Mulemba - n.10 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2014

Artigo:

BALADA DE AMOR AO VENTO: AS RELAÇÕES DE GÊNERO NA FICÇÃO DE PAULINA CHIZIANE

BALADA DE AMOR AO VENTO: GENDER RELATIONS IN THE FICTION OF PAULINA CHIZIANE

Sávio Roberto Fonseca de Freitas
UFRPE

RESUMO:
O objetivo de nosso estudo é desenvolver uma análise do romance Balada de amor ao vento (1990), da escritora moçambicana Paulina Chiziane, numa perspectiva de intervenção que problematiza as relações de gênero em Moçambique. O regime de poligamia em Moçambique, nesse sentido, torna-se um ponto de intersecção que, embalado pela narração poética de Sarnau, protagonista da referida narrativa, provoca uma discussão sobre as tensões políticas, culturais e religiosas da sociedade moçambicana. Propõe também uma leitura do papel da mulher moçambicana, presa a uma estrutura social machista, incompatível com a proposta de modernização de um país que experiência o processo de formação identitária. Neste romance, podemos perceber que o relato das experiências amorosas de Sarnau é uma forma de universalizar as particularidades femininas, de questionar a condição masculina e dar visibilidade à condição feminina em Moçambique.

PALAVRAS-CHAVE: Paulina Chiziane; relações de gênero; narrativa

ABSTRACT:
The aim of our study is to develop an analysis of the novel Balada de amor ao vento (1990), written by the Mozambican writer Paulina Chiziane, under a perspective of intervention that discusses gender relations in Mozambique. The system of polygamy in Mozambique, in this sense, becomes a point of intersection which, encouraged by the poetic narration of Sarnau, protagonist of the novel, provokes a discussion of the political, cultural and religious tensions of Mozambican society. It also proposes a reading of the Mozambican woman’s role, who lives as prisoner of a sexist social structure incompatible with the proposed modernization of a country that experiences the process of identity formation. In this novel, we notice that Sarnau´s romantic experiences are means to the universalization of women's particularities, questioning the status of manhood and giving visibility to the condition of women in Mozambique.

KEYWORDS: Paulina Chiziane, gender relations, narrative

         Paulina Chiziane é uma escritora moçambicana da fase da pós-independência que vem atraindo os olhos da crítica literária brasileira no século XXI por, entre tantos outros aspectos, escrever um texto em prosa que põe em interseção literatura e sociedade com tanta maestria estética e ideológica que as possibilidades de intervenção se tornam cada vez mais instigantes quando estamos em contato com a sua obra. A autora possui cinco romances publicados e uma coletânea de contos, uma obra já numerosa para a sua geração de escritoras. É a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique, embora se intitule uma contadora de estórias, o que se justifica pela reinvenção que faz da oralidade em suas obras. Em todos os seus romances, Paulina Chiziane trata da condição feminina e suas relações com o universo multicultural e político de Moçambique. A mulher é sempre o foco de discussão. A própria Paulina Chiziane, em entrevista1 ao pesquisador Patrick Chabal, justifica a sua escolha:

Falei com mulheres, mas também conheço histórias já seculares. Esse problema da mulher se arrasta há muito tempo. As próprias mulheres, quando escrevem, muito poucas vezes se debruçam sobre os seus problemas como mulheres. Em Moçambique, como em qualquer parte da África, a condição da mulher, a sua situação, o tipo de oportunidades que tem na sociedade, o estatuto que tem dentro da família, na sociedade, é algo que de facto merece ser visto. Porque as leis da tradição são muito pesadas para a mulher. (CHABAL, 1994, p. 298)

         A tradição moçambicana, de um modo geral, principalmente no sul moçambicano eminentemente patriarcal, minimiza as opções do segundo sexo (BEAUVOIR, 1980) de várias formas, por isso a escrita literária se torna muitas vezes um grito de protesto, uma denúncia, um relato de experiência que se volta para o íntimo universo feminino. Trabalhar na narrativa a condição da mulher, assim como faz Paulina Chiziane, é também se inscrever neste processo ficcional e dar visibilidade à realidade de seu mundo dentro de uma urdidura narrativa que entretece prazeres, mágoas, tristezas e frustrações em relação a uma estrutura social machista que é incompatível com a proposta de emancipação política de seu país.

