Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Artigo:

APRESENTAÇÃO

Este número de Mulemba – estruturado a partir do tema “Escritas Dissonantes: Vozes de mulheres em África” – traz, além de artigos de pesquisadores das Letras Africanas de Língua Portuguesa, crônicas, poesias e biografias de escritores dessas literaturas. A revista se organiza em três partes: I) Ensaios; II) Escritos Literários; III) Biografias e Autobiografias.

Abre a primeira parte o ensaio “Da voz quase silenciada à consciência da subalternidade: a literatura de autoria feminina em países africanos de língua oficial portuguesa” , da professora doutora Tania Macedo, da USP, que estabelece uma leitura comparativa de textos de escritoras das literaturas africanas de língua portuguesa, apontando alguns traços da trajetória poética de autoria feminina em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

A seguir, o artigo “Mulheres e memória da guerra nas crônicas de Ana Paula Tavares”, da professora doutora Simone Pereira Schmidt, da Universidade Federal de Santa Catarina, propõe uma aproximação entre experiência traumática da guerra e lembranças de mulheres. O foco de análise incide sobre as crônicas da escritora angolana Ana Paula Tavares, publicadas na imprensa portuguesa, entre 1999 e 2002, e, posteriormente, reunidas no livro A cabeça de Salomé (2004).

“Matilde Van Dun e o desejo que alimenta a visão”, de Vanessa Ribeiro Teixeira, doutora em Letras pela UFRJ, trata do modo pelo qual a personagem Matilde Van Dun, do romance A gloriosa família – o tempo dos flamengos, de Pepetela, dialoga com a possibilidade de criação de novas formas de compreensão dos meandros da história e do desejo feminino, já que seu olhar alcança espaços e realidades futuras.

“A negligência condensada em `Quando falta oxigênio no berçário´, na voz de Sónia Gomes”, de André Lopes da Silva, mestre em Literatura e Linguística pela UFG, versa sobre a relação entre literatura e sociedade, tendo como ponto de partida a análise do conto “Quando falta oxigênio no berçário”, da já mencionada escritora angolana.

Os cinco textos seguintes enfocam a obra da escritora Paulina Chiziane, primeira mulher a escrever romances em Moçambique. Tais ensaios contribuem para um maior adentramento no universo de crítica à escrita da autora. Em “Reflexões sobre gênero na narrativa de Paulina Chiziane: uma leitura do conto “As cicatrizes do amor”, Maximiliano Torres, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, analisa o conto “As cicatrizes do amor”, da citada escritora, à luz da teoria crítica feminista. Aborda a problemática da dominação masculina e apresenta o termo gênero como uma categoria de análise perpassada por papéis socialmente construídos, demarcados por relações de poder.

Em “A África e o feminino em Paulina Chiziane”, a professora doutora Maria Geralda de Miranda, interpreta a ação das personagens femininas: Sarnau, Rami, Delfina, Maria das Dores, dos romances Balada de amor ao vento, Niketche: uma história de poligamia e O alegre canto da perdiz, lendo-as como representações dos dilemas culturais, históricos e sociais vivenciados pela mulher moçambicana na atualidade.

Em “ ‘Não sou mesmo uma feminista?’ A Política do Corpo em O Alegre Canto da Perdiz, de Paulina Chiziane”, Ana Luísa Valente Marques Teixeira, pós-doutoranda do Centro de Estudos Africanos – ISCTE de Lisboa, propõe uma leitura do romance O Alegre Canto da Perdiz (2008), a partir de conflitos entre classe, gênero e raça, enquanto conceitos social e culturalmente construídos.

Em “Inversões e espelhamentos críticos em Paulina Chiziane, a paródia como recurso especular em Niketche: uma história de poligamia”, Cândido Rafael Mendes da Silva, mestre em Letras pela UFRJ e professor do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, IFRJ, estuda, no romance Niketche: uma história de poligamia, a desconstrução paródica de textos da literatura universal como a Bíblia, Branca de Neve e Alice no País das Maravilhas.

Em “Mulheres negras, sexualidades e a herança das relações coloniais: nuances revelados em Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane, e O Olho mais Azul, de Toni Morrison”, Rafael César, mestrando da UFF, discute o conceito de “raça” (enquanto fenômeno social e não biológico), investigando as relações raciais e de gênero nos romances Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane, e O Olho mais Azul, de Toni Morrison.

Fechando a parte ensaística, o artigo, de tema livre, intitulado “Uanhenga Xitu: mundos em confronto de uma terra chamada Angola”, de Rita Chaves, professora doutora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da USP, se debruça criticamente sobre a escrita de Uanhenga, demonstrando como esta efetua uma consolidação de uma tradição literária que vem desde António de Assis Júnior e se articula com uma ideia de nacionalidade.

Nesta edição, resolvemos inovar, introduzindo uma Parte II, com escritos literários de autores africanos: Paula Tavares abre a seção com o poema "Entre Luz e Sombra" – homenagem a Leopold Sédar Senghor ; José Luís Mendonça e Chó de Guri nos brindam, respectivamnete, com a crônica “Se eu fosse mulher...” e com o conto “Da rejeição à afirmação”. A seguir, se encontram inéditos do livro Estrangeira Condição, de Ana Mafalda Leite; “Poemas soltos”, de Amélia da Lomba; os poemas “Mulher” e “Criança”, de Fátima Langa; e a resenha crítica “Com a cabeça à tona da água”, de Paula Tavares, apresentando um livro da escritora nigeriana Buchi Emecheta.

Por fim, a Parte III inclui biografias de Paula Tavares, Ana Mafalda Leite, Amélia da Lomba, e autobiografias de Chó do Guri e Fátima Langa.

Os textos aqui publicados, tanto os de ensaio, como os literários, são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores, e contribuíram, a nosso ver, para aprofundar uma visão crítica em relação a questões não apenas acerca dos preconceitos contra as mulheres, mas também da vivência destas em diversos países africanos. Mas não só, uma vez que tais reflexões sobre o feminino podem ser estendidas a outras partes do mundo. Por isso, talvez possamos sugerir que tais textos se apresentam, como diria Clarice Lispector, como “mutações faiscantes (...) que aqui caleidoscopicamente registr(amos)"¹.

A Comissão Editorial

¹LISPECTOR, Clarice. Água Viva. 2.ed. Rio de Janeiro: Artenova, 1973. p. 40.