Mulemba - n.10 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2014

Artigo:

MEMÓRIA E IDENTIDADE EM CAMPO DE TRÂNSITO, DE JOÃO PAULO BORGES COELHO

MEMORY AND IDENTITY IN JOÃO PAULO BORGES COELHO’S CAMPO DE TRÂNSITO

Terezinha Taborda Moreira
PUC – Minas

RESUMO:
O presente estudo investiga a relação entre memória e identidade na narrativa Campo de trânsito, de João Paulo Borges Coelho, na qual o leitor se depara com a reconstrução memorialística dos “centros de reeducação” criados pela FRELIMO nos anos 1970 e 1980.

PALAVRAS-CHAVE: memória; identidade; FRELIMO; centros de reeducação; João Paulo Borges Coelho

ABSTRACT:
The present study investigates the relationship between memory and identity in João Paulo Borges Coelho’s Campo de trânsito, narrative in which the reader is faced with the reconstruction of the "re-education centers" created by FRELIMO in the 1970s and 1980s.

KEYWORDS: memory; identity; FRELIMO; re-education centers; João Paulo Borges Coelho

         Historiador dedicado à pesquisa e ao ensino de História Contemporânea de Moçambique na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Maputo, João Paulo Borges Coelho é um intelectual moçambicano, conquanto tenha nascido no Porto em 1955, filho de pai português e mãe, avó e bisavó moçambicanas naturais da Ilha do Ibo, como afirma em entrevista ao Jornal Macua, de Moçambique. Daí sua opção pela nacionalidade moçambicana, embora o próprio autor pondere:

Para mim a identidade não é uma coisa estática nem feita de acordo com pressupostos teóricos que na prática nem sempre se verificam. Eu acho que ela se processa a vários níveis e à partida temos, num sentido mais amplo, a identidade de seres humanos. Depois vamos descendo a outros níveis até chegarmos a uma identidade especial que é a identidade nacional, que é muito importante porque as relações do mundo ainda se pautam pelas nações, que se regem pelo respeito e reconhecimento a um espaço territorial, a obediência a um estado; há muitas identidades que convivem todas no mesmo espaço e em espaços variados. E até há a identidade individual! Penso que nós devemos viver com todos os elementos identitários que nos circundam não apenas no nosso meio mais próximo mas também num plano mais amplo. A identidade não é uma caixa fechada nem os seus elementos são estáticos; é uma coisa dinâmica e viva. (FILIPE, 2008).

         As afirmações de João Paulo Borges Coelho sinalizam um viés, pelo qual podemos abordar, no romance Campo de trânsito, publicado em 2007, a relação entre memória e identidade, compreendendo esta, a partir de sua relação com a alteridade. Neste estudo, procuraremos colocar em evidência como a dinâmica da identidade das personagens do romance se constitui pelas oposições que se estabelecem entre elas, guardando uma relação especial com o tempo e a tradição, por meio da memória.

        A identidade se revela como um conceito que pode ser compreendido sob múltiplas perspectivas. Edgar Morin (1996), por exemplo, reflete sobre a identidade a partir da dimensão da alteridade e da forma como lidamos com ela. O autor destaca três grandes aspectos da identidade. O primeiro compreende-a como um sistema baseado na diferença entre o si e o “não-si”, com valor de salvaguarda do si e com rechaço do “não-si”. O segundo entende que o eu realiza uma certa unidade, mas operando a partir de dois princípios associados, o de exclusão e o de inclusão, sendo que este segundo faria com que pudéssemos integrar, em nossa subjetividade, outros sujeitos diferentes de nós, permitindo-nos também integrar nossa subjetividade pessoal numa subjetividade coletiva. O terceiro refere-se ao princípio de intercomunicação com o semelhante, que deriva do princípio de inclusão.

        A definição de Morin nos faz compreender que a identidade diz respeito a um processo de autoconhecimento. Esse processo é construído coletivamente, por meio de elementos históricos e relacionais, numa dinâmica de inclusões e exclusões. Nesse caso, a identidade, apesar de ser uma representação de si, pressupõe, necessariamente, uma relação com o outro.