        Em Moçambique, o costume ancestral era saber ouvir os mais velhos, os quais guardavam em sua memória o vasto legado cultural de seus povos. Paulina confere reconhecimento literário à tradição oral em suas narrativas, mas também, através de sua escrita, movida por uma força subversiva, transforma as estruturas mentais que oprimiam e silenciavam as mulheres, nos permitindo, assim, nomear o seu romance como feminista. Voltemos à sua entrevista a Patrick Chabal:

Falam muito da libertação da mulher, mas o que se verifica realmente é que a mulher, com a mania de emancipação, pelas mesmas condições em que nós encontrávamos, está cada vez mais escrava. Essa é a minha opinião. Então, eu posso dizer de certo modo – não gosto muito de dizer isso, mas é uma realidade – é um livro feminista. (CHABAL, 1994, p. 298)

         Paulina Chiziane utiliza-se de uma escrita feminina para desenvolver discussões sobre as mulheres em Balada de amor ao vento. Lúcia Castello Branco (1991, p. 36-46) reflete sobre a questão da escrita feminina, problematizando o papel das narradoras em relação a uma perspectiva ideológica para além do sexo. Só que a ensaísta constata que o termo feminino é por demais restritivo e muitas vezes as escritoras encontram na literatura um espaço possível para dialogar com suas memórias, lembranças e frustrações, dado que, de certo modo, é análogo em relação à escrita de Chiziane. Castello Branco estabelece duas possibilidades de se utilizar a memória na narrativa: a memória tradicional, cujo enfoque é a preservação do vivido; e a desmemória, cuja narrativa se constrói através do discurso da perda, o qual se torna revelador dos esquecimentos, dos lapsos, dos sentimentos, dos sinuosos fluxos de consciência.

        Dentre as várias formas literárias na contemporaneidade, uma que evidencia com maior propriedade a memória na narrativa é o romance, forma esta que em Moçambique, na fase da pós-independência, é muito presente, principalmente pelo fato de ser uma literatura emergente de intelectuais que inserem no corpo narrativo ícones da identidade moçambicana, o que Zilá Bernd (2003, p.20), quando discorre sobre identidade negra, chama de escrita transgressora, a qual reinventa os discursos dos excluídos ao longo de seu processo de formação identitária.

        Em convergência com Bella Josef (1974, p.11), consideramos que, no âmbito da evolução das formas literárias, o desenvolvimento e a crescente evolução do romance realçam sua capital magnitude, o que prova sua versatilidade e vitalidade enquanto forma narrativa de maior recorrência por escritores que se encontram em fase de emergente afirmação literária, como é o caso de Paulina Chiziane em Moçambique. Sobremaneira, o romance se torna, sob este aspecto de emergente afirmação literária e identitária, um gênero literário laboratorial permissivo à construção de um discurso instigado pela psicologia, pelos conflitos sociais e políticos, tornando-se propício à discussão da condição feminina em Moçambique. Paulina utiliza esse gênero literário de tradição ocidental, mas o africaniza, mesclando-o às estruturas da contação oral. Problematiza, desse modo, em seus romances, a tradição machista, em especial a do sul de seu país.

        Paulina se vale também do modo lírico com o qual a narradora Sarnau se expressa em Balada de amor ao vento. Podemos observar que, aí, o discurso poético é uma estratégia estética para conter uma experiência individual e uma subjetiva postura mental frente à realidade de um país, onde as tradições culturais, principalmente no sul de Moçambique, penalizam a mulher frente aos valores patriarcais. Trava-se, então, uma discussão sobre as relações de gênero no romance de Paulina Chiziane:

Conselhos loucos me furam os tímpanos e interrompem meus sonhos, Sarnau, ama o teu homem com todo o coração. A partir do momento em que te casas pertences a um só rei até o fim dos teus dias. As atitudes dos homens, os seus caprichos são mais inofensivos do que os efeitos das ondas no mar calmo. Não ligues a importância às amantes que tem; respeita as concubinas do teu senhor, elas serão tuas irmãs mais novas e todas se unirão à volta do mesmo amor. Sarnau,ama teu homem com todo o coração. (CHIZIANE, 2003, p.43-44)

