Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Artigo:

“NÃO SOU MESMO UMA FEMINISTA?” A POLÍTICA DO CORPO EM O ALEGRE CANTO DA PERDIZ, DE PAULINA CHIZIANE

“’Am I not a feminist?’ Body politics in Paulina Chiziane’s O Alegre Canto da Perdiz”

Ana Luísa Valente Marques Teixeira
Pós-doutoranda no Centro de Estudos Africanos – ISCTE -Lisboa – Portugal
Professora Associada – ISLA -Lisboa

RESUMO:
Este artigo propõe uma leitura do romance de Paulina Chiziane, O Alegre Canto da Perdiz (2008), a partir da conflitualidade entre classe, gênero e raça, enquanto conceitos social e culturalmente construídos. Questionarei a possibilidade de este romance ser a nova expressão de uma écriture féminine (CIXOUS, 1975) em Moçambique, defendendo que: 1. existe uma abordagem intencional ao conceito de “falocentrismo” (DERRIDA, 1993) através de uma (re)escrita do corpo feminino; 2. Chiziane desenvolve o jogo entre uma concepção particular e uma concepção universal (WITTIG, 1983) do conceito “mulher”; 3. é atribuído um significado simbólico à condição de mãe (KRISTEVA, 1980), que se transforma numa fonte subliminar de opressão; 4. é possível perceber a presença de uma expressão lésbica de amor, já que o texto dá forma ao conflito entre a rendição a uma heterossexualidade imposta (“compulsory heterosexuality”. RICH, 1980) e a necessidade de resistir e lutar contra a opressão da mulher que daí resulta.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa; Literatura Moçambicana Estudos de Gênero; Feminismo.

ABSTRACT:
This paper proposes a reading of Chiziane’s novel O Alegre Canto da Perdiz (2008), taking into account the intersections between class, gender and race, as socially and culturally constructed concepts. I shall question whether this novel might be the latest expression of an écriture féminine (CIXOUS, 1975) in Mozambique, showing that: 1. there is an intentional approach to “phallogocentrism” (Derrida, 2000), in Chiziane’s (re)writing of the female body; 2. Chiziane develops a specific interplay between a particular and a universal point of view (WITTIG, 1983) on the concept of “woman”; 3. motherhood is ascribed a symbolic meaning (KRISTEVA, 1980) and becomes a subliminal source of oppression; 4. it is possible to uncover a lesbian voice in Chiziane’s narrative, as the text gives form to a conflict between the compliance with compulsory heterosexuality (RICH, 1980) and the need to resist and struggle against women’s oppression as its outcome.

KEYWORDS: Luso-African literature, Mozambican literature; Gender Studies; Feminist Studies.

       O surgimento da Organização da Mulher Moçambicana, em 1972, significou a viabilidade de uma representação ideologicamente objetiva dos direitos das mulheres moçambicanas.

      O conceito “mulher,” com sua incontornável determinação de contextos sociais e políticos específicos, viria progressivamente dar lugar ao enraizamento de um conflito entre representações ideológicas do feminino e a realidade quotidiana das mulheres em Moçambique. A concepção político-ideológica de gênero, desenvolvida pelo programa de Reconstrução Nacional da Frelimo, imediatamente após a independência do país, em 1975, não contribuiu, na realidade, para erradicar o posicionamento submisso da mulher na sociedade moçambicana. A rejeição da poligamia, a condenação, quase moralista, da gravidez na adolescência, bem como as novas estruturas sociais impostas com base no conceito marxista-leninista de vida comunitária e reforma agrária, exerceram um impacto determinante na organização familiar e, particularmente, no papel social, cultural e político da mulher moçambicana. É, no entanto, fundamental, não negligenciar o fato de que a consciencialização e participação política da mulher foram tornadas realidade pelo projeto da Frelimo. Não obstante, algumas questões fundamentais são, até hoje, pertinentes: de que forma esta nova realidade nacional correspondeu efetivamente às necessidades das mulheres moçambicanas? De que modo se posicionaram as mulheres, por exemplo, no contexto da guerra civil moçambicana, que vitimou o país, após 1975, até 1992?

      Uma das conquistas mais significativas do fim do período colonial em Moçambique foi, sem dúvida, a consolidação de uma voz intelectual específica, que encontrara já as suas raízes na escrita de João Albasini, tendo-se afirmado por intermédio da poesia anticolonial de José Craveirinha, Jorge Rebelo, Rui Nogar, entre outros.

