Mulemba - n.1 - UFRJ - Rio de Janeiro - Brasil - Outubro de 2009

Artigo:

As reticÊncias do camalundo

The suspention marks of camalundo

Francisco Soares
Prof. Dr., Associado da Univ. Évora e Prof. Titular da Univ. Agostinho Neto
Endereços: CP 1284, Benguela - Angola
R. Eucaliptos, 57, Évora – Portugal

RESUMO:
Este artigo visa mostrar, com intuito pedagógico, ao leitor como vamos percorrendo caminhos suscitados pelo texto para cumprirmos o mecanismo de feed-back que sustenta a disseminação da leitura num circuito comunicativo devidamente codificado e suficientemente aberto. Toma-se por exemplo um poema do angolano Aires de Almeida Santos que tem por motivo principal a figura da mulemba.

PALAVRAS-CHAVE: poesia, leitura, árvore, teoria, Angola.

ABSTRACT:
This paper, within its pedagogical character, aims at showing the reader how we go through roads that reveal themselves through the text in order to fullfil the feed-back mechanism that sustains the reading dissimination within a communicative circuit using adequate coding and being open enough. As an example we use a poem of the angolan Aires de Almeida Santos, this poem has as its main motif the image of the mulemba.

KEYWORDS: poetry, reading, tree, theory, Angola

       A função do estudioso da literatura não consiste em revelar às massas ignorantes a verdadeira, única e escondida mensagem do texto. Já há muito tempo que não constitui novidade nenhuma dizê-lo. No entanto, a ruína da crítica e da teoria se provocou contestando isso, porém, confundindo isso com o essencial do trabalho feito. Por equívoco, passou-se ao lado do que havia a fazer (e que alguns fizeram, como, por exemplo, os primeiros estruturalistas – os de Praga), não se atacando o problema de raiz, ou seja, a confusão entre o trabalho crítico, o teórico e a interpretação mais ou menos filosofante ou moralizante (ou desmoralizante). O que procuro, na esteira de outros, é explicar como funciona um texto de forma a provocar várias mensagens que o leitor constrói, várias interpretações, como também os efeitos mais propriamente estéticos. E ensinar ainda os limites e os suportes para tal construção receptiva. Dada a temática deste número de Mulemba e em homenagem, simultânea, à revista, à árvore, à simbologia da árvore, pego num exemplo bem conhecido de Aires de Almeida Santos:

A mulemba secou

No barro da rua, 
Pisadas  
Por toda a gente,  
Ficaram as folhas  
Secas, amareladas  
A estalar sob os pés de quem passava.  
Depois o vento as levou...  
 
Como as folhas da mulemba  
 Foram-se os sonhos gaiatos  
 Dos miúdos do meu bairro.  
 
(De dia, 
Espalhavam visgo nos ramos  
E apanhavam catuituis,  
Viúvas, siripipis  
Que o Chiquito da Mulemba  
Ia vender no Palácio  
Numa gaiola de bimba.  
 
De noite,  
Faziam roda, sentados,  
A ouvir,  
De olhos esbugalhados  
A velha Jaja a contar  
Histórias de arrepiar  
Do feiticeiro Catimba.)  
 
 Mas a mulemba secou  
 E com ela,  
 Secou também a alegria  
 Da miudagem do bairro:  
 
O Macuto da Ximinha  
Que cantava todo o dia  
Já não canta.  
O Zé Camilo, coitado,  
Passa o dia deitado  
A pensar em muitas coisas.  
E o velhote Camalundo,  
Quando passa por ali,  
Já ninguém o arrelia,  
Já mais ninguém lhe assobia,  
Já faz a vida em sossego.  
 
 Como o meu bairro mudou,  
 Como o meu bairro está triste  
 Porque a mulemba secou...  
 
Só o velho Camalundo  
Sorri ao passar por lá!... 

       Em primeiro lugar, é preciso perceber a organização do poema, lendo-o no nível em que basta a si próprio, porque ele próprio nos dá os elementos sobre os quais construímos a recepção. Trata-se de uma alegoria, figura dominante, aliás, na lírica do autor, composta essencialmente por alegorias em verso. Essa alegoria faz a conotação da Mulemba com o bairro: conforme secou a árvore, entristeceu o bairro. Repara-se que o próprio autor diz: “Como o meu bairro está triste / Porque a mulemba secou”.