        É essa compreensão da identidade, com base em implicações coletivas e políticas, que nos permite pensá-la como forma histórico-social de individualidade e como uma representação de si que pressupõe, necessariamente, uma relação com o outro; é isso que nos interessa observar no romance João Paulo Borges Coelho. Encontramos na obra personagens cujas identidades se constituem e se sustentam pelos lugares que ocupam em relação a outras personagens. Esses lugares, em geral, denotam oposições entre o passado e o presente, a tradição e a modernidade, num jogo mediado pela memória.

        Campo de trânsito encena a memória da pós-independência moçambicana, marcada pela guerra civil. Para Carlos Serra (1997), no momento da independência, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) teria imposto à população uma concepção moderna de Estado-Nação, desconsiderando o fato de a identidade nacional não ser uma realidade objetiva e inquestionável, mas, conforme Benedict Anderson (1989), o resultado de uma série de representações erigidas para a criação de um sentimento de pertença. Assim, a FRELIMO teria rejeitado as formas de poder tradicional baseadas na religião, origem étnica ou linhagem aristocrática, que teriam podido auxiliá-la na construção de uma identidade nacional, para propor a criação de um novo país. No processo de nacionalização da FRELIMO se destacam a destruição do sistema de saúde rural existente, baseado em hospitais missionários; a remoção forçada das populações para aldeias comunais; a destruição do sistema de distribuição comercial, a rapina do setor privado da economia; a constituição de campos de reeducação (CABRAL, 2005) e, enfim, como resultado de todas essas ações, a guerra civil.

        A escrita de João Paulo Borges Coelho reflete esse tempo, propondo uma discussão sobre o contexto sócio-histórico-cultural de Moçambique na pós-independência. O escritor trabalha na perspectiva da apresentação do passado pela memória. Nessa perspectiva, o passado moçambicano é reconstruído a partir do presente. O autor adota a linha proposta por Walter Benjamin quando defende que o historiador deve visar à construção de uma montagem, de uma colagem de escombros e fragmentos de um passado que somente existe na sua configuração presente de destroço (BENJAMIN, 1987, pp. 222-232). E, por meio da memória, (re)inscreve os traços deixados pelos tempos da pós-independência moçambicana no presente do país, enquanto propõe uma modalidade de relação com o passado, que redimensiona a percepção sobre a identidade moçambicana.

        Na narrativa Campo de trânsito, o leitor entra em contato com os impactos da “revolução frelimiana” (SERRA, 1997, p. 99) sobre Moçambique, especialmente no que se refere aos “centros de reeducação” criados pela FRELIMO nos anos 1970 e 1980. Analisando a reorganização política de Moçambique nesse período, Carlos Serra observa que o objetivo central dos revolucionários frelimianos era promover uma mudança no comportamento das pessoas. Tal objetivo resultava de um “protocolo utopiano de regeneração social”, cuja implantação previa um conjunto de medidas interligadas que compreendia a educação política em todos os níveis escolares, a fim de

combater os “reaccionários” e o desvio ideológico, as “estruturas políticas retrógradas”, a sabotagem económica, o desemprego, a vagabundagem, o afluxo às cidades, etc. Uma atenção muito particular foi dada à “infiltração”, à “detecção” e à “denúncia” dos “elementos infiltrados”. E dado que o “inimigo” era encarado como polimorfo, uma tarefa fundamental consistia no seu inventário, um pouco como, antes, os Portugueses procediam em relação aos “corpos”. Na verdade, se no passado se fazia digamos que o cadastro dos corpos úteis para o trabalho, agora tornava-se indispensável fazer o cadastro dos inimigos da mentalidade revolucionária e do Homem Novo. Aparece um amplo quadro de inimigos: membros das organizações “fantoches” coloniais, agentes da polícia secreta portuguesa, sabotadores econômicos, “operadores psicológicos”, apologistas do capitalismo, defensores e praticantes de qualquer tipo de exploração do homem pelo homem, racistas, tribalistas, regionalistas, agentes do imperialismo, venais e corruptos (especialmente prostitutas), críticos da linha política da FRELIMO, promotores de greves, da divisão do “lucro fácil”. (SERRA, 1997, p. 99)

