias e Agostinho Demos. Zefanias, pobremente vestido e sentado na sua cadeira de baloiço a coçar os dedos dos pés com um pauzinho, recebe Agostinho “impante na sua balalaica bege clara.”, a quem, segundo Zefanias, só faltava “um lenço branco na mão direita.”.

      Zefanias dá em tratar o velho amigo, o “brada” (corruptela de “brother”) Agostinho Demos pelo apelido, num diálogo que é uma pérola hilariante de humor negro e de sinuosidades mirabolantes na comunicabilidade incomunicante que se estabelece entre ambos. Agostinho está ali para falar de coisas sérias ao amigo. “Vais casar?”, pergunta-lhe Zefanias, para quem essa é que era a única questão verdadeiramente séria. Eva continua ausente, escreveu ao amado para dizer que está “a escrever uma peça, um monólogo sobre a mulher moçambicana.” Agostinho aventa a hipótese de Eva não voltar, ao que Zefanias contrapõe: “Comigo, as mulheres vêm sempre. Posso garantir”. Esta atitude de Zefanias é tomada por Demos como “Gingação, vaidosismo pequeno-burguês”, e reitera a vontade de “falar de coisas sérias” ao amigo. Este, “Se é para falar de coisas sérias”, prefere ir banhar-se primeiro, deixando o outro a espumar de raiva (“Este gajo não tem maneira”), rodando de um lado para o outro da varanda, a olhar para o relógio.

      Quando Zefanias volta, “cheiroso e aprumado”, instala-se comodamente na sua cadeira, acende um cigarro, “as baforadas com pose”, e incita Demos à sua palestração. Ele, Zefanias (“Um Sforza ouve tudo.”), é todo ouvidos e atenções.

      Agostinho, depois de lhe perguntar se já tinha ouvido falar no “povo organizado”, anuncia-lhe a sua entrada para o Partido. Incita-o a seguir-lhe o exemplo. Zefanias desata à gargalhada. Nunca viu Agostinho a servir o povo, Agostinho retruca-lhe na mesma moeda, ao que Zefanias aquiesce: “Não tenho tempo. (…) Os meus objectivos minimizam-se num só, a Eva tem de voltar”. E um rosário longo de lembranças – “um resmungo narrativo, um entrecruzar de tempos e lugares” (sobretudo a memória do “manguiteiro” que era seu velho pai nos últimos tempos de vida, quando já não saía praticamente do quarto, e nos momentos em que o fazia, era para vir à porta de entrada despachar manguitos em todas as direções, sendo entusiasticamente saudado pela miudagem que passava pela rua) – apoderou-se de Zefanias.

      Enquanto Agostinho Demos espaça agora mais as visitas ao seu “brada”, por via dos muitos afazeres políticos e da ascensão na nova carreira profissional, o narrador, que há muito se arredara da sombra da sua personagem, volta a aparecer. E ei-lo a perorar sobre a memória: “é um embrulho que se desata, um embrulho cheio de pequeninas reentrâncias, rugosidades, alvéolos, adstringências, uma espécie de nembo”, e a testemunhar a chegada da carta de Eva, que afinal o não era. Um bilhetinho, isso sim, a dizer “meu moçambicano, machãozinho gostoso, little boy”, acompanhava as folhas manuscritas da prometida peça sobre as mulheres moçambicanas, “para que tu aprendas”. “Não leio estas merdas!”, explodiu Zefanias, com uma vontade estapafúrdia de tudo rasgar. Porém, segundo o narrador, “a curiosidade foi mais forte”.

       “As mulheres de água”, título de capítulo e título da peça de Eva enviada ao seu amado Zefanias, é um monólogo carregado de poesia, entrecruzado entre o campo e a cidade, revelando o papel da mulher em cada um desses lugares, com a guerra em fundo e a água, enquanto fonte primordial de vida, em plano soberano. Mas, também, um monólogo eivado de referências eruditas europeias ao lado de costumes e tradições ancestrais africanos, apontando, em ambas as culturas, para a impossibilidade narrativa perante o absurdo.