      Se o velho Camalundo agora sorri ao passar por lá é porque ele era incomodado antigamente, quando a mulemba e a miudagem do bairro estavam bem vivos. Ora, secando a mulemba, os miúdos crescendo e afastando-se, ele passa já sossegado.

      Para perceber a produção interna de significado do poema não precisamos, portanto, de mais nada, nem sequer saber que os outros poemas do autor são geralmente alegóricos. Há, porém, no próprio texto, indícios de que algo fica por dizer, pois ele termina com reticências a seguir à segunda menção ao velho. Se for claro para nós porque ele sorri ao passar por lá, que sentido as reticências fazem? As reticências nos avisam de que algo ficou por dizer. O que ficou por dizer para além do texto? Por elas, o poema começa, claramente, a propor-nos uma adivinha, um enigma e, portanto, a sustentar a sua disseminação criativa (o que não significa desorientada, nem arbitrária).

      Pensando nisso, o leitor pode reparar ainda mais no poema e ver que ele é bipolar, em torno de duas referências à sombra da mulemba: uma, a dos miúdos, depois graúdos, com seus sonhos; outra, a dos temores: iconizados primeiro pelas estórias da “velha Jaja” (contadas à sombra da mulemba), cujo protagonista é o “feiticeiro Catimba” (que realmente existiu em Benguela), e, depois, o outro “velho”, Camalundo. A ligar os dois há pouco mais que a velhice – e todos sabemos o que significa a velhice naquele tempo e lugar. Um velho é uma árvore muito grande, cheia de frutos que nós precisamos colher, e à sombra da qual repousamos, refletimos ou conversamos. O resto é diferente: ela conta estórias de arrepiar, à noite, sob a mulemba; ele é ‘arreliado’ pelos miúdos quando passa junto à mulemba (supõe-se que durante o dia). O medo que à noite ganham é vingado e afastado à luz do sol pelas provocações a Camalundo, que se torna assim, nessa leitura, catártica figura para os miúdos. Aparentemente, o velho não é conotado com feitiçarias: esse é o Catimba. O velho é conotado com reticências e as reticências não dizem nada do que sugerem…

      Para cumprirmos a indicação dada pelas reticências – nós, os leitores – costumamos intertextualizar, com base em suspeitas, associações rápidas de imagens numa racionalidade minimamente consensual. Assim, cobrimos o vazio que as reticências deixam com as suas suspeitas fazendo uma espécie de feed-back, de retorno através de metáforas de aproximação sustentadas em textos recordados. É o caso de quando procuramos contextualizar imediatamente, procurando os significados de mulemba, por exemplo, integrado no mais amplo campo semântico da palavra árvore. A árvore é um eixo do mundo que liga céu e terra, espíritos sem corpo e corpos com espírito, para além de simbolizar a maternidade e a feminilidade. Esta segunda parte está explicitamente representada no poema pela conotação entre ela secar e partirem os miúdos do bairro. A outra é mais sutil.

      A mulemba é uma árvore grande, frondosa. À sombra dela se reúnem as pessoas para conversar, transmitir e receber informações, passar ensinamentos, etc. Assume particular significado o fato dessa árvore sagrada possuir ligação com os espíritos falecidos, antepassados, recebidos algum dia por Kalungangombe, o pastor e juiz das almas e das vidas (de ‘kalunga’ – deus, mar, morte, que por sua vez vem de ‘lunga’, inteligência, sabedoria; somado a ‘ongombe’ – boi, por extensão: rebanho).

      A mulemba, simbolizando a relação axial entre os dois mundos, na leitura do poema, nos reinveste com um dado novo que nos faz relê-lo mais ou menos da forma que se tornou consensual: a mulemba ao secar é, com certeza, má notícia, porque deixa de haver ligação entre os dois mundos. Assim, a vida se acaba no bairro por ter acabado a ligação. Os meninos, hoje crescidos, riem-se do medo que lhes causavam as estórias do feiticeiro Catimba, mas não sabem porque secou a mulemba.

      Parece-me uma leitura possível. Mas, nesse caso, o que fazer do velho Camalundo e suas sorridentes reticências? Sorri porque é egoísta somente, porque as crianças o não ‘arreliam’ já? Porque é meio tolo? Terá existido mesmo um velho Camalundo que se ria dessas coisas por ser tolo? Ou sorri porque eles não sabem a causa e o sentido de a mulemba ter secado? Ou sorri por causa desse mesmo sentido?

