Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Artigo:

AMAZÔNIA: VOZES EM NEGRITUDE

Amazon: voices from the negro people

Josse Fares e Paulo Nunes
Professores pesquisadores
da Universidade da Amazônia- UNAMA
E-mail: pontedogalo@ig.com.br

RESUMO:
Todas as vezes que falamos da formação cultural da Amazônia, vêm-nos à mente os traços da cultura indígena e/ou cabocla. Pouco se tem explorado as afrofonias advindas do literário. Assim é que neste ensaio se pretende mostrar as vozes da negritude nos poemas de Batuque, de Bruno de Menezes (1989/1963).

PALAVRAS-CHAVE: Bruno de Menezes, negritude, Amazônia, poesia

ABSTRACT:
Every time we discuss the cultural background in the Amazon, we envision in our mind the traces of the indigenous and/or cabocla culture. Little have we delved into the afro-phonics from the literature. Therefore, in this paper, it is intended to show the voices from the Negro People in the poems from Batuque, by Bruno de Menezes (1989/1963).

KEYWORDS: Bruno de Menezes, Negro People, Amazon, poetry

       Este trabalho é, antes, um relato de experiência de como se dá, na Universidade da Amazônia, sediada em Belém do Pará, a implantação da disciplina Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. A necessidade, apontada inicialmente pela lei federal 10.639, se deu com a reestruturação da grade curricular da graduação em Letras da Unama, e amadureceu após curso de pós-graduação em Letras, realizado na PUC-Minas. Nossos primeiros passos foram, desse modo, orientados pela professora Maria de Nazareth Fonseca, a quem muito devemos nesta empreitada. O curso de literaturas de países que estão à margem dos centros tradicionais de cultura do Ocidente, numa região como a Amazônia, também à margem do Brasil, tende a fazer considerar o talhe diferenciado, pois estamos a unir duas margens como a metáfora de um grande rio: o Amazonas e seus afluentes, rios que precisam de outra margem, uma terceira, que faça dialogar vozes pouco ouvidas no cenário cultural brasileiro (se calhar, neste meio, a Amazônia é menos conhecida que a África).

      Diferentemente do que ocorre em outras regiões, na Amazônia, mais especificamente em Belém do Pará, a pesquisa de autores africanos que têm o português como língua oficial, salvo engano, está engatinhando. Assim é que alguns poderão aqui nos ver "chover no molhado". Mas "chover no molhado", numa região atravessada pelas águas, pode tornar-se, antes de um problema, uma solução.

      Nossa estratégia de trabalho visa ao diálogo como estratégia de pesquisa, estudo e difusão. Assim, através de possibilidades intertextuais, África e Amazônia estarão predispostas ao diálogo. Autores de além e aquém, mar que provavelmente nunca tiveram oportunidade de conviver, o farão por intermédio da literatura: a palavra será ponte. E nosso pretexto inicial acontecerá com o angolano Agostinho Neto e o brasileiro Bruno de Menezes. Passaremos, a seguir, ao nosso estudo propriamente dito.

* * *

O preto que chama seus irmãos de cor a tomarem consciência de si próprios tentará apresentar-lhes a imagem exemplar de sua negritude e voltar-se-á para a sua própria alma a fim de captá-la. Ele se quer farol e espelho concomitantemente; o primeiro revolucionário será o anunciador da alma negra, o arauto que arrancará de si a negritude para estendê-la ao mundo, meio profeta, meio guerrilheiro, em suma, um poeta na acepção da palavra vate. (SARTRE, 1965, p.99-100)

       Batuque, da autoria de Bruno de Menezes (1893/1963), embora seja um livro de poesia, nos faz lembrar uma narrativa iorubá, pois o drama do negro oprimido é denunciado por meio de uma “narratividade poética”, o que também ocorre nos poemas de José Craveirinha, como demonstraremos mais adiante. Para os integrantes desta etnia, todo homem antigo – entronizado, portanto, no manto da sabedoria –, depois de enterrado, transforma-se em pedra. Bruno de Menezes, a partir de 1963, ano de sua morte em Manaus, metamorfoseou-se em pedra angular do Modernismo no Norte do Brasil.

      Polêmicas à parte, as veredas modernistas da Amazônia – e somos adeptos dessa corrente – foram desbravadas com a publicação de Bailado Lunar (1924) e sedimentadas com Batuque, que saiu do prelo, no livro Poesias, em 1931. Desde aí, Batuque desvinculou-se da matriz e fez carreira solo (aqui as apropriações musicais, o leitor verá, não são mera coincidência!). Hoje, poderíamos afirmar que falar da “poesia da negritude” brasileira, sem citar este livro, é reforçar uma lastimável lacuna. E, mais que isso, é sonegar uma expressão significativa da geografia poética brasileira.