      Em “Elucubrações várias”, o capítulo décimo quarto, entra de novo a serviço o narrador que testemunha a metamorfose lexical de Zefanias, se espanta com ela e com a sua intensidade (“Little boy, puta que pariu!”), acabando por salvar a custo o manuscrito de Eva. Zefanias; possesso, perora sobre esta diatribe de Eva: “Quem não sabe contar uma estória vem falar em sangue?! E o velho? A que velho se referia? Ao meu?!” E voltando-se para o narrador: “‘Você que me segue como uma sombra’ – Zefanias apontava-me o dedo indicador − ‘testemunhe bem esta minha zanga.’”.

      Mas eis senão quando, revirando velhas revistas sobre a Segunda Guerra Mundial, para além das escaldantes notícias sobre o centro de espionagem que fora então Lourenço Marques, depara numa delas com o título insinuante de “Little Boy” a legendar uma fotografia. Tratava-se do carregamento da bomba atômica para o avião “Enola Gay”.

      Conjecturas à parte, a prosa lida “por causa de umas dúvidas”, Zefanias reconciliou-se consigo, com Eva e com a vida:

Estas mulheres são fogo, querem fogo. ‘Little Boy’, está certo. Eva, está certíssimo. Eu devia saber, só que um gajo é distraído, faz boas performances, é normal, nem liga. Mas elas ficam com aquilo, recolhem a explosão, a reacção em cadeia fica a morar nelas mais horas de tempo, já um gajo está a pensar noutras coisas. (…) Elas ardem. Zefanias, little boy, Zefanias bomba atómica. Eva, és uma reconhecida. Nice! Só falta voltares lá dos teus lagos e enxugares essa água que andas a falar. (PATRAQUIM, 2010, pp. 123 e 124)

       A ausência prolongada de Eva e os espíritos dos antepassados que Zefanias ouve e sente através dos velhos papéis, livros e revistas herdados do pai, atormentam-no. De tal forma, que Agostinho Demos, preocupado com o amigo, o visita. O diálogo entre ambos é deliciosamente pícaro, desconcertante, em torno dos espíritos, coisa proibida por lei para se falar, quanto mais acreditar. Então, Zefanias decide ler a Bíblia. Lê e vai tirando as suas pessoalíssimas ilações. A leitura do Cântico dos cânticos, muito embora o tivesse achado “maningue [muito] esquemático”, apesar das “coisas bonitas” que tem, acentua-lhe o lado romântico. E está de tal modo encantado e empolgado, que não resiste à tentação: “Esse Salomão até o desafiava para competir comigo!”. E vai, a partir dos versículos sagrados, encenando mentalmente o seu reencontro erótico com Eva. É que, para Zefanias, o “machãozinho gostoso”, se por um lado, “O Salomão está ultrapassado e não pode conhecer a dinâmica das mulheres actuais”, por outro, “As ditas emancipadas são mal agradecidas”. Assim, nem mais.

      Enquanto isso, a cidade está na maior polvorosa, quase sitiada, pela guerra. Tão absorto nas suas devaneações, Zefanias nem se dá conta do mundo que o rodeia: o sistema econômico das trocas que entrou em vigor à revelia das diretivas governamentais, e “o grande massacre dos carapaus”, a única coisa que havia para comer na cidade.

      Zefanias Plubius Sforza continua cada vez mais um descontextualizado das massas trabalhadoras, das linhas políticas que, pela voz e exemplos de Agostinho Demos, lhe interrompem a silenciosa voz e a consistência dos sonhos com maçãs, “e digo maçãs por causa das bíblias”, numa “baixela baloiçando ao ritmo das ancas de Eva”. Ou seja, Agostinho (“Este brada está a ficar cabrão. (…) Está na altura, Zefanias, de seres mais de acordo com o teu estatuto ancestral”), como ave pressentida de mau agoiro, contra quem invoca, evoca, convoca: “Evinha, ervinha minha, meu sabonete de me limpar a alma, tu percebes as contradições deste aristocrata do povo.”