         Incluía-se nessas medidas a aglomeração das populações dispersas, com o objetivo de buscar soluções para problemas de saúde, educação, abastecimento de água e luz, comunicações, dentre outros. Dessa aglomeração teriam surgido as Aldeias Comunais e teriam sido criados centros de recuperação “destinados a todos aqueles que fossem portadores dos vícios coloniais, nomeadamente vadios e prostitutas” (SERRA, 1997, p. 100). Posteriormente, os centros de recuperação foram transformados em “campos de reeducação” e para lá foram enviados “vários tipos sociológicos de inimigos da revolução” (SERRA, 1997, p. 100).

        Refletindo essa ambientação do espaço moçambicano, Campo de trânsito conta-nos sobre J. Mungau, um trabalhador que vivia em Maputo, e, numa certa noite, foi acordado com pancadas ritmadas na porta do seu apartamento. J. Mungau foi preso e transportado para um Campo de Trânsito, onde teve de aguardar a transferência para uma prisão definitiva. Os motivos de sua prisão não lhe foram revelados. Por isso, J. Mungau vive, aí, uma história kafkiana, que propicia uma reflexão de acordo com as diretrizes da literatura menor, na concepção que desta nos dão Deleuze e Guattari (2002, p. 58) de “quebrar as formas” ideológicas propostas pelo ideário frelimiano e marcar rupturas e novas derivações no contexto moçambicano. Como literatura menor, Campo de trânsito reconstrói um conteúdo sobre a revolução frelimiana que está, necessariamente, “em ruptura com a ordem das coisas” (DELEUZE; GUATTARI, 2002, p. 58).

        A expressão dessa ruptura vai ser evidenciada, por exemplo, no devir-animal que caracteriza algumas das personagens com as quais J. Mungau contracena no Campo de Trânsito: o Bexigoso, homem “maciço, um tudo-nada gordo até, pescoço taurino, cabeça rapada” (COELHO, 2007, p. 11), que, uma vez por mês, traz novos prisioneiros para o local; a esquiva mulher do Professor, em cuja mão direita faltam três dedos e os dois restantes, o polegar e o indicador, conformam “uma pinça de insecto” (COELHO, 2007, p. 50) com a qual ela maneja os objetos; o Diretor do campo, cujas mãos parecem “duas pequenas aranhas movendo-se diligentes” (COELHO, 2007, p. 61); a filha do Chefe da Aldeia, Desengonçada Garça, “um comprido pássaro assustado” com “muitos ossos frágeis para quase nenhuma carne” (COELHO, 2007, p. 61).

        Estudando o devir-animal kafkiano, Deleuze e Guattari observam que ele corresponde a “um conjunto de estados, todos diferentes uns dos outros, implantados no homem no momento em que este procura uma saída” (DELEUZE; GUATTARI, 2002, p. 69). Por isso, os estudiosos consideram o devir-animal kafkiano uma linha de fuga criativa que se constitui a partir de “um único e mesmo processo que substitui a subjectividade” (DELEUZE; GUATTARI, 2002, p. 58). A progressiva perda da subjetividade marca os prisioneiros do Campo de Trânsito, para os quais a adaptação é um fator decisivo, que depende, diretamente, da progressiva consciência da impossibilidade de ser diferente. E, diante da impossibilidade da diferença, o Campo de Trânsito no qual J. Mungau se encontra se configura como um espaço de tensão, onde o sentimento de individualidade deve ser negociado entre alguns provisórios momentos em que o sujeito procura escapar à sua condição primeira de prisioneiro.