      Batuque, por exemplo, alinha Bruno de Menezes a um Nicolas Guillén, ícone da poesia latino-americana. Batuque é, pois, ponte a espraiar a negro-amazonicidade pelo mundo. E isso pode ser atestado pela referência que faz, em 1960, a revista francesa Presénce Africaine, front das lutas libertárias dos países de África contra o colonialismo europeu:

Batuque é uma coleção de imagens vivamente coloridas, estuantes de labor popular, porém impregnadas de uma atmosfera sagrada e mística, não encontrada, habitualmente, na poesia negra latino-americana (...) Apesar dos temas e cenários profanos, sofre a influência de uma inspiração religiosa, revelando o negro brasileiro em sua integridade cósmica, trabalhado pela ação ancestral que lhe modela a dança e o canto. (Presénce africaine, abril/maio de 1960. Apud: MENEZES, 1993, s/n, p. 287).

       Como vemos, se Bruno não alcançou o destaque que deveria, isso provavelmente se deve à ausência de uma política cultural que nos tire, os amazônidas, do isolamento.

      Se Batuque apresenta algo que inicialmente pode parecer piegas ao leitor de hoje (o culto aos heróis da História dos vencedores: Princesa Isabel, Duque de Caxias, Visconde de Rio Branco, ou, ainda, uma adjetivação desmedida: “ardor cívico”, “arrojo máximo”), é um livro que se destaca como canal de uma voz indignada que brada – “farol e espelho”, no melhor estilo preconizado por Sartre –, com conhecimento de causa, contra a opressão imposta aos negros que sofreram (e infelizmente sofrem ainda) “a tragédia da raça”.

      Amigo de Tó Teixeira (que, como uma mulemba, emprestou-lhe as sombras que o fizeram mergulhar no universo dos livros) de quem foi aprendiz de encadernador, Bruno jamais se afastaria da vivência intelectual. Sua trajetória de “agitador cultural” não mais declinou, nem mesmo quando, em 1963, foi acometido por um infarto fulminante e Ogum resolveu levá-lo montado em seu “cavalo de vento”.

      As habilidades verbais desse “poeta da lua” revelam uma poesia que evola, diante do leitor, assonâncias, aliterações, entonação em sons nasais, bem como, em termos temáticos, faz a defesa da religião afro-brasileira e dos valores étnicos dos negros. Tudo isso faz de Batuque um livro sui generis. Não é demais lembrar Édson Coelho (O Liberal, 25/10/96), também poeta, conterrâneo de Bruno, que se refere ao autor de Bailado Lunar como “mestre das palavras percussivas”: “... as ancas que vão num remanso rolando/ no tombo do banjo...”

      Mas, ao que tudo indica, o que dá um tom que difere Batuque dos demais livros de poemas negritudinistas brasileiros é a sua “arquitetura” amazônica. Evidenciam-se, nos poemas desta antologia, o perfume das ervas da mata, a liquidez das águas barracentas da bacia amazônica, o malabarismo dos “corpos lisos lustrosos” dos negros que exalam eroticidade, pessoas que têm um pé na Amazônia, mas não cortaram o cordão umbilical que os atava à África-mãe. Após este livro, torna-se difícil, pelo menos entre nós, a exploração da temática da negritude, mantendo-se o mesmo tom de expressividade.

      Guardando-se as devidas proporções, Batuque é obra recordista em popularidade entre os leitores paraenses, se considerarmos os livros que foram publicados nos limites da própria região, desvinculados de grandes editoras nacionais. Ele chega à sétima edição, o que totaliza uma média de mil exemplares consumidos a cada dez anos. É pouco! – diriam alguns. Nem tanto, responderíamos, dado que nunca uma grande editora nacional – com eficiente esquema de divulgação e distribuição – se ocupou desta obra, como deveria ter feito.

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      A poesia negritudinista de Bruno de Menezes antecede as edições de Poesia negra de expressão portuguesa (1953) e da Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais (1975), coletâneas que reúnem as produções de poetas de países africanos de língua portuguesa. Apesar do distanciamento temporal e espacial, as antologias africanas, não raro, ecoam, em diversos poemas de Batuque, do poeta paraense, através dos ritmos da enunciação e dos temas trabalhados no enunciado: o engajamento político-social, a presença de culturas ancestrais, os rituais religiosos, entre outros.