      E eis que Eva regressa a Moçambique e ao seu muito amado Zefanias, que a vai esperar ao aeroporto, de boleia com Demos. Há peripécias rocambolescas, antes e durante o reencontro: “‘vou osculá-la toda’, dissera Zefanias, o beijo fora tão sonoro que causara risos e palmas e um arremedo de dança nuns miúdos que andavam por ali.” E durante três dias e três noites, no seu “chalet”, previamente engalanado para a função, com luzes coloridas na frontaria e nas árvores do quintal, foi “a sumptuosidade sonora” da “mescla de ritmos” e gêneros musicais, a suprema celebração do amor e da Vida. Zefanias, o “little boy”, “a bomba atômica”, sequer apareceu à varanda nesses dias.

      O escândalo foi tal, na cidade em crise e austeridade, que Eva acabou expulsa do país e do paraíso, ao fim do terceiro dia, por comportamento imoral: “Como pudeste deixar que a gaja se viesse baloiçar naquela rede?”. “Estava esgotada, Agostinho. Só queria refrescar-se.”. (…) “De calções e soutien? Pernas nuas, ombros à mostra com tatuagem?”.

      Na manhã seguinte a esta conversa com Agostinho Demos, que lhe narrou ainda as acusações de reacionário, improdutivo, gastador das riquezas do povo e feiticeiro, feitas contra si pelo “grupo dinamizador”, foram acordar Zefanias, essa espécie de romântico incompreendido e sem perdão, segundo os preceitos do processo revolucionário em curso, para o levarem para a cadeia.

       “Discurso enquanto se desce a montanha”, o penúltimo capítulo tem como cenário o “terreiro em frente da casa de Augusto, na Mafalala1” e narra a epopeia de Zefanias na prisão, a incriminação de que fora vítima, a subsequente deportação para um campo de reeducação, e o seu não menos conturbado regresso à cidade natal, anos depois, já com as tropas das Nações Unidas um pouco por todo o país, a gritar “paz, paz, paz chegou!”

Passei por campos de reeducação abandonados, estradas desertas que tinham como testemunhas das pessoas mortas as carrinhas queimadas, os maximbombos esventrados, vi aldeias só com um cão a ladrar e velhos quase nus, vestidos cm casca de árvore. As crianças comiam um capim qualquer e tiravam água da areia com uma colher. (PATRAQUIM, 2010, p. 148)

       Ao abrir o portão da casa que julgava ser ainda o seu “chalet”, um “cão saltou logo. Fugi. Fiquei do lado de fora do portão. Uma mulher apareceu à varanda. Reparei que já não estava lá a minha cadeira de baloiço. Quando olhei bem, vi que era a mulher do Agostinho. (…) Então percebi que aquela já não era a minha casa”. E passou a dormir na rua, onde calhava, até ir ter com o filho (já casado e pai de um neto de Zefanias), a quem lembra: “Sabes, Augusto, eu fui o único gajo desta cidade que fez festa com luzes, três dias, para saudar a criação. Depois de Deus, fui eu. Por isso me lixei. Os outros só utilizam.” − a criação, bem entendido.