         Este fragmento é do romance Balada de amor ao vento. Neste momento da narrativa, Sarnau encontra-se angustiada com o amor que sente por Mwando e decide se casar com Nguila, futuro rei dos Zucula. É um momento muito peculiar da narrativa, pois nesta passagem Sarnau vive uma mudança em seu status de mulher na sociedade moçambicana. Escolhida pela rainha Rassi, mãe de Nguila, Sarnau, de uma jovem camponesa desencantada com o amor por um assimilado, passa a ser a primeira esposa de um futuro rei. Como se costuma dizer em Moçambique, “os defuntos protetores abençoam a sorte” de Sarnau. Na narrativa, percebemos, por trás da poeticidade que reveste a urdidura deste relato, um discurso transgressor que questiona determinadas posturas patriarcais de algumas etnias do sul moçambicano, como, por exemplo: a mulher como sendo propriedade e objeto do marido; a subserviência feminina em relação aos caprichos dos homens; o respeito ao matrimônio poligâmico e suas permissividades para o homem, ou seja, a formação de outras famílias; a configuração do amor não como um sentimento, mas uma anestesia frente à má conduta viril masculina, o que pode ser criticado de acordo com o posicionamento de Simone de Beauvoir quando ressalta

(...) que a história nos mostrou que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos, desde os primeiros tempos do patriarcado; julgaram útil manter a mulher em estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como Outro (BEAUVOIR, 1980, p. 179).

         Em concordância com a ideia de Beauvoir sobre a subserviência feminina estabelecida pelo patriarcado, é oportuno trazermos para esta reflexão a narração de Sarnau sobre a personagem Khedzi, mulher escolhida pela família real para matrimônio com Nguila, futuro rei de Mambone:

Hoje sou a mais feliz das mulheres, ah, Mwando, que sorte tu me deste pois agora serei a esposa do futuro rei desta terra. Deixe-me contar-vos como isto aconteceu. Os defuntos existem, é verdade, os defuntos protegem-nos. A sorte andou à roda e caiu sobre mim. Este lobolo estava destinado à Khedzi, mulher esbelta, de pele clarinha como os homens gostam, desde o nascimento escolhida para esposa natural da família real. Foi educada para ser esposa do futuro rei mas, quando chegou o momento do lobolo, as línguas da serpente puseram a nu todas as suas maldades; ela é feiticeira e herdou este dom da falecida mãe. Tem o sangue infestado pela doença da lepra que vitimou uma tia paterna. É mulher de capulana na mão sempre pronta a abrir-se a qualquer um com quem se deita apenas por um copo de aguardente. E por fim disseram que nas mãos não ostentava nenhum sinal de trabalho. A rainha disse logo que não. Semelhante mulher não ocuparia o seu lugar depois de morta. Foi assim que as conselheiras da rainha se viram obrigadas a procurarem todo território uma mulher que fosse bela, bondosa, trabalhadora, fiel, que não fosse feiticeira. (CHIZIANE, 2003, p. 36-37)

         Sumbi, mulher escolhida para ser esposa de Mwando, é outra figura feminina que Sarnau traz para sua narrativa:

Mwando chorava lágrimas de sangue, pois sabia que não voltaria a reaver o seu tesouro. Sumbi, a mulher que o abandonara, é de uma beleza indescritível, agressiva. Ao vê-la, qualquer homem pára e suspira embasbacado, numa reacção quase espontânea, rendendo homenagem à perfeição em movimento. As mulheres, por sua vez, sentiam naquela presença um caso de injustiça divina, pois Deus deserdara de encantos todas as outras para concentrá-los numa só. (CHIZIANE, 2003, p. 59-60)

Mwando casara-se sonhando em construir um ninho de amor, mas o diabo tomou-lhe de dianteira. Tudo acabou numa trágica separação, foi sol de pouca dura.
No primeiro dia conjugal, a Sumbi não cumpriu as regras. Simulando dores de cabeça, não pilou nem cozinhou para os sogros. Sentava-se na cadeira como os homens, recusando seu lugar na esteira ao lado das sogras e das cunhadas. (CHIZIANE, 2003, p. 61)

         Notamos, a partir dos fragmentos que se referem às personagens Khedzi e Sumbi, um discurso que reforça o machismo moçambicano a que viemos aludindo, uma vez que ambas as personagens são maculadas pelo sistema patriarcal vigente na aldeia de Mambone, localizada perto de Inhambane, no sul de Moçambique. Khedzi, mesmo sendo destinada a ser esposa do futuro rei, é condenada por ser feiticeira, por ter contaminado a tia com lepra, por ser volúvel e por não mostrar marcas de trabalho em suas mãos, ou seja, Khedzi não se torna esposa do futuro rei pelo fato de não atender aos critérios da submissão feminina na aldeia de Mambone, os quais são postulados pela Rainha Rassi, a mãe de Nguila, futuro rei dos Zucula: “uma mulher que fosse bela, bondosa, trabalhodora, fiel e não fosse feiticeira” (CHIZIANE, 2003, p. 37).