      O contributo feminino mais relevante na emergência de uma poética de cariz moçambicano foi dado por Noémia de Sousa, cuja poesia conduziu indubitavelmente ao desenvolvimento de uma presença autoral feminina, no seio do que considero ser já uma tradição literária moçambicana. Abordando a questão da mulher, directa ou transversalmente, no seu processo criativo, Noémia de Sousa contribuiu significativamente para uma gradual erradicação do que escolho apelidar de uma “ausência presente”. Este conceito paradoxal remete para o processo de silenciamento de vozes que, no entanto, não são desassociáveis de corpos, atestando, assim, uma inegável fisicalidade.

      As vozes autorais femininas moçambicanas põem em relevo uma realidade desconfortável. Esse desconforto é uma consequência direta de sua capacidade de ler os contextos históricos, sociais e culturais que acompanharam o crescimento de Moçambique, acusando, não raro, os muitos sofrimentos intrínsecos.

      A ficção de Lília Momplé denuncia uma realidade neocolonial(1);, vigente no país, a partir da independência, pois outras formas de colonialismo permaneceram e/ou se criaram. A escrita dessa autora focaliza a mulher enquanto sujeito e objeto, no seio do complexo cenário pós-colonial moçambicano.

      Outra escritora moçambicana que surge nessa época é Lina Magaia que atribui à guerra civil moçambicana uma dicção feminina, pois em seus escritos é a mulher quem retrata a realidade caótica e cruel; há em seus textos um tom bastante documental, assim como no seu romance de 1994, Delehta. Pulos na Vida. Lina mostra os horrores da guerra e defende que a literatura de mulheres moçambicanas não deve ser encarada exclusivamente sob um ponto de vista de avaliação estético-literária, o que é algo bem polêmico.

      As implicações políticas de sua escrita têm vindo a tornar-se cada vez mais evidentes, particularmente através de sua capacidade de revelar o encontro entre os conceitos de classe, raça e género. Essas questões conceptuais irão perpassar também pela voz autoral feminina de outra escritora moçambicana: Paulina Chiziane, que será o centro deste artigo.

      Paulina publicou, até hoje, cinco romances, entre 1991 e 2008: Balada de Amor ao Vento (uma edição da autora, de 1991; outra publicada em Portugal, em 2003), Ventos do Apocalipse (1999), O Sétimo Juramento (2000), Niketche, uma História de Poligamia (2002), e O Alegre Canto da Perdiz (2008). Esses títulos foram publicados, em Portugal, pela Editorial Caminho. Em Maputo, em 2008, publicou pela Editora Índico o livro de contos intitulado As Andorinhas, obra que se esgotou, imediatamente, logo após o lançamento.

      A narrativa de Chiziane discute predominantemente as questões fundamentais que determinam a condição histórica, social e política da mulher moçambicana. O seu discurso ficcional é essencialmente um discurso sobre “gênero”, que subsequentemente atenua a fronteira entre estética e ideologia.

      O debate acadêmico sobre a condição da mulher conduziu à coexistência entre uma análise dos contextos sociais, culturais, políticos, que condicionaram a experiência das mulheres, e a emergência de práticas discursivas que (re)leem e (re)escrevem o conceito de “feminilidade”. Inerente a todos estes desenvolvimentos teóricos, está a necessidade incondicional da emergência de uma novo conceito de protagonismo feminino, independentemente dos contextos sociais e culturais em questão. Uma nova agência feminina deve ser experienciada e exprimida. Essa necessidade advém de uma ideologia falocrática dominante (IRIGARAY, 2002), que atribui à mulher uma subalternidade, frequentemente silenciada.

      Este artigo propõe uma leitura do romance de Paulina Chiziane, O Alegre Canto da Perdiz (2008), a partir da conflitualidade entre classe, gênero e raça, enquanto conceitos social e culturalmente construídos. Será discutida aqui a possibilidade de este romance ser uma nova expressão da écriture féminine (Cixous, 1975) em Moçambique, pois:
1. existe, nele, uma abordagem intencional ao conceito de “falocentrismo” (DERRIDA, 1993), quando efetua uma (re)escrita do corpo feminino;
2. Chiziane desenvolve o jogo entre uma concepção particular e uma concepção universal (Wittig, 1983) do conceito “mulher”;
3. é atribuído, no romance em questão, um significado simbólico à condição de mãe (KRISTEVA, 1980), que se transforma numa fonte subliminar de opressão;
4. é possível perceber, na narrativa, a presença de uma expressão lésbica de amor, já que o texto dá forma ao conflito entre a rendição a uma heterossexualidade imposta (“compulsory heterosexuality”, RICH, 1980), e a necessidade de resistir e lutar contra a opressão da mulher que daí resulta.