      Quando Augusto lhe pergunta o que vai fazer da vida, Zefanias responde: “Vou cantar. (…) Preciso de encontrar uma viola. Os poemas eu tenho. Fiquei a saber que um gajo pode cantar tudo”. E conta o seu reencontro com Agostinho Demos, que o convidara para almoçar num dos sítios mais caros de Maputo. A meio do almoço, Agostinho propõe um brinde à paz. Zefanias, que não tem nada contra a paz, levanta o copo, mas não aguentou a perfídia, e foi “logo a correr à casa de banho” vomitar. De regresso, Agostinho Demos anuncia-lhe: “Tenho várias cartas daquela gaja sueca para te entregar”. A pedido de Zefanias, vai buscá-las ao carro e entrega-as ao destinatário, que as guarda no bolso, sem ler. No final do almoço, Zefanias, que, entretanto, passara a viver em casa do filho, declina o convite de Demos para irem à lixeira, onde se haviam realizado os fuzilamentos e onde aparecera aquele braço sem dono, dobrado em forma de manguito: “‘Tiveste muita sorte, Zefanias’, lembro-me que o Agostinho me disse isso. ‘Podias ser tu.’”

      A cidade e a vida mudaram. Há agora recenseamento para eleições, essa promessa do “nosso desenvolvimento, boas casas, comida, escolas, acabar com a pobreza.”, mas Zefanias, que é agora “um sem morada”, desconsegue “ir na casa do recenseamento” e persiste em descer a montanha “com uma canção na cabeça.”

      Em “Finale”, Zefanias, “andarilho quotidiano na larga varanda urbana que lhe coube em sorte”, passa à porta de uma igreja, e escuta a homilia, “Apocalipse, 18, 20-24”. Comenta-a para si mesmo: “Nenhum castigo vale a destruição de uma cidade. Estes agora só falam de Deus, desses apocalipses. Eu vou cantar.” E mais adiante:

É verdade. Só eu guardo as cartas da Eva. Também lhe escrevi. Sem resposta. Agora tenho uma viola de corda, as electricidades lixaram-me, e eu gosto é desse som natural, tem o eco das grutas e os suspiros das amadas. Os tons graves, ah, os tons graves celebram a densidade das bundas, essa linha abaulada que é para mim como um altar. Um chalet.
(…) Estou a cantar. Cidade sem música é como mulher abandonada.
Eva, my love. Havemos de acender as luzes. (PATRAQUIM, 2010, pp.158-159)

       Zefanias (que continua “Zefanias Plubius Sforza, mas andarilho escondidinho” agora), não só canta o seu grande amor por Eva e pela sua cidade, como começou a trazer sempre no bolso um caderninho, onde vai escrevendo o que a sua alma guardou, ou sobre aquilo que a vai perturbando no seu dia-a-dia.

      É lícito supor, atendendo a estes pormenores aliados ao modo como a personagem se despede do seu narrador (“Estás a ouvir? Estas foram algumas das coisas que aconteceram nesta cidade e a mim, que sou dela. Regista bem. É só uma parte”), que Luís Carlos Patraquim irá continuar a saga desta personagem inolvidável.

       A canção de Zefanias Sforza traz à literatura moçambicana e às literaturas de língua portuguesa uma qualidade estética e uma desenvoltura narrativa de exceção. É um fresco vibrante e lúcido − numa escrita viva, límpida, solidamente arquitetada e temperada a várias gradações de ironia e de humor, não raro entre o pícaro, o trágico e o sublime −, que atravessa toda a História de Moçambique, desde quando a Terra não era ainda País, e os homens e mulheres, velhos e crianças não eram ainda esse espaço de cidadania, múltiplo de gentes, de mestiçagens e de culturas, de que Zefanias é a suprema encarnação. E essa é, sem dúvida alguma, com todas as suas contradições e usuras, uma das mais belas riquezas de que Moçambique se pode orgulhar e ser exemplo: a sua riquíssima mestiçagem cultural.

NOTAS:

Mafalala é um bairro histórico da periferia de Maputo, onde viveu o poeta José Craveirinha.

REFERÊNCIAS:

FERREIRA, Manuel. 50 Poetas africanos. Lisboa: Plátano Editora, 1989.

PATRAQUIM, Luís Carlos. A canção de Zefanias Sforza. Porto: Porto Editora, 2010.

SENA, Jorge. Antigas e novas andanças do demónio. Lisboa: Edições 70, 1978.