        Sumbi também é mal vista em Mambone por, assim como Khedzi, não atender às regras impostas pelos homens mais velhos da aldeia: não pilou para os sogros, não sentava na esteira como as outras mulheres, sempre se mostrava indisposta para os afazeres domésticos, usava sua beleza e sensualidade para obrigar o marido a executar suas atividades domésticas, fez da maternidade um instrumento de poder, trocou Mwando por um mais velho e rico. Sumbi representa a mulher transgressora na narração de Sarnau, porém Paulina Chiziane só dedica um capítulo à Sumbi e a retira da aldeia e da narrativa, o que pode se configurar como um feminismo moçambicano em primeira instância, construído estrategicamente para demonstrar o machismo, muito mais evidente no sul do que no norte de Moçambique, como bem ressalta Carmen Lucia Tindó Secco, no artigo “Phatyma e o sonho de mudar o mundo” (2013, p. 43).

        Outro aspecto relevante é forma lírica como Sarnau narra os seus posicionamentos em relação às mulheres transgressoras da aldeia de Mambone:

Os homens não choram, ensinam os pais aos filhos. Mwando é homem que chora, mas com razão. Acabaram-se os prazeres de vaguear com a bela Sumbi nos caminhos tortuosos, ela à frente e ele atrás.
As suas mãos passeariam naquela paisagem exuberante de altos e baixos, terminando sempre encalhadas na elegantíssima cintura de pilai. O seu corpo jamais beberia sangue de fogo, pote de mel, fonte de vida.
Recordava-se dela quando pilava, aí, quando ela pilava no fenecer da tarde, ele sentado debaixo do cajueiro, apreciando aquele levanta e baixa frenético ao ritmo de pancadas. Terminado o trabalho, ela colocava as peneiras debaixo dos braços caminhando bonita, serena, ao encontro dele, deixando-o alquebrado, possesso, enfeitiçado, porque parecia a lua a descer do céu, sorrindo só para ele. (CHIZIANE, 2003, p. 60)

         Observando esses fatos narrados acima, tomamos conhecimento de que a forma lírica de narrar de Sarnau nada mais é do que uma estratégia estética e política inteligente para evidenciar o poder da figura feminina frente ao frágil desejo dos machismos desarmados pela sedução. Com metáforas sensuais e sensoriais – “vaguear com a Sumbi nos caminhos tortuosos, ela à frente e ele atrás” (CHIZIANE, 2003, p. 60); “seu corpo jamais beberia daquele sangue de fogo, pote de mel, fonte de vida” (CHIZIANE, 2003, p. 60); “parecia a lua a descer do céu, sorrindo só para ele” (CHIZIANE, 2003, p. 60) –, Sarnau mostra a submissão de Mwando ao corpo feminino, elemento que o faz trair a Igreja Católica, suas convicções monogâmicas, seus valores morais enquanto homem assimilado na aldeia de Mambone. Nesse sentido, podemos considerar que Sumbi, além de representar a transgressão feminina, evidencia as fraquezas e conveniências do patriarcalismo moçambicano. O discurso de Sumbi, em Balada de amor ao vento, se soma ao de Sarnau, quando esta critica as políticas sexuais machistas desfavorecedoras das práticas culturais femininas.

        Dessa forma, escrever um romance feminista é, certamente, para Paulina Chiziane, uma forma de gritar contra um dos maiores problemas para a mulher moçambicana: a poligamia.