      Em O Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane constrói um diálogo entre realidades cronológicas distintas, através de vozes femininas multigeracionais.

      A estória de Maria das Dores, uma mulher que aparece nua nas margens do rio Limpopo, metaforiza a busca do entendimento da identidade, à medida que a narrativa progride. A sua aparição desperta repulsa nas mulheres, “...porque o nu de uma se reflecte no corpo da outra...” (CHIZIANE, 2008, p.33), e o seu comportamento categoriza-a como uma mulher louca, que tem “um nome belíssimo, mas triste. Reflete o quotidiano das mulheres e dos negros” (CHIZIANE, 2008, p. 16).

      O narrador desde logo distingue dois processos de discriminação: racial e de gênero. A condição da mulher, no entanto, conduz a um sofrimento particular, que se não relaciona exclusivamente com a cor da pele. Verifica-se, desta forma, que Chiziane universaliza a dor da mulher, que ultrapassa a própria discriminação racial.

      É justamente sobre o sofrimento “no feminino” que Chiziane nos fala. A sua estratégia de escrita conduz o leitor ao longo de uma observação do posicionamento histórico das mulheres, por intermédio de excertos de uma prosa informada por uma estrutura oral. Por meio desses momentos narrativos, ela encontra a condição universal da mulher, que ultrapassa questões raciais, étnicas, ou poderes sociais e econômicos, revelando um paralelo com a argumentação de Monique Wittig (1983), no que respeita à interpretação de uma abordagem literária universal do conceito de identidade. A escritora feminista defende:

But whatever one chooses to do on the practical level as a writer, when it comes to the conceptual level, there is no other way around- one must assume both a particular and a universal point of view, at least to be part of literature. That is, one must work to reach the general, even while starting from an individual or from a specific point of view. This is true for straight writers. But it is true as well for minority writers. (WITTIG, 1983, p. 65) (2);

       Essa capacidade revelada de construir um conceito universal de feminilidade através da escrita, aproxima a prosa de Chiziane da representação do conceito de “mulheres” de que nos fala Wittig, por oposição ao mito social e cultural que o termo “mulher”, no singular, comporta(3);. No entanto, verificamos uma justaposição entre essa abordagem universal, universalizante e as características particulares inerentes à triangulação “classe / gênero / raça”. Este jogo conceptual transforma o romance em questão de Chiziane na sua leitura mais significativa do conflito racial subjacente à construção de um conceito de “identidade moçambicana”, como resultado dos processos históricos das realidades colonial e pós-colonial.

      O que o autor afro-americano W.B.DuBois(4) apelidou de “problema racial” (“race problem”), ainda no século XIX, é abordado em O Alegre Canto da Perdiz através de uma construção narrativa analéptica, que nos conduz pela voz narrativa ao passado de Serafina e da sua filha, Delfina. A rejeição de Delfina da sua cor de pele e do posicionamento social e econômico a ela inerente é momentaneamente posta em causa pela sua relação com José dos Montes, com quem casa. José dos Montes luta para conquistar a condição de “assimilado”, para Delfina, que progressivamente rejeita as raízes culturais de ambos, não venha a abandoná-lo. A descrição do processo oficial de “assimilação” em Moçambique, que o narrador nos apresenta, denuncia uma violenta renúncia à identidade cultural:

Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua barbara. Jura, renúncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença. Vamos, queima os teus amuletos, os velhos altares e os velhos espíritos pagãos. José faz o juramento perante um oficial de justiça, que mais se parece com um juramento de bandeira. ...(CHIZIANE, 2008, p. 117).

       O relacionamento subsequente de Delfina com o branco Soares, como forma de conseguir uma posição socioeconômica significativa, ficcionaliza o conceito de “terceiro espaço” (“third space”) desenvolvido por Homi Bahbha(5), veiculando um encontro inter-racial, resultante e gerador de um conflito identitário.

      Apesar disso, encontramos, nesta leitura da complexidade inerente ao hibridismo, uma distinção evidente, embora sutil, da representatividade do conceito de “gênero”. Num diálogo bastante significativo, Delfina e a sua mãe revelam concepções distintas do corpo feminino negro, tanto na sua fisicalidade, como no seu posicionamento cultural, social e econômico. As duas mulheres, no entanto, acreditam na importância do hibridismo racial como veículo de poder social e econômico:

– Porque não me fizeste com um branco, mãe? Felizes são as brancas e as mulatas, que nasceram com diamantes no corpo. – Para quê essa tortura? És preta e ainda bem... Não faltará um branco para morrer de amor por ti, minha filha. (CHIZIANE, 2008, p. 84).