        Completam Deleuze e Guattari que o devir-animal não tem nada a ver com um movimento apenas aparente, pois nele a desterritorialização é absoluta, a linha de fuga é programada, a saída é construída. Por isso, o devir-animal tem dois polos reais: um, propriamente animal, e outro familiar. Nele, o animal oscila “entre o próprio devir inumano e uma familiarização demasiado humana” (DELEUZE; GUATTARI, 2002, p. 70). Por isso, as novelas animalistas de Kafka colocam em tensão dois polos ou duas realidades opostas.

        Essa tensão entre dois polos ou duas realidades opostas aparece no romance de João Paulo Borges Coelho no devir-animal que marca as personagens referidas, com as quais J. Mungau contracena no Campo de Trânsito. Ela ecoa as linhas centrais da utopia e da unidade defendidas pela FRELIMO (SERRA, 1997, p. 97) e faz com que uma das primeiras lições que J. Mungau deve aprender no Campo de Trânsito se refira ao significado da coletividade:

“A singularidade é uma categoria forçosamente limitada”, diz o 13.2. “Portanto, uma união simples de singularidades só poderia resultar numa singularidade que, embora maior, continuaria a ser também ela limitada. Na definição do colega falta um aspecto fundamental, que é o da transformação. Uma colectividade é, isso sim, uma união de singularidades transformadas!
“Muito bem, 13.2. Transformadas! Boa definição de colectividade”, diz o Professor. “O grave erro em que muitos incorrem é o de manter invariável a singularidade, o de adicionar entidades que não têm um denominador comum.” (COELHO, 2007, p. 75-76)

         A transformação que se espera ver em J. Mungau parece ser a de alcançar o sentido de coletividade e colocar-se em condições de participar de um coletivo que, nos parece, resultaria da eliminação dos conflitos que se verificam na contraposição de dois espaços, dois polos, ou duas realidades que se opõem: o Campo Antigo e o Campo Novo.

        O Campo Antigo é o espaço da perspicácia, da inteligência, que existe “para a expiação do crime da memória” (COELHO, 2007, p. 96). Nele estão os velhos “prisioneiros-arqueólogos” que “afadigam-se a escavar a terra à procura dos segredos que esta cala dentro. (...) Descascam o grande fruto que habitamos, avançando, camada a camada, pele a pele, com o fito de chegar ao grande caroço interior, à explicação de todas as coisas” (COELHO, 2007, p. 96). Aos objetos escavados pelos velhos, o Chefe da Aldeia trata com grande satisfação, “como se fossem elementos fundamentais para que essa vida antiga pudesse prosseguir para além do tempo” (COELHO, 2007, p. 97). Quanto aos prisioneiros, resta-lhes realizarem, todos os dias, a tarefa de pesquisar o solo com a minúcia que o poder da prodigiosa memória que possuem lhes garante – situação que, para J. Mungau, parece paradoxal, pois, se o crime que os homens expiam é um crime do pensamento, não lhe parece coerente impor-lhes um trabalho que é quase mental e que somente reforça capacidades julgadas e punidas como malditas. À expressão desse paradoxo, J. Mungau recebe a seguinte explicação do Chefe da Aldeia:

Tens de aprender a distinguir lembrança de tradição, Prisioneiro... Ambas dependem da memória mas são inteiramente diferentes. Enquanto a lembrança é um exercício individual e rebelde, fútil e pouco produtivo, a tradição é fruto da ordem. Estes prisioneiros chegaram aqui com as suas privadas e desprezíveis lembranças. Acusavam as autoridades de acontecimentos antigos, acontecimentos dispersos que hoje não fazem qualquer sentido. Aos poucos, contudo, vão chegando à tradição, a este sentido supremo que é sabermos todos de onde vimos, esta certeza de virmos todos do mesmo lugar. E sobretudo, esta vontade de fazermos hoje como foi feito antigamente. (COELHO, 2007, p. 102)