O problema da poligamia escondida, para mim, é também, um grande problema. Eu prefiro aquele individuo que me mostra a sua verdadeira face do que aquele que ma esconde. Porque é de fato o que se diz: a poligamia mudou de vestido. Porque esses homens todos têm quatro, cinco, dez mulheres em qualquer canto por aí. Têm filhos com duas, três, quatro mulheres todas juntas. São filhos que, porque crescem numa sociedade de monogamia, não se podem reconhecer. São crianças fruto de uma situação como a que vivemos hoje, uma situação de adultério. Mas numa sociedade de poligamia já não acontece isso, as coisas são mais abertas. A situação de adultério que vivemos hoje é muito pior do que a poligamia. (CHABAL, 1994, p. 299)

         A poligamia é um tema frequente nas narrativas de Paulina Chiziane. Suas protagonistas sempre expõem sua insatisfação sexual e política em relação a este sistema matrimonial moçambicano, o que se reflete literariamente em monólogos, solilóquios e narrativas de experiência que marcam ainda mais o registro das peculiaridades femininas de Moçambique. No dizer de Inocência Mata (2000, p. 138), Paulina faz notar em sua narrativa uma tematização de signos socioculturais e de estereótipos que conformam uma visão totalmente hegemônica e opressiva quanto ao lugar social da mulher. Os signos vão desde tabus e proibições a valores que condicionam as virtualidades e as potencialidades da mulher com a prole como um valor feminino fundador: o lobolo como signo da condição de objeto da mulher, as limitações de uma situação poligâmica, o dever da submissão absoluta da mulher ao pai e depois, ao marido, a maldição do adultério por parte da mulher, e o vazio rotineiro da vida cotidiana, depois do casamento. Podem-se constatar tais considerações no fragmento abaixo:

Oh, amargas recordações. Que solidão, que tristeza, a vida para mim já não tem sentido. A angústia habita o meu mundo, mas este marulhar das ondas acalenta-me, anima-me, ressuscita-me, a manhã está vestida de amor, os peixes amam-se, os caranguejos amam-se, as moscas amam-se, até os caracóis se amam, só eu é que amo em sonhos, rebolando solitária no leito vazio, nestas noites frias de Junho, enquanto o meu marido se esfrega sobre mil tatuagens, noite aqui, noite ali, semana aqui, semana acolá. O mais doloroso é que há uma mulher que tem a cama aquecida cada noite, pois o marido vagueia por todo o lado, terminando a noite lá, onde dorme até ao nascer do sol. Todas as outras recebem as sobras, mas comigo ainda é bem pior. Passam já dois anos que eu espero minha vez mas ele não vem. Sou a melhor cozinheira, cada dia faço o máximo para agradar, e quando chega o meio-dia, prova minha comida e diz logo que não tem sal, não tem gosto. Quando chega a noite e reclamo, diz que é porque não tomei banho. Vou ao banho e volto, inventa que a cama tem cheiro de urina de bebê. Quando argumento, vomita-me um discurso degradante que não ouso repetir. Ah, maldita vida de poligamia, quem me dera ser solteira, ou voltar a ser criança. (CHIZIANE, 2003, p.78)

         Percebemos nesse monólogo de Sarnau um discurso contra a poligamia por causa da ausência do marido Nguila. Com o casamento poligâmico, Sarnau vivencia a experiência de dividir o seu marido com outras esposas. Trazendo este monólogo de Sarnau, podemos afirmar que, através desta personagem, Chiziane constrói o discurso das insatisfações das mulheres moçambicanas transculturadas frente à poligamia, ou seja: há uma cobrança em relação ao cumprimento do ato sexual, uma vez que “os peixes amam-se, os caranguejos amam-se, as moscas amam-se, até os caracóis se amam” (CHIZIANE, 2003, p.78). Ora, fazer sexo é uma prática comum a uma comunidade que quer ver sua espécie perpetuar, mas Sarnau só ama “em sonhos”; a época do acasalamento está metaforizada nas “noites frias de Junho”, quando há uma necessidade natural de se aquecerem os corpos; outro dado importante é o papel da primeira esposa, pois sua situação “é bem pior” em relação às outras esposas que “recebem as sobras” do marido que “vagueia por todo o lado”, mesmo Sarnau sendo a “melhor cozinheira”, ou seja, a serva mais obediente, mais dócil, mais tolerante, a que espera o marido fazer sexo “já há dois anos”. Tanta submissão leva Sarnau ao conflito, ao embate: “Ah, maldita vida de poligamia, quem me dera ser solteira, ou voltar a ser criança”. Chiziane, assim, através de Sarnau, desenvolve uma narrativa que questiona os valores machistas tanto das etnias do sul moçambicano, como da sociedade moçambicana aculturada, deixando explícita uma crítica à transitoriedade do sexo por causa das facilidades do sistema poligâmico ao homem.