       A luta de Delfina pela ascensão social coisifica o corpo feminino, enquanto fonte de poder econômico, revelando a interconexão entre o sistema capitalista e uma estrutura social falocrática(6).

      Chiziane constrói um jogo entre dois lados da identidade da mulher negra: Delfina rejeita a sua cor de pele, mas, vendendo o seu corpo, reconhece, ironicamente, o seu valor. O seu corpo é também fonte de vida, sendo que dois dos seus quatro filhos resultam do encontro inter-racial. A rentabilidade do corpo feminino negro, que reafirma o paradoxo da sua rejeição, é novamente evidenciada pela venda da sua filha Maria das Dores ao velho feiticeiro, Simba.

      O papel da maternidade, nesta paradoxal coexistência entre o poder valorizador do ventre gerador das mulheres e a objetivação desvalorizadora do corpo feminino, assume uma posição central na narrativa. A maternidade concretiza a dualidade conceptual inerente à heterossexualidade, mas também se torna um veículo de afirmação da identidade feminina. A ideologia falocrática é informada por uma lógica de alteridade, posicionando a mulher como o “Outro” e, assim, validando repetidamente o mito da costela de Adão.

      Considerando a construção de um novo discurso sobre maternidade, proposto por Júlia Kristeva (1980), que a não reduz à função biológica exclusiva das mulheres, encontramos na narrativa de Chiziane um novo paradoxo no vivenciar o corpo feminino. Cedendo ao significado social e econômico da cor da pele, Delfina alimenta um processo de dupla discriminação: por um lado, o ódio de ser negra e a complexidade identitária inerente ao processo de hibridação racial; por outro, o papel do corpo feminino na perpetuação desse mesmo conflito de identidade, através de uma heterossexualidade inflexivelmente dual, que se estrutura na abordagem do corpo da mulher enquanto objeto. O conceito prevalecente do corpo da mulher negra enquanto objeto, cuja sensualidade quase mítica alimenta a afirmação da sexualidade masculina, resulta de um posicionamento ideológico falocêntrico, que é por ele perpetuado e que evidencia o encontro entre a discriminação racial e a discriminação de gênero.

      O Alegre Canto da Perdiz revela-se um exemplo do conceito de écriture feminine, proposto por Hélène Cixous, construindo um discurso particular sobre o feminino, que transforma o texto numa metáfora do corpo da mulher. Cixous (1975) afirma: “…Woman must write herself: must write about women and bring women to writing, from which they have been driven away as violently as from their bodies …” (WARHOL, 1991, p. 347)(7).

      Considerando O Alegre Canto da Perdiz como um exemplo de écriture feminine, tal como o conceito é entendido por Cixous, a sua denúncia da heterossexualidade como fonte de opressão da mulher, subsequentemente “coisificando” o corpo feminino, revela a presença da estética de escrita lésbica. De modo muito semelhante ao caso do conceito de écriture feminine, a ficção de temática lésbica tem sido debatida, questionada, definida, teorizada, redefinida, negada. Tomando em consideração o conceito de “lesbian continuum” de que nos fala Adrienne Rich (RICH, 1986) para o entendimento de um conjunto alargado de contextos relacionais entre mulheres, incluindo os estágios iniciais da relação mãe-filha, O Alegre Canto da Perdiz pode ser considerado um romance lésbico. Tal classificação não se justifica pela abordagem directa ao amor e / ou sexualidade lésbica, mas sim pela estrutura temática da narrativa, construída a partir de um sentido particular de cumplicidade, intimidade assexual e aliança entre mulheres. A separação de Delfina da sua filha, Maria das Dores, à partida, contrariaria este argumento. No entanto, o comportamento de Delfina sustenta-se numa heterossexualidade compulsiva (RICH, 1986), bem como na lógica do sistema capitalista. A oposição de Maria Jacinta ao comportamento da sua mãe face à sua irmã, Maria das Dores, reafirma a ideia de apoio mútuo entre mulheres, o qual encontra a sua expressão mais evidente na reconciliação final, que tem lugar no desfecho da narrativa: os laços familiares são revelados e a complexa teia contextual de relacionamentos é descortinada.