         O Campo Novo é o espaço da força, das engrenagens de carne e osso que se encarregam da extração do petróleo. Nele estão os prisioneiros que se preocupam com o presente e, sobretudo, com o futuro. Eles conformam as singularidades transformadas defendidas pelo Professor do Campo de Trânsito e apresentam uma capacidade de organização que demonstra seu sofisticado domínio da relação entre o singular e o coletivo. Tal domínio, no entanto, não os torna imunes às manobras do Chefe da Aldeia, que, de maneira sagaz, administra o Campo Novo, “dividindo e voltando a unir as forças que se lhe opõem segundo as conveniências da tarefa de que foi incumbido”. (COELHO, 2007, p. 117). Sob esse modelo administrativo, o Campo Novo se caracteriza pela instabilidade, que se projeta, inclusive, sobre as máquinas, uma vez que os prisioneiros são “incapazes de proceder às operações complexas que a reparação requer, presos à repetição dos gestos, a fazer apenas aquilo que lhes é ensinado”. (COELHO, 2007, p. 117). Para consertá-las, necessária se torna a presença dos velhos prisioneiros do Campo Antigo, que o fazem “movidos pelo prazer de descobrir, e repor, a lógica que faz funcionar as engrenagens”. (COELHO, 2007, p. 117).

        As relações que se estabelecem entre o Campo Antigo e o Campo Novo parecem ser aquelas que permeiam os contatos/confrontos entre a tradição e a modernidade. Mantidas em espaços separados, essas duas realidades parecem encenar a reorganização política de Moçambique após a independência. Compreende-se, por essa via, a preocupação do Chefe da Aldeia com a recuperação de uma memória que os tempos modernos da pós-independência moçambicana desejam apagar.

        Na narrativa, o apagamento da memória do antigamente parece respeitar as engrenagens da modernidade, naquela postura de exclusão, pela FRELIMO, das formas tradicionais como componentes da identidade nacional. Daí sua incansável faina em impulsionar a pesquisa do chão, uma vez que essa pesquisa, para o Chefe da Aldeia, “está permitindo descobrir um passado muito mais nítido do que o presente que hoje se vive”. (COELHO, 2007, p. 118). Ciente de que, no presente narrativo, essas duas realidades não se aproximam, pois o quadro político não permite que se estabeleça, entre elas, nenhuma interação, o Chefe da Aldeia evita o contato entre os prisioneiros dos dois campos, para não “unir o músculo à perspicácia, a força à inteligência”. (COELHO, 2007, p. 118). E aguarda o dia em que as escavações trarão para a superfície as marcas do passado, momento em que o Diretor do Campo de Trânsito, como poder político local, será obrigado a reconhecer os direitos das populações rurais e os valores da tradição.

        Diferentemente das demais personagens que encenam na escrita o devir-animal kafkiano, o Chefe da Aldeia, com seus “dedos dos pés retorcidos saindo das sandálias como raízes que procurassem no chão o alimento” (COELHO, 2007, p. 90), instala no contexto narrativo um devir-vegetal por meio do qual a tradição moçambicana se faz presente no texto como uma linha de fuga da própria escrita e de tudo aquilo que ela representa. Na simbologia da árvore a que sua imagem nos remete, lemos a centralidade que faz com que a personagem se torne uma figura axial, Eixo do Mundo (CHEVALIER; GUEERBRANT, 1988, pp. 84-90), que reúne, em torno de si, não somente o Campo Antigo e o Campo Novo, mas também o Campo de Trânsito. Como figura axial, Eixo do Mundo, o Chefe da Aldeia sabe que, “uma vez rasgado, será necessário remendar o pano do mundo com as linhas da tradição”. (COELHO, 2007, p. 193).

