Mulemba - n.1 - UFRJ - Rio de Janeiro - Brasil - Outubro de 2009

Artigo:

ApresentaÇÃO

É com muita alegria que apresentamos Mulemba, revista que se deseja espaço de delicadeza e abrigo, mas também de força e resistência, como o nome que a inspira; revista que nasce com o intuito de alargar ainda mais a área de estudos africanos, que tanto cresceu nos últimos anos.

Nesse primeiro número, oito talentosos ensaístas exploraram a riqueza do tema da árvore nas culturas africanas. Trazemos também dois artigos livres, produzidos pelos notórios pesquisadores da área: Benjamin Abdala Júnior e Laura Padilha.

Em “A árvore convertida em palavras”, Cátia Miriam Costa toma exemplos da Literatura oral e escrita, para analisar as diferentes formas literárias, inspiradas em árvores, percorrendo memórias e identidades, aqui especialmente focadas na voz mestiça ou crioula de vários autores angolanos. Polemizando com a tradição crítico-teórica, que restringe a ocorrência do real maravilhoso – seja como gênero literário, numa visão mais tradicional, seja como modo discursivo, numa visão mais contemporânea – à produção literária latino-americana, Flávio Garcia aborda o romance A varanda do frangipani, do escritor Mia Couto, como filiável aos gêneros do insólito. Francisco Soares, no artigo “As reticências de Camalundo”, mostra-nos os vários caminhos de leitura suscitados pelo poema do angolano Aires de Almeida Santos, que tem por motivo principal a figura da mulemba.

A partir da obra Yaka, de Pepetela, e do conto “O embondeiro que sonhava pássaros”, de Mia Couto, Maria Geralda de Miranda discute a simbologia da árvore, como abrigo e resistência, no artigo “O embondeiro e a mulemba: árvores e literatura”. Renata Souza da Silva recorre às figuras da criança, da árvore e do ancião, para enfocar a obra A morte do velho Kipacaça, explorando alguns meandros das culturas banto-angolanas e os efeitos produzidos por elas nesta obra de Boaventura Cardoso.

Em “Cabo-Verde: da árvore da vida à árvore das palavras”, Simone Caputo Gomes acompanha o primeiro ponto do périplo do cientista Charles Darwin, para oferecer-nos uma viagem literária na qual somos levados a conhecer a variabilidade da flora caboverdiana e o papel do arquipélago como importante plataforma giratória. Guardiã da tradição, morada dos ancestrais, condição feminina de fertilidade, acolhimento, força e delicadeza, símbolo da terra natal são algumas das nuances da árvore, enfocadas por Teresa Paula Alves Calzolari, em “Aprendizes da seiva: o homem e a árvore nos contos de Mia Couto”. “A árvore que tinha batucada: um diálogo entre literatura angolana e o realismo maravilhoso”, de Thaís Santos, fecha o ciclo de artigos em torno da temática da árvore, procurando mostrar como o conto do escritor Boaventura Cardoso se apropria de elementos da cultura tradicional banto-angolana para recriar um universo insólito numa comunidade africana contemporânea, tensionando tradição e modernidade.

Em “Doze dias de abril, sob teto de zinco”, Benjamin Abdala analisa a obra do escritor moçambicano Mia Couto, mostrando-nos como o 25 de abril é problematizado por um romance que questiona o sentido histórico do evento e suas reais decorrências para o país. Laura Padilha volta-se para as representações da guerra na poesia angolana anterior e posterior à independência, no texto “Guerra, poesia, estilha(çament)os – um olhar para Angola”, discutindo o que denomina de estilhaçamentos presentes na produção lírica contemporânea à guerra civil de Paula Tavares, Alexandra Dáskalos, João Tala, entre outros.

Esses são os textos que oferecemos a vocês, leitores de Mulemba, com os votos de que a fertilidade poética dessa árvore sagrada abençoe a todos nós.

A Comissão Editorial