      Estas inquietações nos levam a desenvolver a aventura da pesquisa, que vai diversificá-la conforme os leitores.

      Continuando a intertextualizar, pegamos outro poema de outro benguelense, este já de nascença: Ernesto Lara, filho. Na famosa carta lírica escrita a Miau, a partir da “Europa”, ele reconhece:

Infância perdida

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento. 

       Que nos diz o “varrer das cinzas / do velho Camalundo”? No mínimo que ele existiu. Para o leitor informado acerca da poesia benguelense, o poema ganha então mais um significado plausível. Apenas mais um entre muitos. Sim, porque mesmo assim não fechamos a leitura, nem fecharemos, visto que buscamos explicá-la e não dar-lhe um sentido único. Será, por exemplo, que a mulemba secou por alguma maldição que o velho Camalundo conhecia ou mesmo rogou? Nada nos diz que sim, mas dada a simbologia da árvore aqui, ela secar é sempre uma maldição.

      Se continuarmos a intertextualizar, Camalundo é o nome de uma pequena povoação e de um pequeno rio que ficam a norte de Malange, segundo mapas que qualquer aluno pode pesquisar em rede. Malundo, por sua vez, para além de um apelido comum em países de maioria bantu, é o nome de uma povoação populosa no Uíje (Malundu Kassumba), de outra no Moxico, de outra em Cabinda e ainda de outra em Moçambique. Lundo é o nome de uma ilha na Tanzânia que fica na região de Malundo. Será que o velho se chamava assim por vir de Camalundo ou de outro Lundo? Será que, vindo de lá, conhecia melhor as tradições? Não sabemos, portanto, esse caminho de leitura não é produtivo: é reticente…

      Não sabendo, a nossa recuperação de sentido (o sentido cuja existência a pontuação deixou no ar) continua pela peregrinação bibliográfica. Por aí nos lembramos de que, para o leitor irrequieto, esse nome pode jogar com um título de Óscar Ribas: Ilundo: espíritos e ritos angolanos. O livro teve edição original em 1958, uma segunda em 1975, mas é ainda fácil de encontrar em Angola a edição de 1989 da UEA (Luanda). Não tendo acesso ao livro, o leitor pode fazer uma pesquisa na Internet e encontrar, por exemplo, esta definição:

O Ilundo é o candomblé de Angola na sua forma original que se vem mantendo através dos tempos. A "MANHA-IA-UMBANDA" (Mãe de Santo) deita "Dicosso" (bebida do santo) numa filha de santo para a purificar. (MAUC, 1979)

       Ilundo é o plural da palavra de raiz lundu (sing. kilundu), que significa genericamente ‘espírito’. O calundu é, portanto, o espírito, um espírito. Para os leitores que tenham possibilidade de consultar a obra, Óscar Ribas cita um provérbio: “o calundu foi pessoa, a pessoa será calundu” (RIBAS, 1989, 32). No mesmo capítulo, um pouco mais a frente (e repetindo o provérbio), ele define: “Calundus são espíritos de elevada hierarquia e evolução. Representam almas de pessoas que viveram em época remota, numa distância de séculos”. Eles também se transmitem “por herança, principalmente pelo lado materno”, formando “uma família espiritual em relação ao seu paciente” (RIBAS, 1989, 34).

      Há, no velho Camalundo, um sorriso, mas não nos fica a imagem de um velho malvado. Isso talvez não seja casual, pois, “ao contrário do canzumbi, que é perverso, vingativamente perseguindo com molestações várias, o calundu é complacente”. O povo aconselha: “diz: ó meu calundu!, não digas: ó meu canzumbi” (RIBAS, 1989, 35).

      Estas ligações dão-nos outra orientação possível para a leitura do que simboliza o nome do velho Camalundo ali. Caso possamos pensar que nele se acumulam dois prefixos (o que não seria inédito na história das línguas, incluindo a portuguesa): ca e ma.

      Uma estória huambina.

      Sabemos também que Aires de Almeida Santos nasceu no Chinguar, Bié e que Ernesto Lara, filho, esteve muito ligado ao Huambo (então Nova Lisboa) e à Chianga, onde estudou e trabalhou na escola agrícola. Aires de Almeida Santos, segundo a biografia publicada na UEA, veio miúdo para Benguela, onde fez o ensino primário, tendo o secundário sido no Huambo. E porque falo nisso? Por estarem mais perto de Camalundo? Não. Porque na cidade de Nova Lisboa houve uma praga rogada por um velho colono que se prende justamente com uma mulemba. Vamos ver.