        Em contraponto à centralidade do Chefe da Aldeia, encontramos o Diretor que, qual Anansé, a aranha, responsável pelo preparo da matéria dos primeiros homens para que o deus do céu lhes insuflasse vida (CHEVALIER; GUEERBRANT, 1988, pp. 70-72), tenta organizar, em pastas de arquivo “alinhadas e numeradas com uma letra cuidadosa e miudinha” (COELHO, 2007, p. 59), aquele “espaço desarrumado onde cada um faz o que quer, e fá-lo à maneira antiga. Onde se misturam celeiros com animais, animais com gente, onde se espera pela chuva como se espera pelo destino; em vez de o fazer acontecer, em vez de fazer chover” (COELHO, 2007, p. 202). No entanto, como aranha fadada a tecer a frágil realidade de aparências ilusórias, ao invés de configurar o Campo de Trânsito como espaço de regeneração, dentro do ideário frelimiano, o Diretor acaba por revelar, em suas anotações, a fragmentação que o espaço impõe a seus ocupantes, e, portanto, a impossibilidade de se alcançar, no Campo de Trânsito, o coletivo proposto pelos novos ideais políticos da FRELIMO:

As pastas Um e Dois, relativas à Correspondência, incluem os processos dos prisioneiros. Ali, as suas anônimas e miseráveis biografias merecem por uma vez alguma atenção. Surgem aos pares, em grupos ou mesmo individualmente, neste último caso se o contexto que os enreda é complexo ou grave a ponto de merecer um exclusivo ofício expedido, ou então uma nota recebida. Todavia, nenhum deles surge em corpo inteiro, com uma reconhecida singularidade. Os termos que os referem são “secções”, “carradas”, “levas”, “grupos”, “cargas”, e mesmo “unidades”. A Mungau vêm à idéia caixas de braços, pacotes de cabeças, desirmanados pedaços. O tão almejado colectivo não passa afinal de um somatório, já não de singularidades mas de fragmentos dessas mesmas singularidades. (COELHO, 2007, p. 202-203)

         As transformações verificadas nessas personagens expressam como se operam nelas os agenciamentos sociais e políticos que formam a matéria da narrativa. O Chefe da Aldeia e o Diretor encarnam, respectivamente, o poder da tradição e o poder da modernidade. Ambos formam os agenciamentos burocráticos que negociam o poder em Moçambique após a independência. Entre eles, J. Mungau se debate entre limiares de intensidade, numa experiência que vai colocar o leitor em contato com uma realidade em que as relações entre os espaços e as personagens que os habitam descortinam a fragilidade das hierarquias, a imprecisão das fronteiras entre subalternidade e poder, injustiça e justiça, cárcere e liberdade, ódio e amor, alteridade e identidade.

        É o que se verifica, por exemplo, na relação do Professor com os prisioneiros do Campo de Trânsito e com sua mulher. O Professor, “homem vulgar, não fosse o caso de suas mãos serem rígidas, os dedos espetados como paus de giz” (COELHO, 2007, p. 74), encena na narrativa um devir-mineral que remete ao conhecimento sobre a nova ordem instalada no Moçambique pós-independência. Por isso, pode proporcionar aos prisioneiros o conhecimento que, supostamente, eles necessitam adquirir no Campo de Trânsito. Sua relação com os prisioneiros é de complacência, uma vez que lhe compete “ajudar os seus alunos a percorrer o caminho desde a obscuridade até a luz”. (COELHO, 2007, p. 75). Como âncora do Diretor, o Professor atua no Campo de Trânsito de maneira a substituir o modo de conhecer o mundo da tradição, representado pelo Chefe da Aldeia, pelo modo de conhecer o mundo da modernidade. Supostamente, sua ação garante aos prisioneiros o acesso ao conhecimento que a nova noção de coletividade, trazida pela FRELIMO, pede que eles pratiquem. No entanto, a relação do Professor com sua mulher é marcada pela resposta tradicional que ela oferece aos extremismos de sua perturbadora e exaustiva busca pelo conhecimento moderno.