      Na esteira do enunciado, tanto os versos de Bruno de Menezes, quanto os dos poetas africanos transformam as palavras em “punhais” que se erguem para gritar denúncias e indignações. São vozes de África, como ouvimos no poema “Epopéia”, de Francisco José Tenreiro: “Não mais a África – da vida livre – e dos gritos agudos de azagaia! (...) Foste homem perdido/ em terras estranhas. // No Brasil/ ganhaste calos nas costas/ nas vastas plantações de café” (TENREIRO, In: ANDRADE,1975, p.137-8). E também vozes do Brasil: “Ó negro arrancado do torrão congolense/ (...) Foste quem plantou partidas de cana/ Na terra da América/ que o engenho ainda hoje mastiga rangendo” (MENEZES, 1993, v. 1, p. 245).

      Dentre as figuras ancestrais, destaca-se a mãe que, “invocada pelo eu-lírico, identifica-se, ao mesmo tempo, com a mãe singular (...) e a própria África” (VERANI, 2006, p.7). “Ai/ mãe negra chorando/ ai doce terra gemendo (...)/ há só flores de sangue/ girassóis de dor (...) meus filhos todos partiram (NETO, 1985, p.9-10) Nesses versos do poema “Adeus à hora da largada”, de Agostinho Neto, a “mãe singular” desdobra-se para personificar, como afirma Verani, a própria África a lamentar a partida dos filhos para a escravidão. Esse tom doloroso já se via em “Mãe Preta”, de Bruno de Menezes: “És Mãe Preta uma velha reminiscência/ das cubatas, das senzalas, / com ventres fecundos padreando escravos.” (MENEZES, 1993, v. 1, p. 225).

      Os rituais religiosos, tanto em Batuque, quanto nos poemas africanos, são marcados, no enunciado, pelo teor social e, na enunciação, pela musicalidade dos versos. “Tambor está velho de gritar/ ó velho deus dos homens/ deixe-me ser tambor/ só tambor gritando na noite quente dos trópicos (...) Só tambor velho de gritar o silêncio amargo da Mafalala (...)// Oh, velho deus dos homens/ deixa-me ser tambor/ só tambor!” (CRAVEIRINHA. Apud: JORGE, 2006, p. 205).

      O tambor é também “um instrumento de convocação ritualística” (JORGE, 2006, p.204) muito comum nos rituais afro-brasileiros. Nestes e, no poema de Craveirinha, o eu-poético se quer tambor para gritar protestos, convocar à luta.

      Nos antológicos versos do poema “Batuque”, Bruno de Menezes, entre aliterações e sinestesias, traz à cena o ritual do batuque, assinalado pelo sensualismo e pela denúncia: “E o batuque batendo e a cantiga cantando/ lembram na noite morna a tragédia da raça/ (...) O batuque rebate rufando banzeiros/ As carnes retremem na dança carnal!... ” (MENEZES, 1993, p.216).

      Bruno de Menezes, um afro-descendente, nascido em Belém do Pará, ao que nos parece, antecipou-se aos próprios poetas africanos dos países de língua portuguesa na construção de uma poesia que traz a lume as vozes da “terra africana que o branco assaltou”. Somente isso, talvez, justificasse a reedição desse seu livro, mas há muito mais a sorver na leitura deste Batuque.

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, Mário Pinto de. Antologia temática de poesia africana: na noite grávida de punhais. Lisboa: Ed. Sá da Costa, 1975. v. 1. COELHO, Édson. “Bruno de Menezes, me

stre das palavras percussivas”. In: “Caderno Cartaz”, O Liberal. Belém, 25/10/1996.

FARES, Josse & NUNES, Paulo. Transmares: vozes em diálogo (ensaios sobre literatura portuguesa, literatura africana de expressão portuguesa e outras interfaces). Belém: EDUNAMA, 2008.

FONSECA, Maria de Nazareth. “Presença da literatura brasileira na África de língua portuguesa”. In: LEÃO, Ângela Vaz (org.). Contatos e ressonâncias. Belo Horizonte: EDPUCMG, 2003.

JACOB, Célia (org.). Asas da Palavra, revista de Graduação do curso de Letras da UNAMA, vol.10. Belém: EDUNAMA, 2006. v. 5 e v. 10.

JORGE, Sílvio Renato. “José Craveirinha: e a busca da palavra moçambicana”. In: SEPÚLVEDA, Maria do Carmo & SALGADO, Maria Teresa (org.). África e Brasil: letras em laços 1. São Caetano do Sul: Yendis, 2006.

MENEZES, Bruno. Obras completas de Bruno de Menezes. Belém: Secretaria de Cultura do Pará,1993. v. 1 (Obra poética).

NETO, Agostinho. Sagrada esperança. São Paulo: Editora Ática, 1985. SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o Racismo. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965.

VERANI, Dalva. “Agostinho Neto: o lugar da poesia em tempo de luta”. In: SEPÚLVEDA, Maria do Carmo & SALGADO, Maria Teresa (org.). África e Brasil: letras em laços 1. São Caetano do Sul: Yendis, 2006.