Mulemba - n.3 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / dezembro / 2010

Artigo:

APRESENTAÇÃO

A revista Mulemba, no presente número, procura enfocar, como diria o pensador russo Mikhail Bakhtin, aspectos considerados composicionais das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Os diferentes tipos de narradores e as variadas formas de narrar, as vozes enunciadoras e os pontos de vista da narração são discutidos e analisados, em dez ensaios de pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais.

Abrindo esta edição da revista, Ana Maria Mão de Ferro Martinho, da Universidade Nova de Lisboa, em "Memória e experiência etnográfica – literatura, cultura, representações", aborda questões relacionadas à memória e experiência etnográfica, ilustrando com textos das literaturas de Angola e Moçambique. A pesquisadora demonstra como, hoje, a Etnografia transforma-se em “fornecedor” e “receptor” ativo da Antropologia, da Cultura e da Literatura, passando, assim, a contribuir aos estudos das representações literárias.

Renata Flavia da Silva, docente de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFF, em "Ibi sunt leones", faz uma leitura da obra Predadores, do escritor angolano Pepetela, destacando a capacidade crítica do romancista em retratar e pensar a complexa cena contemporânea. Afirma a professora que o romance em questão é um locus propício à investigação de novas configurações espaço-temporais, de novas identificações e interpretações suscitadas pelas paradigmáticas mudanças históricas e culturais sofridas pela sociedade angolana.

Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco, professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ e consultora do CNPQ, em seu artigo intitulado "Óscar Ribas e as literaturas da noite: a arte de sunguilar", evidencia a importância de Óscar Ribas na recolha da tradição oral angolana. A pesquisadora salienta em seu ensaio que, tendo esse escritor conseguido documentar, de forma estética, diversas tradições orais de Angola, ele se mantém sempre vivo, como marco fundador do sistema literário angolano, cujas raízes se encontram nas chamadas “literaturas da noite”, caracterizadas pela presença de narradores orais, exímios na arte de contar estórias à volta das fogueiras.

Ângela Beatriz de Carvalho Faria, professora de Literatura Portuguesa da UFRJ, debate, em "A paixão é um fio de chuva em vidro de janela: olhos nus: olhos”, de Mia Couto e “Olhos nos olhos, de Chico Buarque", as mutações do olhar e do sujeito na ficção contemporânea do século XXI, a partir da análise de um conto de Mia Couto e de ensaios contidos em O olhar (Org. Adauto Novaes). A referida professora indaga se a releitura intertextual do exercício amoroso e de seu percurso (seduções, plenitudes, perdas, lapsos e superações) são capazes de suscitar a seguinte questão: perde-se ou não a quem se ama?

Em ensaio intitulado "Estação das chuvas: um diálogo entre história e literatura", Alexsandra Machado, professora de Leitura e Produção de Textos da Unisuam e doutoranda da PUC/RJ, busca desenvolver uma leitura do romance Estação das chuvas, do escritor angolano Eduardo Agualusa, mostrando que a “reescritura romanesca da história” ora desconstrói mitos e heróis, ora salienta que alguns episódios, esquecidos pela historiografia oficial, podem ser relidos de outra forma, abrindo possibilidades de novas reconstruções identitárias.

Vima Lia Martin, Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da USP, em "“Mundo misturado” de Guimarães Rosa e Mia Couto", discute particularidades do modo de composição ficcional de Guimarães Rosa e Mia Couto, com base na aproximação dos contos “A terceira margem do rio”, de Rosa, e “Nas águas do tempo”, de Couto. Segundo a pesquisadora, no caso da obra do escritor brasileiro, aspectos da tradição oral sertaneja, transmudados em estilo, moldam o texto escrito; já na obra coutiana, dados constitutivos da lógica da oralidade, sobretudo daquela vinculada às línguas changana e ronga, originárias de etnias do sul de Moçambique, também conformam a linguagem, dotando o texto de grande expressividade.

Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva, Professora de Literaturas Africanas, também da UFRJ, em "Um olhar em direção à narrativa contemporânea moçambicana", procura traçar um perfil da produção de alguns escritores moçambicanos, efetuando aproximações entre eles e mostrando algumas singularidades em suas respectivas obras. O ensaio leva a constatar que a ficção moçambicana contemporânea vem produzindo textos de primeira ordem, cada vez mais influenciados por modelos nacionais, o que aponta para um estágio fundamental na superação da dependência de modelos externos.

Em "Memória, esquecimento e identidade: a configuração dos narradores em Antes de nascer o mundo, de Mia Couto", Shirley de Souza Gomes Carreira, Professora Titular da UNIABEU, focaliza os discursos dos narradores no universo diegético do romance. A pesquisadora do artigo identifica planos narrativos, cada um deles com um narrador autodiegético, que, em tom confessional, narra a sua própria história. O dilema enfrentado pelas personagens na ficção, isto é, a tensão entre memória e esquecimento na busca da definição da própria identidade, reflete-se igualmente no plano do discurso, por meio da articulação entre oralidade e escrita.

Fernanda Antunes Gomes, doutoranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFRJ, em "Crônica: um gênero entre”, tece reflexões sobre algumas das características da crônica, reconhecendo o “lugar desse gênero” como um “entrelugar”, em razão de seu caráter intervalar e multifacetado. A autora indaga sobre a maneira como o narrador desse tipo de texto constrói o viés intimista próprio desse estilo narrativo. Para tanto, analisa textos de cronistas das Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa.

Por fim, fechando esta edição, Zetho Cunha Gonçalves, poeta e prosador angolano, oferece aos leitores de Mulemba 3 dois textos instigantes sobre dois importantes escritores africanos: Luís Carlos Patraquim, de Moçambique, e Ruy Duarte de Carvalho, de Angola. Em "Zefanias Plubius Sforza, um moçambicano com qualidades", Zetho propõe uma leitura, que analisa o desempenho da ironia, do humor e da desconstrução das teorias literárias sobre o romance, na elaboração das personagens de A canção de Zefanias Sforza, romance de Patraquim. Em "Mukanda ao Ruy Duarte de Carvalho", presta uma homenagem póstuma a Ruy Duarte de Carvalho, um dos maiores poetas, escritores, intelectuais, antropólogos de Angola. Gonçalves faz uma espécie de “missiva poética”, em que se mesclam vocábulos em português e em idioma cuvale, uma das línguas autóctones de Angola, e celebra a memória de Ruy Duarte, revelando a grande saudade provocada pela ausência do amigo.

A Comissão Editorial