      Quem nos conta a história é Sebastião Coelho, famoso jornalista huambino que nasceu em 1931 e morreu em 2002. Conta-a num texto datado de 2000, «A Mulemba da maldição».

      Um velho branco, Albano Canto dos Santos, provavelmente pioneiro da instalação dos portugueses nas terras do Wambo, casou-se com a filha do soba local. Esperava encontrar muitos diamantes e que um dia o seu filho se tornasse também soba. Plantou uma mulemba para o dia em que ele o fosse, pois à sua sombra reina também o soba. A mulemba cresceu, tornou-se frondosa e, portanto, tudo indicava que a sua esperança iria realizar-se. Os amigos, porém, combinados, puseram uns vidros no rio onde ele mandara escavar um buraco (junto à fonte) à procura dos diamantes. Convencido de que os tinha encontrado, foi confirmar tudo com o farmacêutico que, fazendo parte da tramóia, lhe disse que eram mesmo diamantes o que ele encontrara. O velho colono convocou uma grande festa, com refeição e tudo, para comemorar com os amigos. No final da refeição alguém lhe conta a verdade. Condoído, isolou-se, ficou doido, subia aos ramos da mulemba contemplando a mina e um dia enforcou-se. Deixou uma carta e vale a pena transcrever esta parte do testemunho de Sebastião Coelho:

Na carta, delirante e profética, que escreveu e que teria sido encontrada junto ao tronco da árvore, pedia para ser enterrado ali, ao lado da mulemba, pois, se assim não acontecesse, a sua alma, inquieta, voltaria para vingar-se: ... e quero o meu corpo a alimentar as raízes da árvore que eu plantei, quero que os meus sumos penetrem nesta terra e se juntem, lá embaixo, com as riquezas que não encontrei, mas que existem.
Com elas sonhei transformar este país rico e de gente pobre, num rico país para toda a gente. Sonhei ver o meu filho mulato Pedro Evango, feito soba do Huambo, sentado à sombra deste pau sagrado, criar uma nação próspera e feliz, mistura de várias raças.
Fui atraiçoado pela pior traição, a traição dos amigos e da confiança. Se me atraiçoarem de novo, saibam que esta mulemba vai secar e quando a mulemba secar, o Huambo vai desaparecer, destruído pelos seus próprios filhos. E as riquezas do solo não serão para ninguém... tudo será ruína e desolação!

       Infelizmente, Sebastião Coelho não regressou ao Huambo para ver se a mulemba secou. Nem eu. Lembrou-se ele, na falta disso, da destruição que a cidade sofreu com a guerra civil, sobretudo no início de 1993, na famosa batalha dos 55 dias e depois na recuperação da cidade pelas forças governamentais. Mas os acontecimentos que nos narra se deram em um tempo recuado o suficiente para a lenda de Albano Canto dos Santos circular pela cidade. O próprio Sebastião Coelho a ouvira na sua meninice. Da meninice do Huambo, a estória podia espalhar-se para mais cidades, nada inédito em Angola. O leitor informado pode agora intertextualizar com a mulemba do bairro onde Aires de Almeida Santos foi miúdo, provavelmente em Benguela, antes de ir estudar para o Huambo. À luz da praga do velho Albano, podemos explorar a hipótese de leitura que torna o acontecimento (a mulemba secar) uma maldição.

       E o velho Camalundo? De que sorri ele ainda? Agora sorri de nós, que também estamos a secar e temos de fechar o texto.

REFERÊNCIAS:

MAUC, Albano Neves e Sousa 28 de Março de 1979. Ceará: UFC. 1979 [último acesso em 27-06-09]. MAUC exposições. Disponível em: http://www.mauc.ufc.br/expo/1979 /01/index1.htm.

RIBAS, O. Ilundu: espíritos e ritos angolanos. 3.ª ed. Luanda: UEA; 1989.

COELHO, S. A mulemba da maldição. As mukandas do kota kandimba. 05.04.2005 [último acesso em 27-06-09]. Disponível em: http://mukanda.blogspot.com/2005/04/mulemba- da-maldio.html.