      Paulina Chiziane não se considera uma feminista. A sua rejeição de um posicionamento pró-feminismo deve ser entendida essencialmente como uma não-aceitação de sistemas categorizantes. Acredito, no entanto, que a interação entre o ativismo e a teorização feminista, particularmente no que concerne às ditas “minorias étnicas”, resultou na convicção determinante da necessidade fundamental de lutar contra processo de homogeneização identitária. A narrativa de Chiziane revela, afinal, um posicionamento que o movimento feminista radical dos anos 60 e 70 do século passado apelidou de “woman-identified-woman” (BUNCH, 1987). O Alegre Canto da Perdiz não é exceção.

NOTAS:

1 O escritor queniano Ngugi wa Thiong’O’s (1993) discute as implicações sociais, culturaise políticas da presença do conceito ideológico de “centro”, evidenciando as realidades neocoloniais
na África pós-colonial.

2 “Seja o que for que escolhamos fazer pragmaticamente enquanto escritores, a um nível conceitual,não há possibilidade de contornar a questão: é inevitável assumirmos um ponto de vista particular euniversal, pelo menos para nos inserirmos no âmbito literário. Isto é, devemos trabalhar no sentidode alcançarmos o geral, mesmo partindo de um ponto de vista individual ou especifico. Esta
realidade aplica-se a autores heterossexuais, mas é também verdade para autores pertencentes agrupos minoritários”. (Minha tradução).

3 Essa construção conceptual é o argumento-base defendido pela teórica feminista Judith Butler, nasua leitura do conceito “gênero”. (BUTLER, 1990).

4 The souls of black folk (Greenwich, Conn., Fawcett Publications, 1961).

5 The location of culture (New York &London, Routledge, 1994).

6 Em Black feminist thought. Knowledge, consciousness, and the politics of empowerment (NewYork, Routledge, 1991), Patricia Hill Collins apresenta um estudo dos processos de criação deestereótipos do corpo feminino negro, com as suas inerentes consequências sociais, culturais epolíticas. Não obstante as diferenças contextuais inerentes às leituras do corpo feminino afro-americano e do corpo feminino afro-moçambicano, encontramos, na “coisificação” do corpo damulher negra, um ponto comum aos dois cenários.

7 “A mulher deve-se escrever a ela própria: deve escrever sobre mulheres e trazer as mulheres para oexercício da escrita, do qual elas foram tão violentamente afastadas, como dos seus próprios corpos”. (Minha tradução).

REFERÊNCIAS:

BHABHA, Homi. The location of culture. New York &London: Routledge, 1994.

BUNCH, Charlotte. Passionate politics: feminist theory in action. NY: St. Martin’s Press, 1987.

BUTLER, Judith. Gender trouble. Feminism and the subversion of identity. New York: Routledge, 1990.

CHIZIANE, Paulina. O alegre canto da perdiz. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.

_________. Balada de amor ao vento. Lisboa: Editorial Caminho, 2003.

_________. Niketche. Uma história de poligamia. Lisboa: Editorial Caminho, 2002.

_________. O sétimo juramento. Lisboa: Editoral Caminho, 2000.

__________. Ventos do apocalipse. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

COLLINS, Patricia Hill. Black feminist thought. knowledge, consciousness, and the politics of empowerment. New York: Routledge, 1991.

DERRIDA, Jacques and Geoffrey Bennington. Jacques Derrida. Chicago: The University of Chicago Press, 1993.

DUBOIS, W.B. The souls of black folk. Greenwich, Conn.: Fawcett Publications, 1961.

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MAGAIA, Lina Delehta. Pulos na vida. Maputo: Editorial Viver, 1994. _________. Duplo massacre em moçambique. histórias trágicas do banditismo II. Maputo: Cadernos Tempo, 1989.

_________. Dumba-nengue. Histórias trágicas do banditismo I. Maputo: Cadernos Tempo, 1987.

MOMPLÉ, Lilia Os olhos da cobra verde. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1997.

________. Neighbours. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1995.

________. Ninguém matou Suhura. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1986.

RICH, Adrienne.“Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence.” Blood, bread, and poetry. Selected prose 1979-1985. New York: Norton, 1986.

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WARHOL, Robyn R. and Diane Price Herndl, eds. Feminisms: an anthology of literary theory and criticism. NJ: Rutgers, 1991.

WITTIG, Monique. “The Point of View: Universal or Particular?” Feminist issues. v.3, n.2, p. 63-69, 1983.