        A mulher do Professor, “mais chegada à terra, literalmente inclinada sobre ela enquanto cava, ... mais arredia ao conhecimento ... não anda à procura de respostas”. (COELHO, 2007, p. 74). À maneira do caranguejo, a mulher do Professor não estabelece uma relação explícita com os prisioneiros do Campo de Trânsito. Enterrada diariamente em sua horta, alimentando-se dos parcos alimentos que cultiva, ela apresenta um comportamento sombrio, sinistro, com ações que salientam a sua “pinça” que se abre e fecha para tentar resistir bravamente ao conhecimento novo que o Professor instala no Campo de Trânsito. Andando para trás, vale dizer, para a tradição, ela instala no presente do Campo o mal maior de permanecer como marca de um excesso de singularidade que expõe as fraquezas e incongruências das propostas modernas do Professor.

        Estrangeiro num campo de trânsito no qual oscila entre a possibilidade de apadrinhamento ao poder, pelo vínculo que pode manter com o Diretor ou com o Professor, e uma aliança com a tradição, por uma ligação com o Chefe da Aldeia, e ao mesmo tempo afastado, gradativamente, de um futuro sem ter encontrado o seu lugar no presente, J. Mungau se amargura com a descoberta de que deixou de saber o lugar ao qual pertence. Resta-lhe, pois, inventar um terceiro lugar, um lugar intermediário, que lhe permita experimentar, pelo menos ilusoriamente, uma sensação de pertença:

Há tempos que não o assalta a obsessão de saber de que o acusam, a obsessão de voltar a atravessar a grande floresta. Não teria para onde ir. Substituiu tudo isso pelo trabalho de fabricar – parece-lhe ser essa a palavra mais adequada – uma familiaridade nova com objectos, pessoas e lugares. Retorna vezes sem fim à grande pedra junto ao rio só para ver se ela não mudou de posição. Descreve mentalmente este lugar quando está longe, e quanto mais exacta sente essa descrição mais nítida é a sensação de que está inventando uma nova casa. (COELHO, 2007, p. 122-123)

         Em Campo de trânsito, a recriação da vida dos “internos” e dos problemas que eles enfrentam em sua convivência diária cria uma intermediação entre espaço e tempo que mina as fronteiras maniqueístas do já referido protocolo utopiano de regeneração social do qual a FRELIMO estava imbuída nos primeiros anos do governo de Moçambique. Segundo Serra, esse ideário frelimiano deu origem a uma “cultura da suspeita”, marcada pela caça aos símbolos do passado. Talvez por isso Campo de trânsito vá desconstruir ironicamente os discursos do bem e do mal, do colonial e do pós-colonial, demarcando-se de um projeto coletivo e essencializador de uma nação moçambicana una. Ao contrário, a nação moçambicana proposta pela narrativa vai nos colocar em contato com o movimento, com o trânsito que resulta das relações nem sempre harmônicas entre passado e presente, colonial e pós-colonial. Ao fazê-lo, a narrativa de João Paulo Borges Coelho incide no flutuante e no incerto, na errância, na abertura de sentidos, no jogo dos possíveis, na confluência de opostos. Nesse jogo de significados, a identidade resulta de uma série de sedimentações negociadas ao longo da história de Moçambique e recuperadas por uma memória que rasura a centralidade de uma ordem específica, propondo uma outra visão da história de Moçambique na pós-independência e permitindo-nos constatar que os espaços de memória constituem, mais do que um espaço de resistência, um foco de intermediação sobre os laços existentes entre o antes, o agora e o depois.

REFERÊNCIAS:

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DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka. Para uma literatura menor. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 57.

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PINA CABRAL, João de. Crises de fraternidade: literatura e etnicidade no Moçambique pós-colonial. In: Revista Horizontes antropológicos. Porto Alegre, ano 11, n. 24, p. 229-253, jul./dez. 2005.

SERRA, Carlos. Sociologia política das relações de poder em Moçambique seguido de “Desafios de uma Medicina Bernardiana”. In: Novos combates pela mentalidade sociológica. Maputo: Livraria Universitária UEM, 1997.

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Texto recebido em 16 de janeiro de 2014 e aprovado em 22 de janeiro de 2014.