        Diante desta discussão, onde está o feminismo no romance de Paulina Chiziane? Podemos dizer que o feminismo está registrado no romance Balada de amor ao vento quando Paulina universaliza em seu romance as particularidades femininas da sociedade moçambicana atual, através de um narrar intimista que encena uma subjetividade singular, que relembra a aprendizagem da mulher em relação a seu lugar milenarmente ocupado no campo e na cidade, os rituais e os condicionamentos do lobolo, a dramática solidão que a poligamia paradoxalmente incute, os esquemas perversos das proibições sociais, a guerra, a intolerância ao colonialismo, a precariedade espiritual e material circundante.

        Também se pode afirmar que o feminismo está presente na construção das personagens femininas de Paulina Chiziane, pois através delas a escritura da referida autora contesta as restrições que são impostas pelo sistema patriarcal e se insere em uma ordem social que dá poder a uma voz feminina própria, por meio da qual se rememora um passado que viabiliza a construção de uma autoidentidade emergente das cinzas e da destruição de guerra contra si e contra um colonialismo retardatário de uma participação mais ativa e plena em prol da nação moçambicana.

        Um romance da qualidade de Balada de amor ao vento não se limita apenas a questões de amor e desamor, ciúme e vingança, pois suas personagens estão revestidas de contornos antropológicos que encenam questões relativas ao imaginário cultural moçambicano. O amor, fio que conduz a narrativa sobre Sarnau, não é necessariamente a vertente de amor comum da literatura ocidental, o amor romântico, mas sim o amor como um elemento de ligação e fraternidade entre mulheres até em situações de ruínas absolutas.

Eu gosto de escrever na primeira pessoa porque me permite participar mais na história. E nós como mulheres temos as coisas que falamos só entre nós mulheres e em voz baixa; meio sagrado... o que é que as mulheres dizem do seu marido quando estão entre elas? Então são estes pequenos nadas que eu junto para fazer a teia desta história. (CHIZIANE, 2008, entrevista on-line)

         Paulina Chiziane, em sua escrita feminina, não se limita apenas à ficção, mas à reinvenção de registros de uma série de experiências pessoais e coletivas que lhe permitem, muitas vezes, organizar o discurso de suas personagens em primeira pessoa para dar visibilidade à condição feminina moçambicana em uma sociedade que é regida, principalmente no sul de Moçambique, por forças masculinas. Tal atitude é também uma forma de preencher o vazio e minimizar a incompreensão que se ergue à sua volta e das demais mulheres que desafiam os cânones sociais. Na esteira deste pensamento, discutir questões relativas à mulher torna-se, além de um exercício literário, um motivo instigante para se refletir mais sobre a condição feminina em Moçambique.

NOTAS:

1 Nesta entrevista que Paulina Chiziane concede ao Patrick Chabal, o romance de sua autoria ao qual ela se refere é o Balada de amor ao vento.

REFERÊNCIAS:

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. São Paulo: Difel, 1980.

BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Ed.UFRGS, 2003.

BRANCO, Lucia Castello. O que é escrita feminina? São Paulo: Ed. Brasiliense, 1991.

CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas: literatura e nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p. 292-301.

CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. Lisboa: Editorial Caminho, 2003.

______. Entrevista a Rogério Manjate. Revista Eletrônica Maderazinco. Maputo, abril/2002. http://passagensliterarias.blogspot.com.br/2008/entrevisapaulinachiziane.html Acesso em 6 de Julho de 2008.

JOSEF, Bella. O espaço reconquistado: linguagem e criação no romance hispano-americano contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1974.

MATA, Inocência. “Paulina Chiziane: uma coletora de memórias imaginadas”. In: Metamorfoses. Rio de Janeiro, n.1, p.135-142, 2000.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. “Phatyma e o sonho de mudar”. In: Mulemba. Rio de Janeiro, v. 1, n. 9, p. 38-50, 2013.

Texto recebido em 28 de janeiro de 2014 e aprovado em 13 de abril de 2014.